Muito conhecimento
também. Do mundo e “arredores”, a que não é indiferente, naturalmente, a admiração
pelos que, sofrendo, conseguem ultrapassar-se na dor, em função da dádiva da vida.
Páscoas
O pequeno papel dizia apenas “Anthonia, Nigéria”
mas tanto bastou para que aquela mulher da qual nada nunca saberei ficasse de
certo modo a meu cargo na lembrança, na oração, no olhar para a televisão
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 01 abr. 2026, 00:25
1Depois da dúvida, a perplexidade, a surpresa e uma admiração comovida, é
que caí em mim. Mas primeiro foi preciso abrir todo este
leque de “estados de alma” para chegar à Mafalda e sim, constatar que “se” pode ser assim. Tendo desde sempre
como segunda morada uma cadeira de rodas e não tendo nem um metro de altura,
ser tão solar, enérgica, útil, divertida, interessante, interessada – e
realizadíssima. Conheci-a há muitos
anos num evento onde eram “distinguidas” algumas mulheres e ela era umas delas.
Havia muita gente, ruído, desatenção, discursos, conversas cruzadas, passou. Mas ela não. A imagem durou até hoje:
solidez, fluidez discursiva, sorriso aberto, desenvoltura. E a segurança de uma
estrela.
Percebi estar diante de um absoluto caso, o
caso ficou comigo, ela perdi-a de vista. De longe a longe, uma notícia, pouca
coisa para a dimensão do que é capaz a vontade humana.
Chama-se Mafalda Ribeiro, tem pouco
mais de 40 anos e mandou-me um mail há dias a pedir a morada, ”queria
mandar um presente” . O presente era um livro escrito por ela – “Gotas no
Charco” – com prefácio de José Tolentino de Mendonça (edição da Have a Nice
Day), e o primeiro agradecimento reza assim: “a Deus que é fonte de todas as minhas gotas”.
Voltei a cair em mim mas desta
vez não foi de borla, isto é, a
Mafalda não podia ser “património” exclusivo de um encontro e de uma troca de
mensagens, havia uma responsabilidade. A que existe quando se percebe estar
diante de alguém totalmente improvável e inteiramente desarmante na sua
qualidade humana. Embora hoje com alguma actividade pública, parecia-me
obrigatório dá-la a conhecer ainda melhor, contá-la ainda mais. Levando-a pela mão até essa plateia
sempre misteriosa que são os “leitores” (existirão?) para não nos distrairmos –
repito – quanto ao ilimitado poder – e nobre exemplo – de uma vontade humana.
Mafalda nasceu com uma doença raríssima (Osteogénese Imperfeita) que, numa linguagem leiga, significa
possuir ossos com a consistência do vidro. São já incontáveis as
fracturas que fez, o sofrimento que provocaram, a assimetria que encontra na
sua frente de batalha diária. E
no entanto… estudou jornalismo, esteve numa empresa na área do Ambiente,
escreveu um primeiro livro, é alegremente enérgica e comunicativa no modo como
vive a sua “deficiência”, era impossível não “se dar por ela”. Contagiante
no sorriso aberto e numa invulgar capacidade de iniciativa, publicou um segundo
livro, é autora de um projecto próprio, “Sorrir sobre Rodas”,
e, entre outras presenças e autorias, é
consultora de “inclusão para a deficiência” de um forte grupo económico”.
Sem nunca andar, como tem sido fértil o seu caminho.
Em tempo de Páscoa da Ressurreição, a Mafalda
ressuscitou dela própria.
2Na trapalhada em que se enreda e divide hoje
uma considerável parte do universo católico por esse mundo fora, sobre o
desacordo entre uns e outros quanto à velocidade seguida pela Igreja no seu
caminho – uns indo muito à frente na exigência de uma Igreja outra; os outros
preferindo ficar naquela onde já estão – lembrei-me do Papa Francisco e da
“Igreja em saída” que vibrantemente pedia. E da “Igreja-Hospital de campanha”,
que igualmente recomendava. Muitos diziam que Francisco “era um Papa de
esquerda” – a própria esquerda, por pura ignorância, também rejubilava com o
equívoco – sem que nem uns, nem outros reparassem que era do Evangelho que ele
falava: levando-o para fora da sacristia ao encontro acolhedor de “todos,
todos, todos”.
Lembrei-me do Papa Francisco por
ter testemunhado ao vivo, numa breve espaço de um pedaço de noite, uma
igreja que “saía” da lisboeta Basílica da Estrela ao encontro dos que sofrem as
guerras na pele, no sofrimento, na solidão do abandono mais desamparado.
Foi há dias numa “Vigília pela
Paz” convocada pelo Patriarca de Lisboa. O silêncio e o recolhimento equivaliam-se
na profundidade de ambos. Rezava-se e ouvia-se rezar. Ouvia-se cantar e
cantava-se. E a dado momento, a Igreja “saiu” quando o Pároco da Basílica, Padre
Duarte da Cunha, fez entregar aos presentes um pequeno papel
com um nome de alguém: os nomes próprios de centenas de homens e mulheres que
sobrevivem nos cenário das guerras onde em várias geografias a destruição e a
morte pulverizam cidades, países e regiões. O
pequeno papel que me calhou dizia apenas “Anthonia, Nigéria”, mas tanto bastava
para que aquela mulher da qual absolutamente nada nunca saberei, ficasse de
certo modo a meu cargo, na lembrança, na oração, no olhar para a televisão, e
saber que naquela Nigéria vive uma Anthonia que precisa de amparo. Mesmo que só de palavras rezadas, mesmo
que à distância, mesmo que aparentemente – dirão fatalmente alguns – “não sirva
para nada”. Nunca se saberá, o que confere à intenção e ao gesto aquele
misterioso sentido do “valer ou não valer
a pena”… tarefa que (felizmente) sabemos não ser essa a que nos compete. O que nos competia ali era compreender
que naquela noite a Igreja tinha “saído” do interior solene de uma Basílica
para ir ter com povos ao chão da guerra. Gente agora com um nome, para levarmos
connosco após o silêncio recolhido de uma impressiva mancha de gente jovem e
menos jovem.
Assim
contado, quase parece coisa fácil ou talvez um milagre. Não foi nem uma coisa,
nem outra. Deu trabalho, levou tempo, foi preciso contactar muita gente – a
gente certa –, obter a informação – a informação rigorosa – e tudo
isto em lugares em guerra. Duarte da Cunha fez questão, a partir do altar,
de especificar os interlocutores: do Cardeal de Teerão a Patriarcas ortodoxos,
passando pela Caritas e várias outras instituições, a lista era grande. Muitos
foram os que acorreram à chamada do Patriarca de Lisboa numa verdadeira Páscoa
da Ressurreição
3Três sinais de puro alarme: A – o
mundo pasmou, depressa se indignou, e depois enfureceu-se: a dimensão do choque
com a proibição da celebração da Páscoa em Jerusalém é dificilmente alcançável
sob que ângulo for, mesmo o da segurança. À hora a que escrevo o governo de
Israel – por vergonha, medo, humilhação,
noção do tamanho da ofensa feita? – recuou. Melhor assim, com certeza. Mas
a assinatura vai ser difícil de apagar: ninguém esquecerá que “isto” aconteceu.
4A parte ainda normalmente constituída
do país aguarda notícias sobre o modestamente noticiado – e pouco lamentado
mediaticamente – disparo de um engenho (muito) explosivo sobre um
avultado grupo de gente que em paz se manifestava contra o que repudiam. Foi
na Marcha pela Vida e ocorreu
o inconcebível numa prosaica tarde de fim-de semana entre famílias e carrinhos
de bebés. Aqui chegados, pergunto: e então? O que aconteceu, como
aconteceu, porque é que foi possível, de quem foi a ideia? Quantos eram? E,
claro: agora, o que se segue? Nada?
