Que “Há Debates”, pesem embora os defeitos que se lhes apontem. Somos
demasiado exigentes com tudo e com todos – (excepto connosco, por vezes). Os
debates permitem agudeza de percepção da parte dos intervenientes, e também
ajudam à nossa, de ouvintes. Não temos que assistir apenas a programas
recreativos, e as temáticas referentes ao nosso mundo são importantes no
despertar de interesses, intelectuais, culturais ou menos e implicam o convívio
de leituras, o que é importante na marcha de um povo.
Os meus presos são melhores que
os teus
O debate não tinha como correr bem. Não correu, mas também provou
uma coisa: se é a televisão que obriga Pacheco Pereira a dizer meias-verdades,
porque é que a desculpa não serve também para Ventura?
CARLOS MARIA BOBONE Escritor e cronista
OBSERVADOR, 15 abr. 2026, 00:23
A ideia, já de si, era de uma
estupidez sem nome. Para todos. Dois
homens que se detestam a empunhar espadas como se quisessem ferir-se, quando
afinal as pousam involuntariamente sobre os ombros, para se armarem cavaleiros
diante das hostes contrárias. Ninguém sai bem diante de quem queria,
os dois saem mal perante os de sempre, legitimam o adversário, e o debate foi
tão deprimente quanto se podia esperar.
Não quer isto dizer, no entanto,
que os males fiquem salomonicamente repartidos. Do ponto de vista político, o
que um e outro fizeram é de ordem muito diferente. O
primeiro erro de Ventura foi achar-se pequeno.
Friamente, Pacheco Pereira foi presidente de um grupo
parlamentar (como, sei lá, Ferraz de Abreu), presidente da Distrital de
Lisboa do PSD e cabeça de lista por Aveiro numas legislativas: não estamos a ver o chefe do segundo partido
mais votado do país a discutir em directo com Ângelo Pereira ou Carlos Candal.
Como historiador, tem uma biografia de Cunhal que se descontrolou, em
que abdicou de fazer o papel de historiador propriamente dito, de selecção e
análise de fontes, para despejar arquivos
em vários volumes, e sobretudo uma grande insistência no seu próprio valor intelectual, provado pela quantidade
de vezes que desespera por viver entre bárbaros e ignorantes.
Ventura
não esteve a discutir com o Herculano, como ele próprio parecia temer; esteve a discutir com um político de média dimensão, um cronista de média dimensão e um
historiador de média dimensão, que por vezes parece mais alto, quando as bolas
deste malabarismo são atiradas ao ar e estão no cume da trajectória.
O que Pacheco
Pereira fez, porém, foi diferente. Acreditemos na sinceridade da sua
indignação com o discurso de Ventura, e na raiva que a certeza tantas vezes
provoca, diante dos erros proferidos como verdades. O que é
que lhe passou pela cabeça a seguir? Elencar esses erros e esclarecê-los, como
um historiador? Isso
era o que aconteceria se estivesse mesmo importado com os erros. Se o que lhe
interessasse fossem os pobres deslumbrados com as mentiras de Ventura, escolhia
um método que permitisse destruí-las sistematicamente, sem interrupções,
circunlóquios confusos e mudanças abruptas de assunto. Escrevia um artigo, subia a um
palanque, ia gritar para o Cais do Sodré, qualquer coisa; porquê um debate, numa televisão, com tempo limitado, num formato que
claramente não permite conversas sérias sobre nada? Pensou
que ia esmagar Ventura? Que chegava ao fim e este, siderado com a sabedoria do grilo falante da democracia, murmurava
“peço desculpa, enganei-me”?
É óbvio que não pensava nada disto, e seria muito ingénuo se pensasse,
pomposamente, que “a verdade prevaleceria” num debate com aquele formato. A Pacheco
Pereira não
interessava esclarecer nada; interessava aparecer, garantir que nos livros de
história que imagina que se escreverão sobre este tempo sombrio aparece a história
de um herói que resistiu, sozinho num estúdio de televisão, à marcha
avassaladora do obscurantismo. Queria ter o seu momento de Unamuno diante do General Millán-Astray,
e para isso qualquer assunto servia. Pacheco Pereira apareceu. Pronto. Missão cumprida,
e está no seu direito. Não façamos é deste o debate do herói contra o vilão,
do historiador contra o ignorante, e da verdade contra a mentira. Foi simplesmente o debate
entre dois políticos, que gostam de aparecer e viram nisto a oportunidade de esculpirem
mais um bocadinho da sua imagem. Um fá-lo mais discretamente do que o outro, mas é o que os dois fazem
há muito tempo.
