“Tínhamos uma mina de ouro em Penalva do
Castelo”. O americano fantasma, o mordomo que lhe mostrou Portugal e a arte a
caminho de França
Poucos vizinhos sabiam o que fazia, apenas que era patrão de outro filho da terra. Quando morreu, a casa passou para o mordomo, que foi apanhado quando tentava vender obras de arte a França.
MIGUEL PINHEIRO CORREIA: Texto
OBSERVADOR, 25 abr. 2026, 21:28
As pinturas
amontoavam-se nas paredes, ao lado de litografias e serigrafias, por cima de
esculturas e artefactos arqueológicos...
...seria o relato de qualquer
museu, mas é a descrição de uma casa banal que se encaixava entre outras
vivendas numa rotunda em Penalva do Castelo.
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Um norte-americano chegou à vila
portuguesa pela mão do mordomo, que com ele percorreu vários países.
INÊS
LACERDA/OBSERVADOR
Trouxe 278 obras de arte que
escondeu nesta casa — para espanto de todos os vizinhos.
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
A surpresa
foi desvendada agora, já depois da morte do americano, quando o mordomo tentou
vender 15 obras para França. INÊS
LACERDA/OBSERVADOR
Na rua Luís
de Camões, em Penalva do Castelo, ergue-se uma
casa de paredes brancas com tinta gasta, o portão descascado pelo sol, as
portadas das janelas fechadas e um jardim descuidado. Junto a vasos de plantas mortas,
permanece um saco de comida para o cão que acompanhou o antigo dono da vivenda,
um norte-americano, até este morrer na vila portuguesa. A Portugal,
o estrangeiro chegou, trazido por M. L., o fiel mordomo.
Até há pouco,
quem contornava a rotunda no fim da rua não sabia que a vivenda escondia uma fortuna em obras de arte, com quadros alegadamente
de Pablo Picasso e de Joan Miró. “Tínhamos aqui
uma mina de ouro em Penalva do Castelo sem saber”, repete incrédula uma
vizinha. Tal como ela, as outras mulheres que se juntam à conversa, até à apreensão de 278 obras
de arte — que vão desde quadros de artistas ainda vivos a artefactos
que remontam à Idade Antiga (antes de Cristo) — tampouco sabiam a nacionalidade daquele
homem, a quem chamavam “espanhol”, e que viam religiosamente de manhã e ao
final do dia, de trela na mão, a passear o cão.
Pouco sabiam
dele. Menos ainda
imaginavam o que se passava atrás da casa que o dono protegia atrás de uma
vereda de árvores da altura do telhado. “A casa era um belíssimo museu,
não havia nenhum metro quadrado de parede que não estivesse devidamente
recheado com beleza e arte”, relata o director da PJ do Centro. Estava recheada de obras que a PJ
acredita serem autênticas bem no Centro do País, num município com pouco mais
de sete mil habitantes. Antes das buscas policiais, a última vez que os vizinhos tinham ouvido
falar do proprietário foi quando ele morreu ao lado do cão. Há dois anos, caiu inanimado em frente ao restaurante
Familiar, foi levado para o hospital e foi declarado o óbito.
A partir daí,
a colecção passou a ter outro cuidador: M. L., o mordomo que correu o mundo ao
lado do patrão norte-americano. Antes de olhar para a arte, o português começou por cortar as
árvores que antes escondiam a casa. Mas na semana
passada, em vez das carrinhas de jardinagem que
estacionaram na rotunda quando o
mordomo reformulou o jardim, a rua estava repleta de carros da PJ, devido a um
alerta que soou quando M. L. quis ganhar algum dinheiro com aquele espólio.
As obras ainda não estavam no mercado, mas já tinham como destinatário uma “conhecida casa leiloeira internacional”, como revelou ao Observador
fonte da Museus e Monumentos de
Portugal (MMP), entidade
responsável pelo “acompanhamento da circulação internacional de bens culturais”.
Neste caso, até nem houve qualquer denúncia,
mas foram detectadas irregularidades na venda de 15 bens artísticos que teriam
França como destino. A MMP
“aprofundou a investigação interna” e acabou por notificar a PJ, que avançou
rapidamente para o terreno para, além de apreender o espólio, impedir qualquer
venda.
Em Penalva do Castelo, não há vizinho que
não partilhe o espanto e as dúvidas — algumas das quais ainda mantidas pela
investigação — sobre como foram parar obras tão valiosas a uma rua onde nada se
passa. A menos de três quilómetros daquele antigo reduto de
arte, separado pelo pequeno vale do Rio Dão, está M. L.. Na casa onde vive com a mulher e o filho recusa abrir
a porta aos jornalistas. “Saiam daqui”, responde a mulher. De uma janela, o filho esclarece apenas que “a seu tempo” falarão sobre o
caso e que “por enquanto” não há nada que
queiram dizer para justificar que M. L tenha
sido constituído arguido. Ao mesmo tempo que a família enxota os jornalistas, o
mordomo espreita pela janela, sabendo que pode estar envolvido num crime de abuso de confiança e
branqueamento de capitais, segundo a PJ.
Esta polícia
tem fortes indícios que o patrão do funcionário português já obteve os quadros
de artistas como Pablo Picasso, Joan Miró, David Hockney, Albrecht Dürer, Pierre Bonnard ou
Juan Downey de forma ilegal. Conhecendo o seu passado, os inspectores acreditam que o imigrante em Portugal
poderia actuar como branqueador de capitais através destes artefactos que
incluem ainda “produções artísticas e arquitetónicas realizadas no período
“antes de Cristo” (a.c.), abrangendo a Pré-História e a Antiguidade. No espólio, figuram esculturas
datadas entre o séc. I (a.c.) e o séc. XVIII, bem como artefactos arqueológicos
dos períodos Neolítico, Greco Romano e de diversas origens, tais como a Pérsia,
o Médio Oriente, a América Central e Sul, África, China e Síria”, refere a PJ.
Mordomo emigrou e conheceu um
“patrão impecável” que o levou a todo o lado — até regressarem a Penalva do
Castelo
Sentado no banco, Frederico Pinto descansa à sombra enquanto dois jardineiros
arranjam o canteiro do seu jardim. “Eu já
não dou conta do recado”. Suspira, ajeita a boina e recorda o passado com
ligações a M. L. “Conheci-o há muitos anos, trabalhámos numa padaria muito
antes de emigrarmos”. Assim que partiram os dois para o estrangeiro, a relação
entre Frederico e o antigo colega foi-se esmorecendo, só reavivada com os
ocasionais regressos a Penalva do Castelo, nas férias e nas festividades.
A dada altura, o amigo
confessou ter encontrado um “patrão impecável” e passou a trabalhar apenas com
ele. “Com o patrão que eu tenho, farto-me de
correr nações”, chegou a dizer-lhe M. L.. Frederico sabe que M. L. era “uma espécie de mordomo”,
mas nunca percebeu ao certo o que fazia, nem sequer qual era o trabalho do
norte-americano que tratava muito bem o amigo.
“Disse-me que correu muitas terras, mas nunca me disse o que fazia ou
deixava de fazer, acho que o americano tinha negócios, só não me dizia que
negócios eram”. O antigo colega, agora
reformado, também não insistiu. O amigo vivia bem, estava feliz e isso
bastava-lhe.
A relação entre patrão e
empregado cresceu além-fronteiras e também passou por Portugal.
Segundo contam alguns amigos e vizinhos ao Observador, o norte-americano já teria
passado por Penalva do Castelo antes de ir para lá morar. Em
alguns verões, quando M. L. voltava à terra onde cresceu, fazia-o na companhia
do patrão, que terá começado a interessar-se mais pela vila. Uma das últimas
moradas conhecidas pelas autoridades e pelos vizinhos antes da instalação
definitiva em Portugal dos dois foi em Andorra, onde a família de M. L. também vivia com
o norte-americano. Depois, “há poucos anos” — de
acordo com a PJ — ou “há meia dúzia de anos” — segundo os vizinhos — mudaram-se
para Penalva do Castelo.
O mordomo vivia com a família na freguesia de Castelo
de Penalva (também na vila de Penalva do Castelo).
O norte-americano “chegou a ver outras duas casas” perto do centro da vila, mas
escolheu uma terceira na rua Luís de
Camões.
▲ Mordomo disse a Frederico, seu antigo
colega de trabalho, que tinha um "patrão impecável", mas nunca revelou
o que fazia. INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Assim que o coleccionador da arte se
apoderou da casa começou logo por deitar mãos à obra. “Fez uma ‘renovaçãozita’, umas
pinturas, nas
traseiras tinha uma grande piscina e acabou com ela, não a quis. Ele queria tudo tapado, daqui não se via nem as
janelas nem nada”, aponta Frederico. Ao lado da porta resiste uma campainha branca que, segundo os vizinhos,
pouco tocou enquanto o norte-americano era vivo. Além dele, só M. L. era
presença constante na casa. O vizinho “estrangeiro” era reservado e a barreira
da língua nunca ajudou.
Ao volante e prestes a entrar
na rotunda, Amadeu Gomes lembra o americano que “não falava com ninguém” e que
vivia “na sua rotina e nas coisas dele, completamente isolado”. “Mas o homem não se metia com ninguém, era
educado”. De casa, saía com a sua
mascote e por vezes, com um pau para afastar cães intrometidos, de manhã e ao
final do dia. Por vezes, os passeios chegavam a durar duas horas e tinham uma pequena paragem num minimercado a
150 metros de casa, onde fazia algumas compras.
Tirando os passeios com o cão, o acenar de cabeça para cumprimentar os
vizinhos e as ocasionais idas ao mercado, o
norte-americano era quase um fantasma. Ninguém sabia a que tinha dedicado a vida, nem que escondia centenas
de obras de arte paredes-meias com os vizinhos. “Metia-se lá para dentro e
ninguém o via, só se via na rua quando fazia aquele trajeto com o cão e dava a
volta à vila. De manhã e de tarde, sempre, todos os dias, era matemático”, lembra Amadeu. “Fizesse chuva ou sol, é verdade”, acrescenta outra vizinha.
Até esta semana, o estrangeiro que
respondia muitas vezes em castelhano só tinha voltado a ser tema de conversa na
vila quando se soube da sua morte. No pátio de casa, três vizinhas recordam
quando souberam que “morreu o espanhol”, como muitos chamavam ao
norte-americano que tinha passado por Andorra.
“Ele vinha ali ao pé de um restaurante que se chama Familiar, a dez
minutos de casa, deu-lhe qualquer coisa e caiu no chão desamparado, parece que
bateu com a cabeça”. Ainda tinha na mão a trela. Várias fontes consultadas
pelo Observador confirmam que foi o próprio mordomo que tratou da cremação do
norte-americano.
“Ele até estava bem de saúde”,
mas com o avançar da idade terá dito ao mordomo que queria passar-lhe a casa e
tudo o que a incluía, completa Frederico. “O M. L. disse-lhe que nem queria a
casa, mas ele tanto teimou… Ele disse: ‘Oh M. L., se não ficas tu com a casa,
quando eu morrer o Estado vem buscá-la’. Então [o mordomo] aceitou, mas ele não
precisava nada, ele tem uma casa. O americano disse-lhe que podia ficar para os
filhos de M. L.”, recorda, puxando a fita atrás para o momento em
que o amigo, depois da morte do patrão, apareceu ali para cortar as árvores da entrada.
▲ Norte-americano só se cruzava com os
vizinhos quando saía à rua para passear o cão
CONTINUA
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