sexta-feira, 9 de outubro de 2026

“Bicho da Terra”

 

É o que parecemos, todos, para sempre, também segundo Os Lusíadas, I, estr. 106:  “No mar, tanta tormenta… Na terra, tanta guerra, tanto engano…”

Mas cá vamos andando, atamancando, acusando…

Viva o povo brasileiro?

O que se passa com o povo brasileiro? Deixou-se manipular pela desinformação, pelo populismo, pela demagogia, pelo extremismo, ou foi mesmo interferência externa?

JAIME NOGUEIRA PINTO,Colunista do Observador

OBSERVADOR, 08 out. 2026, 00:25

Foi Trump. Foi Netanyahu. Foi a grande internacional da extrema-direita. Só pode ter sido interferência externa.  De outra maneira não se explicam os resultados no Brasil.  O que se passa com essa outra metade, inesperadamente maioritária, do povo brasileiro, que parece já não ter como referência a imprensa de referência que tanto se esforçou para lhe indicar o caminho do bem? Deixou-se manipular, evidentemente. Cedeu à desinformação, ao populismo, à demagogia, ao extremismo alheio e “votou mal.”

Escrevi aqui, há duas semanas, sobre os casos de corrupção e abuso de poder no Supremo Tribunal Federal, mais próprios de uma pequena república cleptocrática das antigas do que de uma nação como o Brasil. E sublinhei o quase silêncio dos media portugueses sobre o grosso dessa corrupção, inequivocamente ligado aos partidários e amigos do Presidente incumbente. Aparentemente, para bem do povo e da democracia, achou-se melhor falar só do dinheiro que Flávio Bolsonaro, alinhado com o mal, pedira ao corruptor Vorcaro para o filme Dark Horse sobre o seu pai, Jair, e silenciar as avenças milionárias, as viagens em jactos, os hotéis de luxo, as garotas de programa, as mensagens e os favores trocados entre o grande corruptor e os seus amigos e clientes do Supremo Tribunal, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, alinhados com o bem. É que o povo, na sua simplicidade e ignorância, na sua bondade intrínseca, tinha de ser guiado, conduzido, endoutrinado por quem sabia o que era melhor para ele.

Porém no Domingo, 4 de Outubro, para profunda tristeza e incredulidade de muito pivot, comentador e entrevistado de rua escolhido ao acaso entre os apoiantes de Lula, houve uma fatia inesperadamente maioritária do povo brasileiro que se mostrou pouco dócil aos apelos dos seus melhores, surda aos papões e aos polígrafos agitados, indiferente até à possível reencarnação do próprio Hitler nos trópicos que se adivinha – ou mais atenta à realidade do que se esperava. Porque além de, ao contrário do proclamado pelas sondagens, Bolsonaro ter ficado à frente de Lula por 47/45, a direita e o centro-direita tiveram uma vitória esmagadora nas eleições para o Congresso e vitórias significativas nos governadores eleitos – culminando na eleição para governador do Paraná, à primeira volta, de Sérgio Moro, do Partido Liberal, protagonista do Lava Jacto que condenou Lula à cadeia e ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Jair Bolsonaro.

Os números

Nas presidenciais, Flávio Bolsonaro teve mais 2 200 000 votos que Lula da Silva. No Senado, que renovava 2/3 dos seus 81 lugares, o Partido Liberal de Bolsonaro passou de 15 para 28 senadores, quase duplicando a sua representação. O Partido dos Trabalhadores tem 9. Os números, além de consolidarem a importância do “bolsonarismo” no legislativo, tornam possível o saneamento dos juízes (ou “ministros”) do Supremo Tribunal Federal que incorreram em “irregularidades”, já que muitos dos senadores eleitos na vaga direitista fizeram da promessa de impeachement dos juízes corruptos o seu cavalo de batalha. E se para a interdição dos juízes prevaricadores são precisos 54 senadores, são já pelo menos 49 os que a defendem.

A corrupção dos seus aliados na Corte Suprema saiu cara ao “incumbente” do Planalto que, à última hora, ainda tentou dissociar-se do “bando dos Quatro”, disparando para o ar banalidades moralistas, tais como “ninguém se pode tornar ministro do Supremo Tribunal Federal para enriquecer”, enquanto exaltava a luta de Moraes (o que mais enriquecera…) “em defesa da Democracia”.

