sábado, 4 de abril de 2026

MITOS

 

GUERRA, BELLUM, WAR: Criados pelo “roseau pensant”. L’être le plus faible de la nature?!


Bloqueio do Estreito de Ormuz: 40 países, incluindo Portugal, ameaçam Irão com sanções coordenadas

Reino Unido presidiu a reunião internacional com Portugal entre os presentes. Tráfego no estreito caiu 93% desde março, afectando um quinto do petróleo mundial.

AGÊNCIA LUSA: Texto

OBSERVADOR, 02 abr. 2026, 21:39

ALI HAIDER/EPA

Mais de 40 países, incluindo Portugal, apelaram, esta quinta-feira, à “reabertura imediata e incondicional” do Estreito de Ormuz, ameaçando o Irão com novas sanções, segundo a ministra dos Negócios Estrangeiros britânica, que presidiu a uma reunião internacional dedicada ao assunto.

O Irão está a tentar fazer refém a economia mundial no Estreito de Ormuz. Não pode levar a melhor. Para tal, os parceiros apelaram hoje à reabertura imediata e incondicional do Estreito e ao respeito pelos princípios fundamentais da liberdade de navegação e do direito do mar”, declarou Yvette Cooper num comunicado final do encontro.

Os países concordaram eexplorar medidas económicas e políticas coordenadas, tais como sanções, para pressionar o Irão caso o estreito permaneça fechado, acrescentou após a reunião, convocada pelo Reino Unido e que juntou mais de 40 países incluindo Portugal, representado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.

Os países também concordaram em “aumentar a pressão diplomática sobre o Irão. Este bloqueio é uma “ameaça directa à prosperidade mundial”, sublinhou a chefe da diplomacia britânica.

A quase total paralisia do tráfego no Estreito de Ormuz, por onde transita normalmente um quinto da produção mundial de petróleo, bem como de gás natural liquefeito e fertilizantes, está a ter um impacto económico mundial e provocou um forte aumento do preço dos produtos petrolíferos.

Na próxima semana, Londres vai organizar a uma reunião ao nível de “planeadores militares” a fim de examinar as opções para tornar o Estreito de Ormuz acessível e seguro à navegação após o fim das hostilidades.

Apenas alguns navios – essencialmente iranianos, dos Emirados Árabes Unidos, indianos, chineses e sauditas – continuam a transitar diariamente pelo estreito.

Desde o início de março, 225 navios de transporte de mercadorias passaram pelo estreito, segundo a empresa de análise marítima Kpler, o que representa uma queda de 93% relativamente à situação em tempo de paz.

O Irão, que controla a costa norte do Estreito de Ormuz, tem bloqueado este ponto crucial para o comércio global de energia em resposta à ofensiva de grande escala de Israel e dos Estados Unidos, lançada em 28 de fevereiro.

MÉDIO ORIENTE       MUNDO 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

História russa


Para orgulho próprio … ruço.

Rússia sem ganhos territoriais na Ucrânia em março pela primeira vez desde 2023 — e lança recorde de drones

Em março, o exército russo não avançou na Ucrânia e chegou a perder 9 km². No mesmo mês, lançou um recorde de 6.462 drones desde o início da guerra, em 2022.

AGÊNCIA LUSA: Texto

OBSERVADOR, 02 abr. 2026, 21:23

MAXIM SHIPENKOV/EPA

O exército russo não registou quaisquer ganhos territoriais na Ucrânia em março, uma situação inédita desde setembro de 2023, segundo dados recolhidos pela organização não-governamental (ONG) Instituto para o Estudo da Guerra (ISW). De acordo com os dados da ONG sediada em Washington e analisados pela agência de notícias France-Presse (AFP), em alguns pontos as Forças Armadas russas recuaram perante as forças de Kiev.

De forma geral, o exército russo tem abrandado desde o final de 2025, devido às contra-ofensivas no sudeste do país, com um avanço de 123 quilómetros quadrados (km²) em fevereiro, o que já constituía o menor avanço desde abril de 2024. Em toda a frente de batalha, em março, as forças ucranianas chegaram mesmo a recuperar nove km².

Este número exclui as operações de infiltração realizadas pelas forças russas para além da linha da frente, bem como os avanços reivindicados pelo lado russo, mas que não foram confirmados nem desmentidos pelo ISW, que trabalha com o Critical Threats Project (uma ramificação do American Enterprise Institute ou AEI), outro centro de reflexão norte-americano especializado no estudo de conflitos.

O ISW atribui este abrandamento do exército russo nos últimos meses às contra-ofensivas ucranianas, mas também à “proibição imposta à Rússia de utilizar os terminais Starlink na Ucrânia” e aos “esforços do Kremlin (presidência russa) para restringir o acesso ao Telegram”.

Esta aplicação de mensagens, muito popular na Rússia, inclusive na linha da frente, tem sido praticamente inutilizável nos últimos meses devido a bloqueios por parte das autoridades, enquanto Moscovo incentiva activamente os seus cidadãos a optar pela plataforma Max, que o Governo russo promove como uma “aplicação de mensagens nacional”.

Tal como em fevereiro, a Rússia perdeu terreno na parte sul da linha da frente, entre as regiões de Donetsk e Dnipropetrovsk.

Nesta zona, a Rússia tinha entrado pela primeira vez em junho de 2025 e ocupava mais de 400 km² no final de janeiro. Este domínio reduziu-se para 200 km² em fevereiro e, posteriormente, para 144 km² em março.

Por outro lado, a situação é desfavorável a Kiev mais a norte, na região de Donetsk, na direcção das duas grandes cidades regionais de Kramatorsk e Sloviansk. A leste de Sloviansk, as tropas russas avançaram cerca de 50 km² num mês.

Ao longo de todo o quarto ano de conflito, em 2025, o exército russo avançou mais do que nos 24 meses anteriores. No entanto, a dinâmica está a inverter-se: nos primeiros três meses de 2026, os ganhos territoriais russos são duas vezes menores do que em 2025, no mesmo período.

Quatro anos após o início da invasão russa da Ucrânia, Moscovo ocupa pouco mais de 19% do território, a maior parte conquistada durante as primeiras semanas do conflito.

Cerca de 7%, incluindo a Crimeia e zonas da bacia industrial do Donbass, já se encontravam sob controlo russo ou de separatistas pró-russos antes da invasão de fevereiro de 2022.

Ainda assim, a Rússia visou a Ucrânia em março com um número recorde de drones desde o início da guerra, em 2022, de acordo com uma análise de dados ucranianos realizada também hoje pela agência de notícias AFP..

As forças russas lançaram 6.462 drones, um número que inclui um ataque sem precedentes em 24 de março, com perto de 1.000 drones disparados em 24 horas, indicam os dados fornecidos diariamente pela Força Aérea ucraniana.

Em contrapartida, o número de mísseis lançados contra a Ucrânia em março diminuiu em relação a fevereiro, passando de 288 para 138, referiu a agência de notícias francesa.

As baixas civis não foram evitadas apesar de o exército ucraniano ter interceptado, em março, 90% dos drones e mísseis. No ataque de 24 de março, dos quase 1.000 drones lançados em 24 horas, 556 foram disparados durante o dia, causando oito mortos e dezenas de feridos.

Uma nova ofensiva de grande escala ocorreu na quarta-feira, com 700 drones lançados em 24 horas, mais de 360 durante o dia.

A ofensiva ocorreu um dia após a Rússia ter rejeitado uma proposta de trégua para a Páscoa formulada pelo Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

GUERRA NA UCRÂNIA      UCRÂNIA      EUROPA      MUNDO

 

COMENTÁRIOS

Rússia sem ganhos territoriais na Ucrânia em março pela primeira vez desde 2023 — e lança recorde de drones

Liberal do Costume: Todos sabemos que as guerras perdidas se ganham quando o inimigo deixou de avançar! Slava Rossii!

Paulo Simões: A Rússia está condenada à irrelevância. Com uma população a diminuir num território imenso, estão condenados a viver num deserto livre de humanos. Façam daquele país uma reserva de vida selvagem, seria uma boa solução.

Francisco Louro: A Rússia a caminho da miséria e o fim do putinismo aproxima-se. A elite dos imperialistas soviéticos está em maus lençóis. Perderam a Síria, Cuba, Venezuela e agora o Irão. Próximo amigo do peito, a Coreia do Norte! A política dos embargos comerciais tem consequências a longo prazo.

victor guerra: Então, é altura de a Europa gastar menos dos nossos impostos .Organizem-se!

João Paulo Nery > victor guerra Que ideia mais disparatada! Que grande sapiência!

 

 


Tempos que já lá vão


Em que escolhemos o CDS como partido mais próximo, amante da pátria, que na altura nos parecia inexistente…

 Há 50 anos, o dia mais histórico do CDS original

Além da aprovação da Constituição, houve, em 2/4/1976, na mesma sessão da Assembleia Constituinte, outro facto histórico: o voto contra do CDS e os fundamentos que brilhantemente enunciou.

JOSÉ RIBEIRO E CASTRO Advogado e cidadão

OBSERVADOR, 02 abr. 2026, 00:20

A democracia não é um cortejo obediente e uniforme, mas a possibilidade de discordar e o direito a não ser discriminado ou punido por isso. Os 16 deputados constituintes do CDS tiveram a coragem de o fazer, inaugurando, em liberdade, a democracia. Não venceram – nem era seu propósito alcançá-lo. Mas sabiam que, por convicção e imperativo de consciência, tinham de divergir – e fizeram-no. Segundo o Diário da Assembleia Constituinte, ouviu-se apenas uma voz, lançando: “Reaccionários!” Nada de mais.

O voto do CDS declarou os seus fundamentos, abrindo o caminho às revisões constitucionais subsequentes, sobretudo as de 1982 e 1989. A notável declaração de voto do deputado VÍTOR SÁ MACHADO é um grande monumento político da nossa história política democrática. Passo a citá-la, nas passagens mais significativas:

«O CDS exercita um dos direitos que vivem no próprio coração da democracia. Porque só em democracia é possível dizer não, só em democracia é possível assumir em liberdade a coerência, sustentar o pluralismo, recusar a unanimidade

A CONSTITUIÇÃO que elaborámos responde a muitos dos nobres ideais que a inspiraram à partida. Cumpre-o no reconhecimento do valor e da dignidade essencial da pessoa humana e dos direitos fundamentais em que esta se exprime; na reivindicação generosa e redentora dos direitos dos trabalhadores e dos grupos sociais mais desfavorecidos ou mais frágeis. Cumpre-o na afirmação de que o Estado se não encontra subordinado a um poder único e se estrutura ainda com respeito pelos princípios da participação e da descentralização. Cumpre-o, finalmente, quando repudia, de modo frontal, a formação autocrática do poder e as legitimações carismáticas; quando repudia, em suma, o carácter unidimensional, porque autocrático ou ditatorial, da sociedade política. O CDS orgulha-se de ter contribuído para que a Constituição da República integre e confira realidade normativa a estes princípios.

O nosso voto é, na essência do 25 de Abril, no reconhecimento efectivo da sua grandeza histórica, um voto revolucionário. O nosso voto exprime o inconformismo e a frustração pela oportunidade que na lei fundamental se perdeu de mais democracia e de mais autêntico pluralismo. Porque, bem mais do que é, a Constituição haveria de ser norma da identidade colectiva de todos os portugueses entre si e de todos eles no mesmo Estado e no mesmo futuro.

Por outras palavras, seria necessário que a Constituição não fosse, sobretudo, um instrumento de forças temporalmente maioritárias, mas que se traduzisse, isso sim, numa base flexível de sólidas e bem delimitadas fronteiras democráticas para o exercício pleno, criador, eficaz e progressivo da vontade popular. 

Vamos não ter medo das palavras, Senhor Presidente e Senhores Deputados. A nossa Constituição é paternalista. Será o paternalismo de uma geração conjuntural, aquela que justamente em Abril de 75 elegeu a Assembleia Constituinte. Por isso mesmo, será o paternalismo não genuinamente revolucionário de uma geração conjuntural sobre outras gerações conjunturais, de um eleitorado temporalmente marcado sobre outros eleitorados historicamente definidos. E a verdade é que o povo, ao ficar juridicamente prisioneiro de um dado momento da sua história, corre o risco de se ver parcialmente alienado da sua própria soberania sobre o futuro e sobre o futuro da sua própria história.

O nosso voto tem, assim, o valor de uma recusa ao conservadorismo do texto constitucional. A nossa proposta personalista de inspiração cristã foi uma e outra vez logicamente afastada pela maioria da Assembleia. A abertura criadora que o personalismo leva consigo, na sua dupla valorização da pessoa como ser individual e como ser comunitário, perdeu-se na aceitação socialista e transpersonalista dada à Constituição. A amarra socialista, ao pretender fechar as portas à contribuição personalista, não melhora a qualidade da nossa democracia

O nosso voto é um voto de liberdade, porque não quereríamos ver o Estado necessariamente hipotecado à criação maximalista das relações de produção socialistas, à apropriação dogmática pela colectividade dos meios de produção, dos solos e dos recursos naturais, à concepção antidemocrática de exercício do poder democrático apenas pelas classes trabalhadoras, ao convite contraditório em democracia de vinculação das Forças Armadas e do Governo a um projecto político restrito, a um ensino particular reduzido às precárias características de supletividade do ensino público, à impossibilidade de se legislar sobre o âmbito de um justamente inalienável direito à greve, à absurda mitificação do plano como instrumento privilegiado de progresso económico, à aparente recusa de promover o acesso dos trabalhadores à propriedade, às graves limitações acerca do direito de propriedade de pequenos e médios agricultores, à definição limitativa e não criadora do sector privado da economia a um papel remanescente e sobrante no quadro geral da actividade económica, à não aceitação positiva da família como fundamento natural da sociedade, às restrições inexplicáveis e desconfiadas à legítima autonomia político-administrativa dos Açores e da Madeira no quadro da unidade nacional e, enfim, ao não reconhecimento, na força histórica do seu puro significado, da ideia de Estado de Direito no articulado constitucional.

Mas se não quereríamos ver o Estado necessariamente amarrado a todos estes liames que consubstanciam, afinal, a visão específica do projecto socialista tradicional, menos nos encoraja a amarração que se pretendeu fazer do próprio povo ao texto constitucional. O povo está acima, e sempre, da Constituição. Não é a Constituição que está acima do povo.

Por isso, também, o nosso voto não poderia ser favorável ao conjunto do texto constitucional, mesmo que, como acontece, tenhamos aprovado, com verdadeira fé democrática, com autêntico empenhamento em favor da democracia política, social e económica, numerosos artigos do texto constitucional. 

De forma solene e inequívoca, queremos, todavia, afirmar, sem ambiguidades e com toda a força moral e política, que respeitaremos sempre a Constituição da República Portuguesa. Queremos afirmar que, apesar das nossas discordâncias políticas, seremos perfeitamente capazes de exercer o governo com esta Constituição, se a tal formos chamados pelo voto popular

O nosso voto de discordância deseja, outrossim, representar um acto de respeito e permitir uma afirmação de esperança. Respeito pela maioria que, afinal, definiu os mais importantes contornos da Constituição. Esperança de que Portugal e os portugueses não mais se afastarão da democracia, apesar de todas as dificuldades que tenham de defrontar. Esperança de que os portugueses saibam, com lucidez, na paz e na fraternidade, assumir o ideal cristão de uma sociedade humana aberta e justa. Sociedade que o CDS revê em oito séculos de história vivida e projecta na Europa unida que queremos ajudar a construir.  Tenho dito.»

A declaração de voto do CDS, em 2 de Abril de 1976, é um texto que se lê sempre com proveito e, para mim e outros como eu, com orgulho e também emoção.

Antes dela, já Diogo Freitas do Amaral, na declaração política do CDS, registara os traços do agitado período político do país – o PREC – que coincidiu com o trabalho da Constituinte. Cito a parte que tem mais a ver com a votação deste dia:

«O CDS vem sendo, desde 11 de Março, um partido de oposição. Fomos, de entre os muitos partidos que em Portugal discordaram dos sucessivos governos provisórios, o único que teve a coragem e deu o exemplo de se considerar da oposição: coragem, porque entre 11 de Março e 25 de Novembro não foi fácil para nós arrostar com a fúria devastadora de quem não via em nós adversários, mas inimigos; e exemplo, porque era necessário iniciar os portugueses na aprendizagem da democracia, e esta não existe onde não houver oposição

Desempenhando a função de partido da oposição, o CDS foi durante este ano não apenas o testemunho vivo de que em Portugal se caminhava para a democracia, mas também, de algum modo, a encarnação do espírito democrático que presidiu ao 25 de Abril.

As próximas eleições vão constituir, assim o esperamos, um marco fundamental na história política do nosso país. Todos os partidos democráticos têm razões para estar de parabéns por terem conseguido que elas se fizessem e se fizessem agora. Com todos os partidos democráticos – e em especial com aqueles que aqui ajudaram a defender a Assembleia Constituinte e com ela a democracia nascente – o CDS partilha a satisfação, o entusiasmo e a alegria do novo período eleitoral que se avizinha

É bem verdade, sobretudo para quem pôde viver esses tempos e partilhar estes momentos, que o dia 2 de Abril de 1976 não seria o mesmo sem o voto contra do CDS: o voto que testou a democracia, o voto que provou a democracia, o voto que apontou a estrada do futuro da democracia.

Em 25 de Abril de 1976, nas primeiras eleições legislativas, o CDS – que obtivera 7,5% um ano antes, nas eleições constituintes – alcançou uma votação nacional de 16,0% e elegeu 42 deputados para a Assembleia da República.

CDS-PP       POLÍTICA       ASSEMBLEIA CONSTITUINTE       CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA       PAÍS       SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 12)

Francisco Almeida: Acho que ninguém isento nega a coragem e os valores demonstrados no passado pelo CDS. Houve um sobressalto quando se aliou ao PS mas entre a possível apetência pelo poder e o serviço público para evitar uma bancarrota iminente, mereceu, quanto a mim bem, o benefício da dúvida. Mas a trajectória foi sempre inclinada e apenas teve alguns momentos enquanto eram vivos e actuantes os quadros, que superavam em qualidade os de todos os outros partidos. A ideologia, não mudou, diz-se, mas mesmo ignorando o percurso do Chicão como "fait-divers" quando vi Cecília Meireles, a melhor deputada da legislatura, apoiar pública e voluntariamente A.J. Seguro, foi o mesmo que presenciar um evento da Servilusa. 

Tim do A: Quando o CDS se portava bem. Hoje é o  Chega  o único partido que quer mudar a constituição. E o CDS um partido confortavelmente integrado no centrão esquerdoide.

Manuel Martins: É interessante perceber como um discurso com 50 anos pode ser tão lúcido, e como, apesar do contexto,  se conseguia ver no texto da constituição as suas várias incoerências e enviesamentos, a maioria ainda se mantém. Se o texto é o que é,  e se acrescentarmos as "interpretações criativas e ideológicas", temos muito da explicação do nosso atraso...

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Vivências


Muito conhecimento também. Do mundo e “arredores”, a que não é indiferente, naturalmente, a admiração pelos que, sofrendo, conseguem ultrapassar-se na dor, em função da dádiva da vida.

Páscoas

O pequeno papel dizia apenas “Anthonia, Nigéria” mas tanto bastou para que aquela mulher da qual nada nunca saberei ficasse de certo modo a meu cargo na lembrança, na oração, no olhar para a televisão

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 01 abr. 2026, 00:25

1Depois da dúvida, a perplexidade, a surpresa e uma admiração comovida, é que caí em mim. Mas primeiro foi preciso abrir todo este leque de “estados de alma” para chegar à Mafalda e sim, constatar que “se” pode ser assim. Tendo desde sempre como segunda morada uma cadeira de rodas e não tendo nem um metro de altura, ser tão solar, enérgica, útil, divertida, interessante, interessada – e realizadíssima. Conheci-a há muitos anos num evento onde eram “distinguidas” algumas mulheres e ela era umas delas. Havia muita gente, ruído, desatenção, discursos, conversas cruzadas, passou. Mas ela não. A imagem durou até hoje: solidez, fluidez discursiva, sorriso aberto, desenvoltura. E a segurança de uma estrela.

Percebi estar diante de um absoluto caso, o caso ficou comigo, ela perdi-a de vista. De longe a longe, uma notícia, pouca coisa para a dimensão do que é capaz a vontade humana.

Chama-se Mafalda Ribeiro, tem pouco mais  de 40 anos e mandou-me um mail há dias a pedir a morada, ”queria mandar um presente” . O presente era um livro escrito por ela – “Gotas no Charco” – com prefácio de José Tolentino de Mendonça (edição da Have a Nice Day), e o primeiro agradecimento reza assim: “a Deus que é fonte de todas as minhas gotas”.

Voltei a cair em mim mas desta vez não foi de borla, isto é, a Mafalda não podia ser “património” exclusivo de um encontro e de uma troca de mensagens, havia uma responsabilidade. A que existe quando se percebe estar diante de alguém totalmente improvável e inteiramente desarmante na sua qualidade humana. Embora hoje com alguma actividade pública, parecia-me obrigatório dá-la a conhecer ainda melhor, contá-la ainda mais. Levando-a pela mão até essa plateia sempre misteriosa que são os “leitores” (existirão?) para não nos distrairmos – repito – quanto ao ilimitado poder – e nobre exemplo – de uma vontade humana.

Mafalda nasceu com uma doença raríssima (Osteogénese Imperfeita) que, numa linguagem leiga, significa possuir ossos com a consistência do vidro. São já incontáveis as fracturas que fez, o sofrimento que provocaram, a assimetria que encontra na sua frente de batalha diária. E no entanto… estudou jornalismo, esteve numa empresa na área do Ambiente, escreveu um primeiro livro, é alegremente enérgica e comunicativa no modo como vive a sua “deficiência”, era impossível não “se dar por ela”. Contagiante no sorriso aberto e numa invulgar capacidade de iniciativa, publicou um segundo livro, é autora de um projecto próprio, “Sorrir sobre Rodas”, e, entre outras presenças e autorias, é consultora de “inclusão para a deficiência” de um forte grupo económico”. Sem nunca andar, como tem sido fértil o seu caminho.

Em tempo de Páscoa da Ressurreição, a Mafalda ressuscitou dela própria.

2Na trapalhada em que se enreda e divide hoje uma considerável parte do universo católico por esse mundo fora, sobre o desacordo entre uns e outros quanto à velocidade seguida pela Igreja no seu caminho – uns indo muito à frente na exigência de uma Igreja outra; os outros preferindo ficar naquela onde já estão – lembrei-me do Papa Francisco e da “Igreja em saída” que vibrantemente pedia. E da “Igreja-Hospital de campanha”, que igualmente recomendava. Muitos diziam que Francisco “era um Papa de esquerda” – a própria esquerda, por pura ignorância, também rejubilava com o equívoco – sem que nem uns, nem outros reparassem que era do Evangelho que ele falava: levando-o para fora da sacristia ao encontro acolhedor de “todos, todos, todos”.

Lembrei-me do Papa Francisco por ter testemunhado ao vivo, numa breve espaço de um pedaço de noite, uma igreja que “saía” da lisboeta Basílica da Estrela ao encontro dos que sofrem as guerras na pele, no sofrimento, na solidão do abandono mais desamparado. Foi há dias numa “Vigília pela Pazconvocada pelo Patriarca de Lisboa. O silêncio e o recolhimento equivaliam-se na profundidade de ambos. Rezava-se e ouvia-se rezar. Ouvia-se cantar e cantava-se. E a dado momento, a Igreja “saiu” quando o Pároco da Basílica, Padre Duarte da Cunha, fez entregar aos presentes um pequeno papel com um nome de alguém: os nomes próprios de centenas de homens e mulheres que sobrevivem nos cenário das guerras onde em várias geografias a destruição e a morte pulverizam cidades, países e regiões. O pequeno papel que me calhou dizia apenas “Anthonia, Nigéria”, mas tanto bastava para que aquela mulher da qual absolutamente nada nunca saberei, ficasse de certo modo a meu cargo, na lembrança, na oração, no olhar para a televisão, e saber que naquela Nigéria vive uma Anthonia que precisa de amparo. Mesmo que só de palavras rezadas, mesmo que à distância, mesmo que aparentemente – dirão fatalmente alguns – “não sirva para nada”. Nunca se saberá, o que confere à intenção e ao gesto aquele misterioso sentido do “valer ou não valer a pena”… tarefa que (felizmente) sabemos não ser essa a que nos compete. O que nos competia ali era compreender que naquela noite a Igreja tinha “saído” do interior solene de uma Basílica para ir ter com povos ao chão da guerra. Gente agora com um nome, para levarmos connosco após o silêncio recolhido de uma impressiva mancha de gente jovem e menos jovem.

Assim contado, quase parece coisa fácil ou talvez um milagre. Não foi nem uma coisa, nem outra. Deu trabalho, levou tempo, foi preciso contactar muita gente – a gente certa –, obter a informação – a informação rigorosa – e tudo isto em lugares em guerra. Duarte da Cunha fez questão, a partir do altar, de especificar os interlocutores: do Cardeal de Teerão a Patriarcas ortodoxos, passando pela Caritas e várias outras instituições, a lista era grande. Muitos foram os que acorreram à chamada do Patriarca de Lisboa numa verdadeira Páscoa da Ressurreição

3Três sinais de puro alarme: Ao mundo pasmou, depressa se indignou, e depois enfureceu-se: a dimensão do choque com a proibição da celebração da Páscoa em Jerusalém é dificilmente alcançável sob que ângulo for, mesmo o da segurança. À hora a que escrevo o governo de Israel – por vergonha, medo, humilhação, noção do tamanho da ofensa feita? – recuou. Melhor assim, com certeza. Mas a assinatura vai ser difícil de apagar: ninguém esquecerá que “isto” aconteceu.

4A parte ainda normalmente constituída do país aguarda notícias sobre o modestamente noticiado – e pouco lamentado mediaticamente – disparo de um engenho (muito) explosivo sobre um avultado grupo de gente que em paz se manifestava contra o que repudiam. Foi na Marcha pela Vida e ocorreu o inconcebível numa prosaica tarde de fim-de semana entre famílias e carrinhos de bebés. Aqui chegados, pergunto: e então? O que aconteceu, como aconteceu, porque é que foi possível, de quem foi a ideia? Quantos eram? E, claro: agora, o que se segue? Nada?

5A abstenção portuguesa na ONU numa votação onde se exigem imbecilmente perdões, reparações, comportamentos e arrependimentos num mar de ignorância e fora de qualquer contexto histórico, aflige, embaraça, humilha. João Pedro Marques já disse aqui mesmo no Observador tudo – e tão bem – redimindo todos os que, como eu, ficaram num limbo.

Não há Páscoa que nos ressuscite desta vergonha.

CRÓNICA      OBSERVADOR      PÁSCOA    SOCIEDADE      IGREJA CATÓLICA      RELIGIÃO

COMENTÁRIOS:

M Azevedo: Obrigado por este hino à Páscoa!                   Paul C. Rosado: Belo texto. Tocou o coração.                     Manuel Magalhaes: Bonito Maria João, boa Páscoa!!!                         José Bleck: Obrigada Maria João por nos despertar. Obrigada por nos recordar que o próximo conta. Obrigada por nos abanar, por partilhar vivências, que nos ajudam a dar sentido à vida. Santa Páscoa.                     victor guerra: Ungida!                    Pikachu Pay: Só indo a Sevilha para nos fazer renascer por esta altura. O Ocidente está em decadência, temos de procurar onde ainda vivem as tradições que nos recentrem.                José Roque: Provavelmente, à hora a que escreveu, o governo de Israel já tinha cometido um atentado bem mais grave do que a proibição da missa de domingo, refiro-me à pena de morte, com efeitos retroactivos, a ser aplicada a palestinianos.               Paul C. Rosado > José Roque: A terroristas, quer antes dizer. Ah, e já agora, "palestinianos" são os israelitas.         José Roque > Paul C. Rosado: Ainda que sejam terroristas, nada justifica a reintrodução da pena de morte e muito menos a aplicação retroactiva, algo que nenhum código jurídico admite. E palestinianos não são os israelitas, a pena de morte é específica para não-judeus e para delitos cometidos na Cisjordânia. Onde, por sinal, as acções violentas e irregulares de colonos israelitas não são sancionadas pelas autoridades do Estado.                   Carlos Chaves:  “Em tempo de Páscoa da Ressurreição, a Mafalda ressuscitou dela própria.”                “Anthonia, Nigéria”: Obrigado Maria João Avillez por estes belos e verdadeiros testemunhos.             P.S.3, não concordo com a sua análise, Israel é o único país naquela região que permite a liberdade de religiões, aquela proibição foi temporária (2 horas) e por razões de segurança. Israel já montou um dispositivo que permitirá que todas, todas, as celebrações Pascais da nossa religião possam ter lugar na Igreja do Santo Sepulcro. Devíamos dar os parabéns ao governo de Israel e não o recriminar! Não embarquemos nos discursos mentirosos da esquerda!                   graça Dias > Carlos Chaves: Caríssimo Carlos Chaves  Subscrevo a sua observação P.S.3 Quem não entende, quem não tem capacidade de interpretar esta guerra, em que um qualquer governo tudo deverá fazer para proteger os seus cidadãos, independentemente das suas crenças religiosas, a sua análise é bloqueada pela ideologia doentia e por vezes até perversa!...                    Carlos Chaves > graça Dias: Caríssima Graça Dias, não sei se tem o mesmo sentimento que por vezes me assola, que é o de já não ter paciência para ler, ver e ouvir, autênticas mentiras plantadas na comunicação social e veiculadas, muitas vezes, por figuras supostamente insuspeitas, que parecem ter perdido o tino sobre determinadas matérias! Chego a desistir para não violentar a minha própria consciência! Este ocidente Europeu está condenado se não mudar de agulha! Até o porta-voz do governo e ministro das relações exteriores Alemãs, disse que esta guerra não é nossa!                         graça Dias > Carlos Chaves: Caríssimo Carlos Chaves, boa tarde A UE caminha sonâmbula para o seu próprio abismo. Um Directório ao serviço dos poderosos lobbies que rodeiam Bruxelas. Quanto  à   resposta  da   UE : " Não é a nossa guerra !..." Uma afirmação naive, bem reveladora sobre as lideranças políticas de uma Europa que está em apuros,  entre a sua própria soberba e sua  incapacidade de uma leitura política, histórica e geográfica. Já a mediocridade e a tão descredibilizada CS, nós cidadãos somos envoltos por mentiras mascaradas de verdades, por tantos opinion makers ou analfabetos, dotados de ideologias retrógradas, doentias e preconceituosas, e tudo repetido até à exaustão!... nas rádios, nas TVs, nas redes sociais e até na mesa do café.  Narrativas diversificadas e exóticas, enviesadas e fora de contexto, análises que se cingem ao insulto gratuito em defesa do regime do obscurantismo dos Mulás terroooriiistaaas do Irão, que são uma ameaça não só ao povo iraniano, como aos países da região e também a nível global. ps. Li na hora do almoço em jornal alemão, como a Alemanha já recuou nas suas afirmações infantis e irresponsáveis, ou seja, depois da ameaça de Trump em se retirar da NATO !... Iremos assistir a declarações de outros países, que serão a confirmação da hipocrisia das lideranças da UE e de alguns líderes de países membros.                       Carlos Chaves > graça Dias: Caríssima Graça Dias, estamos completamente sintonizados na opinião, sobre a situação a que chegámos neste mundo ocidental onde vivemos! Ainda bem que a Alemanha recuou, mas o mal está feito, Espanha bloqueia o espaço aéreo a voos com destino ao Irão, Itália bloqueia uma base aérea na Sicília a aviões dos Estados Unidos, nós temos “repórteres” nas Lajes à espera de verem os aviões “assassinos”, em vez de denominarem - aviões que eliminam terroristas e sistemas que nos podem pôr em perigo! A sério, começa a faltar a paciência!                    graça Dias > Carlos Chaves: Caríssimo Carlos Chaves Se me permite, encontrei um erro lapso no seu comentário: " repórteres" nas Lajes .. Não são repórteres,  são activistas políticos de cultura marxista ao serviço das cumplicidades entre os déspotas do regime de Teerão e alguns órgãos de informação. Ponto.               Carlos Chaves > graça Dias: Exactamente, assertividade impressionante a sua! Desejo-lhe um bom final de tarde e obrigado pela frutuosa troca de ideias!                   graça Dias > Carlos Chaves: Caríssimo Carlos Chaves; Somente acrescento: « são activistas políticos com a função de policiamento». Esta gentinha, para além da sua pequenez, é dotada de uma ignorância profunda. Não têm cultura e não se informam, caso contrário, saberiam:  a) Portugal e os Estados Unidos mantêm relações diplomáticas formais desde 1791, o que marcou o início da representação diplomática formal após o reconhecimento da independência americana. b)  Portugal entrou na NATO a 4 de abril de 1949, sendo um dos 12 membros fundadores da organização.  c) desde 1951 Portugal e os Estados Unidos regem a utilização da Base das Lajes, nos Açores, por um Acordo de Cooperação e Defesa (ACD) Bilateral, e atualizado ao longo do tempo (destacando-se o protocolo de 1995). Este acordo permite a presença e operações militares da força aérea norte-americana, no quadro da NATO, com regras específicas de segurança, utilização comum e gestão laboral.                   Carlos Chaves > graça Dias: Muito bem lembrado caríssima Graça Dias, isto é para esfregar na cara de tantos “jornalistas” e comentadores que por aqui pululam, grandes defensores da criminosa esquerda!                  unknown unknown: Muito Bem e para reflexão,  Pascal                    Jorge Barbosa: Excelente artigo por dar que pensar como se chegou aqui.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

CONCLUSÃO

 

Do texto precedente:

Velhacarias sociais afinal, criadas pelo progresso, nessa tal fabricação de aparelhómetros práticos, de comunicação facilitadora dos contactos a distância, mas que se tornam, quantas vezes, instrumentos de corrupção e decadência, postos em mãos de jovens - o que poderá tornar-se desviante das suas condutas…

 

Como uma jovem de 20 anos derrotou a Meta e a Google num caso de vício digital. A decisão histórica e o que vem a seguir em seis pontos (Continuação)

Que países já limitaram o acesso às redes sociais? E em Portugal?

A vaga de processos judiciais nos Estados Unidos insere-se numa reacção mais ampla contra as grandes tecnológicas, que já levou vários países a agir. A Austrália lidera o movimento, ao impedir o acesso a menores de 16 anos desde dezembro de 2025. Na Europa, países como Espanha, França e Dinamarca avançam com limites entre os 15 e 16 anos ou exigências de consentimento parental, enquanto o Reino Unido avalia medidas semelhantes à australiana.

Na sexta-feira, o Governo austríaco anunciou a proibição do acesso às redes sociais por menores de 14 anos. O vice-chanceler Andreas Babler justificou a decisão, afirmando que “é quase impossível para os pais controlarem o consumo dos seus filhos”, uma vez que estas plataformas são concebidas para os tornar “conscientemente viciados”.

Em Portugal, o projecto lei apresentado pelo PSD a 2 de fevereiro foi aprovado no Parlamento. O diploma pretende travar o acesso livre às redes sociais a crianças e adolescentes até aos 16 anos (passando a ser necessário o consentimento dos pais ou dos representantes legais), mas ainda terá de descer à comissão para ser debatido na especialidade perante vários problemas detetados.

A nível europeu, o debate sobre o próprio funcionamento das plataformas também se intensifica. A União Europeia está a investigar se funcionalidades como o scroll infinitodesenhadas para aumentar o tempo de utilizaçãopodem prejudicar o bem-estar físico e mental dos utilizadores, no âmbito do Digital Services Act.

Adolfo Mesquita Nunes sublinha que a legislação europeia já cobre parte desta matéria. “No Digital Services Act nós já temos algumas regras que impedem empresas, com o conhecimento que têm dos seus utilizadores, de os condicionarem a ter determinado tipo de aquisições de comportamentos. São os chamados Dark Patterns. No caso da regulação da IA também já há um conjunto de proibições de [a] utilizar para manipular, levando pessoas de populações mais vulneráveis a terem comportamentos que de outra forma não teriam e que lhes causariam dano. Mas só agora é que vamos começar a ver a sua amplitude em funcionamento.”

O que é o Digital Services Act?

O Digital Services Act (DSA, na sigles em inglês; Lei dos Serviços Digitais, em português) é a legislação europeia que define as regras que as grandes empresas de tecnologia devem seguir para garantir a segurança dos utilizadores online. A lei reforça as obrigações das empresas no combate a conteúdos ilegais e à desinformação e aumenta o seu papel na moderação de conteúdos.

O DSA já proíbe os chamadosdark patterns”, formas de projectar plataformas para levar os utilizadores a tomar decisões que não fariam normalmente, muitas vezes envolvendo dinheiro. Entre eles estão induzir a partilhar mais dados do que o consentido, mostrar produtos indisponíveis para redirecionar para opções mais caras, dificultar cancelamentos ou criar botões enganosos.

Ao abrigo desta regra, as plataformas online têm de conceber os seus serviços de forma a não enganar, manipular ou, de outro modo, distorcer ou prejudicar significativamente a capacidade dos utilizadores de tomarem decisões livres e informadas.

Hugo Rodrigues, médico pediatra e autor do livro e do site Pediatria para todos”, acredita que a sensação de grande prazer espoletada pelas redes sociais pode terminar numa adição. “Tem de haver mecanismos para que estas empresas sejam responsabilizadas e não criem as funcionalidades especificamente desenhadas para provocar esta sensação de prazer grande que depois vai terminar numa adição, não tenho dúvida.” Aliás, o especialista ouvido pelo Observador defende que estas funcionalidades “têm de estar desactivadas por defeito”. “Não é ao contrário, estar sempre activa e as pessoas, se quiserem, desactivá-las.”

Em Portugal, a discussão jurídica tem potencial. O jurista Adolfo Mesquita Nunes sublinha que poderá evoluir para o plano judicial. A lei de acções populares, considerada abrangente, pode abrir caminho a processos colectivos contra as tecnológicas“Não me surpreenderia que em Portugal — e não só — começassem a surgir cada vez mais acções populares relativas às matérias da IA e da influência algorítmica. Da mesma forma que durante muitos anos as acções populares foram utilizadas no domínio ambiental, eu penso que assistiremos agora à utilização deste mecanismo”.

Segundo Mesquita Nunes, assiste-se a uma mudança de paradigma: cada vez mais, serão as empresas a ter de demonstrar que os seus sistemas não causam danos, invertendo o tradicional ónus da prova. “Isto não significa que todos os sistemas algorítmicos e que todas as empresas sejam culpadas — eu estou muito longe de ter essa visão. Acho é que isto de facto vai criar contexto para que as empresas possam ter frameworks de governance mais sofisticados para poderem depois defender-se nestes casos”.

 

São as redes sociais desenhadas para serem viciantes?

A tese central acolhida pelo júri sustenta que estas plataformas recorrem a mecanismos comportamentais semelhantes aos utilizados nas indústrias do jogo e do tabaco para captar e reter utilizadores. O objectivo passa por induzir um estado de envolvimento contínuo, em que notificações e estímulos frequentes influenciam a resposta dopamínica e incentivam a permanência prolongada nas aplicações.

 “Redes sociais vão directamente ao encontro do oxigénio dos adolescentes que é a comparação social. (...) Nós fomos desenhados para procurar a validação do outro, o amor do outro, o reconhecimento pela tribo. E o que as redes sociais fazem é isso: é transformar em droga esse estímulo que o cérebro aprecia muito.”

Índice

Quem é Kaley G. M.?

O que diz a sentença?

Que efeitos vai ter para as plataformas da Meta e Google?

Que países já limitaram o acesso às redes sociais? E em Portugal?

São as redes sociais desenhadas para serem viciantes?

Que efeitos têm as redes sociais e a sua utilização excessiva na saúde mental?

Como sublinha a psiquiatra Inês Homem de Melo, trata-se de um desenho “predatório”, que transforma a necessidade humana de validação social num mecanismo de dependência. Nas redes sociais, a especialista coloca a questão nos seguintes termos: é a “droguificação da conexão humana”.

 “Redes sociais vão directamente ao encontro do oxigénio dos adolescentes que é a comparação social. Nós todos fomos desenhados um bocadinho para isso, mas a adolescência é uma idade muito importante de comparação com os nossos pares. Nós fomos desenhados para procurar a validação do outro, o amor do outro, o reconhecimento pela tribo. E o que as redes sociais fazem é isso: é transformar em droga esse estímulo que o cérebro aprecia muito.”

Segundo a documentação analisada em tribunal, houve mesmo alertas internos sobre os efeitos associados às chamadas “descargas de dopamina”, que terão gerado inquietação dentro da própria empresa, incluindo ao mais alto nível da liderança do Instagram. “O IG [Instagram] é uma droga… Somos basicamente traficantes”, escreveu um investigador num e-mail.

Outros registos mostram que, entre 2013 e 2022, aumentar o tempo de utilização — incluindo entre adolescentes — era um objectivo estratégico, apesar das preocupações conhecidas sobre os impactos nos mais jovens — algo que Zuckerberg afirmou não ocorrer mais.

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Quem é Kaley G. M.?

O que diz a sentença?

Que efeitos vai ter para as plataformas da Meta e Google?

Que países já limitaram o acesso às redes sociais? E em Portugal?

São as redes sociais desenhadas para serem viciantes?

Que efeitos têm as redes sociais e a sua utilização excessiva na saúde mental?

E “a adição pode ser real”, acrescenta o pediatra Hugo Rodrigues. “Estes mecanismos actuam a nível do subconsciente”.  E estamos “a falar de um mundo que tem como interesse primário captar a atenção e fixar as pessoas. Isto é diferente, por exemplo, do consumo de álcool, em que as pessoas podem ter uma adição com o álcool, mas o álcool não foi desenhado para provocar adição, com o tabaco igual. Aqui não, nós estamos a falar de um fenómeno que foi criado para provocar esta fixação. Não vou dizer que foi criada para a adição, mas se calhar foi mesmo.

Entre 2013 e 2022, outros registos mostram que aumentar o tempo de utilização — incluindo entre adolescentes era um objectivo estratégico, mesmo diante de preocupações conhecidas sobre os impactos nos mais jovens, algo que Zuckerberg garantiu ter deixado de ocorrer. Para “ter sucesso junto dos adolescentes”, documentos internos antigos da Meta sublinhavam a necessidade de os “conquistar” ainda na pré-adolescência, de acordo com a CNN. Numa linha semelhante, outros documentos do YouTube, também apresentados pelo advogado principal da acusação, sugeriam que a plataforma mantivesse as crianças ocupadas enquanto os pais se dedicam a outras tarefas, funcionando como uma espécie de babysitter digital.

Que efeitos têm as redes sociais e a sua utilização excessiva na saúde mental?

O uso excessivo destas plataformas tem sido associado a um conjunto alargado de problemas, entre os quais ansiedade severa, depressão e pensamentos suicidas. Nos adolescentes, a vulnerabilidade é maior: os sistemas cerebrais ligados ao prazer desenvolvem-se antes das áreas responsáveis pelo controlo de impulsos, o que torna mais difícil resistir a estímulos constantes e intensos. Não dá, nós não conseguimos controlar tudo o que estas empresas provocam no cérebro. Portanto, as empresas têm de ser responsabilizadas por isso, porque isto é maldoso, considera Hugo Rodrigues.

 “A maior parte dos pais que fumam não fuma em frente aos filhos, porque sabem que é um mau exemplo, mas ninguém tem pudor em usar um telemóvel à frente de um filho.”

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Quem é Kaley G. M.?

O que diz a sentença?

Que efeitos vai ter para as plataformas da Meta e Google?

Que países já limitaram o acesso às redes sociais? E em Portugal?

São as redes sociais desenhadas para serem viciantes?

Que efeitos têm as redes sociais e a sua utilização excessiva na saúde mental?

Para além do impacto emocional, há também efeitos ao nível cognitivo. O uso compulsivo pode prejudicar a atenção e a memória a longo prazo, ao habituar o cérebro a mudanças rápidas e contínuas de estímulo. Surgem ainda comportamentos como o chamado “bed rotting” — longos períodos passados na cama, sem conseguir largar o telemóvel — que afastam os jovens das suas rotinas sociais e familiares. Em situações mais extremas, os próprios algoritmos podem expor menores a conteúdos perigosos, incluindo desafios de risco ou material de natureza exploratória, como ficou evidenciado num caso paralelo no estado do Novo México.

Aliás, na quinta-feira passada, a Comissão Europeia abriu uma investigação ao Snapchat, por suspeitas de que a plataforma possa expor menores a aliciamento e exploração sexual, além de fornecer informações sobre drogas e produtos com restrições de idade, incluindo álcool e cigarros eletrónicos.

Apesar de o foco neste e noutros casos estar nos menores, os especialistas ouvidos pelo Observador sublinham que grande parte do problema vemprimariamente dos adultos”. “Só se transforma num problema dos menores porque os adultos não se conseguem regular em termos de utilização de ecrãs. Isto não é um problema primário dos menores; os menores herdaram isto da má utilização dos adultos.” O pediatra acrescenta ainda uma analogia que evidencia a normalização do uso excessivo pelos adultos: “A maior parte dos pais que fumam não fuma em frente aos filhos, porque sabem que é um mau exemplo, mas ninguém tem pudor em usar um telemóvel à frente de um filho.”

Além do impacto individual, há consequências legais e sociais mais amplas. Adolfo Mesquita Nunes destaca: “Há sempre decisões judiciais que são marcos históricos, ou porque invertem uma jurisprudência anterior, ou porque, pela primeira vez, abordam uma questão que nunca tinha sido abordada. Veremos se esta é um marco histórico ou não. Vamos ver se a esta se vão somar mais outras decisões que vão no mesmo sentido. Parece-me que alguma coisa vai acontecer.”

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