5A abstenção portuguesa na ONU numa votação onde se
exigem imbecilmente perdões, reparações, comportamentos e arrependimentos num
mar de ignorância e fora de qualquer contexto histórico, aflige, embaraça,
humilha. João Pedro Marques já disse aqui mesmo no Observador tudo – e tão bem
– redimindo todos os que, como eu, ficaram num limbo.
Não há Páscoa
que nos ressuscite desta vergonha.
CRÓNICA OBSERVADOR PÁSCOA SOCIEDADE IGREJA
CATÓLICA RELIGIÃO
COMENTÁRIOS:
M Azevedo: Obrigado por este hino à Páscoa! Paul C.
Rosado: Belo
texto. Tocou o coração.
Manuel Magalhaes: Bonito Maria João, boa Páscoa!!! José
Bleck: Obrigada Maria João por nos
despertar. Obrigada por nos recordar que o próximo conta. Obrigada por nos
abanar, por partilhar vivências, que nos ajudam a dar sentido à vida. Santa
Páscoa. victor
guerra: Ungida! Pikachu
Pay: Só
indo a Sevilha para nos fazer renascer por esta altura. O Ocidente está em
decadência, temos de procurar onde ainda vivem as tradições que nos recentrem. José
Roque: Provavelmente,
à hora a que escreveu, o governo de Israel já tinha cometido um atentado bem
mais grave do que a proibição da missa de domingo, refiro-me à pena de
morte, com efeitos retroactivos, a ser aplicada a palestinianos. Paul C.
Rosado > José Roque: A terroristas, quer antes dizer. Ah, e já
agora, "palestinianos" são os israelitas. José Roque > Paul C. Rosado: Ainda que sejam terroristas, nada justifica
a reintrodução da pena de morte e muito menos a aplicação retroactiva, algo que
nenhum código jurídico admite. E palestinianos não são os israelitas, a
pena de morte é específica para não-judeus e para delitos cometidos na
Cisjordânia. Onde, por sinal, as acções violentas e irregulares de colonos israelitas não são sancionadas pelas
autoridades do Estado. Carlos
Chaves: “Em tempo de Páscoa da Ressurreição, a Mafalda
ressuscitou dela própria.” “Anthonia, Nigéria”: Obrigado Maria João Avillez por estes belos e
verdadeiros testemunhos. P.S.3, não concordo com a sua análise, Israel é o
único país naquela região que permite a liberdade de religiões, aquela
proibição foi temporária (2 horas) e por razões de segurança. Israel já montou
um dispositivo que permitirá que todas, todas, as celebrações Pascais da nossa
religião possam ter lugar na Igreja do Santo Sepulcro. Devíamos dar os parabéns
ao governo de Israel e não o recriminar! Não embarquemos nos discursos
mentirosos da esquerda!
graça Dias > Carlos Chaves: Caríssimo Carlos Chaves Subscrevo a sua
observação P.S.3 Quem não entende, quem não tem
capacidade de interpretar esta guerra, em que um qualquer governo tudo deverá fazer para proteger os seus cidadãos,
independentemente das suas crenças religiosas, a sua análise é bloqueada pela ideologia doentia
e por vezes até perversa!... Carlos
Chaves > graça Dias: Caríssima Graça Dias, não sei se tem o mesmo
sentimento que por vezes me assola, que é o de já não ter paciência para ler,
ver e ouvir, autênticas mentiras plantadas na comunicação social e veiculadas,
muitas vezes, por figuras supostamente insuspeitas, que parecem ter perdido o
tino sobre determinadas matérias! Chego a desistir para não violentar a minha
própria consciência! Este ocidente Europeu está condenado se não mudar de
agulha! Até o porta-voz do governo e ministro das relações exteriores
Alemãs, disse que esta guerra não é nossa!
graça
Dias > Carlos Chaves: Caríssimo Carlos Chaves, boa tarde A UE caminha sonâmbula para o seu próprio
abismo. Um Directório ao serviço dos
poderosos lobbies que rodeiam Bruxelas.