Quando o povo “ameaça a Democracia”

Agora que se estipulou que a Direita desapareceu e só existe a Ultra-Direita, a Esquerda e os centristas que vêem o chão a fugir-lhes debaixo dos pés não conseguem resolver a equação que os acompanha desde os tempos em que os autoritarismos vigoravam nos países do Sul da Europa e na América Latina. Se para combater os autoritarismos e as ditaduras militares conservadoras todos – até os comunistas, estalinistas, maoistas, polpotistas ou trotskistas, partidários de Repúblicas Democráticas ou Socialistas mais opressivas e assassinas do que os regimes que combatiam – reivindicavam eleições livres, porque a democracia era boa, o povo era bom e a maioria era sagrada, o que fazer agora contra a “ultra-direita”, quando o povo, a maioria, escolhia “mal”, ou escolhia precisamente a “ultra-direita”?

A hipótese de, em épocas de descontentamento, decadência, crise e tensão, os cidadãos, os eleitores, que constituem o povo soberano, poderem usar o voto, a sua fracção de soberania, mais contra do que a favor, parece não se pôr. Sobretudo se é contra quem está no poder e o representa; contra quem proclama que o país “não é quintal de ninguém” enquanto faz do país o seu quintal privativo.

Desde o fim da Guerra Fria que o poder no Ocidente, no mundo euroamericano, tem sido exercido por aquilo a que podemos chamar “o centrão”, através de uma burocracia considerada “apolítica” e “tecnocrática”, mas que, por convicção ou cedência útil, se foi regendo pelos valores culturais e sociais de uma esquerda “esclarecida”, “progressista”, “hedonista”, “elitista” e “radical”. Esse conjunto de elites, todas globalistas, apostou na desindustrialização e na progressiva abolição das fronteiras, rumo a uma grande comunidade, a um grande mercado, abrangendo generosamente toda a humanidade, mas onde essas mesmas elites e as suas “razões práticas” se moviam com maior destreza e proveito. Com isto gerou-se no Ocidente um mundo de extremas desigualdades económicas, em que as classes trabalhadoras foram marginalizadas e as classes médias empobreceram.

Entretanto, nesse mesmo mundo euroamericano, o revisionismo da Escola de Frankfurt e os “marxismos imaginários” de que falava Raymond Aron, multiplicados até à alucinação, tornaram-se o catecismo dos pequenos e médios intelectuais das universidades e da comunicação social dos dois lados do Atlântico, largamente subsidiados por uma burguesia discreta, centrista, civilizada. E quando os eleitores, privados de outros instrumentos – a Academia, a Comunicação Social – reagem pelo voto, e reagem contra, então o povo deixa de ser sábio e soberano para passar a ser manipulado, a maioria deixa de ser sagrada para passar a ser fraudulenta ou pasto de “interferência externa” e a Democracia passa a estar “sob ameaça”.

O Brasil, o país mais importante da América do Sul, já esboçara uma reacção deste tipo com Jair Bolsonaro, vencido em 2022 por uma coligação da esquerda pêtista e parte substancial do Centrão. A gestão governamental de Lula, o apetite do seu filho, Lulinha, por “dinheiro vivo”, juntamente com os escândalos no Supremo Tribunal, levaram aos resultados de 4 de Outubro.

Mas o país está dividido e ainda há uma segunda volta.  Pode ser que, apesar de o “arrastão bolsonarista” da primeira volta já ter causado sérios “danos à Democracia” por via eleitoral, o povo ainda queira “salvar a Democracia”, votando Lula.  Só assim, devidamente alinhado com o bem, o bom povo, o dócil povo, poderá voltar a ser “sábio e soberano”.

Infelizmente para os que assim o desejam, tudo indica que não, que, no dia 25, o povo brasileiro ainda vá dar sinais de vida.

COMENTÁRIOS:

(Mais votados 22 Todos 58)

Ricardo Ribeiro

Das mais esclarecidas descrições dos tempos actuais com as respectivas explicações das causas e efeitos subjacentes. Há parágrafos neste texto verdadeiramente sublimes. E o resultado das políticas adoptadas, desde as Américas até ao velho Continente, estão à vista! Agora, queixem-se!...

Miguel Seabra

Muito bom! As TVs vão estar de luto novamente no dia 25 e no dia 25 de Abril de 2027 os sabujos locais não vão poder (mais uma vez) lamber os pés ao Lula na Assembleia da República.

João Floriano

A nossa CS é muito discreta no que diz respeito a Lula da Silva. Não me lembro de ter ouvido falar nas «aventuras» do Lulinha. Por aquilo de que me apercebo entre os brasileiros meus conhecidos há uma grande expectativa sobre o que o PT irá fazer porque é opinião comum entre quem vota Lula ou Bolsonaro, que o PT não vai largar o osso . Uma das minhas curiosidades se Bolsonaro ganhar (para já, os sinais apontam para tal acontecer), é observar como se vai comportar o Brasil nos BRICS e como os países associados antiamericanos irão  reagir a uma guinada  política no Brasil. Independentemente da política, Lula já enjoa os brasileiros. é o que acontece quando se serve constantemente Lula recheada de juízes corruptos, banqueiros trafulhas e toda a espécie de vigaristas. E ainda por cima Lula ressequida, que o panamá não consegue esconder.

Antonio C.

Excelente artigo. Curioso saber que a maioria dos “fugidos” para Portugal da democrática e próspera República Lulesca tenham votado no mesmo. Coincidências…,

Maria Nunes

Excelente artigo JNP.  Regra geral, a nossa comunicação social parece que tem medo de dizer as verdades sobre Lula.

Manuel Martins

Faz lembrar o discurso do candidato do PCP em Almada, depois de ter surpreendentemente ter perdido as eleições autárquicas, que não perdia desde o 25 Abril:" o povo tinha-se enganado e então iria sofrer por isso" ...

Ruço Cascais

Sociedades cada vez mais crispadas, ódios cada vez mais à flor da pele, violência gratuita cada vez mais frequente.

As esquerdas não estão preparadas para lidar com a democracia cada vez que perdem eleições. As direitas começaram a reagir às provocações das esquerdas.

As esquerdas já não representam o povo, representam esquemas corporativos para garantirem a manutenção do poder. As direitas conquistaram os povos porque resolvem os problemas das populações.

As esquerdas no poder não conseguiram resolver os problemas da habitação, do ensino, do sistema nacional de saúde, da redução da subsídio-dependência, do aumento de rendimento per capita.

Os povos começaram a perceber o engodo das esquerdas e a votar na direita que lhes oferece mais perspectivas para um futuro melhor para eles e para os filhos. As esquerdas não aceitam essa derrota, não se conformam com os resultados das suas políticas. Desesperadas com a derrota estão disponíveis para tudo, incluindo a tomado do poder pela força.

A possibilidade de um banho de sangue no Brasil é real, mas, também não é de desconsiderar esse banho de sangue em Espanha, nos Estados Unidos, França, quiçá em Portugal com uma vitória redundante do CH.

Na minha opinião, o mundo não está num dos seus melhores momentos. A nova sociedade digital com as suas redes sociais, informação em catapulta, fake news, influência e manipulação transforma cada cidadão num potencial activista e muitos deles em activistas radicais de cabeça perdida. Tudo pode acabar num grande banho de sangue.

Um mundo radicalmente dividido, em que metade tem um ódio de morte à outra metade.

Américo Silva

O Tribunal Constitucional da Roménia anulou o resultado da eleição presidencial por uma suposta interferência russa, Georgescu encontra-se actualmente detido.

João Diogo

Mais uma excelente crónica , por cá no burgo a C.Social , nem umas notas em rodapé, sobre a corrupção instalada no Supremo Tribunal da camarilha de Lula, como esse execrável Alexandre Moraes.

João Floriano > Ruço Cascais

«Um mundo radicalmente dividido, em que metade tem um ódio de morte à outra metade. »

Um frase redonda que descreve talvez o aspecto mais evidente das nossas sociedades ocidentais democráticas: o ódio de morte que se tem vindo  a tornar indisfarçável. Gente da minha geração nascida no pós guerra ( eu sou um boomer de 1952) tem vivido confortavelmente na ilusão de que as guerras civis ficaram lá bem no passado. Mas o banho de sangue de que o Ruço fala é cada vez mais uma possibilidade. Olho para França, e agora para a Bélgica para onde os protestos se estão a estender e não sei como os políticos vão acalmar as ruas. Tanto esquerda como direita mesmo os ditos tolerantes e moderados têm culpas no cartório. A esquerda porque trepou e caiu também na armadilha de pensar que seria sempre seguida pelos desfavorecidos que são em maior número. A direita porque deixou que a esquerda lhe pusesse  freio e culpas nas costas e não protestou. Mas mesmo agora que está  a pôr as mãos na massa, ainda há dentro da própria direita quem prefira aliar-se à esquerda. Já se sabe o que a esquerda pode fazer pelo bem-estar das populações e solução dos seus problemas: NADA! Um saco cheio de vento. Mas a direita ainda não pode apresentar provas conclusivas que consegue fazer melhor.

L Faria

Quando é que estes comentadorzinhos de neeerda das tvs portuguesas vão reconhecer que bolsonaro é um preso político ao melhor estilo soviético?

Garcia Moreno

Para a esquerda verdadeira democracia significa ditadura do proletariado.

Manuel Magalhaes

Esperemos é que os “impolutos” media (de lá e de cá) não continuem vigaristicamente como é seu hábito, a deturpar e a impingir mentira sobre mentira a fim de prejudicarem um muito necessário resultado para o dia 25 para que o Brasil volte ao seio dos países respeitáveis…

graça Dias

Senhor Professor Jaime Nogueira Pinto

Mais um valioso contributo de JNP para o debate político do momento. Numa prosa de muito brilho, submete com rigor e ironia a atmosfera política vigente no Brasil, no qual há dois  “maestros " -- as narrativas do incumbente e a doutrinação de uma CS, que tanto do lado de lá do Atlântico, como do lado de cá, entrou em desaire e descontrole !

Assisti num dos canais das nossas TVs, mas em determinada altura, já com resultados praticamente definitivos desta 1ª volta, um dos bonecos falantes ficou « out of control », e percebi que a boneca era de "barro vidrado" , com a etiqueta de « Mafaldinha dos anjinhos», e que se estilhaçou!...  de imediato tive que fechar a TV, para não ter que recorrer à pá e à vassoura a limpar o verniz que saltava fora do ecrã.

O meu obrigada a JNP  por esta "viagem" ao Brasil através de um texto de grande eloquência.

L Faria > Antonio C.

Acontece o mesmo que vemos com os mustafas. Procuram transformar os países que lhes dão de comer, na mesma meeerda de países de onde saíram. O socialismo estupidifica.

L Faria

A descrição perfeita de como os socialistas/comunistas se servem do povo. Voltem no tempo, não é preciso muito. Em todos os países dominados pelo comunismo, a elite que pastoreia o povo é estupidamente rica e poderosa e o povo na miséria. O mesmo estava a acontecer no Brasil do Ptt e do crápula lula da Silva. Enriquecimento extraordinário, fruto da corrupção ao mais alto nível, mas ao mesmo tempo a empobrecer o povo, dizendo que os defendem enquanto lhes sacam oboouco dinheiro que têm. Custa a acreditar como depois disto tudo, este filho de uma grande fruta ainda tem 45% dos votos. Veremos se a metade do país que ainda tem um cérebro funcional consegue reagir.

Glorioso SLB > Manuel Martins

Esse ñ é grande exemplo. É q sofreu e continua a sofrer.

Alberico Lopes

Excelente texto, ao nível dos que o autor nos vai oferecendo. Obrigado, professor!

Maria Cordes

O Brasil tornou-se mais compreensível com este texto, o que é muito gratificante. Adoro a ironia. Em Portugal há uma grande ignorância sobre a realidade, devido á manipulação da comunicação social, que não disfarça. O lado redutor é que, mesmo quem se interessa, somos poucos ( a lua cheia ou o pôr do sol, despertam muito mais atenções, que o vídeo da estudante francesa a desmontar a luta dos "estudantes") , tem dificuldade em construir uma consciência da realidade, mesmo que aproximada. É frustrante.

Thomas Zurc > Antonio C.

Ainda há dias questionei uns brasileiros porque, continuando a optar pelo Luladrão, não tinham ficado no Brasil, paraíso do PT....

Se a miséria e expectativa de uma vida melhor os fizeram vir para aqui, porque não votavam na mudança ???

Glorioso SLB > Henrique Mota

Caro amigo eu voto no CDS. Em Almada no PSD. O PC era mau, mas a Inês ainda é pior.

Cristina Torres

Sem dúvida, que  "no Domingo, 4 de Outubro, para profunda tristeza e incredulidade de muito pivot, comentador". Pois assisti incrédula no canal NOW o comentador Germano Almeida a tentar endoutrinar a escritora Margarida Rebelo Pinto, que num esforço justificava a inevitável vitória Bolsonaro.

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