sábado, 19 de setembro de 2026

Pena

 

Será também um modo de ser inconformista, que nos faz criticar com gosto, indiferente ao que de bom também temos.


É disto que o meu povo gosta

Se toda a governação abusa da propaganda, aqui a propaganda substituiu completamente a governação, que sobrevive para asfixiar tudo em redor.

 ALBERTO GONÇALVES - Colunista do Observador

OBSERVADOR, 19 set. 2026, 00:25

38

As mais lidas

"Pai Tempo vence sempre". Warren Buffett reforma-se aos 96

IGAS quer pagamento à entrada do hospital para evitar dívida

Como vai funcionar o bónus pago aos pensionistas

Mudam regras para travões, pneus e baterias a 29 de Novembro

Volta. Metas falhadas tornam sistema obrigatório na UE

Montenegro em queda nas sondagens e em terra de ninguém

 

Lembram-se de quando o prof. Marcelo prometia, pela sua saudinha, não voltar a comentar a actualidade logo que deixasse Belém? Ele também não se lembra, por isso comenta o que calha a cada oportunidade. Há dias, esteve num colóquio em Aveiro e disse o seguinte: “Nós somos a Europa, mas somos vistos como sendo uma ilha no meio do Atlântico. Nós somos, sobretudo, seguros e confiáveis (…) Encontramos economistas, financeiros, banqueiros e tal a dizer que grande bigodaça que vocês estão a dar, porque de facto estão a conseguir, que se possa ter confiança e ter segurança na realidade portuguesa. Nós já intuímos isso, sabíamos isso. Mas agora é indiscutível”. E de seguida acrescentou: “Eu vou a qualquer reunião internacional e agora vou como ‘outsider’ (…) mas gosto de ouvir nos aviões em que venho dizer, ah, eu desloquei-me agora para Portugal, porque é para decidir e é para investir numa coisa e tal, e estou a pensar num projecto e tal.

É curioso e tal que eu faça uns voos internacionais e tal e nunca tenha ouvido tais proclamações e tal. É possível que se deva ao facto de viajar rodeado de pelintras em “turística” e não de economistas, financeiros, banqueiros e tal. Mas a hipótese mais provável para não ouvir semelhantes louvores à “bigodaça” portuguesa é os louvores jamais terem sido ditos, ou apenas terem sido ditos por interlocutores que desesperadamente procuravam livrar-se daquele sujeito que, inquieto no lugar 12C, dizia em voz demasiado alta ser ex-chefe de Estado e tentava arrancar-lhes elogios ao país. Como costuma acontecer nos interrogatórios a cargo de polícias inflexíveis, uma pessoa acaba a confessar o que eles quiserem: “Portugal?”, despacha atrapalhado o “banqueiro” que na verdade é cabeleireiro de profissão e retornava das férias em Albufeira, “um espectáculo. Um sonho. A humanidade tem muito a aprender convosco. E agora peço-lhe desculpa já que tenciono terminar o ‘Barbie’ antes de aterrar em Bruxelas.”

Embora o prof. Marcelo seja um ser peculiar, a essência da sua recorrente ladainha “patriótica” não difere da quase totalidade dos primeiros-ministros que temos tido, hoje o dr. Montenegro, ontem o dr. Costa, uns anos antes o “eng.” Sócrates. Saltei deliberadamente Pedro Passos Coelho na medida em que, desde épocas imemoriais, foi o único, e aparentemente o último, governante capaz de confrontar os portugueses com factos. Os restantes oferecem-nos alucinações, descabeladas mentiras acerca do “sucesso” pátrio, tão potente que deixa o mundo pasmado e, afinal, invejoso. Salvo a referida excepção, Portugal não dispõe de estadistas, e sim de vendedores de fancaria. E quanto mais óbvia é a fancaria mais saída tem. E mais pelintras ficamos. Se toda a governação abusa da propaganda, aqui a propaganda substituiu completamente a governação, que sobrevive para asfixiar tudo em redor. Mesmo numa Europa em desvario e queda, conseguimos a proeza de empobrecer por comparação, a proeza de olharmos para baixo e já só vermos a Grécia e a Bulgária. Isto enquanto ainda vemos alguém.

Cá dentro, o que vemos são embusteiros, socialistas tímidos ou descarados dispostos a atropelar os habituais limites da intrujice política para transformar o poder numa máquina de cobrança de impostos, distribuição de empregos, “gestão” dos lendários “fundos” e, nos intervalos da propaganda, lançamento de humilhantes e falsas esmolas de modo a mitigar a crise que, eles fiquem ceguinhos, não existe. E para reduzir os sucessivos governos a monólitos valentemente insusceptíveis de uma reforma, uma mudança, um rasgo e um risco que beliscassem a desgraceira em curso e incomodassem as sondagens. Se for necessário descer à ignomínia da analogia futebolística, à imagem dos nossos eruditos líderes, desço: em equipa que perde não se mexe. Ou mexe-se para que a equipa continue a perder.

 

É disto que o meu povo gosta? Corrijo a pergunta, a fim de evitar generalizações: é disto que uma quantidade significativa de eleitores gosta? Receio que sim. Como no Sísifo de Camus, é preciso imaginar os portugueses felizes, no mínimo resignados em passar os dias a contornar rotundas de cidades tristes no regresso do trabalho na câmara ou no escritório, a caminho de um serão com a Netflix e o sonho do fim-de-semana com bola e restaurante para fotografar a comida e despejar o pastiche de alegria nas “redes”. Se os miúdos estiverem distraídos com o telemóvel e os graúdos esquecidos dos encargos no fim do mês, que um milagre talvez impeça de chegar, está tudo bem.

Não está nada bem. Claro que não faria sentido sonhar com a nação pujante e digna de admiração que os embusteiros agitam para consumo das massas, infelizmente eficaz. Mas podíamos ser, e estar, um bocadinho melhor do que somos e estamos. Acontece que o processo implicaria tempo, moderado sofrimento e imensa coragem. Por azar, coragem é o que a classe política não possui e sofrimento é o que os cidadãos não toleram, nem sequer em nome do “futuro” com que apenas fingem preocupar-se sob a retórica indolor dos cataclismos vagos ou longínquos ou fictícios. Tempo é o que nos sobra, incluindo para recordar o cliché de que vivemos acima das nossas possibilidades. O problema é que jamais nos ocorre elevar as possibilidades, embora sejamos exímios a adaptarmo-nos a uma vida que desce – e a torcê-la para disfarçar a descida. Perante a hipótese de, com sacrifício, “isto” poder ser melhor, consolamo-nos com a suspeita de que, sem esforço nenhum, isto podia ser pior. É uma hipótese cujo acerto comprovamos ano após ano.

Governo       Política

COMENTÁRIOS (de 38)

Maria Paula Silva

Excelente e deprimente!

"o processo implicaria tempo, moderado sofrimento e imensa coragem", resumindo o processo, implica que trabalhem!   O que falta a Portugal é decisores e governantes honestos que TRABALHEM.

Do Luisinho Monte Rosa nem vale a pena falar, o arrogante parolo casmurro está em queda livre. Nem com os bombons e tostões que oferece antecipadamente pró Natal se vai safar.  Se tiver 2 dedos de honestidade (o que duvido) estará à beira de se arrepender, se não for totalmente apoucadito, já deve ter percebido que não tem unhas pra isto.

Quanto ao MRS, sempre igual a si próprio, fiquei muito admirada (sem encontrar uma explicação plausível) quando anunciou pouco depois de acabar o 2º mandato que abdicava da reforma vitalícia de PR.  Confesso que andei perplexa durante meses, pois aquilo não encaixava na personalidade que, infelizmente, conheço bem demais.   Mas a perplexidade desapareceu quando recentemente li uma notícia (aqui) em que começavam por anunciar as perdas financeiras de sua excelência (grande truque malabarístico de matemática mal explicada) do princípio para o fim do seu árduo mandato, mas mais pr`ó fim lá explicavam, Graças a Deus para a minha perplexidade que desapareceu nesse instante, o que fazia sua excelência desde que tinha terminado o mandato:

ocupava um gabinete a 1,2 km do Palácio de Belém, onde mantinha a expensas do Estado as suas duas secretárias (nomes vinham mencionados), o mercedes não sei das quantas + o motorista, tudo a expensas do Estado. E onde, se entretinha a enviar uns emails protocolares (seja lá o que isso for) e a dar uns beijinhos de vez em quando a outros chefes de Estado, etcetra.

