segunda-feira, 27 de abril de 2026

Uma história dourada


 

“Tínhamos uma mina de ouro em Penalva do Castelo”. O americano fantasma, o mordomo que lhe mostrou Portugal e a arte a caminho de França

 

Poucos vizinhos sabiam o que fazia, apenas que era patrão de outro filho da terra. Quando morreu, a casa passou para o mordomo, que foi apanhado quando tentava vender obras de arte a França.

MIGUEL PINHEIRO CORREIA: Texto

INÊS LACERDA:Fotografia

OBSERVADOR, 25 abr. 2026, 21:28

As pinturas amontoavam-se nas paredes, ao lado de litografias e serigrafias, por cima de esculturas e artefactos arqueológicos...

...seria o relato de qualquer museu, mas é a descrição de uma casa banal que se encaixava entre outras vivendas numa rotunda em Penalva do Castelo.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Um norte-americano chegou à vila portuguesa pela mão do mordomo, que com ele percorreu vários países.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Trouxe 278 obras de arte que escondeu nesta casa — para espanto de todos os vizinhos.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

A surpresa foi desvendada agora, já depois da morte do americano, quando o mordomo tentou vender 15 obras para França.    INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Na rua Luís de Camões, em Penalva do Castelo, ergue-se uma casa de paredes brancas com tinta gasta, o portão descascado pelo sol, as portadas das janelas fechadas e um jardim descuidado. Junto a vasos de plantas mortas, permanece um saco de comida para o cão que acompanhou o antigo dono da vivenda, um norte-americano, até este morrer na vila portuguesa. A Portugal, o estrangeiro chegou, trazido por M. L., o fiel mordomo.

Até há pouco, quem contornava a rotunda no fim da rua não sabia que a vivenda escondia uma fortuna em obras de arte, com quadros alegadamente de Pablo Picasso e de Joan Miró. “Tínhamos aqui uma mina de ouro em Penalva do Castelo sem saber”, repete incrédula uma vizinha. Tal como ela, as outras mulheres que se juntam à conversa, até à apreensão de 278 obras de arteque vão desde quadros de artistas ainda vivos a artefactos que remontam à Idade Antiga (antes de Cristo) — tampouco sabiam a nacionalidade daquele homem, a quem chamavam “espanhol”, e que viam religiosamente de manhã e ao final do dia, de trela na mão, a passear o cão.

Pouco sabiam dele. Menos ainda imaginavam o que se passava atrás da casa que o dono protegia atrás de uma vereda de árvores da altura do telhado. “A casa era um belíssimo museu, não havia nenhum metro quadrado de parede que não estivesse devidamente recheado com beleza e arte”, relata o director da PJ do Centro. Estava recheada de obras que a PJ acredita serem autênticas bem no Centro do País, num município com pouco mais de sete mil habitantes. Antes das buscas policiais, a última vez que os vizinhos tinham ouvido falar do proprietário foi quando ele morreu ao lado do cão. Há dois anos, caiu inanimado em frente ao restaurante Familiar, foi levado para o hospital e foi declarado o óbito.

A partir daí, a colecção passou a ter outro cuidador: M. L., o mordomo que correu o mundo ao lado do patrão norte-americano. Antes de olhar para a arte, o português começou por cortar as árvores que antes escondiam a casa. Mas na semana passada, em vez das carrinhas de jardinagem que estacionaram na rotunda quando o mordomo reformulou o jardim, a rua estava repleta de carros da PJ, devido a um alerta que soou quando M. L. quis ganhar algum dinheiro com aquele espólio.

As obras ainda não estavam no mercado, mas já tinham como destinatário uma conhecida casa leiloeira internacional”, como revelou ao Observador fonte da Museus e Monumentos de Portugal (MMP), entidade responsável pelo “acompanhamento da circulação internacional de bens culturais”. Neste caso, até nem houve qualquer denúncia, mas foram detectadas irregularidades na venda de 15 bens artísticos que teriam França como destino. A MMP “aprofundou a investigação interna” e acabou por notificar a PJ, que avançou rapidamente para o terreno para, além de apreender o espólio, impedir qualquer venda.

Em Penalva do Castelo, não há vizinho que não partilhe o espanto e as dúvidas — algumas das quais ainda mantidas pela investigação — sobre como foram parar obras tão valiosas a uma rua onde nada se passa. A menos de três quilómetros daquele antigo reduto de arte, separado pelo pequeno vale do Rio Dão, está M. L.. Na casa onde vive com a mulher e o filho recusa abrir a porta aos jornalistas.Saiam daqui”, responde a mulher. De uma janela, o filho esclarece apenas que “a seu tempo” falarão sobre o caso e que “por enquanto” não há nada que queiram dizer para justificar que M. L tenha sido constituído arguido. Ao mesmo tempo que a família enxota os jornalistas, o mordomo espreita pela janela, sabendo que pode estar envolvido num crime de abuso de confiança e branqueamento de capitais, segundo a PJ.

Esta polícia tem fortes indícios que o patrão do funcionário português já obteve os quadros de artistas como Pablo Picasso, Joan Miró, David Hockney, Albrecht Dürer, Pierre Bonnard ou Juan Downey de forma ilegal. Conhecendo o seu passado, os inspectores acreditam que o imigrante em Portugal poderia actuar como branqueador de capitais através destes artefactos que incluem ainda “produções artísticas e arquitetónicas realizadas no período “antes de Cristo” (a.c.), abrangendo a Pré-História e a Antiguidade. No espólio, figuram esculturas datadas entre o séc. I (a.c.) e o séc. XVIII, bem como artefactos arqueológicos dos períodos Neolítico, Greco Romano e de diversas origens, tais como a Pérsia, o Médio Oriente, a América Central e Sul, África, China e Síria”, refere a PJ.

