terça-feira, 13 de outubro de 2026

O que se passa

Sobre o que se passou…  Com a natural demagogia dos “pacifistas” de hoje, e como chamariz para as suas pessoas, de generosidade comprovada nas palavras … escritas, para inglês ver, e que admiram, talvez mais, as guerras de hoje, de uma pujança mais eficaz mas, sobretudo,  distanciada no ponto de partida, captada, sobretudo, por meio televisivo,  como espectáculo ilustrativo,  não condenável, esse…

Vamos a isso!

Não tenho qualquer objecção em debater os temas das reparações e da escravatura com João Moreira da Silva ou qualquer outro. Recuso, porém, participar num debate que se estruture como espectáculo.possíveis amigos outros amigos

JOÃO PEDRO MARQUES, Historiador e romancista

OBSERVADOR, 12 out. 2026, 00:24

Como mostrei no meu anterior artigo, João Moreira da Silva mentiu quando me acusou de mentir a respeito das recentes declarações do Ministro dos Estrangeiros do Gana sobre a disponibilidade do governo da AD para o ajudar na questão das reparações. Mas também referi, nesse meu artigo, que não era a primeira vez que Moreira da Silva mentia a meu respeito e prometi que revelaria onde e como, num próximo texto. É o que passo agora a fazer.

Convém lembrar que João Moreira da Silva é um jovem esquerdista woke que já no passado critiquei porque ele se empenha em negar ao Portugal de outros tempos o direito a ser classificado como a primeira nação globalizadora. Critiquei-o, igualmente, porque, na ânsia de censurar os autores do enunciado de exames de História por não terem referido as violências cometidas pelos portugueses nos seus domínios ultramarinos, e de considerar esse esquecimento como tendo sido deliberado, se ter ele próprio esquecido de referir as incomensuravelmente maiores violências cometidas durante o estabelecimento do mundo islâmico e do Império Mongol, processos históricos que o próprio Moreira da Silva trouxe à baila.

Todavia, em vez de tentar responder a essas minhas críticas — concedo que teria sido difícil fazê-lo — João Moreira da Silva preferiu, como é timbre da sua seita política, difundir um venenoso boato sobre mim nas redes sociais. Segundo esse boato eu teria recentemente recusado participar num debate sobre reparações em que o próprio Moreira da Silva iria estar presente e teria supostamente alegado, como justificação da recusa, “não estar confortável com um público a assistir e intervir”. O jovem esquerdista woke insinuou, assim, que eu teria receio de debater com ele e perante uma audiência. Mas isso é falso, pois não foi essa a razão pela qual recusei o convite que me foi endereçado, no dia 10 de Junho, por Leonor Caldeira, uma “advogada de activistas”, como a própria se define, que adquiriu notoriedade por ter representado a família Coxi e ter vencido um processo contra André Ventura. A razão da recusa foi outra, como fica claro do que respondi logo no dia seguinte, por escrito, à própria Leonor Caldeira — dando conhecimento dessa resposta aos outros dois organizadores do referido debate, João Marecos e José Maria Pimentel — e que aqui transcrevo:

“Cara Leonor Caldeira, começo por lhe agradecer o simpático convite que me dirigiu. O tema (das reparações) é e continuará a ser de interesse público e o contraditor proposto, João Moreira da Silva, parece-me uma pessoa adequada pelas razões que expôs no seu email. A data também é adequada e, até, bem-vinda por ser relativamente próxima de um outro debate que irei ter sobre esse tema no dia 4 de Dezembro. O que não me parece indicado é o modelo do debate. Na modalidade proposta o que se avalia não é o mérito ou demérito das ideias, das teorias e interpretações de cada um, mas sim a capacidade de as publicitar e de persuadir uma audiência. Não se avalia o nível dos conhecimentos dos debatentes, mas o seu merecimento como propagandistas. É, salvo melhor opinião, um modelo próximo de (e ajustado a) um concurso de televisão ou a uma campanha eleitoral, com vencedor e vencido a serem determinados pela variação das sondagens pré e pós-debate, e não pela contraposição de argumentos com a sua dinâmica própria e que possa ser, até em virtude dessa dinâmica, realmente esclarecedora. Para lhe falar com toda a franqueza eu não sou um militante, não estou em campanha para converter pessoas e não me revejo nem me ajusto ao modelo proposto. Por isso não posso aceitar o seu convite. Com os melhores cumprimentos, João Pedro Marques”.

