«A caricatura é mais forte que as restrições e que
as proibições. É imortal porque é uma das facetas daquele diamante que se chama
verdade.» Eça de Queirós - leio
no cabeçalho da última página do D.N de9/1/15.
De facto, a caricatura favorece o nosso comodismo,
pela percepção imediata do traço avultado com que o caricaturista desejou
acentuar o que a sua sensibilidade, parti pris ou intenção crítica
captaram, geralmente em propósito satírico, não exigindo grande esforço de
leitura gráfica ou iconográfica para a risada grossa da conivência com o
grotesco. A desmistificação dos valores que hoje se projecta no cartunismo, já
a encontráramos em Rabelais, a desmesura, a licenciosidade, a anarquia, a
oposição ao preconceito sendo motivos da sua criatividade, de extraordinária
dimensão e causadores do riso, (embora em leitura prolongada), segundo o seu
conceito de que “Le rire est le propre de l’homme”.
O que leva um sorriso misterioso como o de Mona Lisa a
uma vigília demorada de observadores em frente do quadro, para se decifrar nos
olhos, no rictus bucal se se trata de uma postura de seriedade, ou de breve
sorriso que os seus olhos parecem traduzir, e simultaneamente a nitidez
clássica da paisagem envolvente da Gioconda, contrastando com a paisagem de
escolas pictóricas mais recentes, de impressões e colorido, com sugestões
apenas, por vezes, das figuras, num universo de captação e de prazer imediatos,
percebemos quanto evoluiu o conceito de arte, em paralelo, aliás, e em
consequência do aburguesamento social, de gente mais sensibilizada para colher
o breve, o imediato, reduzido o esforço de atenção ao prazer da cor e da
deformação dos traços de alusão satírica.
Eça tem bem a percepção de que as pinceladas dos seus
descritivos figurativos, redundam, as mais das vezes, na criação de tipos
sociais, no avolumar do traço caricatural, bem ao contrário de Balzac,
Stendhal, Zola, Flaubert, cujo conhecimento da psicologia humana se traduziu em
minúcia e autenticidade das personagens, que não excluíam a intenção irónica,
em que Flaubert foi mestre, e bem assim Balzac.
«A caricatura é mais forte que as restrições e que
as proibições. É imortal porque é uma das facetas daquele diamante que se chama
verdade.»
Eça, todo vibratilidade e versatilidade, sentiu bem,
todavia, a diferença entre ele e os seus congéneres na criação das suas
figuras. Afirma-o em cartas aos amigos, com mágoa, por criar fantoches sem vida
interior, na sua galeria social, tipos de farsa, caricaturais, que nos fazem
rir. Mas por isso mesmo fortes, no traço forte, na sua intenção de condenação e
de risada imediata.
Transcrevo uma carta de Eça a Ramalho, comprovativa
destes dizeres, e, simultaneamente, da humildade intelectual de Eça, no
reconhecimento dessas suas diferenças dos seus contemporâneos franceses:
« Eu por aqui – não fazendo, não pensando, não vivendo
senão Arte. Acabei O Primo
Basílio – uma obra falsa, ridícula, afectada, disforme, piegas e papoilosa –
isto é, tendo a propriedade da papoila: -sonolificente. De resto Você lerá –
isto é, dormirá. Seria longo explicar como eu – que sou tudo menos insípido –
pude fazer uma obra insípida: …. Os personagens – e Você verá – não têm a vida
que nós temos: não são inteiramente des images découpées – mas têm uma
musculatura gelatinosa: oscilam, fazem beiço como os queijos da Serra, espapam,
derretem. Há – inquestionavelmente – alguma cena, alguns traços correctos: e há
maravilhas de habilidade, da habilidade de métier; enfim, sou uma besta. E o
que é triste é que me desespero por isso. Nunca hei-de fazer nada como o Pai
Goriot; e você conhece a melancolia em tal caso, da palavra nunca! Não
falo naturalmente do Primo Basílio – isso é uma ninharia, abaixo da
crítica de um crítico de Penafiel, mas mesmo este novo romance (“A Capital”) –
de que estou tão contente – não dá, não sai. Faço mundos de cartão… não sei
fazer carne nem alma. Como é? Como será? E todavia não me falta o processo:
tenho-o, superior a Balzac, a Zola, e tutti quanti. Falta qualquer coisinha
dentro: a pequena vibração cerebral; sou uma irremissível besta!» Newcastle, 3 de Novembro de 1877 (in "Correspondência" Vol. IV de OBRAS DE EÇA DE QUEIRÓS)
Simultaneamente, e segundo o dístico no cabeçalho da
última página do DN, Eça é bem o homem que se sente feliz consigo
próprio, pois com a sua arte ele pôde determinar o alcance social da
caricatura, o traço forte e saliente tornando-se espelho do grupo social que o
reflecte. Daí a função daquela, semelhante à da comédia de costumes: “Ridendo
castigat mores”.
O certo é que o tal “diamante que se chama
verdade”, pode ser facetado de diversas maneiras, segundo fontes de
opinião diversificada, não deixando de ser um conceito subjectivo, tal como os demais
conceitos, cuja verdade é hoje posta em causa, em liberdade democraticamente
flexível.
Daí que as caricaturas do tipo “Charlie Hebdo”,
na desmesura da sua verdade, tenham, como efeito, muitas vezes, uma risada
amarela de resposta. Com consequências bem mais sombrias do que no tempo de Eça.
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