Mundiais fazem que o nosso coração se amachuque
facilmente e os homens não se mostrarão tão insensíveis, pelo menos à morte de familiares
mais próximos. Mas o caso que narra PATRÍCIA
FERNANDES é de facto exemplar de aparente “rigidez”, na realidade bem atenta e
eficiente que se admira, na reacção do jovem “salvador” de vidas, ao invés de responder
apenas aos seus próprios medos instintivos. Mas homens da estirpe de Putin e
outros de idêntica “coragem” mandatária, repousada, esta, no lombo dos
obedientes por dever, julgo que não têm lágrimas. na aridez dos seus corpos
imperiais. A menos que sejam as do regozijo próprio, incontinente, esse, e
demonstrativo dos afectos pessoais.
Os homens também choram
Na
verdade, precisamos que os homens não chorem facilmente e se comportem, antes,
como o jovem português que foi apanhado pelo acidente de comboio em Adamuz no
início do ano.
PATRÍCIA
FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da
Universidade do Minho
OBSERVADOR, 20 abr. 2026, 00:20
É claro que podemos viver sem
ler o livro Má Terapia, de
Abigail Shrier. Mas viveremos
com menos ferramentas para reflectir sobre os nossos tempos e, sobretudo, para
compreender o modo como as novas gerações parecem ter tantas dificuldades em
lidar com o mundo e a realidade. É esse o contributo de Shrier, que já tinha escrito Irreversible
Damage: The Transgender Craze Seducing Our Daughters (infelizmente
ainda não traduzido entre nós) e se debruça agora sobre o processo
de psicologização em curso nas sociedades ocidentais.
Encontramos por todo o lado evidências desse processo, mas ele é
especialmente visível nas crianças, o grupo sempre mais vulnerável às ideias
progressistas que são apresentadas como o segredo para salvar o mundo.
Encontra-se tanto na substituição
de uma linguagem moral por uma linguagem terapêutica (a
criança não se portou mal, a criança está perturbada, com ansiedade ou em
processo de sofrimento traumático) como na
crescente obsessão com o que as crianças estão a sentir: estão
felizes? tristes? desiludidas? irritadas? Tudo
enquadrado na chamada “educação
para as emoções” e o
assustador “monstro
das cores”.
O objectivo é sempre
apresentado como bondoso: educadores, psicólogos e terapeutas querem garantir
que a criança é feliz (mais sobre
isto em breve) e uma educação centrada nas emoções e terapeutizada permitiria
esse objetivo.
Infelizmente, e como tantas vezes acontece, a realidade é mais
teimosa: os estudos são consistentes na
indicação de que, apesar de todas as intervenções, os adolescentes apresentam
hoje níveis de saúde mental menos satisfatórios do que as gerações anteriores,
revelam níveis de egocentrismo e individualismo mais elevados e não se mostram
capazes de usar as ferramentas mágicas que lhes são ensinadas para lidar com as
dificuldades da vida.
As emoções são uma parte natural da
biologia humana e quase sempre respostas adaptativas que fomos adquirindo no
processo evolutivo. Mas isso
não significa que nos devamos tornar reféns das emoções e ser constantemente
estimulados a tentar perceber o que estamos a sentir e a adoptar uma atitude de
aceitação submissa que se traduz, geralmente, em lágrimas incontroláveis.
As lágrimas são uma reacção
natural do corpo e ajudam-nos a lidar com as emoções, mas não devem ser
confundidas com uma forma de viver. Em particular, no que diz respeito aos rapazes.
Faz parte da litania actual afirmar vezes sem conta que “os homens também choram”, uma
expressão tão mais incomodativa quando é apresentada como se fosse uma novidade.
É claro que os homens também choram, e
bastariam os textos homéricos para sabermos como os heróis são de lágrima
fácil, como chama a atenção Frederico
Lourenço.
Aquiles, o grande herói, violento, virulento, tantas vezes irado, chora
copiosamente nas páginas da Ilíada.
Na Odisseia, quando
Ulisses nos é apresentado encontra-se lavado em lágrimas e, no Canto 10,
“aquele em que temos mais choro”, os homens fartam-se de chorar e arrancar
cabelos. Mas nenhum momento é tão emocionante como aquele em que Ulisses e Telémaco se descobrem, no
Canto 16, pai e filho:
“Assim
falando, sentou-se; e Telémaco abraçou o nobre pai, chorando e vertendo
lágrimas.
E do coração de ambos surgiu o desejo de chorar. Gemeram alto, os seus gritos
mais acutilantes que os de corvos-marinhos ou abutres de recurvas garras, a
quem
os lavradores roubaram as crias antes de lhes crescerem as asas:
assim deploravelmente dos olhos se lhes derramavam as lágrimas.” (p. 466)
Que os homens também choram é, assim, uma evidência. Mas talvez se tenha perdido a razão pela
qual os homens devem ser especialmente educados para controlar as suas emoções
e evitar as lágrimas nos momentos difíceis. A cultura actual de obsessão com a
igualdade faz-nos esquecer o que as sociedades anteriores sempre souberam:
homens e mulheres não são iguais e, por essa razão, os homens têm
responsabilidades especiais, como usar a sua maior força física para proteger,
ajudar e defender os mais fracos.
Nos momentos difíceis, em que precisamos de coragem, frieza e
objetividade, chorar não ajuda: as
lágrimas toldam-nos a visão – não só literalmente, mas também
metaforicamente na medida em que nos impedem de agir com frieza e tomar decisões
difíceis. Nesses momentos, não queremos que os homens chorem,
queremos que os homens ajam corretamente. Afinal,
um herói é aquele que faz o que deve ser feito. E é por
isso que devem ser educados para controlarem as suas emoções e não se deixarem levar
por elas: para poderem pôr a sua maior força física à disposição dos outros.
A lengalenga de “os homens também choram”
torna-se, neste sentido e ao contrário do que parece, mais prejudicial do que benéfica. Na verdade,
precisamos que os homens não chorem facilmente e se comportem, antes, como o
jovem português que foi apanhado pelo acidente de comboio em Adamuz no início
do ano. Em entrevista à TVI,
Santiago recorda o que pensou depois de recuperar a consciência: “Tenho dez
minutos de adrenalina e vou fazer o melhor que puder”. E querendo fazer o melhor, soltou a
namorada que estava encurralada, partiu a janela do comboio e ajudou outro
homem que estava sem forças a sair. Fez o que devia ser feito. Chorar naquele
momento teria adiantado muito pouco.
PSICOLOGIA CIÊNCIAS
SOCIAIS CIÊNCIA 21
COMENTÁRIOS (de 21):
Luís Filipe
Costa Piteira: Existirá uma tendência de efeminizar os
homens, de forma a torná-los menos agressivos? Mario: Obrigado, Patrícia, pela sua lucidez (e
coragem)! É mesmo isso q. muito bem escreveu. O homem não pode ficar refém das
suas emoções. Até pode chorar, mas faz o q. tem de fazer. E no fim, essa é a
sua recompensa. José B Dias: Excelente,
como é uso. Obrigado à cronista. antónio alberto barbosa pinho: Muito
bem, Sra. Professora.
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