Até ver, contudo. Pelo menos por cá. É só “até ver”.
Ganhámos todos através da vontade política dos húngaros. O mais dificil
ficou feito, glória ao voto da Hungria. Mas há quanto tempo é que não se
provava uma vitória eleitoral com este sabor?
OBSERVADOR, 15 abr. 2026, 00:26
1Às vezes podem faltar as palavras
mais adequadas para descrever tudo o que uma vitória pode conter de
significativo apesar dos seus tão eloquentíssimos resultados, como no domingo
na Hungria. O que
não faltou porém foi o que – num turbilhão de votos, surpresa,
expectativas, esperanças que se achavam ampliadas, e números arrasadores em
zonas menos prováveis – esta
vitória também trouxe: o audível
alívio daquela parte do mundo também implicada no
que seria a resposta das urnas ao que estava em
jogo. Tamanhas
poderiam vir ser em diferentes geografias as consequências políticas do colocar
um pedaço de papel numa urna húngara.
2Dir-se-á que é sempre assim – eleger
causa efeitos e tem consequências – mas não, não é. Há graus de relevância e aqui conhecia-se bem demais
o grau para se temer por ele. Talvez por isso o resultado tenha
sido, antes do mais, claríssimo e fortíssimo: não à
Rússia, sim à Europa. E
para além disso que é (quase) tudo, mostrou o melhor entendimento do uso da
política: a força da própria vontade política e
o poder de decisão de um povo que se quis encarregar do seu destino -e
encarregou. Vão
ser precisas iguais vontades para produzir e gerir a digamos, “mudança”, não sendo porém exactamente de uma mudança radical de que aqui se
irá tratar: antes da afinação dos ponteiros de certos
relógios políticos e da alteração dos pontos cardinais que o significado da
derrota de Orban pressupõe e exige. Começar a lidar com uma situação
evidentemente ainda difusa e complexa e onde tantos interesses antagónicos se
misturam e conflituam não será empreitada fácil. Não devem
ser poucos os chefes de Estado ou de governo, partidos, economistas, analistas,
geoestrategas, que estão a “olhar” para isto, desde domingo. Já
estavam, mas a amplitude quase brutal da barragem a Orban
tornou-lhes fatalmente o olhar ainda mais atento ao como agir daqui em diante. Pouco
importa, o mais difícil ficou feito, glória ao voto da Hungria.
3Por mim fico com uma vitória que
também é comigo – em mais que um plano, de resto – perante a qual estava aliás
algo céptica. Como a direita é sempre
pessimista em política, limitava-me a ir discutindo com amigos, felizmente mais
inteligentes ou mais optimistas. Ganhámos todos – cépticos e convictos –
através da vontade política dos húngaros.
Há
quanto tempo é que eu não provava uma vitória eleitoral com este sabor?
4Às vezes o espectáculo
televisivo do notável aumento de comentadores em política externa, diplomacia,
relações internacionais e tutti quanti faz-me
lembrar a pandemia. Onde incontáveis especialistas
em vírus relacionados com o flagelo se sucediam em velocidade alta. Claro que a
informação é o supremo papel e o nobre encargo de uma televisão mas… nem
todos os que ouvíamos sabiam do que falavam.
A
comparação surgirá como deslocada mas agora, sobre o estado das coisas no Médio
Oriente, também pode ocorrer o mesmo por entre o enxame dos especialistas
convocados a opinar sobre as guerras que há, e a paz que não há.
Toda a gente perceberá o que estou a dizer, ou seja que há confusões que não se podem fazer, insultos apenas motivados por
ódios pessoais, histórias mal aprendidas ou deficientemente apreendidas, erros
grosseiros de análise. Basta lembrar um eles e esse grosseiríssimo: a
incessante, obsessiva, obrigatória, confusão amalgamada de Trump com a América
com tudo o que daí advém de entorse analítica. Uma coisa
não é a outra. Mas aqui – e em muitos écrans europeus – é a mesmíssima coisa
Felizmente há honrosas excepções, algumas brilhantes e com que se
aprende e a quem não ocorreria confusões de estagiário, transacionar gato por
lebre ou expor estados de alma pessoais.
O único defeito que têm é serem menos
do que seria preciso.
5 E porque os últimos são os
primeiros também
houve confusão e ignorância no comentário nacional às palavras do Papa sobre a
inadjectivável grosseria de Trump referindo-se ao próprio Leão XIV.
Convinha lembrar uma coisa
simples: a Igreja não é de esquerda nem de direita, está noutro
plano. Acima
e para lá de uma ou de outra. E sobretudo muito distante de leituras políticas
conforme os “campos”, os “lados”, as conveniências. O Chefe
da Igreja falou a indispensabilidade da paz como sempre tem falado até aqui,
incansavelmente apelando a ela, rezando por ela. E do Evangelho, ponto de
partida e chegada.
Paz e Evangelho. Leão XIV percebeu isso muito bem: com o que disse,
porque disse e como disse. Por mim, agradeço-lhe.
HUNGRIA MUNDO TELEVISÃO MEDIA SOCIEDADE PAPA LEÃO
XIV IGREJA
CATÓLICA RELIGIÃO
COMENTÁRIOS (de 4)
Carlos Costa: É verdade minha senhora, realmente Deus não dormiu,
simplesmente a esquerdalhada desapareceu do parlamento húngaro... Um povo que sabe o que quer, agora só falta fazer o
mesmo em Portugal.
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