Do policial” precedente”:
“Uma história dourada”
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
“Buscas muito prolongadas” surpreenderam vizinhos de norte-americano
À
porta da vivenda na rua Luís de Camões, somam-se os jornalistas, se bem que num
aparato bem inferior ao causado pelos inspectores envolvidos nas buscas
ocorridas na semana passada e que se alongaram por vários dias. Atrás da fachada, e fruto das obras
idealizadas pelo norte-americano, a casa esconde outro anexo que chega quase à
zona do jardim que era, dantes, uma piscina. Dada a dimensão do material escondido naquela habitação, as “buscas
foram muito prolongadas”, como confessou o director da PJ do Centro. “Foi um trabalho hercúleo” que não se restringiu apenas à casa
do norte-americano, “por motivos óbvios”, mas também se prolongou “à casa do mordomo”, acrescentou Avelino Lima.
Reunidas
entre as vedações das casas a discutir o que aconteceu, três vizinhas confessam
que só viram “algumas carrinhas” que ocupavam grande parte da rotunda.
“Perguntei o que se passava aqui, com tanto carro à porta”, recorda uma delas.
Como não viram as identificações dos inspetores da PJ e só repararam no entra e
sai de objectos que eram levados para um carro de porta aberta, disseram que
“deviam ser mobílias para arrendar a casa do falecido [norte-americano]”.
“Era
um homem bem feito, elegante, nunca imaginei que fosse ter em casa quadros do
Picasso e do Miró e de outros que eu nem sei dizer o nome…”, desabafa uma vizinha que continua sem
perceber como é que aquelas obras — cuja autenticidade ainda está a ser
comprovada — foram parar à sua rua.
▲ PJ do Centro lidera investigação
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
PJ acredita que origem das obras é
ilícita e aponta norte-americano como possível branqueador
A alguns quilómetros dali, a
equipa da PJ do Centro, dirigida por Avelino Lima, reúne esforços para seguir
as poucas pistas sobre a vida deste norte-americano que, acredita, terá usado
estas obras para branquear os ganhos de alguma actividade criminosa. “As informações que temos é que a origem das obras
poderá não ser lícita, daí o branqueamento”, resume o responsável, a
partir da sede de Coimbra, a escassos metros das Escadas Monumentais.
“É uma investigação de enorme
complexidade e que levará o seu tempo para que não restem quaisquer dúvidas
quanto à origem e ao destinatário das obras de arte”. Para já, e
segundo apurou o Observador junto da Museus e Monumentos de Portugal, 15 obras
já estariam prontas a serem vendidas para França.
“No
presente caso, não houve qualquer denúncia, tendo sido identificada a
irregularidade da situação a partir da comunicação prévia de expedição temporária
com possibilidade de venda em França, de quinze bens artísticos, que deu
entrada na MMP a 4 de março de 2025. Apresentando-se o processo mal instruído e com
incongruências de propriedade dos bens, a Direcção de Colecções, Circulação e
Classificação aprofundou a investigação interna que habitualmente desenvolve em
sede de apreciação processual, o que haveria de conduzir a informação duvidosa
sobre os intervenientes”, resume a MMP em resposta ao Observador.
Ainda fora do mercado, mas com as obras
prontas a serem enviadas para uma “conhecida leiloeira internacional”, a
PJ entrou em campo para travar a transação. “A investigação resulta de um americano entretanto
falecido que comprou aquela residência e decorou-a com belo gosto e com uma
quantidade incrível de obras de arte”, explica
Avelino Lima.
“O mordomo considerou ser o legítimo
herdeiro das obras de arte e tentou vendê-las. A partir daí propunha-se uma acção
imediata” para identificar a origem daquele património antes da sua venda. A
investigação tenta perceber duas questões: se M. L. é, de facto, o herdeiro
legítimo daquele espólio e, depois, se o próprio americano teve acesso às obras
de forma legal — sobre este segundo ponto, segundo revelou a PJ, já existem
alguns indícios que sustentam uma forte suspeita de que as obras tenham
sido adquiridas de forma ilegal.
"As informações que temos é que a origem das obras poderá não ser
lícita", disse Avelino Lima INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Sem desvendar o percurso do
norte-americano ou um passado ligado ao crime, o diretor da PJ do Centro admite
que há “uma grande possibilidade” de este homem pertencer a redes criminosas
internacionais, “considerando alguns conhecimentos que temos do seu histórico
aqui na Europa”. Com a certeza que, por ter morrido, não será, naturalmente,
perseguido criminalmente, Avelino Lima revela “alguns indicadores” que o
colocam como figura central no processo de branqueamento de capitais de “organizações
internacionais”.
As
suspeitas de ligações criminosas adensam-se por não ser conhecido qualquer
percurso profissional do norte-americano. “Não temos conhecimento do exercício
de uma actividade corrente”, destaca o director. Por outro lado, já “há um conhecimento significativo sobre o
cidadão e a sua família, em princípio tem herdeiros”.
Dada a dimensão dos crimes que podem estar em causa, a PJ tem tido a
colaboração de entidades como a Europol e a Interpol, que apoiam este trabalho “hercúleo” em mãos dos investigadores
portugueses. “Esperamos que com o cruzamento de informação
internacional possamos ter respostas mais breves, mas também estamos a falar de
perícias que são demoradas, porque é uma quantidade enormíssima de obras”.
Para
esse trabalho de peritagens, que permitirá perceber realmente a autenticidade
das obras, a PJ conta com dois especialistas escolhidos pelo Museu Nacional de
Machado de Castro, como revelou fonte do museu ao Observador.
Como já tinha adiantado a mesma fonte ao Observador, os peritos têm confiança que estas obras são “genuínas”, mas só a “perícia formal” o determinará com toda a
certeza,
“É muito prematuro eu afirmar
o valor, as perícias vão ser determinantes a esse nível. Nós estamos a falar de
autores consagrados, como é sobejamente conhecido, estamos a falar de obras de
muita antiguidade, nunca poderemos para já avançar com um valor minimamente
adequado. Mas estamos a falar de um valor, de uma forma simplista, na ordem dos
milhões”, detalhou Avelino
Lima. Para já, podem estar em causa os crimes de
branqueamento de capitais e abuso de confiança, motivo pelo qual M. L. foi constituído arguido, ficando
apenas com Termo de Identidade e Residência.
Levantada a hipótese de o
mordomo não ter real noção do material que tinha em mãos, a PJ afasta essa
teoria, recordando que o próprio procurou “tirar proveito económico” com a
venda das obras e teria conhecimentos de um “círculo estritamente restrito que
é o negócio da arte”. “Há um conjunto de poucas pessoas que têm acesso e
domínio destas matérias e que em função deste domínio podem negociar isto”.
No
caso, M. L. “achou-se no direito [de lucrar com as obras]. Mas estamos em crer
que ainda não terá vendido estas obras”.
A MMP esclarece ao Observador
que continuará a colaborar com “o objectivo de traçar a proveniência dos bens
culturais em causa”. “As
competências e atribuições da MMP não se confundem com as da PJ; continuaremos
a desenvolver, isso sim, estreita colaboração institucional e a prosseguir objectivos
comuns no que concerne ao combate ao tráfico ilícito de bens culturais”. A lista
final das obras apreendidas continua na posse da PJ.
A investigação “muito recente” — com uma “comunicação e uma atuação
muito rápida” porque “havia riscos” — vai continuar à procura de eventuais cúmplices
deste crime. Agora, resta esperar. Tanto da parte do mordomo —
“não faz sentido avançar com
iniciativas processuais sem termos um domínio mais adequado de toda a realidade”
— como dos
eventuais afectados com o desaparecimento das obras — “neste momento temos um trabalho pericial em curso,
depois há que procurar junto de museus ou coleccionadores particulares. Haverá
um momento para isso, admito que com esta publicitação, quer museus, quer colecções
privadas possam comunicar com a PJ”, remata Avelino Lima.
Enquanto
em Coimbra a PJ investiga, os vizinhos do falecido americano desdobram-se em
questões sobre o património — agora à guarda da polícia — que tiveram ali tão
perto durante tanto tempo, mas sob segredo. “Tenho quadros, mas não têm valor… ou têm, mas é valor
sentimental, dos meus filhos e do meu marido. Mas os outros [do americano] não
era só valor sentimental”, assinala outra vizinha. “Por isso é que eu digo que
a transparência vale muito. Na minha casa podem entrar que não tem nada para
ver.”
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