Tal liberdade crítica, relativamente a uma esquerda prestigiada desde
os píncaros “abrilinos” do anti-fascismo por cá …
A esquerda e a Santinha da Ladeira
O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de
informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a
falta de vergonha.
NUNO GONÇALO POÇAS, Advogado e Colunista do Observador
OBSERVADOR, 28
abr. 2026, 00:23
Há um padrão na história da esquerda ocidental, e na portuguesa, em
particular, que temo não possuir já qualquer remédio. É
verdade que errar é humano, mas não se trata aqui de um acaso, nem sequer de
uma sucessão de equívocos: é um padrão
estrutural que reflecte uma certa incapacidade para distinguir o sonho da
realidade, e, simultaneamente, para ver em tudo o que lhes parece pouco
colaborante a maior ameaça que paira sobre o mundo, talvez mesmo antes da bomba nuclear.
A esquerda nunca teve grande pejo em
rotular, o que, de resto, constitui prova bastante de como a esquerda é a mais
humana das correntes políticas. Se lhe agrada o personagem, o rótulo nunca é
comedido; se não lhe agrada, “fascista”
será quanto baste. É como um carro cujo pisca-pisca só opta pela
esquerda ou pela extrema-direita.
Vejamos: Reagan? Fascista. Thatcher? Fascista.
Bush pai? Fascista. Bush filho? Fascista. Aznar? Fascista. Chirac? Fascista.
Sarkozy? Fascista. Freitas do Amaral? Fascista. Passos Coelho? O maior fascista
de todos, segundo o tempo presente. Cavaco Silva? Fascista. Portas? Fascista.
De Gaulle? Fascista. Churchill? Fascista. Sá Carneiro? Fascista. Merkel?
Fascista – ou nazi, que os alemães nestas coisas acumulam. Vargas Llosa?
Fascista. Qualquer Primeiro-ministro israelita? Fascista. Mário Soares?
Fascista amiúde. Os Papas? Tudo fascista até Francisco. Corina Machado?
Fascista. Henrique Capriles? Fascista. Balsemão? Fascista. Mota Pinto?
Fascista. O Observador? Alfobre de fascistas.
Ao mesmo tempo, a esquerda nunca deixou de se encantar. Com
Che Guevara, com Pol Pot, com Mao, com Enver Hoxha, com Estaline, com Lenine,
com Trotsky, com Fidel Castro, com Hugo Chávez, com Nicolás Maduro, com Ho Chi
Minh, com Mugabe, com Ceausescu, com Ortega, com Lula. Não deixa, mesmo hoje, de se embebedar de amores pelo islamismo
radical ao mesmo tempo que bate com a mão no peito pelo feminismo ou pelos
direitos LGBT, sem que passe pela testa do esquerdista menos empedernido uma
pinga de vergonha. Caramba, a esquerda portuguesa até por José Sócrates
quase inexplicavelmente se apaixonou.
Não serão casos idênticos, nem foram todos estes, e outros, amados pelas
mesmas razões, nem pelas mesmas pessoas em concreto. Não se trata de uma
questão de figuras, mas de uma complacência colectiva
persistente com o desastre, mesmo quando ele é pré-anunciado. Não houve,
por exemplo, movimento terrorista que, sendo de esquerda ou representasse, de alguma forma, um género
de luta anti-ocidental ou anti-burguês, não tivesse beneficiado do amor das
encantadoras elites de esquerda. A lógica é, na verdade, sempre a
mesma: uma certa justificação
superior que os vulgares, eventualmente fascistas, não compreendem;
existe sempre por ali uma causa maior que redime o meio, uma narrativa que suspende o julgamento.
Ora, o novo amor-perfeito da esquerda intelectual portuguesa, depois de
fracassada a rota da em-pa-tia de Pedro Nuno Santos, chama-se Pedro Sánchez, a versão contemporânea do poder como fim em si mesmo, legitimado por
um discurso moralmente superior. É ele quem «aponta o
caminho da Europa», é ele o «herói», enfim, chega mesmo a ser uma espécie de
Churchill recauchutado.
Sucede que, como já várias
vozes mais avisadas e conhecedoras do que a minha (vide, Diogo Noivo, nas páginas do Diário de Notícias, ou Gonçalo Dorotea Cevada, aqui no Observador) explicaram vezes sem conta, o que se
passa em Espanha não é apenas um debate ideológico, mas um problema de
degradação política concreta.
O chamado “caso Koldo”,
envolvendo o ex-ministro José Luis
Ábalos, braço-direito de Sánchez, expôs uma alegada rede de comissões ilegais em contratos públicos,
pagamentos em dinheiro, adjudicações viciadas, estruturas paralelas dentro do próprio
partido, e mesmo recurso a prostitutas no contexto de redes de corrupção
caucionadas pelo sanchismo.
São conhecidas todas as histórias do “grupo
do Peugeot” (que, afinal, era um Mercedes)
ou da família directa de Sánchez, como
são conhecidos os recursos a meios do Estado e do poder judicial para fazer
vingar uma política simples: destruir
as oposições e perpetuar no poder um homem e o seu bando de apaniguados. Sánchez
não hesitou mesmo em afrontar o legado histórico do PSOE, e não apenas por uma
vez, colocando em risco a unidade do
Estado espanhol, a sua soberania, a independência do seu poder judicial. Ao mesmo tempo, o discurso oficial continua a invocar
a sua superioridade moral, o seu feminismo militante, a sua regeneração
democrática, enquanto entrega Espanha aos tentáculos chineses e coloca o país
que nos é mais próximo em rota de colisão com o mundo ocidental. A contradição é perfeita: uma esquerda que se julga moralmente superior, mas que
fomenta e/ou tolera práticas que corroem a confiança pública na democracia e
nas instituições; uma
esquerda que se apresenta como defensora das mulheres, enquanto casos internos
expõem comportamentos incompatíveis com os direitos das mulheres; uma esquerda
que denuncia supostos vícios dos outros, mas que convive perfeitamente com o
seu lodo; e que sobrevive, no fim de contas, acenando com o perigo do fascismo
que faz frente à sua pureza.
O problema do intelectual de
esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento
histórico, nem a ausência de sinais. Foi a
falta de vergonha, se quisermos ser mais prosaicos. Ou o seu amor maior por heróis, que
prefere às ideias, como as crianças. Sánchez será um dia, como a Santa da Ladeira, repudiado. Até lá,
não nos resta outro remédio que não este de aturar o seu nome elevado aos céus
do esquerdismo europeu, fenómeno naturalmente suportado por gente que, não se
julgando de esquerda, sabe que em
Portugal é à esquerda que se vive melhor e onde se erra sem consequências.
EXTREMA
ESQUERDA POLÍTICA FRAUDE CRIME SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 31)
Ricardo Ribeiro : Bom dia, No seu excelente texto, falta só escrever
sobre o papel da grande maioria da CS que, salvo honrosas excepções, está
completamente alinhada com esse modus operandi esquerdoido. Portanto quando o
conhecido 4°poder se alinha com a propaganda esquerdista, implica o
desdobramento de " forças" do " outro lado"
e não uma candura e reverência que se
vê em certa direita. Infelizmente, os tempos não estão alinhados
para os "moderados"...
Paulo Silva: Caro colunista Nuno Gonçalo Poças, a
esquerda(lha) é a filha primogénita da Revolução. Nasceu no fervor da luta
revolucionária e como tal não foi feita para o jogo democrático: não debate
ideias, proclama-as (dogmas). E quem não alinhar é visto como um inimigo a
eliminar, levando com anátemas em cima para começar. O ‘capitalismo’ é
basicamente uma teoria da exploração para anatemizar a classe burguesa ou as
classes possidentes, e o ‘antifascismo’ uma criação dos bolcheviques quando
viram a revolução socialista mundial abortar, e a concorrência tomar o poder em
diversos países europeus. Os primeiros foram a Itália do ex-socialista
Mussolini pouco tempo após o ‘Biennio Rosso’, e a Hungria do Almirante Horthy
depois do falhanço da República Soviética Húngara de Béla Kun… Vários outros
estados se seguiriam. Mas a partir daí quem não alinhasse com a política dos
camaradas era capciosamente rotulado de fascista pelo Komintern, tal como o
autor do artigo profusamente demonstrou com exemplos mais recentes. Ao mesmo tempo
a esquerda empodera todos aqueles que possam constituir a sua soldadesca de
assalto ao poder… Sánchez é uma desses personagens promovidas a herói do
momento para segurar o estandarte do progressismo ingénuo à frente de um
exército de ‘idiotas úteis’… Mas a admiração da esquerda por ele não vem de
agora com a recente actuação no palco da política internacional. O PSOE, tal
como o PS, radicalizou-se e aliou-se à extrema-esquerda do ‘Podemos’ e
similares com Pedro Sánchez ao leme, (todavia mais próximo dos ‘jovens turcos’
da JS que de Costa). Os casos que minam o PSOE são apenas um sintoma da mistura
de corrupção com radicalismo, tal qual no PS de Sócrates e Costa. Uma esquerda
que lavou o sangue dos crimes vermelhos que tinha nas mãos, surge agora de cara
lavada como 'direito-humanista'… com a maior cara de pau. Mas a velha
‘superioridade moral’ com que em tempos justificou os gulags e os assassinatos
políticos não desapareceu. Usa-a agora para cancelar todos aqueles que não
aceitam o seu novo decálogo de pecados capitais. Quando os cancelamentos não
funcionam, regressam os cocktails molotov e as balas… Só faltam os campos de
re-educação e as Lubiankas. nota:
acerca de intelectualidade e esquerda vide “Porque se
Enganam os Intelectuais : É sempre mais fácil detectar os erros do passado do
que a cegueira colectiva do presente”, Samuel Fitoussi.
Filipe Afonso: Faz lembrar aquelas
seitas onde o líder é o único que sabe bem o que está a fazer e faça o que
fizer, lá terá os seus seguidores e adoradores. É um case study.
Mafra FM: Curioso como o autor
descreve habilmente as muitas maleitas mentais da esquerda, depois de nas
presidenciais ter votado num perfeito representante desta esquerda,
'progressista', como Seguro se descreve a si próprio. Assim, tenho de concordar
que o mal do intelectual português 'nunca foi a falta de informação, nem o
desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais, foi a falta de vergonha.'
Até porque, como agora aprendi, 'há gente que, não se julgando de esquerda,
sabe que em Portugal é à esquerda que se vive melhor e se erra sem
consequências.' Obrigado pelo esclarecimento.
João Bilé Serra: Top de análise psicológica da esquerdopatia.
Parabéns
Victor
Goncalves: E o que faz o actual governo PS2 para sanear a
cultura, a CS e a Academia deste cancro que corrompe a nossa juventude, com os
programas de escolares totalmente virados à esquerda? Nada, porque são farinha
do mesmo saco ! Passar nas escolas os documentários sobre o Gulag, sobre o
genocídio do PolPot, no Camboja, os efeitos da " marcha em frente" e
da Revolução Cultural , na China iria colocar os nossos jovens a pensar.
.....em vez disso temos doutrinação constante.
Paradigmas Há Muitos! Pois. Há os ditos "idiotas úteis" que
às vezes não são tão idiotas como podem parecer porque se aproveitam do seu
esquerdismo de fachada nem que seja para "c o m e r umas
g a j a s" (ver as alegadas acusações recentes ao Thiago Ávila da
flopilha, mas que sendo ele um perfeito Don Juan são obviamente manobras
sionistas ...).
E há os que "utilizam a idiotice" dos
outros para cumprir o lema do "the
issue is never the issue, the issue is always revolution". Como
disse Saul Alinsky no "Rules for radicals" o que interessa em
qualquer "luta" é o objectivo do "poder", tudo o resto é
folclore.
Sobre os "artistas ou intelectuais
progressistas" numa procura rápida no X enconrei isto de Waswo X. Waswo
que é elucidativo: "Se
já leu "Regras para Radicais", de Saul Alinsky, entenderá muito
melhor o clima político ocidental actual. Num mês é "Me Too", no seguinte
"Black Lives Matter", depois "Nenhum ser humano é ilegal",
depois "Palestina Livre" e agora, "ICE Out". Nenhuma dessas
questões realmente importa para os organizadores, apenas o Poder. Muitos artistas seguem essas tendências com uma
obediência moralista. Isso garante-lhes participação em exposições organizadas
por curadores ideológicos. Mas qual é a
posição do artista após a revolução? Censurado, controlado, descartado".
Já
agora, sobre o Sanchez temos o pequeno grande caso da última Vuelta em 2025,
uma das três grandes competições ciclistas mundiais que será seguida diariamente
por milhões de espectadores. Era tempo de guerra em Gaza e participava uma equipa
Israel Tech que procurava
publicitar a criação de empresas de alta tecnologia em Israel. Mas o
proprietário era um empresário judeu canadiano e dos ciclistas penso que só um
era israelita.
Ora a "esquerda" (com as brigadas de choque
dos autonomistas bascos e depois galegos) aliada a islamistas mais ou menos
organizados, a pretexto da participação dessa equipa foram usando as
transmissões de TV para as encherem de imagens de bandeiras da Palestina pondo
até pessoas a correr com eles ao lado de ciclistas que iam destacados
para garantir efeito em primeiro plano, quer dizer tentaram transformar à força
uma prova ciclista num "hapenning" político.
E o "boicote" foi crescendo de tom,
numas etapas houve cortes de estrada obrigando a interrupção momentânea da
prova, noutra uns "activistas" emboscados saltaram com bandeiras para
a estrada fazendo cair 2 ciclistas (que nem eram dessa equipa), numa prova de
contra relógio os "activistas" tentavam impedir a passagem dos
ciclistas dessa equipa. Isso tudo põe óbviamente em risco a integridade física
e até a vida de atletas profissionais, para além de interferir num espectáculo
perfeitamente autorizado. Mas esses casos a polícia foi resolvendo até que
para a tradicional etapa final que seria a "apoteose" em
Madrid cerca de 40 000 "activistas" invadiram as ruas das
cidade, destruiram as barreiras de protecção, importunaram a Polícia e assim
impediram a corrida de se realizar tendo esta sido terminada ao chegar aos
subúrbios.
E isto contra a vontade de milhares de adeptos
de ciclismo que quereriam ver tranquilamente a prova ao vivo e perante milhões
em casa furiosos porque não podiam ver o espectáculo que queriam ver numa tarde
de domingo, a ficarem ainda mais fartos de propaganda islamo-esquerdista
forçada e a constatarem que em Espanha reina a anarquia quando interessa ao
poder. E obviamente causando grandes prejuízos económicos pois uma prova
destas envolve grandes orçamentos publicitários que não gostam de ser associados
a "bagunças" e grandes investimentos, particularmente neste caso da
autarquia (a região e município são do PP e por isso eram absolutamente a favor
da normalidade da prova mas não podiam fazer nada).
O que fez Sanchez e ministros perante isso?
Foram também subindo de tom no apoio ao boicote, já não sei os termos exactos
mas se no início mostravam compreensão mas aconselhavam respeito pelas regras
para o fim, num comicio do PSOE, Sanchez disse o seguinte " E queremos expressar o nosso
absoluto reconhecimento e respeito pelos atletas, mas também a nossa admiração
pelo povo espanhol que se mobiliza por causas justas, como a causa
palestina.... “Sinto orgulho de um país que, apesar da sua diversidade, se une
por uma causa justa como os direitos humanos. Viva o povo espanhol!”. Quer dizer, Sanchez não pisou o risco mas sob a capa
"humanitária" deu vivas ao efectivo triunfo da anarquia e violência
no seu país.
Neste artigo "Did
Pedro Sánchez incite pro-Palestine protesters to stop La Vuelta cycling race?" do euronews pode ver-se os argumentos
de Sanchez e da esquerda e os da oposição e o jornalista aparece "obviamente"
a tomar o lado de Sanchez, ele aí também foi um "santo"!
E a tal equipa a meio da prova até mudou de
equipamento para deixar de fazer alusão à bandeira de Israel mas como é
evidente isso não serviu de nada, "the issue is never the issue".
O que ganharam Sanchez e os
"activistas" com este boicote? Israel mudou uma virgula nos planos
que tinha para Gaza ou uma bala nas que ia lá disparar? Os Gazanos beneficiaram
o quê com isso? Acho que só os prejudicou, o que se viu em Espanha não foi nada
de construtivo.
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