Geralmente faltam a quem se julga poderoso. Trump tem apresentado essa
imagem exibicionista, mas o mundo conforma-se. Já Putin não precisa de se
agitar tanto, sentado na sua cadeira – não necessariamente fofa – ele mostra-se
avisadamente sorridente. Por astúcia, supõe-se. Nós, por cá, vamos lendo e comentando
todas essas práticas. Para o BEM e para o MAL, tais práticas, ao que parece. Para
que “o
mundo pule e avance”, sem desastres maiores, são necessários artifícios, mesmo
de comunicação.
O que aprender nos confrontos Papa-Trump
e Ventura-Pacheco
Desejar o fim do regime de Teerão não
implica desculpar os insultos de Trump. Tal como defender a democracia não leva
a que se queira esconder os excessos da revolução. Os fins não justificam os
meios.
JOSÉ MANUEL FERNANDES Publisher
e colunista do Observador
OBSERVADOR, 20
abr. 2026, 00:25
1Quando Donald Trump acorda de
madrugada para postar numa rede social que está preparado para destruir uma
civilização milenar não posso apenas achar que é mais um dos habituais exageros
retóricos do presidente dos Estados Unidos. E também
não posso encolher os ombros ou satisfazer-me com um sorriso amarelo quando
vejo a imagem em que ele se faz passar por Cristo descido à terra – nem preciso
sequer de ser cristão para perceber que há limites que foram ultrapassados.
Isso
não me impede de divergir radicalmente de todos os que, de forma aberta ou
encoberta, fazem por estes dias figas para que o confronto com o Irão dos ayatollahs e dos
radicais do Exército Revolucionário termine com uma derrota dos Estados Unidos
e de Israel. Eu sei de
que lado estou – e sei que o mundo ficará bem melhor no dia em que desaparecer
a ameaça que representa o regime de
Teerão com o seu fanatismo, com o seu programa nuclear, com a forma como
promoveu, organizou, armou e financiou uma constelação de organização
terroristas, com os seus métodos repressivos e sanguinários. E também sei que décadas de democracia mole e cobarde
não levaram a lado nenhum, razão pela qual não tenho achaques quando se eliminam lideranças
inteiras nem me ponho a carpir mágoas pelo “direito internacional” quando este
só tem conseguido, infelizmente, atar de pés e mãos os que acham que não basta
conviver com os tiranos e olhar para outro lado.
Vou até mais longe: ao contrário de todos os que passam dias
e dias, semanas e semanas, a “explicar” como o método Trump só pode conduzir ao
desastre, eu assumo
que não sei o suficiente para prever o desenlace desta guerra. Tal como não me
ponho a especular sobre quem está a vencer e quem está a perder: no fim veremos.
Mas tudo isto não me leva a
“compreender”, muito menos a justificar, a forma como Trump vai
sistematicamente despedaçando as regras mínimas de civilidade – e é exactamente
isso que ele faz quando usa da forma que usa a palavra, sobretudo a palavra
incontida dos posts madrugadores nas redes sociais. Eu desejar que os Estados Unidos vençam esta guerra
não é suficiente para considerar aceitáveis erupções retóricas e alegóricas que
podem até resultar em vantagens de curto prazo na campanha militar ou na mesa
das negociações, mas que degradam o espaço público no longo prazo.
Como escreveu R. R. Reno, editor da influente First Things, “desde o início da guerra contra o Irão, a
administração Trump tem-se entregue a uma retórica extrema e sanguinária. Os
seus responsáveis imaginam que estão a intimidar os inimigos da América e a
inspirar o povo americano. Estão
enganados. A sua retórica de guerra, especialmente as
declarações mais escandalosas sobre apagar
civilizações inteiras da face da Terra, degrada o povo americano e embota as
nossas consciências.” Não posso
estar mais de acordo.
2O que está em causa é a velha questão
de saber se os fins justificam os meios – sendo que aquilo que distingue uma
sociedade civilizada de outra onde vale tudo é precisamente ter muito claro que
os fins, por mais nobres que sejam, não autorizam o recurso a meios que não
respeitem qualquer proporcionalidade ou civilidade. E é aqui que podemos estabelecer um
paralelo entre o choque
Trump-Papa e
o nosso doméstico
confronto Pacheco-Ventura.
Leão XIV, como
outros papas antes dele, pronunciou-se pela Paz e contra a guerra, o que
significa que condenou esta guerra em particular. No passado outros chefes da Igreja
Católica, mesmo vistos como conservadores, caso de João
Paulo II,
fizeram o mesmo. Onde
Leão XIV foi mais directo foi nas referências que fez
a alguns dos posts incendiários de Trump, mas mesmo assim sem deixar de logo a
seguir desmentir
leituras mediáticas (e mais políticas) sobre o sentido de
algumas das suas palavras.
Num plano diferente, a forma como
durante os últimos 50 anos temos procurado em Portugal omitir, desculpar ou
mesmo justificar os episódios violentos do pós-25 de Abril derivam da ideia de
que a nobreza do objectivo final – instaurar
uma democracia – teria justificado os excessos do processo
revolucionário. Só assim se compreende que alguém como Pacheco Pereira, que não desconhecia o conteúdo do “relatório das sevícias”,
tenha achado que podia debater com André
Ventura com
“base em factos”, só que
porventura omitindo os factos relatados nesse documento maldito.
Os dados estão lá, não há forma
de os omitir, e quem duvide que leia o que escreveram nestas páginas Miguel
Pinheiro e Rui Ramos.
Foi por isso, e não por Ventura ser uma verdadeira picareta falante em debates, que
ele acabou por sair por cima daquele confronto, pois trouxe ao
conhecimento do grande público o que esse mesmo grande público desconhecia,
isto é, alguns dos detalhes mais chocantes das violências
cometidas em nome da revolução nos anos de 1974 e 1975.
Porque é que isso aconteceu,
porque é que se acreditou que era possível continuar a ignorar o que está
escrito nesse relatório maldito?
No caso de muitos dos que agora
intervieram no debate público, e de todos aqueles que procuraram que ele nunca
acontecesse, ou dos órgãos de
informação que se apressaram a chamar mentiroso a Ventura, talvez porque acreditam que se
justifica omitir a realidade para proteger o valor mais elevado da democracia.
Esses serão os bem-intencionados, mas
que cometem o erro de distorcer a verdade para proteger aqueles que
acreditavam, e ainda acreditam hoje, que os fins justificam os meios. Basta ler
o que Cunhal defendia nesse tempo – designadamente o que defendeu na famosa entrevista a Oriana Fallaci – e
perceber que a violência sempre fez parte
da natureza dos revolucionários, fossem eles jacobinos franceses, bolcheviques
russos ou comunistas portugueses. Prisões mesmo que arbitrárias, mortes
mesmo que injustas, violências mesmo que excessivas, tudo se justificava em nome do fim maior que era a revolução. É por isso que omitir os excessos de 1974/75, ou
desculpá-los, ou minimizá-los por comparação com o que fazia o regime anterior,
é desarmar as nossas defesas perante excessos semelhantes que um dia possam
reaparecer.
Da mesma forma que não devo encolher os ombros perante as diatribes
retóricas de Trump, ou justificá-los porque desejo a derrota dos ayatollahs,
também não posso manter enterrado o “relatório das sevícias” ou justificar os excessos desse período
invocando candidamente o calor do ambiente revolucionário.
Sejam quais forem as
circunstâncias, não podemos achar que tudo tem uma justificação desde que seja
feitos pelos “nossos”. E sejam quais forem as circunstâncias
temos de ter claro que na política, na revolução ou mesmo na guerra, se os
limites podem nem sempre ser os mesmos,
há uma bússola moral que deve estar sempre presente – sendo que moral não é
sinónimo de moralista.
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COMENTÁRIOS (de 7)
Maria Tubucci: Só há um pormenor que
o Sr. Jornalista JMF está a esquecer. Nas “erupções retóricas e metafóricas”, D.
Trump não está a falar para mim ou para si, está a falar para alguém que só
compreende esta linguagem. Para
falar com sanguinários tem de usar uma linguagem que eles entendam, está a
falar para aniquiladores de civilizações milenares, quando o Islão entra,
qualquer civilização milenar vai à vida, os persas que o digam. Vai ter de ir ler
Oriana Fallaci outra vez, mas com outros olhos, A raiva e o orgulho, pág.
84/85:
”O
desaparecimento da nossa liberdade e da nossa civilização. O aniquilamento do nosso modo de viver e de morrer. Do
nosso modo de orar e de não orar, de estudar e de não estudar, de beber e de
não beber, de vestir ou de não vestir. Não compreendeis ou não quereis compreender
que, se ficarmos inertes, se não nos defendermos, se não combatermos, a Jihad
vencerá. E destruirá o mundo que bem ou mal conseguimos construir, transformar,
melhorar e tornar um pouco melhor e um pouco mais inteligente, isto é, menos
beato ou até não beato. Destruirá a nossa cultura, a nossa arte, a nossa
ciência, a nossa moral, os nossos valores, os nossos prazeres.” Sim, para derrotar aniquiladores de civilizações, os
meios justificam os fins... António
Araujo: Vivi o
PREC nos meus 20 anos. Li e ouvi falar dos muitos casos que sucederam. Quando
ao longo destes 50 anos falava deles, não tinha mais nada a fundamentar, senão
o "disse que disse". Finalmente,
e graças a PP ter desafiado AV, divulgou-se o documento que esteve tantos anos
no segredo dos deuses. Fico grato a PP pelo desafio e a AV pela divulgação do
documento. Todos os que como eu viveram esse período sentir-se-ão mais
aliviados. Afinal, infelizmente foi verdade.
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