quarta-feira, 29 de abril de 2026

Espanto

 

Tal liberdade crítica, relativamente a uma esquerda prestigiada desde os píncaros “abrilinos” do anti-fascismo por cá …

A esquerda e a Santinha da Ladeira

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha.

NUNO GONÇALO POÇAS,  Advogado e Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 abr. 2026, 00:23

Há um padrão na história da esquerda ocidental, e na portuguesa, em particular, que temo não possuir já qualquer remédio. É verdade que errar é humano, mas não se trata aqui de um acaso, nem sequer de uma sucessão de equívocos: é um padrão estrutural que reflecte uma certa incapacidade para distinguir o sonho da realidade, e, simultaneamente, para ver em tudo o que lhes parece pouco colaborante a maior ameaça que paira sobre o mundo, talvez mesmo antes da bomba nuclear. A esquerda nunca teve grande pejo em rotular, o que, de resto, constitui prova bastante de como a esquerda é a mais humana das correntes políticas. Se lhe agrada o personagem, o rótulo nunca é comedido; se não lhe agrada, fascista” será quanto baste. É como um carro cujo pisca-pisca só opta pela esquerda ou pela extrema-direita.

Vejamos: Reagan? Fascista. Thatcher? Fascista. Bush pai? Fascista. Bush filho? Fascista. Aznar? Fascista. Chirac? Fascista. Sarkozy? Fascista. Freitas do Amaral? Fascista. Passos Coelho? O maior fascista de todos, segundo o tempo presente. Cavaco Silva? Fascista. Portas? Fascista. De Gaulle? Fascista. Churchill? Fascista. Sá Carneiro? Fascista. Merkel? Fascista – ou nazi, que os alemães nestas coisas acumulam. Vargas Llosa? Fascista. Qualquer Primeiro-ministro israelita? Fascista. Mário Soares? Fascista amiúde. Os Papas? Tudo fascista até Francisco. Corina Machado? Fascista. Henrique Capriles? Fascista. Balsemão? Fascista. Mota Pinto? Fascista. O Observador? Alfobre de fascistas.

Ao mesmo tempo, a esquerda nunca deixou de se encantar. Com Che Guevara, com Pol Pot, com Mao, com Enver Hoxha, com Estaline, com Lenine, com Trotsky, com Fidel Castro, com Hugo Chávez, com Nicolás Maduro, com Ho Chi Minh, com Mugabe, com Ceausescu, com Ortega, com Lula. Não deixa, mesmo hoje, de se embebedar de amores pelo islamismo radical ao mesmo tempo que bate com a mão no peito pelo feminismo ou pelos direitos LGBT, sem que passe pela testa do esquerdista menos empedernido uma pinga de vergonha. Caramba, a esquerda portuguesa até por José Sócrates quase inexplicavelmente se apaixonou.

Não serão casos idênticos, nem foram todos estes, e outros, amados pelas mesmas razões, nem pelas mesmas pessoas em concreto. Não se trata de uma questão de figuras, mas de uma complacência colectiva persistente com o desastre, mesmo quando ele é pré-anunciado. Não houve, por exemplo, movimento terrorista que, sendo de esquerda ou representasse, de alguma forma, um género de luta anti-ocidental ou anti-burguês, não tivesse beneficiado do amor das encantadoras elites de esquerda. A lógica é, na verdade, sempre a mesma: uma certa justificação superior que os vulgares, eventualmente fascistas, não compreendem; existe sempre por ali uma causa maior que redime o meio, uma narrativa que suspende o julgamento.

Ora, o novo amor-perfeito da esquerda intelectual portuguesa, depois de fracassada a rota da em-pa-tia de Pedro Nuno Santos, chama-se Pedro Sánchez, a versão contemporânea do poder como fim em si mesmo, legitimado por um discurso moralmente superior. É ele quem «aponta o caminho da Europa», é ele o «herói», enfim, chega mesmo a ser uma espécie de Churchill recauchutado.

