E CONTAR. Aprendíamos na infância, com as primeiras letras. Ou talvez
mais com as segundas. A leitura era – é – fundamental, além das experiências
vividas. A criatividade também, com a componente imaginação: para contar –
narrar, poetar, dramatizar, escrever, enfim – criando felicidade.
Há os que preferem os números. Ou as ciências várias. Há quem se
contente com as formas de ganhar dinheiro, as mais rentáveis, mesmo sem grandes
escritas. Alguns dos que narram – ou poetam ou dramatizam - também são bafejados
por tais formas. Para tudo se quer sorte. E saber. Mas os – escritores - que
ficam impressos, quanta fonte de prazer proporcionam, tornando a vida dos
outros – além da própria, naturalmente – mais feliz. A todos esses ficamos
gratos. Gratos, ficamos, pois, a DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA, se continuar a escrever.
Para alegria – saúde - dela e nossa.
Todos os dias
Viver torna-se
mais duro, se não sou capaz de escrever. Não ser capaz de escrever é análogo a
estar doente.
DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA Escritora
OBSERVADOR, 17 abr. 2026, 00:20
“Primeiro,
entende o que funciona para ti”, aconselhava Toni
Morrison aos alunos de escrita: percebe
se a manhã é mais propícia para escrever, ou se preferes escrever durante a
tarde, ou de noite. Se escreves
melhor deitada, sentada à mesa, ou no chão, à janela, ou virada para a parede,
com luz natural ou artificial. Escrever implica que conheçamos o que funciona
para nós. Convém à escrita frequente o ritual e a repetição.
Primeiro é difícil, a disciplina
requer esforço. Quando se torna
segunda natureza, difícil é viver sem essa respiração contínua. Se
por alguma razão a rotina é impedida, por causas práticas ou biológicas, quando
se atravessa um bloqueio, seja espiritual, mental, físico ou outro, alguma
coisa fica em suspenso e agoniza.
Desde que escrevo e publico, já
atravessei vários períodos de silêncio, em que vou aprendendo a lidar com a
vida sem a escrita. Viver torna-se mais duro, se não sou capaz de
escrever. Não ser capaz de escrever
é análogo a estar doente. Vou contemplando este modo de viver, em que
alguma coisa escreve em mim, tornado esse o meu modo de me relacionar comigo e
com os outros. Experimento as dores do
ofício, os perigos da atenção excessiva às palavras, o gradual desajustamento
em relação às coisas. Por
vezes, quase a dormir, as frases do dia ainda me atravessam o espírito, como
cometas. Quero a cabeça vazia, mas estou tomada por um universo imperioso e
autoritário.
Penso nesta vida, pouco mais que inútil, e nas pessoas que criei e me
acompanham. Vieram mais ao meu mundo
pessoal do que ao mundo dos outros. Sou eu que tenho saudades delas. É a mim
que me fazem companhia. A estação da
escrita de um livro é torrencial e quase sempre breve. A etapa das revisões
infinitas só termina quando as palavras já não querem dizer nada e se tornaram
som, ou brincadeira, obscenidade.
Quando imaginei que gostava de ser escritora, desde muito cedo, nutria
a fantasia de uma ocupação que envelhecesse bem, como certos vinhos e certos
nomes próprios. Vejo agora que a parte
mais difícil é precisamente envelhecer. Escreve-se contra o silêncio, contra a
indiferença, contra as forças contrárias.
Felizmente, cada vez são mais
raros e mais puros os momentos em que estou realmente a escrever e não a
rabiscar. Cada vez é mais raro e intenso quando me sinto num canal
transparente no fundo do mar. Ou a ser atravessada por dentro por água que me
lava.
Penso que crio pessoas que não existem
para partilhar com elas a alegria da descoberta desta maneira de ser feliz. É
também com elas que vou vivendo a minha vida.
Algumas pessoas parecem adaptar-se, com facilidade espantosa, à
realidade circundante. O presente cabe-lhes como uma luva. Não parece haver
atrito entre o que são e o modo como o mundo e a vida em sociedade se
organizam. Falam a mesma língua que falam as coisas à nossa volta. Outras pessoas adaptam-se dificilmente. Estão
desarrumadas. Lutam para encontrar o sentido e encontram-no em miniaturas.
Vivem no pêndulo de achar o mundo um
lugar horrendo e a única fonte de maravilhas. Recolhem aos contentamentos da
imaginação.
Como praticar o princípio
cristão de amar o próximo como a nós mesmos num lugar tão feio? —
pergunto-me a cada passo.
Caminho
pela rua enquanto trauteio canções. Ando pela cidade à espreita da alegria.
Todos os dias alguma coisa muito pequena, ou alguma pessoa, me espanta.
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