quarta-feira, 1 de abril de 2026

Não se trata

 

Propriamente de esperteza saloia, mas de “esperteza tout court, isto de se deixar viciar, por conta de ausência de outros interesses pessoais e antes, da ambição de angariar fundos, por meio de acusações sobre um pretenso “vício” de responsabilidade alheia, para uma condenação mais rentável para o sujeito acusador. “Chapéus há muitos”, diria um Vasco Santana intérprete das muitas realidades deste mundo sábio.

 

Como uma jovem de 20 anos derrotou a Meta e a Google num caso de vício digital. A decisão histórica e o que vem a seguir em seis pontos

MARIANA FURTADO: Texto

Kaley viveu a adolescência no Instagram e YouTube. Agora, tribunal condenou plataformas por danos à sua saúde mental. E empresas sabiam-no: "Instagram é uma droga... Somos basicamente traficantes".

30 mar. 2026, 20:101

Índice

Quem é Kaley G. M.?

O que diz a sentença?

Que efeitos vai ter para as plataformas da Meta e Google?

Que países já limitaram o acesso às redes sociais? E em Portugal?

São as redes sociais desenhadas para serem viciantes?

Que efeitos têm as redes sociais e a sua utilização excessiva na saúde mental?

Nove dias, 44 horas de deliberações, 12 jurados. E um abalo directo nos alicerces de Silicon Valley. Depois de analisar alguns dos milhões de documentos internos revelados em tribunal, ouvir psicólogos sobre adição digital e a vida de uma adolescente, entre hesitações comunicadas à juíza e algumas lágrimas durante os testemunhos, o júri anunciou a sua decisão histórica: o Instagram e o YouTube foram criados por empresas que sabiam que eram viciantes e prejudiciais, não alertaram os utilizadores e tiveram um papel directo nos problemas de saúde mental de Kaley, a jovem que moveu a acção.

No julgamento, o advogado principal da acusação recorreu a várias metáforas. Além de comparar o Instagram e o YouTube a leões à caça de gazelas e a tortilla chips distribuídas, gratuitamente e sem limite, nos restaurantes, Mark Lanier recorreu ainda à imagem de uma colher de bicarbonato de sódio na receita de um cupcake. A intenção era demonstrar como as plataformas exerceram um efeito desproporcionado na saúde mental de Kaley, tal como uma pequena dose de pó branco pode alterar toda uma receita. (E a metáfora com pó branco, quando era uma alegação de vício que estava em causa, não foi deslocada.)

A juíza Carolyn B. Kuhl autorizou o avanço do caso com base numa abordagem jurídica inovadora: tratar as redes sociais como “produtos defeituosos” em termos de arquitectura de design e operação. Embora a responsabilidade por produtos normalmente se associe a casos como lotes contaminados de leite de fórmula para bebés, a argumentação do processo sustenta que os efeitos das redes sociais podem ser tão concretos e mensuráveis quanto os dos bens físicos. Este detalhe técnico permitiu contornar a Secção 230 da Lei de Decência nas Comunicações dos Estados Unidos.

O que é a Secção 230?

A Secção 230 integra a Lei de Decência nas Comunicações, uma lei norte-americana de 1996 que protege empresas e utilizadores de serviços online, como redes sociais. Em geral, impede que as empresas e os utilizadores sejam responsabilizados legalmente pelo que terceiros publicam nas plataformas, embora não proteja contra problemas legais relacionados com o próprio conteúdo que criam ou outras actividades não relacionadas a terceiros.

Pela sala de audiências do Tribunal Superior do Condado de Los Angeles, passou o próprio CEO da Meta, Mark Zuckerberg. Confrontado com o impacto das suas plataformas na vida da adolescente, admitiu ter revogado a proibição dos filtros de beleza no Instagram, justificando a decisão com preocupações sobre a “liberdade de expressão”. Também foi ouvido o líder do Instagram, Adam Mosseri, mas o CEO do YouTube, Neal Mohan, não foi chamado a testemunhar.

Antes do julgamento em Los Angeles, TikTok e Snapchat chegaram a acordos confidenciais com a jovem. Nos bastidores do mundo tecnológico, circulavam rumores de que os custos da disputa legal seriam impossíveis de suportar, escreveu a BBC.

“Este veredicto tem implicações que vão muito além desta sala de audiências”, afirmou Matthew Bergman, um dos advogados da queixosa e fundador do Social Media Victims Law Center, numa declaração enviada aos jornalistas e citada pela The Atlantic. Fora do tribunal, famílias que dizem que os filhos foram igualmente prejudicados pelas redes sociais celebravam, empunhando fotografias e abraçando-se.

Quem é Kaley G. M.?

Kaley G.M., identificada no processo como K.G.M. (por ter iniciado a acção judicial ainda menor), tem hoje 20 anos e vive em Chico, na Califórnia. O contacto com as redes sociais começou cedo: aos seis anos já navegava no YouTube e aos nove criou a sua primeira conta no Instagram. Ao longo do seu crescimento, essa relação tornou-se cada vez mais intensa, chegando a passar até 16 horas por dia na plataforma, movida por um receio constante de ficar de fora, o chamado FOMO (sigla em inglês de Fear Of Missing Out).

Kaley publicava centenas de fotografias, muitas delas com filtros de beleza, numa tentativa de disfarçar inseguranças que, segundo relatou, evoluíram para um quadro de dismorfia corporal. Tudo isso “afectou realmente a minha autoestima", confessou.

Índice

Quem é Kaley G. M.?

O que diz a sentença?

Que efeitos vai ter para as plataformas da Meta e Google?

Que países já limitaram o acesso às redes sociais? E em Portugal?

São as redes sociais desenhadas para serem viciantes?

Que efeitos têm as redes sociais e a sua utilização excessiva na saúde mental?

Durante o julgamento, Kaley descreveu uma infância marcada por dificuldades familiares e pelo recurso às redes sociais como forma de expressão e de fuga ao bullying na escola. Tinha apenas 3 anos quando a mãe se separou do pai, descrito como abusivo, passando a criar sozinha os três filhos, relatou o advogado Mark Lanier. Nesse contexto, publicava centenas de fotografias, muitas delas com filtros de beleza, numa tentativa de disfarçar inseguranças que, segundo relatou, evoluíram para um quadro de dismorfia corporal.

 “[Tudo isso] afectou realmente a minha autoestima”, confessou Kaley, segundo a NBC. Antes de terminar o sexto ano de escolaridade, Kaley já tinha publicado 284 vídeos no YouTube, revelou o advogado da jovem. O processo refere ainda que este padrão de utilização esteve associado ao desenvolvimento de ansiedade e depressão severas, bem como a episódios de automutilação e pensamentos suicidas.

O que diz a sentença?

A decisão do tribunal obriga a Meta e a Google (proprietária do YouTube) a pagarem um total de seis milhões de dólares (5,2 milhões de euros) em indemnizações. Metade desse valor destina-se a compensar os danos sofridos pela vítima, incluindo dor, sofrimento e impacto financeiro. O restante montante corresponde a “indemnizações punitivas” (punitive damages, figura do direito anglo-saxónico que não existe no nosso regime jurídico e que consiste numa penalização aplicada às empresas com o objectivo de sancionar a sua conduta e sinalizar um aviso ao setor).

A responsabilidade foi repartida de forma desigual: o júri atribuiu 70% da culpa à Meta e 30% à Google — diferença que reflecte o papel mais relevante do Instagram nas queixas apresentadas por Kaley, sobretudo quanto aos impactos na sua saúde mental e percepção corporal.

Embora o montante fique abaixo do valor inicialmente pedido (de mil milhões de dólares, cerca de 868 milhões de euros), a advogada Jayne Conroy sublinhou que representa uma compensação significativa para Kaley — ainda que pouco expressiva para empresas desta dimensão. O objectivo era obter uma decisão que validasse a tese preconizada pela equipa da jovem.

Fora do tribunal, uma jurada que preferiu não revelar o nome completo disse aos jornalistas, citada pela Associated Press, que o testemunho de Mark Zuckerberg, e a forma como o CEO da Meta “mudou de versão várias vezes”, não “caiu bem” entre os elementos do júri. Apesar de alguns jurados defenderem um valor mais elevado, explicou ela, a decisão final teve em conta a preocupação em não entregar de uma só vez uma quantia demasiado alta a uma única queixosaAo mesmo tempo, o júri queria deixar claro às empresas que considerava as suas práticas inaceitáveis. “Queríamos que eles [empresas] sentissem isso”, disse ela.

Que efeitos vai ter para as plataformas da Meta e Google?

Mais do que o montante fixado pelo tribunal, é o alcance da decisão que está agora em causa. “Este veredicto envia uma mensagem clara para toda uma indústria: a era de operar sem consequências terminou”, afirmou Mark Lanier, principal advogado da acusação. Sem garantias de desfechos idênticos, abre-se ainda assim caminho para mais de 3.000 acções judiciais já em curso nos Estados Unidos contra gigantes tecnológicos como a Meta, o YouTube, o TikTok e o Snap.

“O que ela [a decisão] mostra é que os tribunais estão a olhar para as plataformas digitais como agentes com impacto directo no comportamento das pessoas, sobretudo através do design dos seus sistemas”, afirma ao Observador Adolfo Mesquita Nunes, advogado com trabalho nas áreas da regulação e da Inteligência Artificial (IA), professor universitário e ex-político do CDS. “Esta decisão judicial vem criar um contexto para que as empresas percebam que têm de se preparar para conseguir documentar e explicar melhor o funcionamento dos seus sistemas.”

E o impacto nas empresas não será apenas financeiro. O julgamento colocou também sob escrutínio o próprio desenho das plataformas, com funcionalidades como o scroll infinito, a reprodução automática e as notificaçõespensadas para prolongar o usoa serem apontadas como problemáticas, sobretudo entre os mais jovens.

Em tribunal, a tese das defesas era clara: retirar o Instagram não teria, por si só, alterado o percurso da jovem. A Google questionou se o YouTube se aproxima mais de um serviço de streaming do que de uma rede social; a Meta apontou factores externos na vida de Kaley.

Índice

Quem é Kaley G. M.?

O que diz a sentença?

Que efeitos vai ter para as plataformas da Meta e Google?

Que países já limitaram o acesso às redes sociais? E em Portugal?

São as redes sociais desenhadas para serem viciantes?

Que efeitos têm as redes sociais e a sua utilização excessiva na saúde mental?

Do lado das empresas, a resposta foi imediata. Meta e Google anunciaram que vão recorrer e ambas rejeitam a ligação directa entre as plataformas e os problemas de saúde mental. Em tribunal, a tese das defesas era clara: retirar o Instagram não teria, por si só, alterado o percurso da jovem. A Google questionou se o YouTube se aproxima mais de um serviço de streaming do que de uma rede social; a Meta apontou factores externos na vida de Kaley: a sua relação conturbada com a mãe e a hospitalização da irmã mais velha devido a um distúrbio alimentar.

Durante o julgamento, dois terapeutas que acompanharam Kaley apresentaram testemunhos que relativizam o papel das redes sociais nos seus problemas, segundo a CNN. Thomas Suberman afirmou não se recordar de estas serem o “fio condutor” das principais dificuldades da jovem. Já a terapeuta Allison Pratt declarou que Kaley terá dito estar envolvida no processo porque “a mãe queria que ela participasse” e porque “poderia haver uma indemnização”, acrescentando que, ao longo das sessões, a jovem nunca referiu sentir-se viciada no Instagram.

Ao Observador, a psiquiatra Inês Homem de Melo explica que, no caso das redes sociais, é lógico que as pessoas que têm outros factores de vulnerabilidade vão estar mais sujeitas às consequências delas”.Obviamente que os advogados de defesa o vão alegar: ‘porque ela já era doente’. Mas bem-vindos ao mundo da saúde mental; é tudo multifactorial. Claro que há pessoas que são mais vulneráveis a isto do que outras por factores genéticos, ambientais, etc… Mas que elas foram desenhadas desta forma predatória, foram.”

O caso, porém, está longe de encerrado. Em breve, um novo julgamento deverá arrancar em Los Angeles. Em causa estará outro menor, identificado como R.K.C., que apresenta queixas semelhantes: dependência das plataformas digitais, associada a ansiedade, depressão, dismorfia corporal e pensamentos suicidas.

 

CONTINUA

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