Dos actos sentimentais humanos. sejam estes susceptíveis ou não de
provocar o prazer físico e espiritual, são muitas vezes nefastas, sobretudo para a Mulher, em virtude da sua
condição de inferior qualidade física exigente de superior qualidade moral, esta
criada pelo Homem para a Mulher - pesem embora algumas “Madame Bovary´s das
excepções comportamentais - naturalmente merecedoras de reparo, pela fuga aos conceitos
da moral criada também pelo Homem - as Madame Curie (s) votadas que são a
estudos mais de carácter científico.
Mas repito o justo COMENTÁRIO
de JOSÉ B. DIAS sobre a excelência do texto de PATRÍCIA FERNANDES:
“José B Dias: Aleluia!! Uma voz de bom senso e racionalidade
num mundo cada vez mais movido a emoções básicas e desejos mágicos ...”
As limitações do consentimento
Se os conceitos filosóficos não considerarem as diferenças naturais
entre homens e mulheres, as políticas que se baseiam neles acabarão por gerar
efeitos indesejáveis
PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e
Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 27 abr. 2026, 00:21
14
É
por muitos considerado um dos capítulos mais bonitos da literatura ocidental.
Começa com uma rainha “ferida já há muito
por séria pena de amor” e que hesita
perante os sentimentos que tem pelo hóspede recente. Já recusou
muitos candidatos e manteve-se fiel ao marido morto, mas Eneias faz vacilar o
seu espírito – o que, numa mulher, significa geralmente que bastam condições
propícias para que a sua vontade ceda. Vénus e Juno, por razões diferentes,
garantem que tal aconteça, mas:
“Aquele primeiro dia foi a causa
da catástrofe, aquele primeiro dia a causa da desgraça, e nem Dido é demovida
pelas conveniências da sua reputação nem reflecte já num amor furtivo. Chama-lhe
matrimónio e com este nome encobre a culpa.”
Dido
consentiu nesta entrega, mas fê-lo dizendo a si própria que se tratava de
“matrimónio”. Já para Eneias, apresentado como
igualmente apaixonado, os mesmos actos são entendidos de forma diferente pelo
que não hesita quando o pai dos deuses o manda partir para a missão a que
estava destinado. Abandona
Tiro e Dido suicida-se:
“Morrerei sem vingança. Morra embora! Mesmo assim, mesmo assim me apraz
descer ao reino das sombras! Que o cruel Troiano, lá do mar alto, ponha os
olhos nestas chamas e consigo leve o agouro da minha morte.”
1O paradigma do consentimento
O termo liberalismo
ainda não tinha sido cunhado e já John Locke
fundamentava a sua teoria política na ideia de consentimento. O contexto era o da revolução gloriosa, pela
qual os revolucionários afastaram o rei James II e convidaram William de Orange
para governar nos termos da Bill of Rights. Locke trabalhava a partir da tradição
contratualista e centrava no indivíduo e nos seus
direitos naturais, de que dispunham no estado de natureza, toda a lógica
política: o estado civil e político só surgiria com o consentimento dos
indivíduos que concordavam submeter-se ao contrato social.
A tradição liberal subsequente
trabalhou a partir deste conceito, mas terá sido Immanuel
Kant, como em tantas outras coisas,
a deixar a herança mais relevante, sobretudo com a ideia de dignidade humana. O respeito pela liberdade, racionalidade e dignidade
exigia consentimento e é isso que vamos encontrar no século XX, em especial no
domínio da Bioética a partir da segunda guerra mundial, com o amadurecimento da
expressão consentimento livre e informado.
Mas talvez precisemos de um
terceiro autor para fechar esta revisitação histórica: John Stuart
Mill, ao consagrar o princípio do dano como princípio de
legitimidade da acção política, garante que a intervenção do estado só é legítima se
tiver como objectivo evitar o dano a terceiros. Resulta
desta ideia que o indivíduo deve dispor do mais amplo espaço de liberdade para
gozar da sua vida e dispor do seu corpo como bem entender desde que não
provoque danos a outrem.