Feita a transcrição integral da minha resposta, fica evidente que não há nela qualquer referência a “não estar confortável com um público a assistir e intervir” nem qualquer objecção em debater com João Moreira da Silva, pelo contrário. Ou seja, o boato sobre mim que o dito Moreira da Silva pôs a correr nas redes sociais é uma mentira. Gostaria, também, de sublinhar o seguinte: desde 2017 que assumo uma posição pública frontalmente contrária ao pagamento de indemnizações ou reparações por factos relativos ao já distante passado colonial de Portugal. Já assumi essa oposição em livros e em mais de uma dúzia de artigos de opinião, um dos quais em debate directo com João Moreira da Silva. Para além disso já debati a questão face a face com diversos opositores, inclusive na RTP África, na SIC e na RTP2. Por norma tenho estado disponível para debater este assunto e em Novembro de 2025 surgiu o projecto de organizar um debate entre mim e um outro interveniente — eu sugeri, entre outros nomes, o de Marcelo Rebelo de Sousa, mas também o de João Moreira da Silva. Por razões que me transcendem esse debate, que deveria realizar-se em Cascais perante uma audiência de 200 pessoas, não foi por diante. Porém, ainda no corrente ano, no princípio de Dezembro, como referi acima, irei participar num outro debate sobre o mesmo assunto, debate que se realizará sob a égide da Academia IDL – Instituto Adelino Amaro da Costa, perante uma audiência e em que, se não houver alterações de última hora, terei como contraditor Ascenso Simões, o ex-deputado do PS.

Ou seja, e em suma, não tenho qualquer objecção em debater os temas das reparações e da escravatura com João Moreira da Silva ou qualquer outro interlocutor. Recuso, porém, participar num debate que se estruture como espectáculo, com duas equipas concorrentes, como num concurso televisivo, e que privilegie os dotes de advocacia e de capacidade de persuadir uma audiência circunscrita, como, em minha opinião, aconteceria no caso deste convite que me foi dirigido por Leonor Caldeira.  Esse tipo de debate poderá ser o terreno de eleição para a referida Leonor Caldeira, uma advogada de barra e de contencioso que gosta (ou gostava) da picardia, ou para o também advogado e coorganizador, João Marecos. Porém, eu não sou advogado, sou um historiador que dividiu a sua actividade profissional entre o ensino e a investigação. Acresce que a História não equivale a uma campanha eleitoral nem a uma sessão de tribunal, com jurados, vencedores e vencidos, nem se adequa a um julgamento.

Não obstante tudo isso ser para mim um ponto bem assente, e do qual não me afastarei, se João Moreira da Silva ou outra pessoa me quiser propor um debate de natureza e mecânica diferentes do que agora me foi proposto, organizado em moldes tradicionais, que seja moderado por alguém isento, equidistante e minimamente conhecedor da matéria, e que decorra em terreno neutro, num estúdio de um dos principais canais televisivos ou face a uma audiência equilibrada, isto é, bem dividida entre as duas posições em confronto, e se tudo isso puder ser previamente assegurado, então eu daqui lhes digo: vamos a isso!

Debate      Sociedade

COMENTÁRIOS (de 69)

Rui Medeiros

Muito bem Sr. Professor,

Estes ilustres queriam montar-lhe uma armadilha, por forma a tentar descredibilizar tudo o que tem dito e escrito sobre as indemnizações.

Eles engendraram um debate moderado por uma advogada wokista ou outra pessoa qualquer com essa mesma ideologia, bem como teriam uma plateia previamente seleccionada hostil ao seu pensamento... tudo planeado para criar o dito espectáculo de que fala... porque debater seriamente o assunto, não era certamente a intenção deles.

Aliás, as más intenções deles ficam bem demonstradas na mentira sobre a sua recusa de debater nessas condições, comprovado pela  carta aqui reproduzida.

Parabéns pela Sua atitude.

Rosa Ribeiro

Portugal também será indemnizado pelo Ensino, Cultura, Ciência, Saúde, Infraestruturas, Edificações que deixou nos novos países?

E os países amigos da libertação dos povos serão beneficiados pelos actos cometidos? E as viúvas, mães e irmãs que perderam os entes queridos na guerra colonial, também serão beneficiadas?

Por amor de Deus, deixem o Passado e pensem em melhorar o Presente e, especialmente, o Futuro.

graça Dias

Senhor Professor João Pedro Marques

Um artigo brilhante que desmascara João Moreira da Silva e o microcosmo da sua ideologia globista Woke, com uma proposta em style espectáculo, que nunca iria garantir o esclarecimento, mas antes, porém, e dados os interlocutores propostos, seria publicitar propaganda e persuadir uma audiência -- esse é o modus operandi das falaciosas narrativas das esquerdas globistas  Woke, com a inversão e a adulteração dos factos.

É com armadilhas com este padrão apresentado ao Senhor Professor, que os esquerdistas Woke enganam os distraídos e os incautos, na sua senda de reescrever a História, que lastimavelmente, durante os consulados socialistas & geringonça, se propagou muita mentira através do ensino e da cultura.

Ao Senhor Professor JPM o meu agradecimento e parabéns, por não ter integrado esta marcha caluniosa da esquerda globista Woke, contra a História de Portugal e contra os portugueses.

Maria Nunes

Sr. Professor João Pedro Marques, fez muito bem em não se prestar a essa fantochada. O que JMS e a advogada querem é espectáculo. Obrigada pela sua defesa intransigente da nossa História.

António Soares

É por ter figuras do jaez de Moreira da Silva, Rangel, Pacheco Pereira e a menstruanda Balseiro, que o PSD caminha para a irrelevância.

Fernando > ce

Apoiado. Essa gente que se lhe opõe é “compagnon de route” dos contestatários actuais na França e Bélgica. Não representam o país. Esquecem-se de que, quando chegámos aos países que construímos (porque eles não existiam com a configuração que lhes demos) e colonizámos, com a excepção do ex-Estado da Índia, viviam num estado civilizacional perto do Neolítico.

João Floriano

Totalmente de acordo com o Dr. João Pedro Marques. O que estes wokes querem é notoriedade, é palco.

SDC Cruz

Admira-me que um ilustre Historiador e Professor perca o seu precioso tempo com os Moreiras da Silva desta vida. Estes personagens não merecem palco. São uma aberração da Portugalidade.  

(300) Orlando Eduardo von Dollinger Martins

Eu sei que a generalidade das pessoas que comentam aqui são cultas e pouco dadas à literalidade. Porém, relido o texto, não sei se o meu comentário saiu suficientemente irónico.

JPM, tem toda a minha solidariedade!

Mas que eu achava engraçado os “reparadores” pagarem do seu bolso, lá isso…

graça Dias (300) > Orlando Eduardo von Dollinger Martins

Caríssimo Orlando Eduardo von Dollinger Não está errado. O Sr. Ascensão Simões disse,  e  mais do que uma vez, que o Padrão dos Descobrimentos era para explodir. Se o passar do tempo me não esbateu os contornos e as cores da memória, julgo que fez uso de " explosão " , o que vai dar no mesmo,  ou seja, ao pensamento doentio destes impostores e incendiários, que pretendem apagar a nossa História e identidade.

