sábado, 18 de abril de 2026

Um herói

 


De candeias às avessas, ao que parece, segundo as más línguas:  Rumen Radev.


Um novo Orbán? Bulgária vai a votos e deve eleger primeiro-ministro pró-russo que já acusou a Ucrânia de prolongar a guerra

Ex-piloto convertido em político, Rumen Radev é o grande favorito para vencer as eleições búlgaras. Já criticou Zelensky e vê a Bulgária como um canal para melhorar as relações entre a UE e a Rússia.

JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto

OBSERVADOR,. 17 abr. 2026, 18:18

Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE.

Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita. As incógnitas do que defende Rumen Radev. A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa? Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça

O encontro foi muito tenso. Em Sófia, em julho de 2023, o Presidente ucraniano encontrou-se com o homólogo búlgaro da altura, Rumen Radev. Conhecido por ser uma das vozes mais críticas do apoio militar à Ucrânia na política da Bulgária, o antigo chefe de Estado búlgaro não diminuiu o tom das críticas quando se reuniu com Volodymyr Zelensky perante as câmaras de televisão: Continuo a achar que este conflito não tem solução militar e mais armas não o vão resolver. Nós não podemos apenas pensar na Ucrânia, mas também como a guerra afecta a Europa”. O líder ucraniano ripostou: “A Rússia quer destruir a NATO e a União Europeia [UE], esse é o seu objectivo”.

É este ex-Presidente que confrontou Volodymyr Zelensky que é o grande favorito para ser o próximo primeiro-ministro da Bulgária, que vai a votos no domingo. Desde 2021, estas são as oitavas legislativas no país de 6,5 milhões de habitantes, que enfrenta um ciclo crónico de instabilidade política. Antigo piloto de caças soviéticos e antigo chefe de Estado com posições pró-russas (que renunciou ao cargo para se candidatar a primeiro-ministro), Rumen Radev está a tentar transmitir a imagem de que é o homem que vai consertar o sistema.

Corrupção, instabilidade, oligarcas e vendettas políticas constantes: a Bulgária chega às oitavas eleições em cinco anos mergulhada numa profunda crise na confiança da sua democracia. Neste contexto, Rumen Radev assumiu o protagonismo na política búlgara apresentando-se como um messias que pode acabar com o caos ao enfrentar os políticos de centro-direita pró-europeus. O Bulgária Progressista partido criado há um mês e meio pelo antigo Presidente —, aparece à frente nas sondagens com cerca de 35% dos votos.

 Rumen Radev, o ex-piloto convertido em político

TOMS KALNINS/EPA

Índice

Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE

GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia

Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita

As incógnitas do que defende Rumen Radev

A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?

Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça

É um resultado bastante positivo para um partido recente numa cena política tão polarizada. Ainda assim, não deverá ser suficiente para uma maioria absoluta, a que correspondem 121 (de 240) lugares na Assembleia Nacional búlgara. Independentemente da solução governativa, Rumen Radev deverá ser o próximo primeiro-ministro da Bulgária. Será um novo rosto no Conselho Europeu e nas instituições europeias; um líder que nunca escondeu as suas posições pró-russas e as críticas às sanções aplicadas por Bruxelas.

Após a derrota do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, a UE terá de lidar com um político que nunca escondeu que ambiciona normalizar as relações entre Bruxelas e Moscovo — e isso poderá revelar-se um novo problema para o bloco comunitário. Num país que ainda vê a Rússia com alguma nostalgia, a mensagem pró-russa de Rumen Radev não está a afastar o eleitorado búlgaro, mesmo estando o país geograficamente próximo da Ucrânia.

Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE

Quando foi eleito Presidente em 2017, Rumen Radev deu uma entrevista a órgãos de comunicação social europeus. Na altura, a Rússia já tinha anexado a Crimeia e tinha desencadeado uma guerra com o recurso a milícias pró-russas no leste da Ucrânia — o que levou a UE a aplicar sanções. O antigo chefe de Estado já proclamava há nove anos que temia que a União Europeia “ficasse refém das sanções” aplicadas contra Moscovo, avisando que os “dois lados” ficariam a perder.

 Vladimir Putin e Rumen Radev num encontro em Sochi (Rússia) em 2018 Getty Images

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Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE

GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia

Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita

As incógnitas do que defende Rumen Radev

A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?

Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça

A invasão em larga escala de 2022 não alterou substancialmente a posição de Rumen Radev. Embora tenha condenado a Rússia, o antigo chefe de Estado continuou a considerar que não deveriam ter sido impostas sanções, preferindo que o conflito terminasse o mais brevemente possível, mesmo que isso significasse que a Ucrânia teria de ceder partes significativas do seu território. O ex-Presidente alegava que a Bulgária sempre dependeu fortemente de energia russa barata e que mantinha laços económicos e históricos profundos com a Rússia.

Contrariamente a muitos países da Europa de Leste, a Rússia continua a gozar de uma reputação globalmente positiva na Bulgária, apesar da guerra na Ucrânia. O país usa o alfabeto cirílico, a população é maioritariamente ortodoxa e os búlgaros são culturalmente próximos de Moscovo. Na memória colectiva, permanece viva a guerra pela independência em 1878, na qual a Rússia desempenhou um papel fundamental ao libertar o que hoje corresponde à Bulgária das amarras do Império Otomano. Através deste enquadramento, a Rússia é vista como uma potência libertadora e um contrapeso histórico à influência turca no sul dos Balcãs.

Enquanto país independente no século XX, a Bulgária participou nas duas guerras mundiais ao lado da Alemanha. Nas duas, acabou derrotada. A aproximação às potências da Europa Central nunca correu propriamente bem. Assim, quando o Exército Vermelho entrou em território búlgaro, encontrou uma população exausta, que passou a ver na União Soviética uma potência capaz de derrubar a monarquia búlgara — que nunca tinha trazido nem prosperidade, nem paz ao país.

 População de Sófia a receber militares do Exército Vermelho no final da Segunda Guerra Mundial - Gamma-Keystone via Getty Images

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Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE

GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia

Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita

As incógnitas do que defende Rumen Radev

A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?

Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça

No Pacto de Varsóvia, a Bulgária converteu-se no bom aluno de Moscovo, cumprindo diligentemente as orientações do Kremlin: apoiou a repressão da Revolução Húngara de 1956 e até enviou tropas para ajudar a esmagar a Primavera de Praga em 1968. Tanto assim foi que, nos anos 60, a direcção do Partido Comunista Búlgaro chegou a propor a integração do país na própria União Soviética — algo que os líderes soviéticos acabaram por rejeitar.

Enquanto em Budapeste, Berlim ou Varsóvia se celebrou o fim da União Soviética, em Sófia houve algum alívio, mas também algum cepticismo. Apesar disso, o país converteu-se numa democracia parlamentar no início dos anos 90. Todor Zhivkov, o antigo líder comunista durante mais de três décadas, foi afastado do cargo, mas o novo sistema integrou grande parte dos altos quadros do antigo regime. Muitos deles criaram o Partido Socialista Búlgaro, uma das forças políticas responsáveis pela transição.

 Todor Zhivkov, o antigo Presidente da Bulgária comunista Gamma-Rapho via Getty Images

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GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia

Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita

As incógnitas do que defende Rumen Radev

A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?

Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça

 

O processo de transição esteve longe de ser um êxito na Bulgária. A privatização rápida e pouco transparente da economia permitiu que antigos quadros do regime comunista acumulassem fortunas; transformaram-se em verdadeiros oligarcas e passaram a dominar a vida económica e política do país. A corrupção grassava e a qualidade de vida de muitos búlgaros deteriorou‑se em comparação com o período final do comunismo. Tal como os vizinhos romenos, os dirigentes da Bulgária viram na adesão à NATO e à União Europeia uma forma de consolidar a democracia e a liberalização económica.

