Uma história macabra. Portuguesa, Deus
Santo! Musicada, em fado. Naturalmente negativo, nas sugestões horrendas que apresenta,
que nem o fado luso costuma conter.
"Um fado menor com muita
improvisação". O piano de Júlio Resende em "Os Ficheiros do Caso Carlos Castro"
Convidado para compor a banda sonora original de "Os
Ficheiros do Caso Carlos Castro", Júlio Resende sentou-se ao piano e
improvisou. O resultado foi um fado menor, que já pode ouvir aqui.
OBSERVADOR2
abr. 2026, 13:08
▲"Os
Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis
episódios que, além de banda sonora original de Júlio Resende, tem narração da actriz Joana Santos
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Primeiro,
porque a acção se passa nos Estados Unidos, Júlio Resende
pensou compor um blue.
Depois, quando se sentou ao piano para criar a banda sonora original de “Os Ficheiros do Caso Carlos Castro”, o
podcast que revela os bastidores da investigação ao brutal
crime de homicídio que há 15 anos vitimou
o conhecido cronista social, em Nova Iorque, o
compositor percebeu que, afinal, não seria esse o caminho. E, em
vez de um blue, compôs um fado. “Um fado é uma espécie de blue, mas
completamente à portuguesa.”
“Um
fado menor, mas muito aberto, com muita improvisação”, eis como o
pianista descreve a peça que acabou por criar para acompanhar os seis episódios
do novo Podcast Plus, que reconstitui, ao detalhe, tudo o que aconteceu desde que as vidas de Carlos Castro e Renato Seabra se cruzaram
pela primeira vez, em outubro de 2010. “Como
sou um improvisador, a ideia de qualquer gesto, de qualquer situação, me
pode provocar música. Só tenho que tentar mergulhar nessa cor”, explica.
Os tons da história, que versa um
crime particularmente mediático e brutal, não são, de todo, os que o pianista
de 43 anos prefere. “O maior desafio foi a temática em causa, que não me é de todo apelativa; a temática do crime e da negritude do humano”, faz questão de ressalvar. “Mas também era esse o desafio musical. E não me foi muito difícil, a
verdade é essa.”
Apesar de o novo Podcast Plus do
Observador só estrear no próximo dia 7 de abril, já pode ouvir aqui a
música de Júlio Resende:
O trailer de “Os Ficheiros do Caso Carlos Castro” também
já está disponível. Pode ouvi-lo aqui.
Nuno Carmona: Obrigado, OBSERVADOR. Excelente escolha musical. O Júlio é um dos nomes
maiores do piano em Portugal e merece um reconhecimento ainda maior do que o
que tem.
O primeiro episódio do 'Aqui Há
Crime' com Júlia Pinheiro e Marta Gonçalves recupera o crime macabro em Nova
Iorque, que teve como protagonista Renato
Seabra.
O jovem modelo português, então
com 21 anos, ficou ligado ao homicídio do jornalista e cronista Carlos Castro,
de 65 anos, num hotel de luxo em Manhattan. Carlos Castro foi morto a 7 de janeiro de 2011, "durante aquilo que aparentava ser
uma viagem de trabalho para uns e para outros mais uma lua de mel. Os
contornos são macabros. Uma discussão que escalou para a agressão e terminou
com a mutilação genital de Carlos Castro com um saca-rolhas. Mas antes de
tudo isto, houve a história de dois homens que se conheceram e em que pelo
menos um deles, garantem os amigos, se apaixonou".
Quem
era o Carlos? Quem era o Renato? O que tinham era um namoro, um acordo
profissional ou ambos? O rapaz de 21 anos que matou Carlos tem hoje 35 anos, já cumpriu mais de
metade dos 25 anos de pena e quando terminar, terá 46 anos e terá vivido mais
anos atrás das grades do que em liberdade.
Passaram-se quase 15 anos. A jornalista Marta
Gonçalves voltou a ler os autos da polícia, tentou chegar à fala com o Renato e a família, foi à procura dos
amigos de ambos, os advogados e as testemunhas ouvidas em tribunal:
"Conseguimos chegar a cinco pessoas que,
de diferentes formas, se cruzaram na vida dos dois. Comecemos
pelo David Touger,
que foi o advogado que defendeu o Renato durante o julgamento, que apostou
todas as fichas em provar que, no momento do
homicídio, o Renato não estava bem, que passou por um momento de insanidade e
que sofre de um transtorno bipolar (...) Com opinião
contrária, ouvimos William
Barr, o neuropsicólogo que em tribunal assegurou que
Renato estava consciente e com todas as faculdades quando matou Carlos. Foi
a principal testemunha para a condenação e continua a acreditar que não há uma
explicação psicológica para o que aconteceu no quarto 3416.
Luís Pires, jornalista e amigo de Carlos
Castro,
trabalha nos Estados Unidos há mais de 50 anos e acompanhou o caso. Além
de ser o pai e ex-marido das pessoas que encontraram o corpo. A jornalista Marta Gonçalves falou também com Fátima Lopes, jurada no programa onde Renato
Seabra se estreou perante o público
português e revela como foi enganada pelos dois. Fernanda
Dias,
publisher das revistas do Grupo Impresa durante vários anos, algumas para onde Carlos Castro escreveu, também foi ouvida.
Ao falar com estas pessoas fica claro uma
coisa: Havia
uma relação entre os dois. Não necessariamente amorosa, mas havia algo
combinado. Carlos estava apaixonado. Quanto a Renato, não é certo o que
sentia. Mas é este arranjo, acordo, combinação, o que lhe queiram chamar,
que os leva até Nova Iorque, numa viagem sem regresso.
Renato Seabra e Carlos Castro entram em 2011 em Times Square, onde
uma bola gigante de cristais cai ao longo da contagem decrescente para o novo
ano. Partilham também o mesmo quarto. Sempre assim foi nas outras
viagens. Tudo corre tão bem que o regresso a Portugal é adiado, mas as coisas
mudam e a magia da lua de mel começa, aos poucos, a tornar-se em conversas
mais agressivas e em discussões, aliás, mais tarde, onde surgiram várias
testemunhas que contam ter ouvido constantemente gritos no quarto e no corredor
do Intercontinental. Até num restaurante, ao jantar em East Village, um
bairro conhecido pela animada vida noturna, terão sido vistos mais uma vez a
discutir.
Sobre o motivo, só podemos
especular, mas as testemunhas asseguram que Renato disse a Carlos que não
era homossexual, que gostava de mulheres. Luís Pires, jornalista
e amigo de Carlos, lembra-se de esse ser um assunto comentado: "Eu sei que havia uma empregada do hotel
com quem o Renato Seabra conversava muitas vezes. É uma empregada de uma
boutique do hotel, da recepção do hotel, soube disso na altura. O Carlos
era um homem ciumento como toda a gente sabe. Creio que a discussão no quarto
nasceu desse envolvimento entre ele e essa jovem. E depois no quarto, o
Carlos Castro poderia ter evidentemente feito uma cena de filmes, como era
habitual, não é?"
Mais uma discussão entre os dois começa depois de passarem o dia
em silêncio. As palavras acesas e a troca
de insultos rapidamente escalam para a agressão. Renato aproxima-se de
Carlos por trás e agarra-o pelo pescoço. Mandou-o ao chão enquanto lhe
pressiona a traqueia. Atira-lhe um monitor de computador à cabeça. Usa uma
garrafa de vinho e um copo
para o agredir. Então, pega no
saca-rolhas. Espeta-o primeiro nas virilhas, depois no rosto. O corpo está
estendido no chão. O espancamento continua por várias horas. Com o saca-rolhas
arranca-lhe os testículos. Carlos já não reage, mas ainda
está vivo. Renato continua. Pisa-o e dá-lhe pontapés.
Tira-lhe os testículos com as mãos e ergue-os no ar, num acto que mais tarde em
tribunal se diria que foi uma espécie de exorcismo aos demónios
homossexuais. Arrasta o corpo para junto da janela e deixa-o ali, numa
poça de sangue. Toma um banho, veste um fato e sai do quarto. Carlos Castro
está morto.
No próximo episódio, Júlia
Pinheiro e Marta Gonçalves contam-lhe o lado B desta história. Vão conhecer
melhor Renato e as suas origens, tentar perceber o desfecho deste crime
que marcou, com pormenores sádicos, a memória dos portugueses.
Aqui
Há Crime
Um
podcast da SIC com Júlia Pinheiro e com a jornalista Marta Gonçalves, onde lhe
contam alguns dos mais violentos e chocantes crimes que marcaram o país.
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