Sucede que, como já várias vozes mais avisadas e conhecedoras do que a minha (vide, Diogo Noivo, nas páginas do Diário de Notícias, ou Gonçalo Dorotea Cevada, aqui no Observador) explicaram vezes sem conta, o que se passa em Espanha não é apenas um debate ideológico, mas um problema de degradação política concreta.

O chamado “caso Koldo”, envolvendo o ex-ministro José Luis Ábalos, braço-direito de Sánchez, expôs uma alegada rede de comissões ilegais em contratos públicos, pagamentos em dinheiro, adjudicações viciadas, estruturas paralelas dentro do próprio partido, e mesmo recurso a prostitutas no contexto de redes de corrupção caucionadas pelo sanchismo. São conhecidas todas as histórias do “grupo do Peugeot” (que, afinal, era um Mercedes) ou da família directa de Sánchez, como são conhecidos os recursos a meios do Estado e do poder judicial para fazer vingar uma política simples: destruir as oposições e perpetuar no poder um homem e o seu bando de apaniguados. Sánchez não hesitou mesmo em afrontar o legado histórico do PSOE, e não apenas por uma vez, colocando em risco a unidade do Estado espanhol, a sua soberania, a independência do seu poder judicial. Ao mesmo tempo, o discurso oficial continua a invocar a sua superioridade moral, o seu feminismo militante, a sua regeneração democrática, enquanto entrega Espanha aos tentáculos chineses e coloca o país que nos é mais próximo em rota de colisão com o mundo ocidental. A contradição é perfeita: uma esquerda que se julga moralmente superior, mas que fomenta e/ou tolera práticas que corroem a confiança pública na democracia e nas instituições; uma esquerda que se apresenta como defensora das mulheres, enquanto casos internos expõem comportamentos incompatíveis com os direitos das mulheres; uma esquerda que denuncia supostos vícios dos outros, mas que convive perfeitamente com o seu lodo; e que sobrevive, no fim de contas, acenando com o perigo do fascismo que faz frente à sua pureza.

O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha, se quisermos ser mais prosaicos. Ou o seu amor maior por heróis, que prefere às ideias, como as crianças. Sánchez será um dia, como a Santa da Ladeira, repudiado. Até lá, não nos resta outro remédio que não este de aturar o seu nome elevado aos céus do esquerdismo europeu, fenómeno naturalmente suportado por gente que, não se julgando de esquerda, sabe que em Portugal é à esquerda que se vive melhor e onde se erra sem consequências.

EXTREMA ESQUERDA       POLÍTICA       FRAUDE        CRIME        SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 31)

Ricardo Ribeiro : Bom dia,  No seu excelente texto, falta só escrever sobre o papel da grande maioria da CS que, salvo honrosas excepções, está completamente alinhada com esse modus operandi esquerdoido. Portanto quando o conhecido 4°poder se alinha com a propaganda esquerdista, implica o desdobramento de " forças" do " outro lado" e não uma candura e reverência que se vê em certa direitaInfelizmente, os tempos não estão alinhados para os "moderados"...

Paulo Silva: Caro colunista Nuno Gonçalo Poças, a esquerda(lha) é a filha primogénita da Revolução. Nasceu no fervor da luta revolucionária e como tal não foi feita para o jogo democrático: não debate ideias, proclama-as (dogmas). E quem não alinhar é visto como um inimigo a eliminar, levando com anátemas em cima para começar. O ‘capitalismo’ é basicamente uma teoria da exploração para anatemizar a classe burguesa ou as classes possidentes, e o ‘antifascismo’ uma criação dos bolcheviques quando viram a revolução socialista mundial abortar, e a concorrência tomar o poder em diversos países europeus. Os primeiros foram a Itália do ex-socialista Mussolini pouco tempo após o ‘Biennio Rosso’, e a Hungria do Almirante Horthy depois do falhanço da República Soviética Húngara de Béla Kun… Vários outros estados se seguiriam. Mas a partir daí quem não alinhasse com a política dos camaradas era capciosamente rotulado de fascista pelo Komintern, tal como o autor do artigo profusamente demonstrou com exemplos mais recentes. Ao mesmo tempo a esquerda empodera todos aqueles que possam constituir a sua soldadesca de assalto ao poder… Sánchez é uma desses personagens promovidas a herói do momento para segurar o estandarte do progressismo ingénuo à frente de um exército de ‘idiotas úteis’… Mas a admiração da esquerda por ele não vem de agora com a recente actuação no palco da política internacional. O PSOE, tal como o PS, radicalizou-se e aliou-se à extrema-esquerda do ‘Podemos’ e similares com Pedro Sánchez ao leme, (todavia mais próximo dos ‘jovens turcos’ da JS que de Costa). Os casos que minam o PSOE são apenas um sintoma da mistura de corrupção com radicalismo, tal qual no PS de Sócrates e Costa. Uma esquerda que lavou o sangue dos crimes vermelhos que tinha nas mãos, surge agora de cara lavada como 'direito-humanista'… com a maior cara de pau. Mas a velha ‘superioridade moral’ com que em tempos justificou os gulags e os assassinatos políticos não desapareceu. Usa-a agora para cancelar todos aqueles que não aceitam o seu novo decálogo de pecados capitais. Quando os cancelamentos não funcionam, regressam os cocktails molotov e as balas… Só faltam os campos de re-educação e as Lubiankas. nota: acerca de intelectualidade e esquerda vide “Porque se Enganam os Intelectuais : É sempre mais fácil detectar os erros do passado do que a cegueira colectiva do presente”, Samuel Fitoussi.

Filipe Afonso: Faz lembrar aquelas seitas onde o líder é o único que sabe bem o que está a fazer e faça o que fizer, lá terá os seus seguidores e adoradores. É um case study.

Mafra FM: Curioso como o autor descreve habilmente as muitas maleitas mentais da esquerda, depois de nas presidenciais ter votado num perfeito representante desta esquerda, 'progressista', como Seguro se descreve a si próprio. Assim, tenho de concordar que o mal do intelectual português 'nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais, foi a falta de vergonha.' Até porque, como agora aprendi, 'há gente que, não se julgando de esquerda, sabe que em Portugal é à esquerda que se vive melhor e se erra sem consequências.' Obrigado pelo esclarecimento.

João Bilé Serra: Top de análise psicológica da esquerdopatia. Parabéns

Victor Goncalves: E o que faz o actual governo PS2 para sanear a cultura, a CS e a Academia deste cancro que corrompe a nossa juventude, com os programas de escolares totalmente virados à esquerda? Nada, porque são farinha do mesmo saco ! Passar nas escolas os documentários sobre o Gulag, sobre o genocídio do PolPot, no Camboja, os efeitos da " marcha em frente" e da Revolução Cultural , na China iria colocar os nossos jovens a pensar. .....em vez disso temos doutrinação constante.

Paradigmas Há Muitos! Pois. Há os ditos "idiotas úteis" que às vezes não são tão idiotas como podem parecer porque se aproveitam do seu esquerdismo de fachada nem que seja para "c o m e r   umas  g a j a s" (ver as alegadas acusações recentes ao Thiago Ávila da flopilha, mas que sendo ele um perfeito Don Juan são obviamente manobras sionistas ...).

E há os que "utilizam a idiotice" dos outros para cumprir o lema do "the issue is never the issue, the issue is always revolution". Como disse Saul Alinsky no "Rules for radicals" o que interessa em qualquer "luta" é o objectivo do "poder", tudo o resto é folclore.

Sobre os "artistas ou intelectuais progressistas" numa procura rápida no X enconrei isto de Waswo X. Waswo que é elucidativo"Se já leu "Regras para Radicais", de Saul Alinsky, entenderá muito melhor o clima político ocidental actual. Num mês é "Me Too", no seguinte "Black Lives Matter", depois "Nenhum ser humano é ilegal", depois "Palestina Livre" e agora, "ICE Out". Nenhuma dessas questões realmente importa para os organizadores, apenas o Poder. Muitos artistas seguem essas tendências com uma obediência moralista. Isso garante-lhes participação em exposições organizadas por curadores ideológicos. Mas qual é a posição do artista após a revolução? Censurado, controlado, descartado".