Quanto à resposta da UE : " Não é a nossa guerra !..." Uma afirmação naive, bem reveladora sobre
as lideranças políticas de uma Europa que está em apuros, entre a
sua própria soberba e sua incapacidade de uma leitura política,
histórica e geográfica. Já a mediocridade e a tão
descredibilizada CS, nós cidadãos somos envoltos por mentiras mascaradas
de verdades, por tantos opinion makers ou analfabetos, dotados
de ideologias retrógradas, doentias e preconceituosas, e tudo repetido até à
exaustão!... nas rádios, nas TVs, nas redes sociais e até na mesa do
café. Narrativas diversificadas e exóticas, enviesadas e fora de
contexto, análises que se cingem ao insulto gratuito em defesa do regime
do obscurantismo dos Mulás terroooriiistaaas do Irão, que são uma ameaça
não só ao povo iraniano, como aos países da região e também a nível global. ps. Li na hora do almoço em jornal alemão, como a Alemanha já recuou nas suas afirmações infantis e
irresponsáveis, ou seja, depois da ameaça de Trump em se retirar
da NATO !... Iremos assistir a declarações de outros países, que serão a
confirmação da hipocrisia das lideranças da UE e de alguns líderes de países
membros. Carlos
Chaves > graça Dias: Caríssima Graça Dias, estamos completamente
sintonizados na opinião, sobre a situação a que chegámos neste mundo ocidental
onde vivemos! Ainda bem que a Alemanha recuou, mas o mal está feito, Espanha
bloqueia o espaço aéreo a voos com destino ao Irão, Itália bloqueia uma base
aérea na Sicília a aviões dos Estados Unidos, nós temos “repórteres” nas Lajes
à espera de verem os aviões “assassinos”, em vez de denominarem - aviões que
eliminam terroristas e sistemas que nos podem pôr em perigo! A sério, começa a
faltar a paciência!
graça Dias > Carlos Chaves: Caríssimo
Carlos Chaves Se me permite, encontrei um erro / lapso no seu comentário: 《 " repórteres" nas Lajes ..》 Não são repórteres, são activistas políticos
de cultura marxista ao serviço das cumplicidades entre os déspotas do regime de
Teerão e alguns órgãos de informação. Ponto. Carlos
Chaves > graça Dias: Exactamente,
assertividade impressionante a sua! Desejo-lhe um bom final de tarde e obrigado
pela frutuosa troca de ideias!
graça Dias > Carlos Chaves: Caríssimo
Carlos Chaves; Somente acrescento: « são
activistas políticos com a função de policiamento». Esta gentinha, para além da
sua pequenez, é dotada de uma ignorância
profunda. Não têm cultura e não se
informam, caso contrário, saberiam: a) Portugal e os Estados Unidos mantêm
relações diplomáticas formais desde 1791,
o que marcou o início da representação diplomática formal após o
reconhecimento da independência americana. b) Portugal entrou na NATO a 4 de
abril de 1949, sendo um dos 12 membros fundadores da
organização. c) desde 1951 Portugal e os Estados Unidos regem a utilização da Base
das Lajes, nos Açores, por um Acordo de Cooperação e Defesa (ACD)
Bilateral, e atualizado ao longo do tempo (destacando-se o protocolo de 1995).
Este acordo permite a presença e operações militares da força aérea
norte-americana, no quadro da NATO, com regras específicas de segurança,
utilização comum e gestão laboral. Carlos Chaves > graça Dias: Muito
bem lembrado caríssima Graça Dias, isto é para esfregar na cara de tantos
“jornalistas” e comentadores que por aqui pululam, grandes defensores da
criminosa esquerda! unknown unknown: Muito Bem e para reflexão, Pascal Jorge
Barbosa: Excelente artigo por dar que pensar como se
chegou aqui.
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