Todos estes contributos dão forma à moralidade liberal dos nossos dias: a
partir de um paradigma do consentimento, as sociedades liberais tendem a
organizar-se em torno da noção de que aquilo que está certo ou errado
deve ser apreciado 1) em função da vontade expressa do indivíduo e 2) desde que
não provoque danos a terceiro.
2As limitações do consentimento
Foi este paradigma de consentimento
livre e informado que se instalou no espaço público e é
recorrentemente apresentado como
verdade última para determinar a moralidade e a legitimidade das nossas acções.
Como se o ato de consentimento bastasse para expurgar todos os problemas.
Não é, porém, difícil de
compreender que, como sempre acontece com os conceitos filosóficos e políticos,
também o consentimento tem as suas limitações. Michael
Sandel, no exercício permanente de questionar os pressupostos
do liberalismo, chama a atenção para situações em que, apesar de parecer haver
consentimento livre e informado, este não resiste a uma análise mais profunda.
Seria o caso das “barrigas de
aluguer”, muito
populares nos Estados Unidos, e que resultariam de um acordo entre as partes.
Mas quando uma mulher, sobretudo jovem e numa primeira gravidez, celebra um
contrato pelo qual consente em “vender” o bebé que vai carregar durante a
gestação, sabe realmente no que está a
consentir? É um consentimento realmente informado? Não é por acaso que algumas legislações
procuram superar esta dificuldade criando como condição que a mulher já tenha
sido mãe: já saberia pelo menos o que significa o processo de gestação.
Mas podemos levantar uma segunda
dificuldade: quando
as barrigas de aluguer são contratualizadas com mulheres mais pobres (em
particular de países mais pobres), o consentimento é realmente livre?
Também neste caso algumas legislações são desenhadas a pensar nesta
desigualdade entre as partes.
O mesmo tipo de argumentário
aplica-se à prostituição e à pornografia,
mas os problemas levantam-se igualmente quanto à eutanásia
(o livro mais recente de Kathleen
Stock desafia-nos precisamente a pensar nestes limites, numa
altura em que, no Reino Unido, o assunto está em cima da mesa): a partir do
momento em que se abre a porta a este tipo de legislação, como garantimos que
o consentimento é realmente livre e informado?
A eutanásia é, aliás, o melhor exemplo de como o apelo à chamada
“falácia da rampa escorregadia” é apenas uma estratégia discursiva para
silenciar um problema. Em
alguns países que aprovaram entusiasticamente a eutanásia em situações muito
determinadas, a legislação acabou por ser alterada para facilitar cada vez mais
a sua utilização – num verdadeiro acto de rampa escorregadia.
E o mais grave desses
deslizamentos é o que diz respeito à eutanásia
infantil, com crianças que ainda não completaram o seu processo de
amadurecimento cerebral a poderem requerer ser eutanasiadas. Trata-se,
aliás, de uma situação paralela aos procedimentos de género que invadiram o
Ocidente nos últimos anos: como podemos reconhecer como válido o consentimento
de crianças e jovens para medidas tão profundas e irreversíveis?
Mas talvez o caso que desperta
mais surpresa e reflexão quando o discuto nas aulas seja o do chamado “Canibal de Rotemburgo” e que revela bem como, apesar do discurso histriónico
que pulula no espaço público, o paradigma do consentimento tem muitas
limitações.
3O feminismo reaccionário
Regressemos ao livro IV da Eneida, o poema épico que Vergílio
escreveu no século I a.C. e que me parece a melhor representação do pensamento
que tem vindo a ser designado, a partir de Mary
Harrington, como feminismo reaccionário.
O feminismo
reaccionário procura questionar os pressupostos mais
importantes do feminismo liberal e, em particular, do paradigma do
consentimento, destacando que este
conceito não é adequado para abarcar a complexidade das relações entre homens e
mulheres e todas as dimensões da vida sexual.
Afinal, e como chama a atenção Louise Perry, homens e mulheres são não só
biologicamente diferentes, como também psicologicamente diferentes, tendo desenvolvido estratégias
adaptativas distintas no processo de evolução (em resposta, fundamentalmente, a
necessidades reprodutivas). Não
seria, assim, por acaso que o livro IV da Eneida continua a ressoar
entre nós: também aqui o consentimento expressa coisas diferentes
para Dido e Eneias.
Quais são as consequências de aceitarmos este argumento de que homens e
mulheres são fisica e psicologicamente diferentes (e é incrível como se tornou
um acto de coragem dizer isto publicamente), considerando sempre a regra de
distribuição normal?
A principal consequência é a recusa
da “teoria da página em branco”, que formata muito dos argumentos
utilizados no espaço público e defende que nascemos sem quaisquer
condicionamentos físicos ou biológicos. Em sentido contrário, e para
usar a expressão de Jonathan Haidt, devemos pensar-nos como “páginas rascunhadas” pelo que, apesar de não estarmos totalmente
determinados, existem limites para as alterações que podemos impor
socialmente. E
quando forçamos demasiado esses limites, os sintomas manifestam-se em mal-estar
social (qualquer semelhança com a realidade não é pura
coincidência).
Isto significa que, se os conceitos
filosóficos não considerarem estas diferenças naturais, as políticas que se
baseiam neles acabarão por gerar efeitos indesejáveis, como acontece tantas vezes
com o conceito de consentimento. É nesse sentido que Christine Emba, em Rethinking Sex, reflecte sobre como a cultura de “casual sex”, prevalecente
nas universidades norte-americanas e centrada no paradigma do consentimento,
tem deixado a maioria das mulheres jovens emocionalmente insatisfeitas.
Os anos #metoo são, aliás, uma
boa imagem desta complexidade: juntamente
com situações reais de assédio e abuso, foram apresentados muitos casos em que
as relações sexuais simplesmente não tinham correspondido ao que as mulheres
desejavam, fazendo com que se sentissem emocionalmente abusadas no dia
seguinte, apesar de ter havido… consentimento.
Mas o argumento de Louise Perry vai mais longe: não só o conceito de
consentimento não reflecte o modo como a maioria das mulheres olha para as
relações entre os sexos, como deixa as mulheres mais desprotegidas por fazê-las
acreditar que o consentimento é suficiente para travar impulsos biológicos e
psicológicos. O problema não estaria, assim, no facto
de vivermos num sistema patriarcal (argumento que o feminismo reaccionário recusa), mas no facto de o paradigma do consentimento nos fazer
esquecer que somos seres corpóreos, pelo que alguns homens (a minoria) farão
sempre valer o seu desejo e a sua maior força física.
Como não somos páginas em
branco, também não somos seres puramente racionais e que agem em resposta a
conceitos abstractos. E, por isso, o melhor que podemos fazer pelas nossas
filhas não seria falar em “consentimento”, mas fazer notar que, dadas as
diferenças biológicas entre homens e mulheres, elas não se devem colocar em
situações de fragilidade.
COMENTÃRIOS
(de 14)
José B Dias: Aleluia!! Uma voz de bom senso e racionalidade
num mundo cada vez mais movido a emoções básicas e desejos mágicos ...
Joaquim Carvalho: "... homens e mulheres são física e
psicologicamente diferentes (e é incrível como se tornou um acto de coragem
dizer isto publicamente)". A Patricia Fernandes é simplesmente a colunista
mais sofisticada que escreve no Observador. Incrivel como continuamos a lutar
com conceitos tão abstrusos como a "teoria da página em branco".
Obrigado Patrícia.
Rosa Silvestre: A primeira defesa de qualquer pessoa,
nomeadamente da mulher, é precisamente evitar situações que se adivinhem de
risco.
Rui Lima: Artigo útil que todo o homem e mulher devia
ler
Tomazz Man: Como é que a regra mais básica de todas, nao
nos colocarmos em risco, se transformou em algo impossível de verbalizar?!!
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