“Um… dois, esquerda, direita, um, dois…”
Passos
Coelho e o que fazer com uma “maioria de direita”
Importa perceber se os mais de 60% de deputados que se
sentam à direita do PS correspondem mesmo a uma “maioria de direita”. E se um
Chega liberto da “peçonha” pode ser parceiro numa agenda reformista
JOSÉ
MANUEL FERNANDES, Publisher e colunista do Observador
OBSERVADOR,
13 out. 2026, 00:25
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Eu sei: a maioria dos
comentários à entrevista de Pedro Passos Coelho na SIC Notícias andou por regra
à volta de saber se, e quando, o antigo primeiro-ministro poderá regressar à
política ou disputar a liderança do PSD. É da natureza das coisas e da natureza do
jornalismo. Mas a mim interessou-me mais outro ponto: o que fazer quando mais de 60% dos
deputados se sentam, como se sentam hoje, à direita do Partido Socialista.
Sobre isso Passos Coelho lembrou que quando o
PSD ganhou as eleições em 2024 “ficou claro que o país esperava uma
mudança significativa”, pelo que competia ao seu partido pelo menos
explorar um cenário de acordos, ou mesmo de coligações, com o Chega e a Iniciativa
Liberal: “O PSD tinha obrigação de explorar
essa possibilidade. Talvez não fosse fácil. Mas era importante tentá-lo”. E se os governos de coligação não
são fáceis – recordou mesmo as dificuldades da coligação que fez em 2011 com
o CDS –, considerou que com a actual política se dá a impressão de que ao PSD “tanto faz” negociar à
esquerda com o PS ou à direita com o Chega. Para ele isso “é uma armadilha
política imensa”.
Se aceitarmos este ponto de
partida – e eu aceito até pela evidência dos resultados esquálidos da actual
governação “pisca-pisca” –,
importa perceber se os mais de 60% de deputados que se sentam à direita do PS
correspondem realmente a uma “maioria de direita”, se é que ainda podemos usar esta
nomenclatura.
Olhando apenas para aquilo que têm sido as nossas
incidências parlamentares dir-se-ia que nem por isso. Se em alguns temas – imigração,
nacionalidade, segurança, pontualmente na habitação – lá vão acontecendo votações
coincidentes da AD, do Chega e da IL, noutras áreas é quase mais natural ver o Chega a alinhar
com os socialistas ou com toda a esquerda. O caso mais emblemático foi o da votação
das leis laborais, mas
não nos devemos esquecer das borlas nas portagens ou dos limites
às propinas, da insistência num IVA reduzido ou ainda das propostas de descida
da idade da reforma.
Sendo assim, será que aquilo que temos no Parlamento é
realmente uma maioria de direita ou, pelo contrário, o que temos é um sistema
de “três corpos”, isto é, de três partidos grandes com qualquer
deles a querer ser o maior e, por isso, com o caminho fechado a acordos de
legislatura? Nos
últimos meses, com as sondagens a darem gás ao Chega e com André
Ventura a voltar a distanciar-se da aprovação do Orçamento do Estado, parece estarmos mais perante este quadro
instável de uma dança a três, com o inevitável corolário de uma governação à
vista, casuística e muito pouco reformista.
A esta instabilidade estrutural alguns respondem
advogando um novo “bloco central”. Seria um erro. Primeiro, porque desdenharia dos mais recentes
resultados eleitorais, onde se manifestou uma clara vontade de ruptura com a
governação socialista (algo que Pedro Passos Coelho recordou na sua entrevista). Depois, porque o refúgio dos
velhos partidos num novo bloco central deixaria às margens e ao radicalismo o
monopólio da contestação.
A democracia não é o regime onde escolhemos e elegemos
um governo, é o regime onde somos capazes de despedir sem
derramamento de sangue governos de que não gostamos – e despedir também as
suas políticas.
Os governos de bloco central não só dificultam a remoção dos
governantes indesejados, como sobretudo tornam quase impossível escolher outras
políticas.
Pior:
na experiência europeia recente os governos de bloco central não têm ajudado a
consensualizar reformas, têm antes apodrecido na defesa do status quo e dos hábitos instalados.
Sendo assim, o recomendável é que possamos ter
propostas políticas realmente contrastantes e competitivas, algo que no último
século e meio correspondeu mais ou menos a termos ora
governos mais à direita, ora governos mais à esquerda, alternando pacificamente a direcção
dos negócios públicos. E se isto é o recomendável, porque se
quer então evitar essa alternância em Portugal?
A resposta chama-se “linhas
vermelhas”,
na nomenclatura nacional o “não é não” de Montenegro a
qualquer acordo estruturante com Ventura. Sabemos que esse “não é não” decorreu da
percepção de que sem se afastar do Chega o PSD não conseguiria ganhar em 2024,
mas também sabemos que o fantasma de uma aproximação ao Chega se transformou no
principal
argumento do PS e das esquerdas para limitar a margem de manobra do actual
governo.
O que Passos Coelho nos disse agora é que isso
corresponde a “uma
armadilha política imensa” e não é possível deixar de lhe dar razão. O problema é saber se
é possível sair dela e como. Mais: o problema é saber se, mesmo saindo dessa
armadilha, existe mesmo a tal “maioria de direita” e se é possível pô-la a
funcionar.
O primeiro passo terá de ser o derrubar do muro que
trata como “intocáveis” os eleitores do Chega, o tal “cesto de deploráveis” (Hillary Clinton, 2016) que só se
lamenta terem também direito de voto. Não só esses eleitores merecem tanto
respeito como todos os demais, como aquilo que é deplorável é considerar que
não fizeram escolhas políticas conscientes. Traçar em seu redor uma
trincheira intransponível não só é democraticamente errado como é politicamente
desastroso, algo
que a história recente da Europa comprova (ainda há semanas escrevi sobre
este tema a propósito de eleições na Suécia e na Alemanha).
Mais: a experiência tem mostrado que, quando se
aproximam do poder, alguns dos partidos apresentados como a encarnação do
diabo na terra tendem a moderar-se ou a tornar-se mais pragmáticos. A Itália de Meloni é o exemplo de que todos
falam,
mas os sinais mais recentes que nos chegam da Alemanha
indicam que a AfD, ao sentir a aproximação do poder, recentrou o seu discurso,
sendo que o seu primeiro presidente de um parlamento regional fez um
discurso de posse tão moderado que houve até quem considerasse que agora é a
nova moderação da AfD que assusta políticos e jornalistas. Quando, pelo contrário, essa
recentragem dos extremos não acontece, como sucedeu na Áustria e nos Países
Baixos, os eleitores acabam por se afastar dos populistas.
Mesmo assim falta saber se,
mesmo rompendo a barreira da peçonha, uma aproximação do nosso Chega seria
suficiente para tornar operacional e reformista uma “maioria de direita”. Ouvindo André Ventura e conhecendo
muitas das propostas do partido há boas razões para duvidar. Um partido “do contra” dificilmente
será a favor de alguma coisa. Um partido que tem como base eleitoral
pessoas de baixos rendimentos dificilmente alinharia num programa de abertura
económica. Mesmo assim falta tirar a prova dos
nove. Isto é, falta saber se uma coligação (ou um acordo de legislatura) com o
Chega seria apenas difícil ou se seria mesmo impossível.
Eu por mim preferia que
fosse tentado. E que fosse tentado antes de as urnas
eventualmente confirmarem aquilo que as sondagens indicam: que o partido de André Ventura é o
preferido dos eleitores. No fundo foi também para isso que Passos Coelho nos
alertou.
Pedro
Passos Coelho Política PSD Partido Chega
(CONTINUA)
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