terça-feira, 28 de abril de 2026

Estratégias


Dos que ajudam a Terra  a girar, segundo os seus apetites.

Trump pestanejou, ou apenas adiou o ataque?

Uma superpotência pode fazer pausas. O que não pode fazer, sem pagar um elevado preço, é parecer incapaz do passo seguinte. O Irão percebe-o. Os mercados percebem-no.

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 27 abr. 2026, 00:23

Quando toda a gente esperava bombas, Trump resolveu oferecer tempo. Em vez do fogo, avançou com o prolongamento do cessar-fogo até Teerão apresentar uma proposta e até as conversas chegarem a alguma coisa palpável que tenha frases e parágrafos. Não levantou o bloqueio, não retirou a ameaça, não desmobilizou os instrumentos de coacção. Limitou-se, para já, a trocar a moca pelo garrote. É talvez uma maneira mais polida de apertar o pescoço, mas pouco mais do que isso.

A República Islâmica declarou vitória, enfim o que qualquer tirania com pergaminhos e pretensões faz nestas ocasiõesAraghchi repetiu que o Irão não negocia sob ameaça, e outro responsável explicou que Teerão não aceita conversações conduzidas como rendição. Tudo previsível. Regimes destes vivem da fabricação contínua de aparências. Precisam de converter cada paragem alheia num triunfo próprio, nem que para isso tenham de se contorcer com a elasticidade facial que as ditaduras desenvolvem quando a realidade lhes é hostil.

Mas a propaganda é apenas a maquilhagem que a realidade usa quando tem vergonha de si. E a leitura estratégica séria raramente coincide com o teatro para consumo interno.

É muito provável que os EUA estejam simplesmente a tentar extrair concessões sem pagar o custo político, económico e militar de uma nova escalada. Se mantêm o bloqueio, conservam os meios militares prontos e avisam que a campanha pode recomeçar em breve, não estão propriamente a recuar. Estão a jogar poker para testar e engodar, vício antigo das superpotências.

É precisamente por isso que o regime, enquanto posa para a fotografia da resistência indómita, se apressa a denunciar a pressão e a insinuar armadilhas. Um conselheiro de Ghalibaf falou mesmo num possível ardil para preparar um ataque de surpresa.

Quem se sente seguro não vê ciladas em toda a parte. Quem fareja ciladas é, em regra, quem sabe que a sua posição é desconfortável.  A desafiadora exuberância verbal de Teerão não traduz portanto confiança, mas sim ansiedade.

Todavia, uma decisão racional em Washington, pode ser lida em Teerão de forma muito diferente. A pausa pode ser prudente vista do Potomac, mas também pode, aos olhos iranianos, parecer excessiva sensibilidade à dor económica. E esse é talvez o calcanhar de Aquiles da Administração Trump, o nervo mais vulnerável que a guerra expôs. O estrangulamento de Ormuz, o caos marítimo, a turbulência energética, a pressão sobre o crude, os alarmes nos mercados, compuseram a velha música que os políticos americanos mais temem ouvir quando se aproximam eleições.

No próprio dia em que Trump prolongou o cessar-fogo, forças iranianas voltaram a disparar sobre navios no Estreito e apreenderam embarcações. Teerão fez pois o favor de esclarecer o que pretende. Não apenas sobreviver, mas mostrar que continua a possuir a chave da perturbação.

Aqui a questão é mais séria. O Irão, acredite ou não que a América perdeu a vontade de combater, pode pensar, e com alguma razão, que os EUA receiam o preço de combater demasiado tempo. A diferença é subtil, mas decisiva. Uma coisa é duvidar da força do adversário; outra é confiar na sua fadiga.

Regimes como o iraniano, habituados à longa arte da chantagem, têm um faro apuradíssimo para hesitações. Farejam-nas à distância. Identificam-nas, cultivam-nas, exploram-nas. Se a Guarda Revolucionária concluir que Trump quer, acima de tudo, evitar novo choque nos combustíveis, nova pressão inflacionista,  novo desgaste interno, a tentação será endurecer posições, arrastar negociações, comprar tempo, vender fumo, e trocar a demora pela sobrevivência, porque o tempo político não corre a favor da Casa Branca. Se isso acontecer, a pausa deixa de ser um instrumento de pressão para passar a ser oxigénio administrado gratuitamente ao paciente. Uma pausa com contrapartidas visíveis pode ser inteligência estratégica. Sem resultados é apenas hesitação onerosa. E esta é, na política americana, material altamente tóxico. Corrói presidências, desmoraliza aliados, excita inimigos e produz a fatal impressão de que a força existe mas a vontade vacila.

Trump move-se, assim, entre uma vantagem táctica imediata e um risco político monumental. A vantagem é que evita, para já, uma nova vaga de bombardeamentos, preserva margem diplomática e mantém formalmente a iniciativa. O risco é parecer refém das circunstâncias. A sua actuação recente ajudou pouco a dissipar a dúvida. Primeiro anunciou que não queria prolongar o cessar-fogo; depois prolongou-o até à apresentação de uma proposta iraniana e à conclusão das conversas. Os fãs chamarão genial a esta imprevisibilidade. Os menos impressionáveis chamar-lhe-ão improviso e errância táctica.

Daí também que, entre os falcões e vários militares, cresça o argumento de que a diplomacia já rendeu o que podia render, isto é, pouco ou nada. Não faltam vozes a defender que Washington deve abandonar a fantasia de mais uma ronda de conversa civilizada com um regime que aproveita cada trégua para respirar, recompor-se e retomar a chantagem em melhores condições. A tese, reduzida ao essencial, é que a liderança iraniana está muito danificada, a cadeia de comando apresenta fracturas, a economia está debilitada, a sociedade vive sob grande tensão, logo este não é o momento de afrouxar a pressão, mas de a agravar até o regime ceder.

Do ponto de vista militar, o raciocínio é límpido. Se o adversário vacila, a pior opção é oferecer-lhe tempo para se recompor. A guerra tem uma lógica própria, que raramente recomenda pausas piedosas quando o outro lado cambaleia. Convém não sobrestimar o regime iraniano em nome da prudência. O país está com fragilidades militares, económicas e sociais severas. A guerra agrava uma situação já deteriorada, empurrando mais gente para a pobreza, aprofundando o desemprego e aproximando uma crise de sustentação. Antes desta fase já havia protestos nacionais contra a degradação económica e social, e a resposta do regime foi a resposta típica das tiranias que se agarram à vida: repressão brutal, mortos, prisões, silêncio imposto a tiro. Neste momento o regime está armado, mas não está tranquilo. Está de pé, mas menos firme do que estava. E é por isso que cada trégua lhe sabe a remédio.

A experiência americana está repleta de campanhas em que a política quis administrar a guerra em prestações, como quem compra um electrodoméstico caro, e acabou apenas por prolongar o custo sem resolver o problema. Guerras de para, arranca e recomeça, preferidas pelas democracias fatigadas, que desejam colher os benefícios da força sem pagar o preço da decisão, tendem a deixar mais ruína do que clareza.

Penso que, militarmente, o Irão fará mal em confundir pausa com impotência americana. Politicamente, Trump fará pior, se prolongar indefinidamente uma suspensão que não produza nada de tangível. Se arrancar concessões concretas, venderá esta manobra como disciplina, contenção e força. Se não conseguir nada, ficará com o pior dos mundos: uma guerra sem decisão e uma diplomacia sem frutos. E se isso acontecer, a propaganda iraniana deixará de ser mera encenação para começar a assemelhar-se a uma descrição plausível dos factos.

Uma superpotência pode fazer pausas. O que não pode fazer, sem pagar um elevado preço, é parecer incapaz do passo seguinte. O Irão percebe-o. Os mercados percebem-no. Os eleitores americanos também. Resta saber se Trump, no meio das suas coreografias de força e hesitação, ainda percebe a diferença entre suspender o golpe e perder a mão. Irão 

MÉDIO ORIENTE        MUNDO

 

COMENTÁRIOS (de 63)

José B Dias: O aqui cronista sente a falta do "smell of napalm in the morning" ... questiono-me se também ouve Wagner enquanto escreve 🤔

Nuno Pinho > Américo Silva: Eu ajudo:
Irão
Execuções extrajudiciais de manifestantes (especialmente após os protestos de 2019 e 2022)
– Tortura sistemática de detidos políticos
– Violência sexual contra manifestantes sob custódia estatal
– Detenções arbitrárias generalizadas
– Julgamentos sem garantias mínimas de defesa
– Repressão institucionalizada contra mulheres (polícia da moralidade)
– Perseguição sistemática de minorias religiosas (Bahá’ís, cristãos convertidos, sunitas)
Qualificados por missão independente do Conselho de Direitos Humanos da ONU como possíveis crimes contra a humanidade.
Rússia
– Ataques deliberados ou indiscriminados contra civis na Ucrânia
– Bombardeamento de infraestruturas civis (energia, hospitais, habitação)
– Execuções sumárias em territórios ocupados
– Deportação forçada de crianças ucranianas
– Tortura em centros de detenção em territórios ocupados
– Uso de violência sexual como instrumento de guerra
O Tribunal Penal Internacional emitiu mandado de detenção contra Vladimir Putin pela deportação ilegal de crianças
Além disso:
– Destruição massiva de áreas civis na Chechénia (Grozny)
– Ataques contra hospitais e infraestruturas civis na Síria em apoio ao regime de Assad
Documentados por missões da ONU e organizações internacionais independentes
Coreia do Norte
– Existência de campos de prisioneiros políticos com trabalho forçado
– Execuções públicas sistemáticas
– Tortura institucionalizada
– Desaparecimentos forçados
– Perseguição religiosa total
– Escravização laboral em campos penais
– Controlo absoluto da circulação interna e externa da população
A Comissão de Inquérito da ONU concluiu que estes actos constituem crimes contra a humanidade em curso