Pronto, estava explicada a abdicação da reforma vitalícia.   No meio do riso que não conseguia conter, surgia na minha mente, quanto tempo antes ele teria estado a cozinhar aquela "reforma", a quantas pessoas teria ele dado a volta, que intrigas teria feito para que a coisa acabasse por lhe ser oferecida de bandeja. Maganão, quando se nasce aldrabão, morre-se aldrabão.

A aldrabice maior fez ele com as Gémeas e o teatrinho em se zangar com o filho, para que este fosse o "cordeiro sacrificado". Agora, tal como eu previra também, está, como bom católico (ooopsssss....) a tentar "aproximar-se" do filho.   Benzódeus, Nosso Senhor! 

É como dizia Paulo Portas numa entrevista ao Herman, nos anos 90 quando MRS manifestou publicamente o desejo de ser 1º ministro:  "Deus deu-lhe a inteligência e o diabo deu-lhe a maldade, por isso uma pessoa que mente e me enganou com a história da Vichyssoise onde tudo era mentira, não pode concorrer a 1º ministro, é um aldrabão!"

Portanto, "dizer coisas" é aquilo que sempre fez. O que admira é haver ainda gente que perca tempo a ouvi-lo.  É mais uma das provas da abençoada pobreza de espírito da maioria que habita este rectângulo.  Mas não deixaria de ser engraçado ver o MRS chegar ao fim da vida a falar para as paredes rodeado de caixas de gelado e de fortiméis.

Vasco R

Óptimo artigo. No fim, somos governados por idiotas oportunistas e infelizmente, a grande maioria dos portugueses gosta e vota nesta gentalha, quanto mais socialista e esquerdola melhor.  Concluindo,  a grande maioria dos portugueses são ignorantes, de uma infantilidade gigantesca, primários a buscar a satisfação imediata, fatalistas e pouco ambiciosos. Uma miséria franciscana, agravada pela emigração de quase um milhão de jovens portugueses qualificados e empreendedores, compensados (sarcasmo intenso) pela escória muçulmana nojenta, indostânicos sujos e palops, que apesar de melhor se integrarem, são ainda mais ridiculamente infantis e ignorantes que os portugueses. Espera-nos um futuro brilhante.

Eduardo Lourenço

Excelente crónica.  Parabéns. 

Pedro Correia

Como sempre, excelente.
Muito mal vai a nossa classe política, quando até a Leonor Beleza, diz não compreender Pedro Passos Coelho. O que pensaria Champalimaud disso?

Liberal do Costume

É certo que o tuga vota à sua imagem e semelhança, em trafulhas, em chicos-espertos, em gente superficial. De vez em quando está mais "à rasca" e lá vai buscar alguém mais sério, para limpar o desastre precedente, não realmente para mudar alguma coisa de um país que o tuga considera perfeito. E mesmo para isso é preciso estar muito "à rasca".

observador censurado

Relativamente a governo e produtividade, recentemente o Canal Now num fim de semana apresentou-nos uma investigação jornalística sobre um prédio em que os moradores tinham grandes dificuldades para sair/entrar em casa porque o elevador estava avariado há 10 anos.

Havia casos em que moradores em cadeiras de rodas para poderem sair de casa e irem ao médico tinham de pedir ajuda a amigos que tinham de faltar ao trabalho para transportar os moradores pelas escadas até ao rés-do-chão.

O senhorio de todos aqueles moradores (proprietário do prédio) é o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, titulado pelo Irmão Miguel Pinto Luz.

Como o senhorio era o Estado fiquei com curiosidade em saber como os moradores iriam descalçar a bota porque uma acção contra o Estado demora, em média, pelo menos, 10 anos até que um Tribunal Administrativo titulado pela sra. Júdice emita uma primeira resposta. 

Teria o advogado do programa uma solução para aquele problema envolvendo vários ministérios (incluía também o Ministério da Saúde pois a saúde dos moradores presos em sua casa piorava)?  Depois de espremidas as palavras do advogado, parece-me que a solução seria apelar a Deus.

MariaPaula Silva > Liberal do Costume

Muito obrigada e igualmente.

Mas não concordo nada em que a AD (por favor, não me insulte nem à memória de Sá Carneiro) está a limpar seja o que for, mas sim a dar continuidade à porcaria deixada pelo sô Costinha.

MariaPaula Silva > Liberal do Costume

tem razão, não é para mudar, os portugueses odeiam mudanças, é apenas para «limpar a porcaria" quando ela atinge níveis insuportáveis. Que é o que está a acontecer  agora :)

Nenhum comentário: