Quadros de vidas femininas, em
TEXTO de um pensamento justo e elegante expressão, que faz reconhecer, de
facto, uma ESCRITORA, em Djaimilia
Pereira de Almeida.
Fim de tarde
É esta a magia que
ninguém consegue destruir: a de os estranhos se poderem ajudar uns aos outros
sem saber que se ajudam.
Djaimilia Pereira de Almeida: Escritora
OBSERVADOR, 18 set. 2026,
00:20
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Eram sete e meia da tarde, fim
de Verão, o sol punha-se sobre os botes. Curvei a esquina do Clube Naval,
pensando que tinha medo de estar ali àquela hora. Nunca se sabe o que esconde o
fim da curva. Foi quando dei com a mulher sozinha, sentada à beira-rio, olhando
as águas.
Não tinha medo de ali estar no
lusco-fusco, pensei, o que me deu confiança. Estava tão completamente perdida
nos seus pensamentos, tão distante das pessoas que passavam na marginal.
Pensei, porque o parecia, que
tinha saído há pouco tempo do trabalho. Então, imaginei que tivesse aquele
hábito: que antes de regressar a casa, se sentava sozinha nas margens, a pensar
na vida.
À beira do rio, ao fim da
tarde, observo outras mulheres como ela, que aparentam ser divorciadas: bebem
um copo de vinho, sentadas na esplanada. Admiro-as na sua independência, as
costas descobertas dos vestidos de linho preto, as sandálias douradas.
Sempre que chego a um lugar e
vejo mulheres sozinhas por ali, entregues aos seus prazeres e ao seu próprio
tempo, concluo que é um lugar relativamente seguro.
A mulher sozinha talvez não
tivesse dinheiro para estar na esplanada. Mas não se privou da vista nem do
murmúrio das águas. Absorta, sem telefone por perto ou outra distracção, olhava
a corrente, olhando para dentro de si mesma.
Deu-me força que estivesse
sozinha no meio dos outros, sem lhes prestar atenção. A mim, que não me
abandono à solidão fora de casa, afligida por receios e demónios, a mulher
sozinha diante do rio deu-me coragem.
Lá fui, dando passos tímidos,
tentando não me desequilibrar na areia e nas pedras, a pensar que não havia
razão para ter medo.
É esta a magia que
ninguém consegue destruir: a de os estranhos se poderem ajudar uns aos outros
sem saber que se ajudam. A possibilidade de nos encorajarmos mutuamente mesmo
sem nos conhecermos, mesmo sem falarmos, apenas em virtude de nos observarmos e
de nos reconhecermos.
Muitas pessoas enveredam, por vezes, em discursos
grandiloquentes a favor da humanidade, perdendo de vista que a humanidade
reside também no entendimento silencioso entre estranhos. Eu ia com medo e a
mulher ao pé do rio tirou-me o medo.
Não me ocorreria interromper o seu silêncio, os seus minutos.
Não fiquei a conjecturar como se chamaria, nem em que pensava.
Apenas a vi profundamente, como profundamente ela
olhava as águas. E reconheci-a desse modo íntimo como alguém a par de mim, viva
como eu, presa na sua circunstância, abalada pelas suas dores que não conheço,
inteira e livre como gostaria que todas fôssemos.
Pessoas Sociedade
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