Estes tolos de tanta ignorância, deveriam ler os livros do Sr. Professor João Pedro Marques e o livro CATACLISMO ATLÂNTICO editado pela Guerra e Paz há cerca de 2 meses, do prestigiado historiador David Eltis, especializado na história da escravidão nas Américas. No livro, Eltis apresenta uma análise profunda e inovadora sobre o tráfico transatlântico de escravos, desafiando interpretações tradicionais e expondo a complexidade deste fenómeno. Eltis discute as implicações demográficas, económicas e sociais, tanto para África quanto para as Américas, e oferece uma nova perspectiva sobre uma das transacções mais sombrias da história, realçando o respectivo contributo para a formação das sociedades modernas.

Uma obra fundamental para historiadores, investigadores e qualquer pessoa interessada em compreender as raízes profundas das desigualdades e dinâmicas contemporâneas.

Eltis examina, além da participação essencial dos Europeus, a participação dos vendedores africanos, seja dos guerreiros mercadores em larga escala, seja da multitude de pequenos vendedores de um ou dois escravos: só a rainha Ginga está associada à venda e ao embarque de 190 mil escravos em poucos anos.

☆ Nenhum debate sobre escravatura pode, agora, ser feito sem considerar este livro ☆

(300) Orlando Eduardo von Dollinger Martins

Caro João Pedro Marques,

Leio tudo o que escreve aqui e concordo quase sempre. Desta vez, não.

Este problema das reparações pode acabar rapidamente sem debates, tricas, comentários azedos e outras figuras.

O que é que o JPM tem contra as reparações? O JPM não quer pagar, eu também não nem admito que o Estado o faça em meu nome. Porém, acho legítimo que o Moreira da Silva e seus apaniguados o façam. Depois da política do “utilizador-pagador” teríamos a do “sofredor-pagador”.

Esta gente só teria de comunicar à autoridade tributária quanto estaria disposta a descontar mensalmente para aliviar a sua consciência.

Deste modo, cada um fica com a sua razão e talvez nos possamos dedicar a causas importantes.

Sr Leão

Não conheço esse Moreira Silva nem preciso de conhecer para dar ao prof. JPM todo o meu crédito.

Alcochete4@ > Portugal Para Sempre

Quem é esse João Moreira Silva?!

(300) Orlando Eduardo von Dollinger Martins

Reli o texto e saltou-me agora à vista que o professor João Pedro Marques vai debater com o Ascenso Simões.

Estou disponível para reconhecer o erro, mas creio que esse senhor do PS disse, há uns tempos, que o Padrão dos Descobrimentos era para demolir!

Se não disse...as minhas desculpas, mas seria capaz de jurar que sim.

Se alguém tiver uma memória mais fresca e esclarecida que confirme, por favor.

A ser verdade, o nosso caro professor não vai ter mãos a medir com a quantidade de chalupas com que vai ter de dirimir argumentos.

graça Dias(300)  > Orlando Eduardo von Dollinger Martins

Caríssimo Orlando Eduardo von Dollinger

O seu comentário não só foi ironia inteligente, como muito bem enquadrado no contexto.

 A sugestão talvez tivesse causado algum mau estar aos proponentes da sessão espectáculo. Boa semana.

Manuel Magalhaes

Esse Moreira da Silva se é wok é sem dúvida um idiota!!!

João Floriano  > Rui Medeiros

Subscrevo o comentário do Rui Medeiros.

Manuel Lisboa

Muito bem João Pedro Marques!

Miguel Macedo

Muito bem! Como sempre!

Joao Lemos

Esta malta não quer debater nada.

Por um lado, não tem cultura para debate e por outro são especializados em gritarias.

João Marques > António Soares

João Moreira da Silva não está ligado ao PSD. É o seu pai, Jorge Moreira da Silva, que o está.

Nenhum comentário: