quarta-feira, 15 de abril de 2026

Urnas decisivas

 

Até ver, contudo. Pelo menos por cá. É só “até ver”.

 Domingo Deus não dormiu

Ganhámos todos através da vontade política dos húngaros. O mais dificil ficou feito, glória ao voto da Hungria. Mas há quanto tempo é que não se provava uma vitória eleitoral com este sabor?

MARIA JOÃO AVILLEZ

OBSERVADOR, 15 abr. 2026, 00:26

 

1Às vezes podem faltar as palavras mais adequadas para descrever tudo o que uma vitória pode conter de significativo apesar dos seus tão eloquentíssimos resultados, como no domingo na Hungria. O que não faltou porém foi o quenum turbilhão de votos, surpresa, expectativas, esperanças que se achavam ampliadas, e números arrasadores em zonas menos prováveisesta vitória também trouxe: o audível alívio daquela parte do mundo também implicada no que seria a resposta das urnas ao que estava em jogo. Tamanhas poderiam vir ser em diferentes geografias as consequências políticas do colocar um pedaço de papel numa urna húngara.

2Dir-se-á que é sempre assimeleger causa efeitos e tem consequênciasmas não, não é. Há graus de relevância e aqui conhecia-se bem demais o grau para se temer por ele. Talvez por isso o resultado tenha sido, antes do mais, claríssimo e fortíssimo: não à Rússia, sim à Europa. E para além disso que é (quase) tudo, mostrou o melhor entendimento do uso da política: a força da própria vontade política e o poder de decisão de um povo que se quis encarregar do seu destino -e encarregou. Vão ser precisas iguais vontades para produzir e gerir a digamos, mudança, não sendo porém exactamente de uma mudança radical de que aqui se irá tratar: antes da afinação dos ponteiros de certos relógios políticos e da alteração dos pontos cardinais que o significado da derrota de Orban pressupõe e exige. Começar a lidar com uma situação evidentemente ainda difusa e complexa e onde tantos interesses antagónicos se misturam e conflituam não será empreitada fácil. Não devem ser poucos os chefes de Estado ou de governo, partidos, economistas, analistas, geoestrategas, que estão a “olhar” para isto, desde domingo. Já estavam, mas a amplitude quase brutal da barragem a Orban tornou-lhes fatalmente o olhar ainda mais atento ao como agir daqui em diante. Pouco importa, o mais difícil ficou feito, glória ao voto da Hungria.

3Por mim fico com uma vitória que também é comigo – em mais que um plano, de resto – perante a qual estava aliás algo céptica. Como a direita é sempre pessimista em política, limitava-me a ir discutindo com amigos, felizmente mais inteligentes ou mais optimistas. Ganhámos todos – cépticos e convictos – através da vontade política dos húngaros.

Há quanto tempo é que eu não provava uma vitória eleitoral com este sabor?

4Às vezes o espectáculo televisivo do notável aumento de comentadores em política externa, diplomacia, relações internacionais e tutti quanti faz-me lembrar a pandemia. Onde incontáveis especialistas em vírus relacionados com o flagelo se sucediam em velocidade alta. Claro que a informação é o supremo papel e o nobre encargo de uma televisão mas… nem todos os que ouvíamos sabiam do que falavam.

A comparação surgirá como deslocada mas agora, sobre o estado das coisas no Médio Oriente, também pode ocorrer o mesmo por entre o enxame dos especialistas convocados a opinar sobre as guerras que há, e a paz que não há. Toda a gente perceberá o que estou a dizer, ou seja que há confusões que não se podem fazer, insultos apenas motivados por ódios pessoais, histórias mal aprendidas ou deficientemente apreendidas, erros grosseiros de análise. Basta lembrar um eles e esse grosseiríssimo: a incessante, obsessiva, obrigatória, confusão amalgamada de Trump com a América com tudo o que daí advém de entorse analítica. Uma coisa não é a outra. Mas aqui – e em muitos écrans europeus – é a mesmíssima coisa

Felizmente há honrosas excepções, algumas brilhantes e com que se aprende e a quem não ocorreria confusões de estagiário, transacionar gato por lebre ou expor estados de alma pessoais.

O único defeito que têm é serem menos do que seria preciso.

5 E porque os últimos são os primeiros também houve confusão e ignorância no comentário nacional às palavras do Papa sobre a inadjectivável grosseria de Trump referindo-se ao próprio Leão XIV.

Convinha lembrar uma coisa simples: a Igreja não é de esquerda nem de direita, está noutro plano. Acima e para lá de uma ou de outra. E sobretudo muito distante de leituras políticas conforme os “campos”, os “lados”, as conveniências. O Chefe da Igreja falou a indispensabilidade da paz como sempre tem falado até aqui, incansavelmente apelando a ela, rezando por ela. E do Evangelho, ponto de partida e chegada.

Paz e Evangelho. Leão XIV percebeu isso muito bem: com o que disse, porque disse e como disse. Por mim, agradeço-lhe.

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COMENTÁRIOS (de 4)

Carlos Costa: É verdade minha senhora, realmente Deus não dormiu, simplesmente a esquerdalhada desapareceu do parlamento húngaro...  Um povo que sabe o que quer, agora só falta fazer o mesmo em Portugal. 

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