“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou
exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que
fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque
alta vive.”
UM SOCIALISTA EXEMPLAR
Colhido em lides domésticas, Pedro
Sánchez tem vindo a tentar a sorte na arena internacional. Em Barcelona, frente
aos progressistas de todo o mundo unidos que enchiam a praça, foi o triunfo.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista
do Observador
OBSERVADOR, 24/4/26
Colhido em lides domésticas, Pedro
Sánchez, chefe de um dos raros governos socialistas na Europa – um governo em coligação difícil, com forças de
extrema-esquerda, como o Sumar, a Izquierda Unida e o Podemos, e forças
separatistas, como o Junts, o ERC e o EH Bildu que, em Novembro de 2023, lhe
asseguraram a investidura por 179 votos contra 171 –, tem vindo a tentar a sorte na arena
internacional, citando com galhardia o “fascismo” norte-americano.
Em Barcelona, frente aos progressistas
de todo o mundo unidos que enchiam a praça, foi o triunfo.
“Um exemplo para todos os socialistas
democráticos”
Também por cá os aficcionados o levaram
em ombros. Para o secretário-geral do PS, Sánchez
é um “exemplo para todos os socialistas democráticos”, um líder corajoso com
“uma agenda progressista que se preocupa com a prosperidade e o bem-estar”.
A “prosperidade e o bem-estar”
parecem de facto ter vindo a ocupar grande parte da agenda interna de Sanchez,
família e correlegionários:
A mulher, Begoña
Goméz,
está acusada de tráfico de influências, corrupção e apropriação indevida de
fundos públicos numa investigação iniciada pelo Juiz Carlos Peinado, em Abril
de 2024; investigação que procede, apesar das tentativas de bloqueio e das
ameaças aos instrutores, vindas do próprio ministro da Justiça de Sanches,
Félix Bolaños, coadjuvado, mais recentemente, pelo ministro dos Transportes,
Oscar Puente.
O irmão, o músico David Sánchez, está indiciado por tráfico de influências,
tendo recebido, entre Julho de 2017 e Maio de 2025, 340.000 Euros da Deputação
de Badajoz, não se sabe bem porquê nem para quê.
Koldo García, o ex-assessor do ministro José Luis Ábalos,
e o próprio Ábalos, ex-secretário-geral dos socialistas espanhóis e
mão direita do chefe do Governo,
são também réus de um processo a correr no Supremo Tribunal em Madrid, o
“processo das mascarilhas”, em que respondem por vários actos de corrupção,
entre os quais o fornecimento de oito milhões de máscaras durante a epidemia da
Covid 19, contra recebimento de comissões.
O centro de todas estas tramas
judiciais é, evidentemente, Pedro Sanchez, marido de Begoña, irmão de David, chefe de Ábalos e
líder dos socialistas espanhóis.
Que fazer? Talvez tentar a arena internacional,
enfrentar o animal da ultradireita reaccionária, animar uma “mobilização global
progressista” para a “prosperidade e o bem-estar” do mundo. Por que não? Não tinha Emmanuel Macron vindo a
desdobrar-se em iniciativas internacionais, à direita e à esquerda, para trazer
a paz ao universo e, de caminho, afastar os olhares mediáticos da sua
incapacidade de formar um governo estável em França contra os extremos
maioritários? Não podia ele, Pedro Sánchez, fazer melhor do que o
Presidente francês? Tanto
mais que a sua motivação era mais urgente, ou pelo menos mais pessoal e
judicial.
E eis que, no fim da semana passada,
se uniram em Barcelona os progressistas de todo o mundo “en defensa de la
Democracia”.
O grande flirt
O
facto de, na jornada de luta, as esquerdas unidas em Barcelona terem entoado
com entusiasmo e emoção o velho “no
pasarán” quer
dizer muito pouco ou quase nada. Os tempos são outros e não vale a pena lembrar aqui
que a última vez que as esquerdas globalmente mobilizadas se juntaram em
Espanha, na Primavera-Verão de 1936, na então Frente Popular, mataram umas
dezenas de milhares de espanhóis (entre eles, mais de sete mil eclesiásticos
católicos, entre freiras, monges, sacerdotes e bispos), desencadeando
uma guerra civil em que os militares de Franco também não foram meigos.
Longe vão esses tempos. As esquerdas podem agora ter voltado a
juntar-se em Espanha, mas só para flirtar com o frentismo, a resistência e o
activismo num animado fim-de-semana comemorativo da chegada do “fim do tempo da
ultradireita reaccionária”. A boa-nova, anunciada por Sánchez,
arrastará, supomos, o termo das alterações climáticas causadas pela “onda
reaccionária internacional que alimenta discursos de ódio, sexismo, guerra e
divisão” e desencadeará o raiar da paz perpétua, da justiça redistributiva, da
fraternidade, da igualdade, enfim, do progressismo internacional.
Talvez por isso, esta Global Progressive Mobilization de Barcelona,
presidida por Pedro Sánchez e co-presidida por Lula da Silva, tenha sido
descrita como “um marco histórico”.
A iniciativa inscreveu-se no
programa da Internacional Progressista, fundada em 2020 pelo grego Yanis
Varoufakis, ex-ministro das Finanças do Syriza, e pelo senador
norte-americano Bernie Sanders. A
Internacional conta com pensadores como Noam
Chomsky, o amigo e consultor de Epstein com obra importante
no campo da Linguística e do pensamento
pós-marxista, o auto-denominado “marxista conservador” Slavoj Zizek e
a canadiana Naomi Klein.
Para
o encontro de Barcelona, o anfitrião Sánchez e os seus colaboradores foram
audazes na encenação e na mobilização. Além do tout esquerda
socialista europeia e do tout sul global – os presidentes da África do Sul, do Brasil, do México
e da Colômbia –
marcou presença, representando a América do Norte, Tim Walz, o
inesquecível co-equiper de Kamala
Harris na dream-team de 2024.
Walz, que fez do seu Minnesota um
paraíso woke, não desiludiu ao revelar a verdadeira natureza da acção daquele cujo
nome quase todos se abstiveram ali de pronunciar – “We need to call that what it is: that’s fascism.”
Porém, foi o que Waltz acrescentou como ressalva – “Or at least it flirts with fascism” – que definiu o encontro e este novo tempo.
Além de Bernie
Sanders,
outros progressistas americanos de peso, entre eles o mayor de Nova Iorque, Mamdani, e Hillary Clinton (para aquele toque old liberal
chic que todo o flirt com a igualdade, a fraternidade e a
justiça social exige), brindaram os antifascistas reunidos em Barcelona com
inspiradoras mensagens de vídeo.
A jornada de
luta, que teve o patrocínio do pequeno e médio multibilionário Alexander Soros, através da sua Open Society
Foundation, e o
apoio mais velado da paritária Fundação Bill e Melinda Gates, juntou cerca de
3000 participantes inscritos, representando 100 partidos ou movimentos
políticos. Foi nesta exclusiva e inclusiva estância de flirt que
Sánchez triunfou.
A “cabala” e “a justiça a funcionar”
Sánchez e Lula não têm vida fácil nos
seus países: com
um governo minoritário, refém da extrema-esquerda e dos separatistas, Sánchez
vê-se agora “vítima de uma cabala” ou de uma “vergonhosa manipulação política
da justiça”; e Lula, solidária ex-vítima de uma dessas “cabalas”,
prepara-se para enfrentar uma eleição em Outubro em que a sua permanência no
cargo poderá, eventualmente, estar em risco.
Nada
a temer, porque o polícia político judicial da República do Brasil, o juiz
Alexandre de Moraes, já “pôs a justiça a funcionar” para que a democracia
continue. Como? Abrindo um processo que, a ser aceite, pode levar à perda de
direitos políticos de Flávio Bolsonaro, que, neste momento, lidera por pouco as
intenções de voto, com 42% contra os 40% de Lula.
A abertura do processo no
Supremo Tribunal Federal deu-se em 15 de Abril. Moraes segue aqui, em defesa da democracia, não o método
romeno (actuar
correctivamente, anulando uma eleição com resultados “maus”) mas o método
francês (actuar
preventivamente, interditando uma candidata “má”, dada como favorita, de
concorrer a uma eleição futura).
Já com Sánchez, parece que “a justiça
a funcionar” não está a funcionar tão bem como isso, dando antes lugar a uma
“cabala” de tribunais politicamente manipulados que descredibilizam as
instituições e ameaçam a democracia. A democracia e uma série de
impolutos dirigentes socialistas e familiares próximos do primeiro-ministro.
De qualquer forma, o
importante parece agora ser a mobilização
dos progressistas de todo o mundo contra os grandes manipuladores da
ultradireita reaccionária. Ora tal atiraria
nacionalistas, conservadores e populares para um exercício para o qual nem
sempre estão preparados: a constituição de uma internacional de nacionalismos
para enfrentar os globalistas unidos. Isto
se “o tempo da ultradireita reaccionária” não tivesse já chegado ao fim.
Felizmente, garante Sánchez, chegou.
Resta saber o que vai ser de Sánchez,
do flirt da esquerda com o frentismo e da mobilização
progressista sem a cortina fumo do fascismo, dos fascistas e das cabalas.
PEDRO SÁNCHEZ
ESPANHA EUROPA
MUNDO 31
COMENTÁRIOS:
Ana
Lucas > Carlos Chaves: Concordo
completamente com o que escreve. Este Sanchez é do pior que a esquerda pariu!
Alberico Lopes > Carlos
Chaves: Carlos,
obrigado por este também excelente comentário que complementa o excelente
artigo de Jaime
Nogueira Pinto.
Note que eu, ainda sem ter vindo ler estes comentários, num dos artigos hoje
publicados pela Acção Socialista II a louvar o carneiro, tinha-lhe sugerido que
lesse este artigo. Erro meu, porque o Carlos já se tinha antecipado! Boa tarde
e, já agora, bom fim de semana! Não lhe vou desejar bom 25 de abril, porque eu
gosto mesmo muito pouco de dias comemorativos. Faço questão de nem sequer abrir
os televisores para não ter de ouvir disparates e plumitivos penteadinhos!
Carlos Chaves: Caríssimo Jaime Nogueira Pinto, obrigado por
mais esta magnifica crónica como tantas outras a que já nos habituou! Obrigado
por denunciar esta gentalha da esquerda! A última que vem da terra do “nuestros
hermanos” é que o governo de Sanchez vai pôr a aliança em tribunal (que eles
controlam claro), que o PP e o VOX aparente e finalmente decidiram fazer (por
motivos patrióticos e defesa da Espanha), após estes anos de verdadeiro
descalabro da responsabilidade do PSOE! O que este déspota não faz para se
manter no poder, a Espanha e os
Espanhóis que se lixem!
P.S. Sánchez já chegou ao cúmulo de chamar em público a Catalunha de
país! E para o Carneiro este Sanchez é um exemplo, pelo menos informou-nos do
seu pensamento, quer o PS = PSOE!
Miguel Seabra: Em Barcelona faltaram o Maduro e o Aiatola
para a quadrilha ficar completa. Mas foi por motivos de força maior que não
puderam estar presentes….
Hugo Silva: E por cá, a comunicação social, nem uma nota
de rodapé.... Credibilidade, zero.
João Floriano: Tudo o que Jaime Nogueira Pinto escreve é a
mais pura das verdades tanto em relação a Sánchez como a Lula. No entanto eles
lá se vão aguentando no poleiro aplicando estratégias bem duvidosas. Sinto
vergonha alheia por quem se presta a apoiar com a sua comparência figuras como
Sánchez e Lula, ambos dois exemplos de como a corrupção corrompe e destrói a
democracia da qual esta gente se serve. E para além da democracia servem-se
também do voto de quem é ignorante e não enxerga o que está a acontecer
ou de quem tira vantagens e come da mesma mesa, mesmo que sejam apenas as
migalhas do banquete. Carneiro anda a escolher muito mal os lugares onde é
visto e com quem é visto. Foi à Venezuela fazer não se sabe bem o quê, porque
ficou tudo mal explicado e agora a Barcelona mas não para ver as obras de
Gaudi. O «artista» é socialista, por supuesto!
Antonio Madureira:
Excelente análise!
Miguel Seabra > José
B Dias: Não
estou a esquecer nada. O bando que se reuniu em Barcelona não é um bando de
comunistas ou socialistas, é um bando de ladrões!
Filipe Perfeito: Excelente artigo. Lufada de ar fresco.
António Duarte: E chegará o tempo em que a impoluta esquerda
adoptará o “método” Putin para as eleições: só concorre quem se comprometer a
ter menos votos que ele mesmo, tipo Partido Comunista da Rússia ou o partido
daquele tipo que fez campanha e disse ter votado no próprio Putin… e nas
eleições contaram muitas mesas com mais votos expressos do que eleitores
inscritos! Sim, também em Espanha o passado será a coisa mais imprevisível no
mundo, como contou o Milhazes a propósito da Rússia…
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