A Bulgária entrou na União Europeia em 2007 e três anos antes na NATO. O país entrou no bloco ocidental — e, com isso, chegou um fluxo significativo de fundos comunitários. A qualidade de vida da população é certo que melhorou; ainda assim, muitos búlgaros foram percebendo que o dinheiro de Bruxelas foi usado para enriquecer as mesmas elites responsáveis pela transição. A corrupção não diminuiu significativamente com a entrada na UE.

GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia

Desde 2009, a cena política búlgara tem sido dominada pelo GERB o partido de centro-direita pró-europeu cujo acrónimo significa Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária. Liderado desde 2010 por Boyko Borisov, este homem tornou‑se o rosto mais marcante da política búlgara no pós‑adesão à UE. Visto pelos críticos como a personificação de um sistema oligárquico, o antigo autarca de Sófia entrou ao longo dos anos em sucessivos confrontos com o Presidente Rumen Radev.

 Boyko Borisov, o homem que liderou o GERB e foi primeiro-ministro da Bulgária durante anos STR/EPA

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GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia

Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita

As incógnitas do que defende Rumen Radev

A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?

Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça

 

Em 2026, o GERB continua a ser liderado por Boyko Borisov, que encabeça as listas da coligação em vários círculos eleitorais e permanece a principal figura desta força política, que pertence ao Partido Popular Europeu (a mesma família política do PSD e do CDS-PP). Embora não tenha declarado explicitamente que quer voltar a chefiar o Governo, é visto como o principal rosto da candidatura do GERB.

Apesar de ser um dos partidos do sistema que contribuiu para a rede de clientelismo na Bulgária, o GERB venceu várias eleições desde 2021 (apenas perdeu uma, na verdade). Contudo, nunca obteve mandatos suficientes para governar sozinho na Assembleia Nacional, optando por pactos governamentais, que foram sempre frágeis e de curta duração. Como força política mais votada, o partido enfrentou repetidamente a influência presidencial de Rumen Radev, que chegou à presidência em 2017 apoiado pelo Partido Socialista, de centro-esquerda.

Para muitos búlgaros, o GERB é hoje o símbolo de um sistema político que se degradou com a corrupção e a incapacidade de assegurar estabilidade. As sondagens apontam que o partido de centro‑direita deverá ter cerca de 20% dos votos, o que deverá colocá‑lo, a partir de 19 de abril, no papel de principal força da oposição. Este resultado modesto também ajuda a explicar a popularidade meteórica de Rumen Radev: foi este homem que antagonizou Boyko Borisov e que, ao longo dos últimos anos, travou ou condicionou várias iniciativas de governos ligados ao GERB.

 Cartaz de veto no GERB na Bulgária AFP via Getty Images

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GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia

Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita

As incógnitas do que defende Rumen Radev

A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?

Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça

Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita

 

Nascido em 1963, Rumen Radev destacou‑se desde cedo como um aluno brilhante e seguiu carreira militar na Força Aérea da Bulgária. Formado ainda no período comunista, integrou a elite da aviação militar e ganhou notoriedade como piloto de caças soviéticos MiG‑29, chegando mais tarde a comandante do ramo das Forças Armadas, cargo que manteve entre 2014 e 2017.

A política só entrou na sua vida relativamente tarde, mas, enquanto comandante da Força Aérea, Rumen Radev deixou claras várias das suas ideias políticas. Com a entrada da Bulgária na NATO e o debate sobre a modernização militar, entrou em rota de colisão com diversos governos, contestando planos de compra de caças ocidentais e defendendo a manutenção da frota de MiG‑29, mesmo que isso mantivesse uma certa dependência militar em relação à Rússia.

Numa altura em que o GERB já dominava a cena política búlgara, Rumen Radev opunha‑se abertamente a várias decisões do Governo de centro-direita. Partidos rivais começaram a explorar a ideia de o comandante da Força Aérea se lançar na política e concorrer à presidência em 2017. O piloto acabou por aceitar o convite do Partido Socialista, que o apresentou como candidato independente e o transformou no rosto da oposição para travar a candidata presidencial do GERB, Tsetska Tsacheva.

 Rumen Radev a votar nas eleições presidenciais de 2017 AFP via Getty Images

(CONTINUA)

 

 

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