Nuno Pinho > Américo Silva

Acrescento:
- Degolação e decapitação de civis a 7 de outubro.

Sr Leão: Além do conhecimento extenso da situação que informa a comunicação, o Coronel exprime-se de uma forma literariamente brilhante.

A informação e o prazer da leitura são as duas grandes vertentes que fazem a qualidade e o sucesso de um jornal.

Maria Tubucci: Calma Sr. Coronel, tem de dar tempo ao tempo. Segundo  consta, no Irão está instaurada uma luta de poder entre 3 ou 4 facções, o D Trump está a dar-lhes tempo para se poderem aniquilar umas às outras e uma tomar o poder, para assim ter com quem negociar mais seriamente. À facção mais sanguinária o IRGC, está a deixá-los pousar para depois levarem chumbo. Uma pausa também faz bem, por exemplo, para deixar os líderes europeus com os nervos em franja, é uma pausa estratégica, pois o D Trump tem muito mais informação que qualquer um de nós ... 

miguel cardoso: Dou-lhe os parabéns, Senhor Coronel! Alguém que diga o óbvio!

Nuno Pinho > José B Dias: Anda distraído….sempre atarefado a analisar os USA/Israel e Europa….menos presente  no que toca aos podres dos estados “irmãos” unidos como “nunca”.

João Diogo: Excelente crónica, como sempre , assertivo , lúcido e bem escrita.

João Amorim: Análise perfeita.

Jose Carmo > José B Dias: O autor sente só a falta de pãezinhos quentes pela manhã e ouve o que calhar enquanto escreve, desde a betoneira das obras ali ao lado, até ao piar das gaivotas, passando por música de todos os géneros, excluindo a Internacional e o Avante Camarada Avante.

Ana DESVIGNES > José B Dias: Que comentário mais disparatado, Sr. Dias. Se quer evocar o "Apocalypse now" arranje outro pretexto. Mas para já releia o texto do cronista e deixe-se de tretas !

Jose Carmo > Américo Silva: Um crime de guerra é uma violação grave do Direito Internacional Humanitário, cometida no contexto de um conflito armado, internacional ou interno, por pessoas que participam directa ou indirectamente nesse conflito.

Jose Carmo > José B Dias: 60% de enriquecimento não é para fins civis. É para estar a algumas semanas de uma bomba nuclear 

Kindu: O Irão pode ganhar tempo, mas também lhe vai sair caro. Há aqui um factor pouco conhecido. Impossibilitado de exportar e não havendo mais capacidade de armazenamento, será preciso fechar poços de petróleo. Acontece que um poço fechado perde-se para produção, por muito tempo ou para sempre. Este factor está com certeza a ser tido em conta nas tácticas adoptadas pelos dois lados.

David Pinheiro > José B Dias: Mais um que acredita nas "fiscalizações" da AEA

adriano ribeiro: Brilhante análise. O melhor cronista sobre este tema. Espero que Trump tenha alguém que lhe diga isto.  Como em tudo na vida é o qb do sal que determina o sucesso ou o desastre.  10 a 0 a todos os analistas 

Maria Nunes: Muito bem Sr. Coronel JAR. 

Komorebi Hi: A vitória do Irão é uma falácia propagada pelos media ocidentais e pelos canais ligados ao Islão e RPC que a propósito está numa situação de graves problemas de reservas de petróleo e derivados como muitos outros países incluindo a UE. O poder no Irão poderá estar à beira de numa situação semelhante ao que sucedeu no Iraque depois da execução de Sadham, ou na Líbia com a execução de Kadhafi. O próximo passo e não outro, será a destruição das infraestruturas no Irão, provocará pulverização do poder semelhante ao que sucedeu no Iraque, há que pensar duas vezes. As duas forças militares no Irão são a Guarda Revolucionária e o Exército, só dando força ao Exército e enfraquecendo a Guarda Revolucionária será possível alterar o panorama político no Irão que não tem estrutura de governo sólida no momento. Como dizia o outro: "penso eu de que..."

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