sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Prazer em reconhecer

 

Quadros de vidas femininas, em TEXTO de um pensamento justo e elegante expressão, que faz reconhecer, de facto, uma ESCRITORA, em Djaimilia Pereira de Almeida.

Fim de tarde

É esta a magia que ninguém consegue destruir: a de os estranhos se poderem ajudar uns aos outros sem saber que se ajudam.

Djaimilia Pereira de Almeida:    Escritora

OBSERVADOR, 18 set. 2026, 00:20

As mais lidas

Mulher de denunciante contra Cabreiro tem vitória judicial

"Não admito que alguém do Chega tenha vandalizado gabinete"

Carlos parecia "eufórico" com morte de Diana, diz Spencer

Montenegro em queda nas sondagens e em terra de ninguém

Leonor Beleza diz não "compreender" Passos

PS lidera nova sondagem com Chega à perna e AD em terceiro

Eram sete e meia da tarde, fim de Verão, o sol punha-se sobre os botes. Curvei a esquina do Clube Naval, pensando que tinha medo de estar ali àquela hora. Nunca se sabe o que esconde o fim da curva. Foi quando dei com a mulher sozinha, sentada à beira-rio, olhando as águas.

Não tinha medo de ali estar no lusco-fusco, pensei, o que me deu confiança. Estava tão completamente perdida nos seus pensamentos, tão distante das pessoas que passavam na marginal.

Pensei, porque o parecia, que tinha saído há pouco tempo do trabalho. Então, imaginei que tivesse aquele hábito: que antes de regressar a casa, se sentava sozinha nas margens, a pensar na vida.

À beira do rio, ao fim da tarde, observo outras mulheres como ela, que aparentam ser divorciadas: bebem um copo de vinho, sentadas na esplanada. Admiro-as na sua independência, as costas descobertas dos vestidos de linho preto, as sandálias douradas.

Sempre que chego a um lugar e vejo mulheres sozinhas por ali, entregues aos seus prazeres e ao seu próprio tempo, concluo que é um lugar relativamente seguro.

A mulher sozinha talvez não tivesse dinheiro para estar na esplanada. Mas não se privou da vista nem do murmúrio das águas. Absorta, sem telefone por perto ou outra distracção, olhava a corrente, olhando para dentro de si mesma.

Deu-me força que estivesse sozinha no meio dos outros, sem lhes prestar atenção. A mim, que não me abandono à solidão fora de casa, afligida por receios e demónios, a mulher sozinha diante do rio deu-me coragem.

Lá fui, dando passos tímidos, tentando não me desequilibrar na areia e nas pedras, a pensar que não havia razão para ter medo.

É esta a magia que ninguém consegue destruir: a de os estranhos se poderem ajudar uns aos outros sem saber que se ajudam. A possibilidade de nos encorajarmos mutuamente mesmo sem nos conhecermos, mesmo sem falarmos, apenas em virtude de nos observarmos e de nos reconhecermos.

Muitas pessoas enveredam, por vezes, em discursos grandiloquentes a favor da humanidade, perdendo de vista que a humanidade reside também no entendimento silencioso entre estranhos. Eu ia com medo e a mulher ao pé do rio tirou-me o medo.

Não me ocorreria interromper o seu silêncio, os seus minutos. Não fiquei a conjecturar como se chamaria, nem em que pensava.

Apenas a vi profundamente, como profundamente ela olhava as águas. E reconheci-a desse modo íntimo como alguém a par de mim, viva como eu, presa na sua circunstância, abalada pelas suas dores que não conheço, inteira e livre como gostaria que todas fôssemos.

Pessoas        Sociedade

 

Nenhum comentário: