De candeias às avessas, ao que parece, segundo as más línguas: Rumen Radev.
Um novo Orbán? Bulgária vai a votos e
deve eleger primeiro-ministro pró-russo que já acusou a Ucrânia de prolongar
a guerra
Ex-piloto
convertido em político, Rumen Radev é o grande favorito para vencer as eleições
búlgaras. Já criticou Zelensky e vê a Bulgária como um canal para melhorar as
relações entre a UE e a Rússia.
JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto
OBSERVADOR,. 17 abr. 2026, 18:18
Rússia e Bulgária. A independência, o bom
aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE.
Rumen Radev. O antigo
piloto que sempre se opôs ao centro-direita. As incógnitas do que defende Rumen Radev. A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia
na Europa? Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é
improvável que o faça
O encontro foi muito tenso. Em Sófia, em julho de 2023, o Presidente ucraniano encontrou-se com o
homólogo búlgaro da altura, Rumen
Radev. Conhecido por ser uma das vozes mais
críticas do apoio militar à Ucrânia na política da Bulgária, o antigo chefe de
Estado búlgaro não diminuiu o tom das críticas quando se reuniu com Volodymyr
Zelensky perante as câmaras de televisão: “Continuo a achar que este conflito não
tem solução militar e mais armas não o vão resolver. Nós não podemos apenas
pensar na Ucrânia, mas também como a guerra afecta a Europa”. O líder
ucraniano ripostou: “A
Rússia quer destruir a NATO e a União Europeia [UE], esse é o seu objectivo”.
É este ex-Presidente que confrontou
Volodymyr Zelensky que é o grande favorito para ser o próximo primeiro-ministro
da Bulgária, que vai a votos no domingo. Desde 2021, estas são as oitavas legislativas no
país de 6,5 milhões de habitantes, que enfrenta um ciclo crónico de
instabilidade política. Antigo piloto de caças soviéticos e
antigo chefe de Estado com posições pró-russas (que renunciou ao cargo para se candidatar a
primeiro-ministro), Rumen Radev está a tentar transmitir a imagem de
que é o homem que vai consertar o sistema.
Corrupção, instabilidade, oligarcas
e vendettas políticas constantes: a Bulgária chega às
oitavas eleições em cinco anos mergulhada numa profunda crise na confiança da
sua democracia. Neste
contexto, Rumen
Radev assumiu o protagonismo na política búlgara apresentando-se como um messias que pode acabar com o caos ao enfrentar os políticos de
centro-direita pró-europeus. O Bulgária Progressista — partido criado há um mês e meio pelo
antigo Presidente —, aparece à frente nas sondagens com cerca de 35% dos votos.
▲ Rumen Radev,
o ex-piloto convertido em político
TOMS KALNINS/EPA
Índice
Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do
Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada
na União Europeia
Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao
centro-direita
As incógnitas do que defende Rumen Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia
na Europa?
Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é
improvável que o faça
É um resultado bastante
positivo para um partido recente numa cena política tão polarizada. Ainda
assim, não deverá ser suficiente para uma maioria absoluta, a que correspondem
121 (de 240) lugares na Assembleia Nacional búlgara. Independentemente da solução governativa, Rumen Radev
deverá ser o próximo primeiro-ministro da Bulgária. Será um
novo rosto no Conselho Europeu e nas instituições europeias; um líder que nunca
escondeu as suas posições pró-russas e as críticas às sanções aplicadas por
Bruxelas.
Após a derrota do primeiro-ministro
húngaro, Viktor Orbán, a UE terá de lidar com um político que nunca escondeu que ambiciona
normalizar as relações entre Bruxelas e Moscovo — e isso poderá revelar-se um
novo problema para o bloco comunitário. Num país que ainda vê a
Rússia com alguma nostalgia, a mensagem
pró-russa de Rumen Radev não está a afastar o eleitorado búlgaro, mesmo estando
o país geograficamente próximo da Ucrânia.
Rússia
e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
Quando foi eleito Presidente em 2017, Rumen Radev deu uma entrevista a órgãos de comunicação social
europeus.
Na altura, a Rússia já tinha
anexado a Crimeia e tinha desencadeado uma guerra com o recurso a milícias
pró-russas no leste da Ucrânia — o que levou a UE a aplicar sanções. O antigo chefe de Estado
já proclamava há nove anos que temia que a União Europeia “ficasse refém das
sanções” aplicadas contra Moscovo, avisando que os “dois lados” ficariam a
perder.
▲ Vladimir
Putin e Rumen Radev num encontro em Sochi (Rússia) em 2018 Getty Images
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Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do
Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada
na União Europeia
Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao
centro-direita
As incógnitas do que defende Rumen Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia
na Europa?
Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é
improvável que o faça
A invasão em larga escala de
2022 não alterou substancialmente a posição de Rumen
Radev. Embora tenha condenado a Rússia, o antigo
chefe de Estado continuou a considerar que não deveriam ter sido impostas
sanções, preferindo que o conflito terminasse o mais brevemente possível, mesmo
que isso significasse que a Ucrânia teria de ceder partes significativas do seu
território. O ex-Presidente alegava que a Bulgária sempre dependeu fortemente
de energia russa barata e que mantinha laços económicos e históricos profundos
com a Rússia.
Contrariamente
a muitos países da Europa de Leste, a Rússia continua a gozar de uma reputação
globalmente positiva na Bulgária, apesar da guerra na Ucrânia. O país
usa o alfabeto cirílico, a população é maioritariamente ortodoxa e os búlgaros
são culturalmente próximos de Moscovo. Na
memória colectiva, permanece viva a guerra pela independência em 1878, na qual
a Rússia desempenhou um papel fundamental ao libertar o que hoje corresponde à
Bulgária das amarras do Império Otomano. Através
deste enquadramento, a Rússia é vista como uma potência libertadora e um
contrapeso histórico à influência turca no sul dos Balcãs.
Enquanto
país independente no século XX, a Bulgária participou nas duas guerras mundiais
ao lado da Alemanha. Nas
duas, acabou derrotada. A aproximação às potências da Europa Central nunca
correu propriamente bem. Assim, quando o Exército Vermelho entrou em território
búlgaro, encontrou uma população exausta, que passou a ver na União Soviética
uma potência capaz de derrubar a monarquia búlgara — que nunca tinha trazido
nem prosperidade, nem paz ao país.
▲ População
de Sófia a receber militares do Exército Vermelho no final da Segunda Guerra
Mundial - Gamma-Keystone via Getty Images
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Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do
Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada
na União Europeia
Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao
centro-direita
As incógnitas do que defende Rumen Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia
na Europa?
Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é
improvável que o faça
No Pacto de
Varsóvia, a Bulgária converteu-se no bom aluno de
Moscovo, cumprindo diligentemente as orientações do Kremlin: apoiou a repressão da Revolução Húngara de 1956 e até
enviou tropas para ajudar a esmagar a Primavera de Praga em 1968.
Tanto
assim foi que, nos anos 60, a direcção do Partido Comunista Búlgaro chegou a
propor a integração do país na própria União Soviética — algo que os líderes soviéticos
acabaram por rejeitar.
Enquanto em Budapeste, Berlim ou
Varsóvia se celebrou o fim da União Soviética, em Sófia houve algum alívio, mas também algum cepticismo.
Apesar
disso, o país converteu-se numa democracia
parlamentar no início dos anos 90. Todor
Zhivkov, o antigo líder comunista durante mais de três décadas, foi afastado do cargo, mas o novo sistema
integrou grande parte dos altos quadros do antigo regime. Muitos deles criaram
o Partido Socialista Búlgaro,
uma das forças políticas responsáveis pela transição.
▲ Todor
Zhivkov, o antigo Presidente da Bulgária comunista Gamma-Rapho via Getty Images
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Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do
Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada
na União Europeia
Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao
centro-direita
As incógnitas do que defende Rumen Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia
na Europa?
Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é
improvável que o faça
O
processo de transição esteve longe de ser um êxito na Bulgária. A
privatização rápida e pouco transparente da economia permitiu que antigos
quadros do regime comunista acumulassem fortunas; transformaram-se em verdadeiros
oligarcas e passaram a dominar a vida económica e política do país. A corrupção
grassava e a qualidade de vida de muitos búlgaros deteriorou‑se em comparação
com o período final do comunismo. Tal como os vizinhos romenos, os dirigentes da Bulgária viram
na adesão à NATO e à União Europeia uma forma de consolidar a democracia e a
liberalização económica.
A Bulgária entrou na União
Europeia em 2007 e três anos antes na NATO. O país entrou no bloco ocidental —
e, com isso, chegou um fluxo significativo de fundos comunitários. A
qualidade de vida da população é certo que melhorou; ainda assim, muitos
búlgaros foram percebendo que o dinheiro de Bruxelas foi usado para enriquecer
as mesmas elites responsáveis pela transição. A corrupção não diminuiu
significativamente com a entrada na UE.
GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada
na União Europeia
Desde 2009, a cena política búlgara
tem sido dominada pelo GERB — o partido de
centro-direita pró-europeu cujo acrónimo significa Cidadãos pelo
Desenvolvimento Europeu da Bulgária. Liderado desde 2010 por Boyko
Borisov, este homem tornou‑se o rosto mais marcante da
política búlgara no pós‑adesão à UE. Visto pelos críticos como a personificação
de um sistema oligárquico, o antigo autarca de Sófia entrou ao longo dos anos
em sucessivos confrontos com o Presidente Rumen Radev.
▲ Boyko
Borisov, o homem que liderou o GERB e foi primeiro-ministro da Bulgária durante
anos STR/EPA
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Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do
Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada
na União Europeia
Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao
centro-direita
As incógnitas do que defende Rumen Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia
na Europa?
Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é
improvável que o faça
Em
2026, o GERB continua a ser liderado por Boyko Borisov,
que encabeça as listas da coligação em vários círculos eleitorais e permanece a
principal figura desta força política, que pertence ao Partido Popular Europeu
(a mesma família política do PSD e do CDS-PP). Embora não tenha declarado
explicitamente que quer voltar a chefiar o Governo, é visto como o principal
rosto da candidatura do GERB.
Apesar de ser um dos partidos do
sistema que contribuiu para a rede de clientelismo na
Bulgária, o GERB venceu várias eleições desde 2021 (apenas perdeu uma, na
verdade). Contudo,
nunca obteve mandatos suficientes para governar sozinho na Assembleia Nacional,
optando por pactos governamentais, que foram sempre frágeis e de curta duração. Como
força política mais votada, o partido
enfrentou repetidamente a influência presidencial de Rumen
Radev, que chegou à presidência em 2017 apoiado pelo
Partido Socialista, de centro-esquerda.
Para
muitos búlgaros, o GERB é hoje o símbolo de um sistema político que se
degradou com a corrupção e a incapacidade de assegurar estabilidade. As
sondagens apontam que o partido de centro‑direita deverá ter cerca de 20% dos
votos, o que deverá colocá‑lo, a partir de 19 de abril, no papel de principal força da
oposição. Este resultado modesto também ajuda a explicar a
popularidade meteórica de Rumen Radev: foi este homem que antagonizou Boyko Borisov e que, ao longo dos últimos anos, travou ou condicionou várias iniciativas
de governos ligados ao GERB.
▲ Cartaz
de veto no GERB na Bulgária AFP via Getty Images
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Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do
Pacto de Varsóvia e a entrada na UE
GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada
na União Europeia
Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao
centro-direita
As incógnitas do que defende Rumen Radev
A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia
na Europa?
Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é
improvável que o faça
Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao
centro-direita
Nascido em 1963, Rumen Radev destacou‑se desde cedo como um aluno brilhante e
seguiu carreira militar na Força Aérea da Bulgária. Formado ainda no período
comunista, integrou a elite da aviação militar e ganhou notoriedade como piloto
de caças soviéticos MiG‑29, chegando mais tarde a comandante do ramo das Forças
Armadas, cargo que manteve entre 2014 e 2017.
A política só entrou na sua vida
relativamente tarde, mas, enquanto comandante da Força Aérea, Rumen Radev
deixou claras várias das suas ideias políticas. Com a entrada da Bulgária na NATO e o debate sobre a
modernização militar, entrou em rota de colisão com diversos governos,
contestando planos de compra de caças ocidentais e defendendo a manutenção da
frota de MiG‑29, mesmo que isso mantivesse uma certa dependência militar em
relação à Rússia.
Numa altura em que o GERB já dominava
a cena política búlgara, Rumen Radev opunha‑se abertamente a várias decisões
do Governo de centro-direita. Partidos
rivais começaram a explorar a ideia de o comandante da Força Aérea se lançar na
política e concorrer à presidência em 2017. O piloto acabou por aceitar o
convite do Partido Socialista, que o apresentou como candidato independente e o
transformou no rosto da oposição para travar a candidata presidencial do GERB, Tsetska
Tsacheva.
▲ Rumen
Radev a votar nas eleições presidenciais de 2017 AFP via Getty Images
(CONTINUA)
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