Não se entende tanta presunção de um ser que não é, de facto, dono do mundo, por muito que se julgue tal.
Ameaças de Trump ao Irão alargaram fracturas na direita norte-americana e
incentivam democratas a pedir a sua destituição
Mais de 50 políticos eleitos do partido Democrata pediram a destituição de
Trump pelas suas ameaças ao Irão. Mas também houve vozes nesse sentido de uma direita cada vez mais
desiludida.
ANTÓNIO MOURA DOS SANTOS: Texto
OBSERVADOR, 08 abr. 2026, 02:06
12 min0
▲Marjorie Taylor Greene e Tucker Carlson já foram aliados
próximos de Trump. Hoje pedem a sua
demissão ou desautorização pela sua gestão da guerra com o Irão
As ameaças feitas por Donald
Trump ao Irão esta terça-feira — prometendo a destruição da civilização
iraniana caso Teerão não cedesse ao seu ultimato — colocaram em destaque um
desconforto cada vez maior junto da direita norte-americana e da sua base de apoio quanto
à forma como esta guerra está a ser conduzida. Ao mesmo tempo, um número cada vez
mais alargado de políticos do espectro democrata está a pedir publicamente a
destituição do Presidente dos EUA.
A nível oficial, as principais
figuras do partido Republicano ora se remeteram ao silêncio — como o líder da
maioria republicana no Senado, John Thune, ou o
presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson — ora
apoiaram a escalada retórica de Donald Trump. “O Irão faria bem em levar a sério as palavras
do Presidente Trump.
Podem optar pelo caminho mais fácil ou pelo caminho mais difícil”,
avisou o grupo dos Senadores Republicanos na rede social X.
Numa publicação subsequente,
defenderam que “já era hora de termos um
Presidente disposto a defender os americanos”. Alguns políticos republicanos também defenderam a postura de Trump a
título individual, como Jodey Arrington, representante eleito pelo Texas,
que afirmou à
Fox Business “graças a Deus que temos um comandante-chefe que não se
limita a retórica vazia”.
No entanto, as ameaças de Trump também provocaram reações de desconforto
— ainda que tímidas — no seio do Partido Republicano. Um dos mais destacados
exemplos partiu de Ron
Johnson.
Tido como um firme aliado do Presidente, o senador do Wisconsin admitiu
numa entrevista ao The
Wall Street Journal esta segunda-feira que estava contra o bombardeamento de infraestruturas
civis iranianas.
“Acho que seria um erro enorme.
Quero dizer, ele vai perder o meu
apoio se atacar alvos civis. O que quer que façamos tem de estar dentro das
leis da guerra”, afirmou, lamentando as ameaças de Trump de que
bombardearia o Irão “de volta à Idade da Pedra” se o prazo para um acordo, marcado para
esta quarta-feira de madrugada, não fosse cumprido (acabou por
anunciar um cessar-fogo de duas semanas proposto pelo Paquistão hora e meia
antes do fim desse período) . “Espero e rezo para que o presidente Trump esteja apenas a usar isto
como fanfarronice. Não
estamos em guerra com o povo iraniano. Estamos a tentar libertá-los”,
acrescentou.
Posicionado mais ao centro do
partido Republicano, Don Bacon, representante eleito pelo Nebraska, defendeu numa entrevista esta
terça-feira não considerar apropriadas as ameaças de Trump, considerando-as
impróprias para alguém com a sua responsabilidade. “Não é assim que o
Presidente deve falar. Acho que é imprudente, mas tenho a certeza de que ele
não está a falar a sério. Ele está a tentar negociar com o regime, a dizer-lhes
que é hora de recuar, que é hora de fazer as pazes com os Estados Unidos. … Mas
não acho que ele queira dizer que vai destruir a civilização”, defendeu.
Já Nate Moran, representante eleito
pelo Texas, foi mais severo na sua análise, lembrando na rede social X que apoiou
as decisões de Trump quanto ao Irão até então, mas que traçava uma linha vermelha
quanto às ameaças contra infraestruturas civis porque os EUA devem conduzir
operações militares “por causas justas e através de meios justos e morais”.
“Isto deve continuar no futuro; caso
contrário, perderemos a nossa legitimidade para liderar o mundo” continuou.
“Não apoio a destruição de uma
‘civilização inteira’. Não é isso que somos, e não é consistente com os
princípios que há muito guiam a América”, frisou “A forma como protegemos as vidas dos inocentes é tão importante
quanto a forma como enfrentamos o inimigo”, concluiu.
A
senadora eleita pelo Alasca,
Lisa Murkowski, alinhou pelo mesmo nível de contundência, considerando que
a ameaça à destruição da civilização iraniana “não pode ser justificada como
uma tentativa de ganhar vantagem nas negociações com o Irão”. “Este tipo de
retórica constitui uma afronta aos ideais que a nossa nação tem procurado
defender e promover em todo o mundo há quase 250 anos”, atirou, adiantando
acreditar que é um discurso que “coloca directamente em perigo os americanos,
tanto no estrangeiro como no país”. “Todos os envolvidos — especialmente o
Presidente e os líderes do Irão — devem moderar as suas ameaças sem
precedentes antes que seja tarde demais”, alertou.
Base MAGA cada vez mais afastada:
postura de Trump é “repugnante em todos os aspectos”
Se junto das instâncias oficiais
do partido Republicano a postura tem sido de ou apoiar Donald Trump abertamente
ou evitar acrimónia e veicular críticas ligeiras, as bases que o ajudaram a ser
reeleito em 2024 — o movimento Make America Great Again (MAGA) — têm sinalizado um afastamento e um repúdio cada vez
maiores por meio de algumas das suas principais figuras, todas elas ex-aliadas
de Trump.
A forma como a administração Trump lidou com a investigação a Jeffrey Epstein em 2025 abriu as primeiras fracturas,
com muitos apoiantes do presidente republicano a expressarem desagrado com as
conclusões que a justiça norte-americana tirou do caso. O
facto de ter feito uma campanha eleitoral tendo como uma das principais
promessas o fim das intervenções externas dos EUA para depois entrar em guerra
com o Irão veio aumentar ainda mais esse desconforto, com a frase “não foi nisto que votámos” a
tornar-se cada vez mais comum junto dos seus eleitores.
Uma das figuras proeminentes
da direita norte-americana que se tem posicionado contra a guerra no Irão é Marjorie
Taylor Greene, que abandonou o Congresso justamente por ter deixado de apoiar
Trump devido ao caso
Epstein. Apresentando-se como uma das críticas
mais vocais do presidente a partir do espectro conservador, Greene
reagiu à ameaça de Trump de destruir a civilização iraniana como sendo “maldade
e loucura”. “Não
caiu uma única bomba sobre os Estados Unidos. Não podemos exterminar uma
civilização inteira”, alertou, pedindo
para que o
Presidente seja removido do cargo.
Também Tucker
Carlson, que após abandonar a Fox News firmou o seu
estatuto como uma das mais importantes figuras da direita dos EUA, tem-se
posicionado contra a guerra no Irão desde o seu começo, voltando a reagir
perante as ameaças de Trump. “Agora
é hora de dizer não, absolutamente não, e dizê-lo directamente ao Presidente: “não”, afirmou no seu programa
online, pedindo aos funcionários do governo norte-americano que
desautorizem o Presidente. Classificando a estratégia de Trump face ao Irão
como “repugnante a todos os níveis”, Carlson lamentou que se fosse usar as
forças armadas dos EUA “para matar civis desse país” quando “nem sequer um mês
e meio passou após o início do conflito”.
Trump, de resto, já respondeu a Carlson, atirando-se ao seu antigo
aliado. “O Tucker é uma pessoa com baixo QI e não tem nem ideia do que se está
a passar. Ele está sempre a ligar-me; eu nunca atendo as suas chamadas. Não
lido com ele. Eu gosto de conviver com pessoas inteligentes e não tolos”, disse
ao New
York Post.
Ao coro de críticas juntaram-se Candice
Owens e Alex Jones,
ambos comentadores de extrema-direita e teóricos da conspiração — juntando à
sua recusa de intervencionismo americano crenças anti-semitas quanto ao estado
de Israel. A influencer classificou Trump como
um “lunático genocida” e pediu que o Congresso dos EUA e o exército
intervenham. “Estamos para lá da insanidade”, alertou. Já Jones, classificou a
atitude do presidente como “a loucura de um rei”.
Democratas pedem remoção de Trump e
querem votação imediata para terminar guerra
Os pedidos de Greene e Owens quanto à
destituição de Donald Trump do cargo da presidência devido à sua postura
perante o Irão não foram casos isolados. Aliás, se foram minoritários do lado
conservador, tornaram-se cada vez mais audíveis no espectro político oposto.
Segundo
o Wall Street Journal,
um conjunto cada vez mais alargado de políticos do Partido Democrata começou a
pedir que a 25.ª Emenda da Constituição dos EUA — que prevê a substituição do
chefe do Executivo em casos de incapacidade física ou mental pelo seu
vice-presidente — seja evocada para que Donald
Trump seja
destituído.
São já mais de 50 os políticos a
pedir a sua destituição, sendo a larga maioria democratas. Entre os nomes mais proeminentes estão os
membros da Câmara dos Representantes Ro Khanna, Alexandria Ocasio‑Cortez,
Yassamin Ansari, Rashida Tlaib, Ilhan Omar e o senador Ed Markey.
“É doentiamente maldoso. O Donald Trump tem de ser destituído. Quando é
que os meus colegas republicanos vão finalmente ganhar coragem e destituí-lo do
cargo?”, escreveu por exemplo Omar na sua conta
pessoal do X.
“Esta é uma ameaça de genocídio e justifica a destituição do cargo.
As faculdades mentais do Presidente estão a deteriorar-se e não se pode confiar
nele”, defendeu Ocasio-Cortez,
que disse a todos os membros da cadeia de comando do Presidente que “têm o dever de recusar ordens ilegais”, o
que “inclui levar a cabo esta ameaça” de destruir a
civilização iraniana.
Eric
Swalwell,
que além de membro dos Representantes, é o candidato dos democratas a
governador da Califórnia, também pugnou pela saída de Trump, escreve o WSJ. “O
Presidente tem de ser removido. Se o Congresso for demasiado cobarde para o
fazer, então que seja o próprio Governo a fazê‑lo”, defendeu.
Entretanto, a liderança democrata na
Câmara dos Representantes — de força minoritária neste momento — apelou ao
regresso imediato dos representantes a Washington para que seja realizada uma
votação destinada a pôr fim à guerra no Irão.
A declaração foi assinada por várias
figuras de topo dos democratas na Câmara, inclusive pelo líder Hakeem
Jeffries, acusando Trump de estar “completamente descontrolado” e que é
necessária uma votação para o retirar de Presidente antes que “atire o país
para a Terceira Guerra Mundial”.
Como aponta o WSJ, a Câmara dos
Representantes está actualmente em pausa até à próxima segunda‑feira, 13 de
abril, sendo que já tinha sido votada uma resolução de oposição à guerra no
Irão em março, tendo sido chumbada com 212 votos a favor e 219 contra.
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