O debate
Há um lado redentor em assistir a uma luta tão rasteira, tão mesquinha e
tão pobre. Comecemos por tomar Pacheco Pereira como ele quer ser tomado. Como um
homem honesto intelectualmente, profundo, estudioso, como um Catão da nossa
coisa pública.
A verdade é que esse Catão não pareceu assim tão diferente de André Ventura. Talvez tenha gritado menos e composto umas caretas mais indignadas mas
menos teatrais, mas não foi por falta de tentativa. Foi
simplesmente porque Ventura faz tudo isso melhor.
Sim, já todos conhecemos a frase do porco e da lama, mais a do idiota, mas
Pacheco Pereira não pareceu deslocado naquele ambiente, pareceu apenas menos competente. Também
gritou, também lançou uma série de verdades incompletas e outras tantas mais
sonoras do que verdadeiras. Podemos dizer que a televisão força
as pessoas a isso: que se alguém cumpre a regra básica do diálogo, de deixar o
outro falar para poder responder, o tempo de antena acaba antes de poder dizer
alguma coisa; não há tempo para explicar o contexto das coisas, para o
raciocínio, para a subtileza. Pacheco
Pereira não teve tempo para explicar porque é que não considera as Brigadas
Revolucionárias uma organização terrorista, para pôr as devidas ressalvas no
número de presos pela PIDE e explicar com mais clareza a diferença entre
prisioneiros de guerra e presos políticos, ou para admitir a possibilidade de a
comparação entre os presos de um ano e os presos de 48 vão favorecer
necessariamente quem prendeu mais em menos tempo (e perdeu o poder antes de
sabermos se continuaria a prender). De certeza que queria ter tudo isto muito
claro, em nome da probidade intelectual. De certeza. Absoluta.
A televisão, no entanto, não o
permite. Nós
sabemos, e não pomos em causa a honestidade de Pacheco Pereira. É claro que ele
está convencido do que está a dizer, tem muito boas razões para isso e, mesmo
nas afirmações mais duvidosas ou incompletas, não está a mentir: está a dar a
informação da forma sintética e trapalhona que um debate permite.
A boa notícia é que esta
benevolência talvez possa valer também para Ventura. Toda a
gente é demagoga, toda a gente é imprecisa, naquele ambiente. Muito mais será quem, para dizer o que
quer, precisa de questionar pressupostos muito mais sedimentados na opinião
pública. Admitamos que Pacheco Pereira é muito mais inteligente, sério e sábio
que Ventura; admitamos até que é tão inteligente, sério e sábio como ele
próprio julga; se até ele, com estas qualidades, passado pelo crivo da
televisão, aparece a proferir teses altamente contestáveis, em frases sobre as
quais toda a gente pode dizer “isto não é bem assim”, quão pior será com Ventura? Porque será ele o único privado do
salvo-conduto do contexto?
Desde o aparecimento do Chega que se
fala constantemente do aproveitamento político que André Ventura faz da
televisão; esta ideia, que é verdadeira e deriva de um talento individual muito
próprio para comunicar naqueles termos, esquece outra de sentido contrário. A
televisão é o meio de comunicação mais situacionista que existe. Os tempos
são curtos, o discurso segmentado, pelo que não há muitas hipóteses de produzir
um discurso coerente que não esteja já na cabeça das pessoas. O discurso
televisivo possível é aquele que produz variações mínimas sobre um discurso
consensual. Na
televisão, o contexto já está dado, é subentendido pelos espectadores, e tudo o
que precisa de outro contexto para ser percebido parece bizarro: daí que só o
centro político pareça articulável e sensato na televisão.
A descoberta de que as
pessoas também gostam de
ver outra coisa, de que se entretêm também com um boneco frenético e são
capazes de atribuir importância política a esse espantalho zangado é uma
descoberta importante, e que Ventura soube aproveitar: mas este
debate lembra-nos que embora Ventura seja bom a fazer de espantalho, isso não
quer dizer que aquele universo político seja incapaz de produzir um discurso
coerente noutro contexto. Quer apenas dizer que o espaço do espantalho era o
único disponível para este universo político.
Quanto ao debate propriamente dito, é bastante claro que ficou
prejudicado por isto mesmo. A tentativa de criar artificialmente um chão comum
em que se pudesse derrotar o outro fez de tudo aquilo um conjunto de
imprecisões. André Ventura começou o debate a balizar as suas
afirmações. Explicou que se referia apenas a Portugal continental e ilhas, não
aos presos em África e, para tornar esta baliza defensável, estabeleceu uma
diferença entre presos políticos e presos de guerra. Pacheco Pereira quis encurralar André Ventura com a
ideia de que, se a guerra em questão era uma guerra ultramarina, entre
portugueses, então os guerrilheiros eram portugueses em luta contra um regime,
e por isso presos políticos; se era uma guerra colonial, lutavam então contra
uma ocupação ilegal.
Ora, isto torna claro que não se
trata de um debate de números, factos, verdades e mentiras;
trata-se, acima de tudo, de um debate ideológico. É claro que, numa guerra de
independência, o estatuto de quem luta é mais complexo do que o simples binómio
“portugueses vs não-portugueses”, tal como o ataque de guerrilheiros contra
explorações agrícolas (já Carl Schmitt o explicava, na sua Teoria do Partisan) é difícil
de integrar entre um crime de guerra e um crime comum.
Ora, sem querer discutir ideologia, não há maneira de se sair bem desta
discussão. O que é que se vai dizer? Que uns presos inocentes mereciam mais
estar presos do que outros? Que todos de uma vez, em menos tempo, é melhor do
que uma torneira a pingar durante vários anos? A questão
dos números não é apenas absurda – distorce a realidade. O facto de haver presos políticos não
afecta só os enjaulados, mas todos aqueles que sentem que podiam estar presos
pela mesma razão. Toda a gente que fugiu para Espanha ou para o Brasil
durante o PREC, julgando que por ser rica iria presa, entraria de facto numa
cela? Provavelmente
não, como muitos dos opositores ao Estado Novo não seriam tão vigiados como
julgavam, mas não é esse o ponto – o ponto é que podiam ser, e isso não se
traduz por números.
Da mesma maneira, quando
Ventura acentua a hipocrisia das prisões pós-25 de Abril, é óbvio que não se
pode comparar um período revolucionário com um período de “normalidade”. Por muito que haja de facto um lado muito
perverso nas prisões pós-abril, que tem que ver com o facto de serem presas
pessoas sem actividade política directa, mas apenas com actividade económica
relevante (o que significa, na prática, tratar o próprio capitalismo como um
crime); por muito que, no caso dos retornados e no modo como a
opinião pública muitas vezes os tratou, estendendo a actividade de subsistência
a uma espécie de actividade política, que faria de todos eles agentes activos
do colonialismo, haja de facto um preocupante tapar de olhos por parte do
regime; por muito que se possa ter enormes reservas ao modo como foi conduzido
o processo das FP-25 e das Brigadas Revolucionárias, parece claro que a prisão
como arma política que o governo usa foi rapidamente percebida como inaceitável
no pós-25 de Abril.
O debate público está viciado
por uma forma que exige formulações básicas e verificáveis, sobre as quais
possamos dizer rapidamente “é verdade” ou
“não é verdade”, e isto não permite discutir
verdadeiramente regimes e ideologias. Apenas permite discutir as
hipocrisias destes regimes e ideologias, porque a acusação de hipocrisia é a
mais facilmente verificável. O regime dizia “x” mas fazia “y”,
como aconteceu com o Estado Novo, com a democracia, e com qualquer ser humano.
Isso nada nos diz sobre nenhum dos regimes, e impede-nos até de perceber aquilo
a que estes verdadeiramente correspondem. É patético assistir à indignação da consciência moral
da república quando lhe chocalham ligeiramente a vaca sagrada? Sim. Mas nada do
que Ventura diz a abala de verdade. Se a grande crítica ao regime está em não
ter sido democrático, podemos acabar com Ventura abraçado aos velhos capitães,
a dizer teologicamente que ainda se falta “cumprir abril”. Ficam todos amigos,
ninguém discute coisas sérias, e acabamos apenas a discutir, como crianças, se
os meus presos são melhores que os teus.
PRESOS
POLÍTICOS POLÍTICA ANDRÉ
VENTURA PARTIDO
CHEGA PACHECO
PEREIRA PAÍS SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 5)
Ricardo Ribeiro: Presos?
Quais presos? Ainda por cima políticos? No período pós-25 de Abril? Como diria
o Diácono Remédios, tal como o holocausto e a inquisição, isso não
existiu!...ou, afinal sempre houve e não foram tão poucos como isso! E
acho, acho não, tenho a certeza que parte da população desconhecia esse
facto, principalmente as gerações mais jovens pois a história que aprenderam na
escola foi outra... que foi tudo um mar de rosas e que o período pós
revolucionário foi uma doçura e uma candura...foi para isso que serviu o
debate, porra! Finalmente temos alguém que faz o contraponto ao discurso
dominante personificado na pessoa do Pacheco Pereira em que esse discurso teve
contraditório com factos reais e que muitos, que não viveram essa época,
desconheciam!
Paulo Silva: De todo o arrazoado, caro cronista, o ponto é
que em democracia não é suposto haver presos políticos! O PREC não foi um
processo democrático. Soares dixit.
Isto é chamar os bois pelos nomes. É preciso acabar com os mitos da ‘revolução
democrática’. Coisa
que parece não agradar aos donos do 25 de Abril e acólitos, entre os quais
figura JPP. Relativamente à discussão acerca da natureza dos presos... Bom,
pegando no célebre princípio de von Clausewitz, a guerra é a continuação da política
por outros meios, podemos dizer que fazer a Guerra é fazer Política e
assim transformar todos os prisioneiros de guerra em presos políticos… para
satisfazer a tese demagógica do sr. estoriador. Mas no senso comum isto não
colhe porque um ‘preso político’ é normalmente entendido por alguém que está
preso por delito de opinião, ou por pertença a uma organização ilegalizada. Não por acção militar em teatro de guerra ou pertença
a uma organização militar. Por outro lado os movimentos
de libertação africanos não lutavam pela mudança do regime na metrópole.
Lutavam pela secessão de um território integrante de uma unidade política maior. Como no caso da Guerra de Secessão americana
dos Estados do Sul. Vamos imaginar que o PCP iniciava uma guerra pela
independência do Alentejo. Os prisioneiros comunistas feitos pelo exército
português seriam presos políticos ou prisioneiros de guerra?… E os prisioneiros
do exército português feitos pelo exército vermelho do PCP?... Quando JPP
perguntava se AV era nacionalista, apetecia perguntar: Atão, e o camarada Zé Pachoco era
nacionalista?!... De que território?...
Nota: para escapar a toda esta discussão podíamos
fazer a pergunta. Em 1960, antes da guerra de África, quantos presos
políticos o Estado Novo mantinha?… Toda a maneira, o ponto principal está
lá em cima, no início do comentário. Ruço Cascais: As televisões e as rádios
estão carregadinhas de Pachecos Pereiras que se advogam de uma intelectualidade
e de um nível de discurso superior que os faz logo à partida desgostar dos
debates onde joga o Ventura. Foi o caso deste entre o Pacheco e o Ventura.
Ai que horror, que debate sem jeito nenhum, gritam os milhões de comentadores e
jornalistas da nossa praça, depois, todos falam do debate menos a Maria João
Avilez que prefere apenas falar das virtudes de Mário Soares, Sá Carneiro,
Freitas e Cunhal e que acha que todos os políticos de hoje são uma pouca
vergonha.
Dizer que não gostei do debate é uma coisa muito de esquerda, porque, entra
como faca em manteiga derretida na ideia do politicamente correcto. Se alguém
disser que gostou do debate fica de castigo no canto da sala por défice
intelectual. Eu não gostei do debate mas acho que o Ventura é um
fascista; eu não gostei do debate mas acho que o Pacheco Pereira é um comuna;
eu não gostei do debate porque o Ventura grita muito; eu não gostei do debate
porque o Pacheco não sabe debater; eu não gostei do debate porque... blá blá
blá. Ninguém gostou mas todos viram até ao fim para depois poderem dizer
que não gostaram. Os comentadores e jornalistas têm a sua dose de
masoquismo. Não gostam, mas não resistem ver. Talvez essa seja a razão de o
debate ter tido uma audiência recorde de espectadores que não gostavam do que
estavam a ver mas que não conseguiam mudar de canal. Eu gostei do
debate. Vi com gosto. Pacheco vinha cheio de livros e de confiança e
pensava que ia fazer uma palestra para o seu oponente e não para um debate. De
repente levou com o contraditório e começou a abanar. Ventura deu-lhe a volta e
Pacheco Pereira foi-se radicalizando com o debate, e às tantas, transformou-se
num Che Guevara historiador ou num Otelo das FP's 25. Deixem o raio do
politicamente correcto, e digam sem receio de serem excomungados que gostaram
do debate e se houvesse um debate parte II entre Ventura e Pacheco iam a correr
ver novamente. Ana Luis
da Silva: Este
artigo? Um rol ordinário (de vulgar, entenda-se) de quem tem contas a
fazer com André Ventura e não teve educação que chegue para respeitar dois
colossos muito acima, quer pela idade quer pela experiência, de quem debita
tais palavras como uma impressora offset
descontrolada… sempre a repetir o mesmo jargão de humilhar o único líder
político de direita que tem carisma e que combate o sistema, enquanto os outros
de direita nem o nome e o que fazem é manter o status quo! A má-língua que corrói venenosa era no passado
coisa de comadres ressabiadas, mas agora
alimenta a prosa palavrosa de (alguns) articulistas que escrevem no
Observador. Medíocre.
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