domingo, 5 de abril de 2026

FADO


Uma história macabra. Portuguesa, Deus Santo! Musicada, em fado. Naturalmente negativo, nas sugestões horrendas que apresenta, que nem o fado luso costuma conter.

"Um fado menor com muita improvisação". O piano de Júlio Resende em "Os Ficheiros do Caso Carlos Castro"

Convidado para compor a banda sonora original de "Os Ficheiros do Caso Carlos Castro", Júlio Resende sentou-se ao piano e improvisou. O resultado foi um fado menor, que já pode ouvir aqui.

TEXTO

OBSERVADOR2 abr. 2026, 13:08

"Os Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios que, além de banda sonora original de Júlio Resende, tem narração da actriz Joana Santos

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Primeiro, porque a acção se passa nos Estados Unidos, Júlio Resende pensou compor um blue. Depois, quando se sentou ao piano para criar a banda sonora original de “Os Ficheiros do Caso Carlos Castro”, o podcast que revela os bastidores da investigação ao brutal crime de homicídio que há 15 anos vitimou o conhecido cronista social, em Nova Iorque, o compositor percebeu que, afinal, não seria esse o caminho. E, em vez de um blue, compôs um fado. “Um fado é uma espécie de blue, mas completamente à portuguesa.”

Um fado menor, mas muito aberto, com muita improvisação”, eis como o pianista descreve a peça que acabou por criar para acompanhar os seis episódios do novo Podcast Plus, que reconstitui, ao detalhe, tudo o que aconteceu desde que as vidas de Carlos Castro e Renato Seabra se cruzaram pela primeira vez, em outubro de 2010. Como sou um improvisador, a ideia de qualquer gesto, de qualquer situação, me pode provocar música. Só tenho que tentar mergulhar  nessa cor”, explica.

Os tons da história, que versa um crime particularmente mediático e brutal, não são, de todo, os que o pianista de 43 anos prefere.O maior desafio foi a temática em causa, que não me é de todo apelativa; a temática do crime e da negritude do humano”, faz questão de ressalvar. “Mas também era esse o desafio musical. E não me foi muito difícil, a verdade é essa.”

Apesar de o novo Podcast Plus do Observador só estrear no próximo dia 7 de abril, já pode ouvir aqui a música de Júlio Resende:

O trailer de “Os Ficheiros do Caso Carlos Castro” também já está disponível. Pode ouvi-lo aqui.

 

Nuno Carmona: Obrigado, OBSERVADOR. Excelente escolha musical. O Júlio é um dos nomes maiores do piano em Portugal e merece um reconhecimento ainda maior do que o que tem.

 

O primeiro episódio do 'Aqui Há Crime' com Júlia Pinheiro e Marta Gonçalves recupera o crime macabro em Nova Iorque, que teve como protagonista Renato Seabra.

O jovem modelo português, então com 21 anos, ficou ligado ao homicídio do jornalista e cronista Carlos Castro, de 65 anos, num hotel de luxo em ManhattanCarlos Castro foi morto a 7 de janeiro de 2011, "durante aquilo que aparentava ser uma viagem de trabalho para uns e para outros mais uma lua de melOs contornos são macabros. Uma discussão que escalou para a agressão e terminou com a mutilação genital de Carlos Castro com um saca-rolhas. Mas antes de tudo isto, houve a história de dois homens que se conheceram e em que pelo menos um deles, garantem os amigos, se apaixonou".

Quem era o Carlos? Quem era o Renato? O que tinham era um namoro, um acordo profissional ou ambos? O rapaz de 21 anos que matou Carlos tem hoje 35 anos, já cumpriu mais de metade dos 25 anos de pena e quando terminar, terá 46 anos e terá vivido mais anos atrás das grades do que em liberdade.

 

Passaram-se quase 15 anosA jornalista Marta Gonçalves voltou a ler os autos da polícia, tentou chegar à fala com o Renato e a família, foi à procura dos amigos de ambos, os advogados e as testemunhas ouvidas em tribunal:

"Conseguimos chegar a cinco pessoas que, de diferentes formas, se cruzaram na vida dos dois. Comecemos pelo David Touger, que foi o advogado que defendeu o Renato durante o julgamento, que apostou todas as fichas em provar que, no momento do homicídio, o Renato não estava bem, que passou por um momento de insanidade e que sofre de um transtorno bipolar (...)  Com opinião contrária, ouvimos William Barr, o neuropsicólogo que em tribunal assegurou que Renato estava consciente e com todas as faculdades quando matou CarlosFoi a principal testemunha para a condenação e continua a acreditar que não há uma explicação psicológica para o que aconteceu no quarto 3416.

Luís Pires, jornalista e amigo de Carlos Castro, trabalha nos Estados Unidos há mais de 50 anos e acompanhou o caso. Além de ser o pai e ex-marido das pessoas que encontraram o corpo. A jornalista Marta Gonçalves falou também com Fátima Lopes, jurada no programa onde Renato Seabra se estreou perante o público português e revela como foi enganada pelos doisFernanda Dias, publisher das revistas do Grupo Impresa durante vários anos, algumas para onde Carlos Castro escreveu, também foi ouvida.

Ao falar com estas pessoas fica claro uma coisa: Havia uma relação entre os dois. Não necessariamente amorosa, mas havia algo combinado. Carlos estava apaixonado. Quanto a Renato, não é certo o que sentia. Mas é este arranjo, acordo, combinação, o que lhe queiram chamar, que os leva até Nova Iorque, numa viagem sem regresso.

 

Renato Seabra e Carlos Castro entram em 2011 em Times Square, onde uma bola gigante de cristais cai ao longo da contagem decrescente para o novo ano. Partilham também o mesmo quarto. Sempre assim foi nas outras viagens. Tudo corre tão bem que o regresso a Portugal é adiado, mas as coisas mudam e a magia da lua de mel começa, aos poucos, a tornar-se em conversas mais agressivas e em discussões, aliás, mais tarde, onde surgiram várias testemunhas que contam ter ouvido constantemente gritos no quarto e no corredor do Intercontinental. Até num restaurante, ao jantar em East Village, um bairro conhecido pela animada vida noturna, terão sido vistos mais uma vez a discutir.

Sobre o motivo, só podemos especular, mas as testemunhas asseguram que Renato disse a Carlos que não era homossexual, que gostava de mulheres. Luís Pires, jornalista e amigo de Carlos, lembra-se de esse ser um assunto comentado: "Eu sei que havia uma empregada do hotel com quem o Renato Seabra conversava muitas vezes. É uma empregada de uma boutique do hotel, da recepção do hotel, soube disso na altura. O Carlos era um homem ciumento como toda a gente sabe. Creio que a discussão no quarto nasceu desse envolvimento entre ele e essa jovem. E depois no quarto, o Carlos Castro poderia ter evidentemente feito uma cena de filmes, como era habitual, não é?"

 

Mais uma discussão entre os dois começa depois de passarem o dia em silêncio. As palavras acesas e a troca de insultos rapidamente escalam para a agressão. Renato aproxima-se de Carlos por trás e agarra-o pelo pescoço. Mandou-o ao chão enquanto lhe pressiona a traqueia. Atira-lhe um monitor de computador à cabeça. Usa uma garrafa de vinho e um copo para o agredir. Então, pega no saca-rolhas. Espeta-o primeiro nas virilhas, depois no rosto. O corpo está estendido no chão. O espancamento continua por várias horas. Com o saca-rolhas arranca-lhe os testículos. Carlos já não reage, mas ainda está vivo. Renato continua. Pisa-o e dá-lhe pontapés. Tira-lhe os testículos com as mãos e ergue-os no ar, num acto que mais tarde em tribunal se diria que foi uma espécie de exorcismo aos demónios homossexuais. Arrasta o corpo para junto da janela e deixa-o ali, numa poça de sangue. Toma um banho, veste um fato e sai do quarto. Carlos Castro está morto.

 

No próximo episódio, Júlia Pinheiro e Marta Gonçalves contam-lhe o lado B desta história. Vão conhecer melhor Renato e as suas origens, tentar perceber o desfecho deste crime que marcou, com pormenores sádicos, a memória dos portugueses.

 

Aqui Há Crime

Um podcast da SIC com Júlia Pinheiro e com a jornalista Marta Gonçalves, onde lhe contam alguns dos mais violentos e chocantes crimes que marcaram o país.

Nenhum comentário: