sexta-feira, 17 de abril de 2026

LER, ESCREVER

 

E CONTAR. Aprendíamos na infância, com as primeiras letras. Ou talvez mais com as segundas. A leitura era – é – fundamental, além das experiências vividas. A criatividade também, com a componente imaginação: para contar – narrar, poetar, dramatizar, escrever, enfim – criando felicidade.

Há os que preferem os números. Ou as ciências várias. Há quem se contente com as formas de ganhar dinheiro, as mais rentáveis, mesmo sem grandes escritas. Alguns dos que narram – ou poetam ou dramatizam - também são bafejados por tais formas. Para tudo se quer sorte. E saber. Mas os – escritores - que ficam impressos, quanta fonte de prazer proporcionam, tornando a vida dos outros – além da própria, naturalmente – mais feliz. A todos esses ficamos gratos. Gratos, ficamos, pois, a DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA, se continuar a escrever. Para alegria – saúde  - dela e nossa.

 

Todos os dias

Viver torna-se mais duro, se não sou capaz de escrever. Não ser capaz de escrever é análogo a estar doente.

DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA  Escritora

OBSERVADOR, 17 abr. 2026, 00:20

 “Primeiro, entende o que funciona para ti”, aconselhava Toni Morrison aos alunos de escrita: percebe se a manhã é mais propícia para escrever, ou se preferes escrever durante a tarde, ou de noite. Se escreves melhor deitada, sentada à mesa, ou no chão, à janela, ou virada para a parede, com luz natural ou artificial. Escrever implica que conheçamos o que funciona para nós. Convém à escrita frequente o ritual e a repetição.

Primeiro é difícil, a disciplina requer esforço. Quando se torna segunda natureza, difícil é viver sem essa respiração contínua. Se por alguma razão a rotina é impedida, por causas práticas ou biológicas, quando se atravessa um bloqueio, seja espiritual, mental, físico ou outro, alguma coisa fica em suspenso e agoniza.

Desde que escrevo e publico, já atravessei vários períodos de silêncio, em que vou aprendendo a lidar com a vida sem a escrita. Viver torna-se mais duro, se não sou capaz de escrever. Não ser capaz de escrever é análogo a estar doente. Vou contemplando este modo de viver, em que alguma coisa escreve em mim, tornado esse o meu modo de me relacionar comigo e com os outros. Experimento as dores do ofício, os perigos da atenção excessiva às palavras, o gradual desajustamento em relação às coisas. Por vezes, quase a dormir, as frases do dia ainda me atravessam o espírito, como cometas. Quero a cabeça vazia, mas estou tomada por um universo imperioso e autoritário.

Penso nesta vida, pouco mais que inútil, e nas pessoas que criei e me acompanham. Vieram mais ao meu mundo pessoal do que ao mundo dos outros. Sou eu que tenho saudades delas. É a mim que me fazem companhia. A estação da escrita de um livro é torrencial e quase sempre breve. A etapa das revisões infinitas só termina quando as palavras já não querem dizer nada e se tornaram som, ou brincadeira, obscenidade.

Quando imaginei que gostava de ser escritora, desde muito cedo, nutria a fantasia de uma ocupação que envelhecesse bem, como certos vinhos e certos nomes próprios. Vejo agora que a parte mais difícil é precisamente envelhecer. Escreve-se contra o silêncio, contra a indiferença, contra as forças contrárias.

Felizmente, cada vez são mais raros e mais puros os momentos em que estou realmente a escrever e não a rabiscar. Cada vez é mais raro e intenso quando me sinto num canal transparente no fundo do mar. Ou a ser atravessada por dentro por água que me lava.
Penso que crio pessoas que não existem para partilhar com elas a alegria da descoberta desta maneira de ser feliz. É também com elas que vou vivendo a minha vida.

Algumas pessoas parecem adaptar-se, com facilidade espantosa, à realidade circundante. O presente cabe-lhes como uma luva. Não parece haver atrito entre o que são e o modo como o mundo e a vida em sociedade se organizam. Falam a mesma língua que falam as coisas à nossa volta. Outras pessoas adaptam-se dificilmente. Estão desarrumadas. Lutam para encontrar o sentido e encontram-no em miniaturas. Vivem no pêndulo de achar o mundo um lugar horrendo e a única fonte de maravilhas. Recolhem aos contentamentos da imaginação.

Como praticar o princípio cristão de amar o próximo como a nós mesmos num lugar tão feio? — pergunto-me a cada passo.

Caminho pela rua enquanto trauteio canções. Ando pela cidade à espreita da alegria. Todos os dias alguma coisa muito pequena, ou alguma pessoa, me espanta.

LITERATURA  CULTURA

 

 

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