Já agora, sobre o Sanchez temos o pequeno grande caso da última Vuelta em 2025, uma das três grandes competições ciclistas mundiais que será seguida diariamente por milhões de espectadores. Era tempo de guerra em Gaza e participava uma equipa Israel Tech que procurava publicitar a criação de empresas de alta tecnologia em Israel. Mas o proprietário era um empresário judeu canadiano e dos ciclistas penso que só um era israelita.

Ora a "esquerda" (com as brigadas de choque dos autonomistas bascos e depois galegos) aliada a islamistas mais ou menos organizados, a pretexto da participação dessa equipa foram usando as transmissões de TV para as encherem de imagens de bandeiras da Palestina pondo até pessoas a correr com eles  ao lado de ciclistas que iam destacados para garantir efeito em primeiro plano, quer dizer tentaram transformar à força uma prova ciclista num "hapenning" político. 

E o "boicote" foi crescendo de tom, numas etapas houve cortes de estrada obrigando a interrupção momentânea da prova, noutra uns "activistas" emboscados saltaram com bandeiras para a estrada fazendo cair 2 ciclistas (que nem eram dessa equipa), numa prova de contra relógio os "activistas" tentavam impedir a passagem dos ciclistas dessa equipa. Isso tudo põe óbviamente em risco a integridade física e até a vida de atletas profissionais, para além de interferir num espectáculo perfeitamente autorizado. Mas esses casos a polícia foi resolvendo até que para a tradicional etapa final que seria a  "apoteose" em Madrid  cerca de 40 000 "activistas" invadiram as ruas das cidade, destruiram as barreiras de protecção, importunaram a Polícia e assim impediram a corrida de se realizar tendo esta sido terminada ao chegar aos subúrbios.

E isto contra a vontade de milhares de adeptos de ciclismo que quereriam ver tranquilamente a prova ao vivo e perante milhões em casa furiosos porque não podiam ver o espectáculo que queriam ver numa tarde de domingo, a ficarem ainda mais fartos de propaganda islamo-esquerdista forçada e a constatarem que em Espanha reina a anarquia quando interessa ao poder. E obviamente causando grandes prejuízos económicos pois uma prova destas envolve grandes orçamentos publicitários que não gostam de ser associados a "bagunças" e grandes investimentos, particularmente neste caso da autarquia (a região e município são do PP e por isso eram absolutamente a favor da normalidade da prova mas não podiam fazer nada).

O que fez Sanchez e ministros perante isso? Foram também subindo de tom no apoio ao boicote, já não sei os termos exactos mas se no início mostravam compreensão mas aconselhavam respeito pelas regras para o fim, num comicio do PSOE, Sanchez disse o seguinte " E queremos expressar o nosso absoluto reconhecimento e respeito pelos atletas, mas também a nossa admiração pelo povo espanhol que se mobiliza por causas justas, como a causa palestina.... “Sinto orgulho de um país que, apesar da sua diversidade, se une por uma causa justa como os direitos humanos. Viva o povo espanhol!”. Quer dizer, Sanchez não pisou o risco mas sob a capa "humanitária" deu vivas ao efectivo triunfo da anarquia e violência no seu país.

Neste artigo "Did Pedro Sánchez incite pro-Palestine protesters to stop La Vuelta cycling race?" do euronews pode ver-se os argumentos de Sanchez e da esquerda e os da oposição e o jornalista aparece "obviamente" a tomar o lado de Sanchez, ele aí também foi um "santo"!

E a tal equipa a meio da prova até mudou de equipamento para deixar de fazer alusão à bandeira de Israel mas como é evidente isso não serviu de nada, "the issue is never the issue".

O que ganharam Sanchez e os "activistas" com este boicote? Israel mudou uma virgula nos planos que tinha para Gaza ou uma bala nas que ia lá disparar? Os Gazanos beneficiaram o quê com isso? Acho que só os prejudicou, o que se viu em Espanha não foi nada de construtivo.

 

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