São as dívidas… que as tristezas não pagam. Mas isso é mais próprio
dos adultos, com as suas responsabilidades de vária ordem, entre as quais a
tributária, que é terrífica. Os adolescentes…
é mais desaires ou frustrações, de ordem vária também, que se avolumam, por
falta de hábito ainda, ou por temperamento específico, que a vida se
encarregará de banir ou não, como aconteceu com os seus antecessores, tristezas
e alegrias fazendo parte do quinhão sentimental humano, naturalmente analisável,
o que acontece, às vezes, maçudamente, nos textos literários, de autores que se
apregoam de realistas…
A capacidade de estar triste
Sem capacidade para estar triste qualquer pessoa
entende um insucesso como uma derrocada que se insinua. O reconhecimento de um
erro como uma culpa sem reparação. Ou a tristeza como uma vergonha.
EDUARDO
SÁ Psicólogo
OBSERVAD0R,
4 out. 2026, 20:27
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A prova de que os adolescentes, à medida que
cresceram, terão sido protegidos demais, é que de cada vez que sentem um
episódio de ansiedade o sinalizam como um estado de pânico. Como se stress, ansiedade e pânico fossem a mesma coisa. Acabam
por ser tão pouco expostos a experiências ansiosas que têm na sua base o medo,
que passam a ter medo de ter medo. Como se qualquer medo, ou as suas
manifestações somáticas, pudesse ser sinónimo de colapso ou duma sensação de
quase-morte. Fazendo por reprimirem o que sentem e censurando e
racionalizando as contradições que isso lhes traz, a ponto de, idealmente, isso
traduzir uma aspiração a deixarem de sentir. E o pensamento se vencesse de cada
vez que deixamos de pensar.
Esta “tendência do momento”, transversal
a imensas pessoas, faz com que se procurem “estratégias” para vencer os “pensamentos intrusivos”
sem se pensar neles, como se aquilo que lhes parece mau dentro de si devesse
ser domesticado ou dominado. Ou, se possível, anulado e destruído.
Como se os tais pensamentos que parecem intrusos não fossem seus, e não
representassem partes de si que é indispensável entender para que deixem de ser
assustadores.
Acontece que com a tristeza a reacção é semelhante. Como
se tristeza e depressão fossem a mesma coisa. E como se estar triste
fosse um assomo de fraqueza que belisca uma imagem que se cria e contraria a
autoestima que se quer transparecer.
Do mesmo modo que acontece com a ansiedade, experimentar a tristeza significa aprender a reconhecê-la. Aprender a
desconstruí-la e a entender como se gera e o que quer dizer. Aprender a não fugir dela e a
descobrir como se pode “adubar” o crescimento que traz, de seguida. Da mesma forma que fugir
dum medo é a
melhor forma de se ficar preso a ele, também a tristeza é o melhor “antidepressivo”
do mundo.
E, chegados aqui, talvez se torne importante conversarmos
sobre um condimento indispensável para a saúde mental: a
capacidade de estar triste. Como manifestação de humildade perante o que
sentimos. De equilíbrio, de transparência, de autenticidade e de coragem de se
ser quem é. E de lealdade e de esperança para com “o outro”, junto de quem a
nossa tristeza, colocada ao seu cuidado, nos torna menos sós. E mais fortes!
Sem capacidade para estar
triste qualquer pessoa entende um insucesso como uma derrocada que se insinua. Uma dor como um vulto
de desmoronamento.
Um reparo como uma ameaça. O reconhecimento de um erro como uma culpa sem
reparação. Ou
a tristeza como uma vergonha. O que faz com que sem capacidade para estar triste
alimente a ilusão de que o crescimento se possa dar sem ser preciso crescer.
Sentimentos Comportamento Sociedade
COMENTÁRIOS:
Maria Paula Silva
Obrigada.
O pior é quando há assuntos provocadores de tristeza e
que não desaparecem....
António Dias:
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