Mordomo emigrou e conheceu um “patrão impecável” que o levou a todo o lado — até regressarem a Penalva do Castelo

Sentado no banco, Frederico Pinto descansa à sombra enquanto dois jardineiros arranjam o canteiro do seu jardim. “Eu já não dou conta do recado”. Suspira, ajeita a boina e recorda o passado com ligações a M. L. “Conheci-o há muitos anos, trabalhámos numa padaria muito antes de emigrarmos”. Assim que partiram os dois para o estrangeiro, a relação entre Frederico e o antigo colega foi-se esmorecendo, só reavivada com os ocasionais regressos a Penalva do Castelo, nas férias e nas festividades.

A dada altura, o amigo confessou ter encontrado um “patrão impecável” e passou a trabalhar apenas com ele. “Com o patrão que eu tenho, farto-me de correr nações”, chegou a dizer-lhe M. L.. Frederico sabe que M. L. era “uma espécie de mordomo”, mas nunca percebeu ao certo o que fazia, nem sequer qual era o trabalho do norte-americano que tratava muito bem o amigo.

Disse-me que correu muitas terras, mas nunca me disse o que fazia ou deixava de fazer, acho que o americano tinha negócios, só não me dizia que negócios eram”. O antigo colega, agora reformado, também não insistiu. O amigo vivia bem, estava feliz e isso bastava-lhe.

A relação entre patrão e empregado cresceu além-fronteiras e também passou por Portugal. Segundo contam alguns amigos e vizinhos ao Observador, o norte-americano já teria passado por Penalva do Castelo antes de ir para lá morar. Em alguns verões, quando M. L. voltava à terra onde cresceu, fazia-o na companhia do patrão, que terá começado a interessar-se mais pela vila. Uma das últimas moradas conhecidas pelas autoridades e pelos vizinhos antes da instalação definitiva em Portugal dos dois foi em Andorra, onde a família de M. L. também vivia com o norte-americano. Depois, “há poucos anos” — de acordo com a PJ — ou “há meia dúzia de anos” — segundo os vizinhos — mudaram-se para Penalva do Castelo.

O mordomo vivia com a família na freguesia de Castelo de Penalva (também na vila de Penalva do Castelo). O norte-americano “chegou a ver outras duas casas” perto do centro da vila, mas escolheu uma terceira na rua Luís de Camões.

 Mordomo disse a Frederico, seu antigo colega de trabalho, que tinha um "patrão impecável", mas nunca revelou o que fazia. INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Assim que o coleccionador da arte se apoderou da casa começou logo por deitar mãos à obra. “Fez uma ‘renovaçãozita’, umas pinturas, nas traseiras tinha uma grande piscina e acabou com ela, não a quis. Ele queria tudo tapado, daqui não se via nem as janelas nem nada”, aponta Frederico. Ao lado da porta resiste uma campainha branca que, segundo os vizinhos, pouco tocou enquanto o norte-americano era vivo. Além dele, só M. L. era presença constante na casa. O vizinho “estrangeiro” era reservado e a barreira da língua nunca ajudou.

Ao volante e prestes a entrar na rotunda, Amadeu Gomes lembra o americano que “não falava com ninguém” e que vivia “na sua rotina e nas coisas dele, completamente isolado”. Mas o homem não se metia com ninguém, era educado”. De casa, saía com a sua mascote e por vezes, com um pau para afastar cães intrometidos, de manhã e ao final do dia. Por vezes, os passeios chegavam a durar duas horas e tinham uma pequena paragem num minimercado a 150 metros de casa, onde fazia algumas compras.

Tirando os passeios com o cão, o acenar de cabeça para cumprimentar os vizinhos e as ocasionais idas ao mercado, o norte-americano era quase um fantasma. Ninguém sabia a que tinha dedicado a vida, nem que escondia centenas de obras de arte paredes-meias com os vizinhos. “Metia-se lá para dentro e ninguém o via, só se via na rua quando fazia aquele trajeto com o cão e dava a volta à vila. De manhã e de tarde, sempre, todos os dias, era matemático”, lembra Amadeu. “Fizesse chuva ou sol, é verdade”, acrescenta outra vizinha.

Até esta semana, o estrangeiro que respondia muitas vezes em castelhano só tinha voltado a ser tema de conversa na vila quando se soube da sua morte. No pátio de casa, três vizinhas recordam quando souberam que “morreu o espanhol”, como muitos chamavam ao norte-americano que tinha passado por Andorra.

Ele vinha ali ao pé de um restaurante que se chama Familiar, a dez minutos de casa, deu-lhe qualquer coisa e caiu no chão desamparado, parece que bateu com a cabeça”. Ainda tinha na mão a trela. Várias fontes consultadas pelo Observador confirmam que foi o próprio mordomo que tratou da cremação do norte-americano.

“Ele até estava bem de saúde”, mas com o avançar da idade terá dito ao mordomo que queria passar-lhe a casa e tudo o que a incluía, completa Frederico. “O M. L. disse-lhe que nem queria a casa, mas ele tanto teimou… Ele disse: ‘Oh M. L., se não ficas tu com a casa, quando eu morrer o Estado vem buscá-la’. Então [o mordomo] aceitou, mas ele não precisava nada, ele tem uma casa. O americano disse-lhe que podia ficar para os filhos de M. L.”, recorda, puxando a fita atrás para o momento em que o amigo, depois da morte do patrão, apareceu ali para cortar as árvores da entrada.

 Norte-americano só se cruzava com os vizinhos quando saía à rua para passear o cão

CONTINUA

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