quarta-feira, 15 de abril de 2026

Ainda bem

 

Que “Há Debates”, pesem embora os defeitos que se lhes apontem. Somos demasiado exigentes com tudo e com todos – (excepto connosco, por vezes). Os debates permitem agudeza de percepção da parte dos intervenientes, e também ajudam à nossa, de ouvintes. Não temos que assistir apenas a programas recreativos, e as temáticas referentes ao nosso mundo são importantes no despertar de interesses, intelectuais, culturais ou menos e implicam o convívio de leituras, o que é importante na marcha de um povo.


Os meus presos são melhores que os teus

O debate não tinha como correr bem. Não correu, mas também provou uma coisa: se é a televisão que obriga Pacheco Pereira a dizer meias-verdades, porque é que a desculpa não serve também para Ventura?

CARLOS MARIA BOBONE Escritor e cronista

OBSERVADOR, 15 abr. 2026, 00:23

A ideia, já de si, era de uma estupidez sem nome. Para todos. Dois homens que se detestam a empunhar espadas como se quisessem ferir-se, quando afinal as pousam involuntariamente sobre os ombros, para se armarem cavaleiros diante das hostes contrárias. Ninguém sai bem diante de quem queria, os dois saem mal perante os de sempre, legitimam o adversário, e o debate foi tão deprimente quanto se podia esperar.

Não quer isto dizer, no entanto, que os males fiquem salomonicamente repartidos. Do ponto de vista político, o que um e outro fizeram é de ordem muito diferente. O primeiro erro de Ventura foi achar-se pequeno. Friamente, Pacheco Pereira foi presidente de um grupo  parlamentar (como, sei lá, Ferraz de Abreu), presidente da Distrital de Lisboa do PSD e cabeça de lista por Aveiro numas legislativas: não estamos a ver o chefe do segundo partido mais votado do país a discutir em directo com Ângelo Pereira ou Carlos Candal. Como historiador, tem uma biografia de Cunhal que se descontrolou, em que abdicou de fazer o papel de historiador propriamente dito, de selecção e análise de fontes, para despejar arquivos em vários volumes, e sobretudo uma grande insistência no seu próprio valor intelectual, provado pela quantidade de vezes que desespera por viver entre bárbaros e ignorantes.

Ventura não esteve a discutir com o Herculano, como ele próprio parecia temer; esteve a discutir com um político de média dimensão, um cronista de média dimensão e um historiador de média dimensão, que por vezes parece mais alto, quando as bolas deste malabarismo são atiradas ao ar e estão no cume da trajectória.

O que Pacheco Pereira fez, porém, foi diferente. Acreditemos na sinceridade da sua indignação com o discurso de Ventura, e na raiva que a certeza tantas vezes provoca, diante dos erros proferidos como verdades. O que é que lhe passou pela cabeça a seguir? Elencar esses erros e esclarecê-los, como um historiador? Isso era o que aconteceria se estivesse mesmo importado com os erros. Se o que lhe interessasse fossem os pobres deslumbrados com as mentiras de Ventura, escolhia um método que permitisse destruí-las sistematicamente, sem interrupções, circunlóquios confusos e mudanças abruptas de assunto. Escrevia um artigo, subia a um palanque, ia gritar para o Cais do Sodré, qualquer coisa; porquê um debate, numa televisão, com tempo limitado, num formato que claramente não permite conversas sérias sobre nada? Pensou que ia esmagar Ventura? Que chegava ao fim e este, siderado com a sabedoria do grilo falante da democracia, murmurava “peço desculpa, enganei-me”?

É óbvio que não pensava nada disto, e seria muito ingénuo se pensasse, pomposamente, que “a verdade prevaleceria” num debate com aquele formato. A Pacheco Pereira não interessava esclarecer nada; interessava aparecer, garantir que nos livros de história que imagina que se escreverão sobre este tempo sombrio aparece a história de um herói que resistiu, sozinho num estúdio de televisão, à marcha avassaladora do obscurantismo. Queria ter o seu momento de Unamuno diante do General Millán-Astray, e para isso qualquer assunto servia. Pacheco Pereira apareceu. Pronto. Missão cumprida, e está no seu direito. Não façamos é deste o debate do herói contra o vilão, do historiador contra o ignorante, e da verdade contra a mentira. Foi simplesmente o debate entre dois políticos, que gostam de aparecer e viram nisto a oportunidade de esculpirem mais um bocadinho da sua imagem. Um fá-lo mais discretamente do que o outro, mas é o que os dois fazem há muito tempo.

O debate

Há um lado redentor em assistir a uma luta tão rasteira, tão mesquinha e tão pobre. Comecemos por tomar Pacheco Pereira como ele quer ser tomado. Como um homem honesto intelectualmente, profundo, estudioso, como um Catão da nossa coisa pública. A verdade é que esse Catão não pareceu assim tão diferente de André Ventura. Talvez tenha gritado menos e composto umas caretas mais indignadas mas menos teatrais, mas não foi por falta de tentativa. Foi simplesmente porque Ventura faz tudo isso melhor. Sim, já todos conhecemos a frase do porco e da lama, mais a do idiota, mas Pacheco Pereira não pareceu deslocado naquele ambiente, pareceu apenas menos competente. Também gritou, também lançou uma série de verdades incompletas e outras tantas mais sonoras do que verdadeiras. Podemos dizer que a televisão força as pessoas a isso: que se alguém cumpre a regra básica do diálogo, de deixar o outro falar para poder responder, o tempo de antena acaba antes de poder dizer alguma coisa; não há tempo para explicar o contexto das coisas, para o raciocínio, para a subtileza. Pacheco Pereira não teve tempo para explicar porque é que não considera as Brigadas Revolucionárias uma organização terrorista, para pôr as devidas ressalvas no número de presos pela PIDE e explicar com mais clareza a diferença entre prisioneiros de guerra e presos políticos, ou para admitir a possibilidade de a comparação entre os presos de um ano e os presos de 48 vão favorecer necessariamente quem prendeu mais em menos tempo (e perdeu o poder antes de sabermos se continuaria a prender). De certeza que queria ter tudo isto muito claro, em nome da probidade intelectual. De certeza. Absoluta.

A televisão, no entanto, não o permite. Nós sabemos, e não pomos em causa a honestidade de Pacheco Pereira. É claro que ele está convencido do que está a dizer, tem muito boas razões para isso e, mesmo nas afirmações mais duvidosas ou incompletas, não está a mentir: está a dar a informação da forma sintética e trapalhona que um debate permite.

A boa notícia é que esta benevolência talvez possa valer também para Ventura. Toda a gente é demagoga, toda a gente é imprecisa, naquele ambiente. Muito mais será quem, para dizer o que quer, precisa de questionar pressupostos muito mais sedimentados na opinião pública. Admitamos que Pacheco Pereira é muito mais inteligente, sério e sábio que Ventura; admitamos até que é tão inteligente, sério e sábio como ele próprio julga; se até ele, com estas qualidades, passado pelo crivo da televisão, aparece a proferir teses altamente contestáveis, em frases sobre as quais toda a gente pode dizer “isto não é bem assim”, quão pior será com Ventura? Porque será ele o único privado do salvo-conduto do contexto?

Desde o aparecimento do Chega que se fala constantemente do aproveitamento político que André Ventura faz da televisão; esta ideia, que é verdadeira e deriva de um talento individual muito próprio para comunicar naqueles termos, esquece outra de sentido contrário. A televisão é o meio de comunicação mais situacionista que existe. Os tempos são curtos, o discurso segmentado, pelo que não há muitas hipóteses de produzir um discurso coerente que não esteja já na cabeça das pessoas. O discurso televisivo possível é aquele que produz variações mínimas sobre um discurso consensual. Na televisão, o contexto já está dado, é subentendido pelos espectadores, e tudo o que precisa de outro contexto para ser percebido parece bizarro: daí que só o centro político pareça articulável e sensato na televisão.

A descoberta de que as pessoas também gostam de ver outra coisa, de que se entretêm também com um boneco frenético e são capazes de atribuir importância política a esse espantalho zangado é uma descoberta importante, e que Ventura soube aproveitar: mas este debate lembra-nos que embora Ventura seja bom a fazer de espantalho, isso não quer dizer que aquele universo político seja incapaz de produzir um discurso coerente noutro contexto. Quer apenas dizer que o espaço do espantalho era o único disponível para este universo político.

Quanto ao debate propriamente dito, é bastante claro que ficou prejudicado por isto mesmo. A tentativa de criar artificialmente um chão comum em que se pudesse derrotar o outro fez de tudo aquilo um conjunto de imprecisões. André Ventura começou o debate a balizar as suas afirmações. Explicou que se referia apenas a Portugal continental e ilhas, não aos presos em África e, para tornar esta baliza defensável, estabeleceu uma diferença entre presos políticos e presos de guerra. Pacheco Pereira quis encurralar André Ventura com a ideia de que, se a guerra em questão era uma guerra ultramarina, entre portugueses, então os guerrilheiros eram portugueses em luta contra um regime, e por isso presos políticos; se era uma guerra colonial, lutavam então contra uma ocupação ilegal.

Ora, isto torna claro que não se trata de um debate de números, factos, verdades e mentiras; trata-se, acima de tudo, de um debate ideológico. É claro que, numa guerra de independência, o estatuto de quem luta é mais complexo do que o simples binómio “portugueses vs não-portugueses”, tal como o ataque de guerrilheiros contra explorações agrícolas (já Carl Schmitt o explicava, na sua Teoria do Partisan) é difícil de integrar entre um crime de guerra e um crime comum.

Ora, sem querer discutir ideologia, não há maneira de se sair bem desta discussão. O que é que se vai dizer? Que uns presos inocentes mereciam mais estar presos do que outros? Que todos de uma vez, em menos tempo, é melhor do que uma torneira a pingar durante vários anos? A questão dos números não é apenas absurda – distorce a realidade. O facto de haver presos políticos não afecta só os enjaulados, mas todos aqueles que sentem que podiam estar presos pela mesma razão. Toda a gente que fugiu para Espanha ou para o Brasil durante o PREC, julgando que por ser rica iria presa, entraria de facto numa cela? Provavelmente não, como muitos dos opositores ao Estado Novo não seriam tão vigiados como julgavam, mas não é esse o ponto – o ponto é que podiam ser, e isso não se traduz por números.

Da mesma maneira, quando Ventura acentua a hipocrisia das prisões pós-25 de Abril, é óbvio que não se pode comparar um período revolucionário com um período de “normalidade”. Por muito que haja de facto um lado muito perverso nas prisões pós-abril, que tem que ver com o facto de serem presas pessoas sem actividade política directa, mas apenas com actividade económica relevante (o que significa, na prática, tratar o próprio capitalismo como um crime); por muito que, no caso dos retornados e no modo como a opinião pública muitas vezes os tratou, estendendo a actividade de subsistência a uma espécie de actividade política, que faria de todos eles agentes activos do colonialismo, haja de facto um preocupante tapar de olhos por parte do regime; por muito que se possa ter enormes reservas ao modo como foi conduzido o processo das FP-25 e das Brigadas Revolucionárias, parece claro que a prisão como arma política que o governo usa foi rapidamente percebida como inaceitável no pós-25 de Abril.

O debate público está viciado por uma forma que exige formulações básicas e verificáveis, sobre as quais possamos dizer rapidamente “é verdade” ou “não é verdade”, e isto não permite discutir verdadeiramente regimes e ideologias. Apenas permite discutir as hipocrisias destes regimes e ideologias, porque a acusação de hipocrisia é a mais facilmente verificável. O regime dizia “x” mas fazia “y”, como aconteceu com o Estado Novo, com a democracia, e com qualquer ser humano. Isso nada nos diz sobre nenhum dos regimes, e impede-nos até de perceber aquilo a que estes verdadeiramente correspondem. É patético assistir à indignação da consciência moral da república quando lhe chocalham ligeiramente a vaca sagrada? Sim. Mas nada do que Ventura diz a abala de verdade. Se a grande crítica ao regime está em não ter sido democrático, podemos acabar com Ventura abraçado aos velhos capitães, a dizer teologicamente que ainda se falta “cumprir abril”. Ficam todos amigos, ninguém discute coisas sérias, e acabamos apenas a discutir, como crianças, se os meus presos são melhores que os teus.

PRESOS POLÍTICOS      POLÍTICA      ANDRÉ VENTURA      PARTIDO CHEGA      PACHECO PEREIRA      PAÍS      SOCIEDADE

 

COMENTÁRIOS (de 5)

Ricardo Ribeiro: Presos? Quais presos? Ainda por cima políticos? No período pós-25 de Abril? Como diria o Diácono Remédios, tal como o holocausto e a inquisição, isso não existiu!...ou, afinal sempre houve e não foram tão poucos como isso!  E acho, acho não,  tenho a certeza que parte da população desconhecia esse facto, principalmente as gerações mais jovens pois a história que aprenderam na escola foi outra... que foi tudo um mar de rosas e que o período pós revolucionário foi uma doçura e uma candura...foi para isso que serviu o debate, porra! Finalmente temos alguém que faz o contraponto ao discurso dominante personificado na pessoa do Pacheco Pereira em que esse discurso teve contraditório com factos reais e que muitos, que não viveram essa época, desconheciam!       Paulo Silva: De todo o arrazoado, caro cronista, o ponto é que em democracia não é suposto haver presos políticos! O PREC não foi um processo democrático. Soares dixit. Isto é chamar os bois pelos nomes. É preciso acabar com os mitos da ‘revolução democrática’. Coisa que parece não agradar aos donos do 25 de Abril e acólitos, entre os quais figura JPP. Relativamente à discussão acerca da natureza dos presos... Bom, pegando no célebre princípio de von Clausewitza guerra é a continuação da política por outros meios, podemos dizer que fazer a Guerra é fazer Política e assim transformar todos os prisioneiros de guerra em presos políticos… para satisfazer a tese demagógica do sr. estoriador. Mas no senso comum isto não colhe porque um ‘preso político’ é normalmente entendido por alguém que está preso por delito de opinião, ou por pertença a uma organização ilegalizada. Não por acção militar em teatro de guerra ou pertença a uma organização militar. Por outro lado os movimentos de libertação africanos não lutavam pela mudança do regime na metrópole. Lutavam pela secessão de um território integrante de uma unidade política maior. Como no caso da Guerra de Secessão americana dos Estados do Sul. Vamos imaginar que o PCP iniciava uma guerra pela independência do Alentejo. Os prisioneiros comunistas feitos pelo exército português seriam presos políticos ou prisioneiros de guerra?… E os prisioneiros do exército português feitos pelo exército vermelho do PCP?... Quando JPP perguntava se AV era nacionalista, apetecia perguntar: Atão, e o camarada Zé Pachoco era nacionalista?!... De que território?... Nota: para escapar a toda esta discussão podíamos fazer a pergunta. Em 1960, antes da guerra de África, quantos presos políticos o Estado Novo mantinha?… Toda a maneira, o ponto principal está lá em cima, no início do comentário.                      Ruço Cascais: As televisões e as rádios estão carregadinhas de Pachecos Pereiras que se advogam de uma intelectualidade e de um nível de discurso superior que os faz logo à partida desgostar dos debates onde joga o Ventura.  Foi o caso deste entre o Pacheco e o Ventura. Ai que horror, que debate sem jeito nenhum, gritam os milhões de comentadores e jornalistas da nossa praça, depois, todos falam do debate menos a Maria João Avilez que prefere apenas falar das virtudes de Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas e Cunhal e que acha que todos os políticos de hoje são uma pouca vergonhaDizer que não gostei do debate é uma coisa muito de esquerda, porque, entra como faca em manteiga derretida na ideia do politicamente correcto. Se alguém disser que gostou do debate fica de castigo no canto da sala por défice intelectual. Eu não gostei do debate mas acho que o Ventura é um fascista; eu não gostei do debate mas acho que o Pacheco Pereira é um comuna; eu não gostei do debate porque o Ventura grita muito; eu não gostei do debate porque o Pacheco não sabe debater; eu não gostei do debate porque... blá blá blá. Ninguém gostou mas todos viram até ao fim para depois poderem dizer que não gostaramOs comentadores e jornalistas têm a sua dose de masoquismo. Não gostam, mas não resistem ver. Talvez essa seja a razão de o debate ter tido uma audiência recorde de espectadores que não gostavam do que estavam a ver mas que não conseguiam mudar de canal.  Eu gostei do debate. Vi com gosto. Pacheco vinha cheio de livros e de confiança e pensava que ia fazer uma palestra para o seu oponente e não para um debate. De repente levou com o contraditório e começou a abanar. Ventura deu-lhe a volta e Pacheco Pereira foi-se radicalizando com o debate, e às tantas, transformou-se num Che Guevara historiador ou num Otelo das FP's 25. Deixem o raio do politicamente correcto, e digam sem receio de serem excomungados que gostaram do debate e se houvesse um debate parte II entre Ventura e Pacheco iam a correr ver novamente.                           Ana Luis da Silva: Este artigo?  Um rol ordinário (de vulgar, entenda-se) de quem tem contas a fazer com André Ventura e não teve educação que chegue para respeitar dois colossos muito acima, quer pela idade quer pela experiência, de quem debita tais palavras como uma impressora offset descontrolada… sempre a repetir o mesmo jargão de humilhar o único líder político de direita que tem carisma e que combate o sistema, enquanto os outros de direita nem o nome e o que fazem é manter o status quo! A má-língua que corrói venenosa era no passado coisa de comadres ressabiadas, mas      agora alimenta a prosa palavrosa de (alguns) articulistas que escrevem no Observador.  Medíocre.

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