sábado, 29 de junho de 2024

Mas ele sabia


E lutou por isso, é o suficiente.

Mas o que eu invejo mesmo são os “95% dos 32.100 euros brutos e mensais” da sua reforma. Quem me dera!

O homem que tem quase o prestígio de Charles Michel 

Não é à toa que muitos juram estarmos perante o homem certo no lugar certo, e que ninguém, ninguém, ninguém possui habilitações sequer comparáveis.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 29 jun. 2024, 00:203

Quantos portugueses sabem quem é Charles Michel? Talvez cinco por cento, auxiliados pelas notícias dos últimos dias. Antes disso, talvez nem um por cento. Charles Michel, antigo primeiro-ministro da Bélgica, é, ainda, o presidente do Conselho Europeu, cargo que desempenha desde 2019 sem que a vastíssima maioria dos meus compatriotas (e, suponho, dos europeus em geral) desse por isso. A propósito: quantos portugueses sabiam há dois ou três meses que existe uma instituição chamada Conselho Europeu? Não arrisco um número para não ser acusado de optimismo. De qualquer modo, é para semelhante glória que agora desponta o dr. Costa.

Quem segue os “media” caseiros não ficaria com essa impressão. As festividades em volta da nomeação chegam a tais excessos que um distraído julgará que o dr. Costa foi nomeado para um cargo mais notório que o de Papa. E não para o cargo até aqui desempenhado pelo celebérrimo Carlos Miguel. Aliás, a celebridade do sr. Michel, superior à de uma estrela televisiva búlgara, deve-se inteirinha aos esforços do próprio em sair da obscuridade a que o cargo – além da intrínseca mediocridade, pelos vistos – o condenou. Na imprensa internacional, quase não há artigo sobre o tema que não denuncie os vãos esforços do sr. Michel para sair da sombra da senhora dona Ursula, e os esforços bem sucedidos para cair no ridículo. Um diplomata definiu-o como alguém “com ambição bastante maior que o talento”.

Alguns artigos em particular notam que as limitações do cargo começam logo na designação. Aparentemente, o presidente do Conselho Europeu não é exactamente um presidente, excepto na generosidade com que os franceses (e os portugueses) tratam o termo. Ao contrário do que o chinfrim patriótico sugere, o emprego consiste em receber com sorrisos os chefes de Estado ou de governo dos estados membros, cada um ao serviço da respectiva “agenda” e todos juntos num órgão que, para citar uma crítica, “é disfuncional e irresponsável”.

As funções oficiais do Conselho, que sai à luz do dia duas vezes por semestre, estão no Tratado da União Europeia:dá à União os impulsos necessários ao seu desenvolvimento e define as orientações e prioridades políticas gerais da União” (desculpem, mas não sou o autor disto). Já as funções do presidente do Conselho não só estão no tratado como são um tratado em si. Gosto sobretudo da a) (“Preside aos trabalhos do Conselho Europeu e dinamiza esses trabalhos”) e da c) (“Actua no sentido de facilitar a coesão e o consenso…”). As funções b) e d) excedem-se em irrelevância. Parece que, além dos sorrisos, o dr. Costa terá de assegurar o “catering” e iniciar inúmeras frases com “‘Vamo’ lá ver…” Não é à toa que muitos juram estarmos perante o homem certo no lugar certo, e que ninguém, ninguém, ninguém possui habilitações sequer comparáveis. E o extraordinário é serem poucos a rir enquanto afirmam maravilhas assim.

“Vamo” lá ver… Primeiro ponto: o que explica que, de repente, imensa gente “saiba” que o dr. Costa é o presidente do Conselho ideal? Os “especialistas” avaliaram com minúcia o currículo e o carácter das restantes possibilidades faladas nos meses recentes? Houve um concurso de talentos que me escapou? Segundo ponto: mesmo que o dr. Costa fosse o portento político vendido pela nossa paroquial propaganda, há o obstáculo das línguas, visto que são várias as faladas no Conselho e o dr. Costa não domina nenhuma. Acontece que o dr. Costa obviamente não é o portento político vendido pela nossa paroquial propaganda. Por pudor, e vergonha na cara, nem comento as referências à “competência”, à “experiência” e ao “peso político”. No que toca à “construção de pontes”, a única que se lhe conhece é uma empreitada de 2015, que ligou o PS à extrema-esquerda e separou o partido dos combates de Mário Soares e, com curiosa frequência, do arco democrático. No que diz respeito a reformas, consta somente a dele, a qual será de 95% dos 32.100 euros brutos e mensais.

O facto é que, apesar das naturais bazófias do PS e de um “nacionalismo” deprimente que transcende o PS, a nomeação do dr. Costa tem uma importância idêntica à conquista de um campeonato internacional de pelota basca. O dr. Costa, outro com a ambição maior que o talento, vai substituir o sr. Michel apenas porque os arranjos que reconduziram a senhora dona Ursula exigiam que se compensasse um socialista, de preferência um socialista de uma nação periférica. Quanto aos arranjos que, por cá, permitiram ao dr. Costa livrar-se do país que ajudou a destroçar a tempo de ficar “disponível” para a “Europa”, esses são a única coisa interessante nesta história.

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COMENTÁRIOS (de 11)

F. Mendes: Bom artigo. Mas, o AG deveria ter focado um ponto importante: esta migração oportunista para a "Óropa", foi, ou não, orquestrada entre o Costa, o Marcelo e a Gago? Lembro que, em 2022, e com maioria absoluta, o Costa Concórdia jurou a pés juntos que terminaria o mandato; e que, logo no discurso de posse! o Marcelo prometeu dissolver a AR e convocar eleições se o Costa zarpasse; e, depois, há ainda o tal parágrafo da Gago, que outra consequência não poderia ter senão o abandono, em vestes rasgadas, de um personagem impoluto - embora sob suspeita, imagine-se - como o nosso ex-PM. São, a meu ver, coincidências a mais, o que parece confirmar que estamos entregues a gentalha sem escrúpulos, princípios, ou temor de serem chamados à responsabilidade. Como única vantagem disto, teremos o Costa longe daqui, e a fazer-nos rir quando falar Ingoês (Inglês palrado por um goês, travestido de Português). Vai ser giro comparar com o portugoês (isso mesmo) do homúnculo. Já que pagamos o salário pornográfico do Costa (faltam-me palavras para qualificar a pensão), podemos todos rir um pouco; ou muito, embora amargamente.                   Antonio Serrano: Muito bom a fazer pensar e sorrir! Aquele último período é veneno puro. Já pensei várias vezes na coincidência matemática, só que não me atrevi a escrevê-lo… mas que há bruxas… há!                 Miguel D: Haveria vários motivos para comentar a crónica desta semana - com a qual, aliás, genericamente concordo - mas não posso deixar de prestar a minha homenagem à citação desse antigo desporto olímpico: a Pelota Basca. É um honesto esforço pela mediatização e sobrevivência da modalidade.                  J. D.L.: Mas quem é melhor estadista, o dr. Costa ou o Samora Machel?              Eduardo Cunha: Excelente crónica. ta tudo dito.

Ao que se chegou!

 

Centrismos na casa própria, como obstáculo aos “centrismos” da casa alheia invasora, que parecem ser do agrado das esquerdas extremistas, conquanto do desagrado das direitas saudosistas da sua velha pátria livre. Mas o conceito de “liberdade” está demasiado elástico, nunca se sabe onde se vai parar. Uma excelente análise de RUI RAMOS destes novos tempos franceses, com paralelos inferidos de outros sítios mundanais, como este nosso, que se estranha ainda, sem sabermos se irá entranhar-se, tantas parecem ser as similaridades com o caso francês, que alguns comentadores bem traduzem…

O estranho caso dos centristas suicidas

Hoje, são os “centristas” como Emmanuel Macron que mais contribuem para a tensão e a instabilidade política na Europa.

RUI RAMOS Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 jun. 2024, 13:0432

Nas eleições europeias em França, o partido de Marine Le Pen ficou à frente. Era o que toda a gente esperava. O que ninguém esperava foi o que aconteceu a seguir, nessa mesma noite eleitoral: o presidente da república, Emmanuel Macron, dissolveu imediatamente a Assembleia Nacional. Ou melhor: começou por dissolver a Assembleia Nacional. Porque ainda ninguém sabe se, com o truque de precipitar legislativas, não dissolveu também o regime político francês e mais alguma coisa na Europa. Macron dirige a governação em França há sete anos. Afundou o país em dívidas e em desorientação. Resta-lhe agora, como último recurso, assustar os franceses com uma escolha desesperada entre o seu “centro”, e os “extremos” de Le Pen à direita, e de Jean-Luc Mélenchon à esquerda. Os franceses detestam-no? Pois terão de optar: ou ele, ou a “guerra civil.

Para se salvar, Macron não se lembrou de melhor do que arrastar o país até à beira do abismo, e gritar-lhe: “vá, atreve-te a saltar”. Mas não é o primeiro governante europeu a recorrer a tais encenações. Em 2016, foi o primeiro-ministro britânico, David Cameron. Também Cameron andava atormentado com a progressão eleitoral de um rival, Nigel Farage, líder do eurocéptico UKIP, que venceu as eleições europeias no Reino Unido em 2014. Também Cameron julgou que se livraria da concorrência confrontando o país com uma escolha que lhe pareceu impensável: a saída da União Europeia. Quem ousaria ir, sem mapa, por caminho tão desconhecido? Acontece que os britânicos fizeram mesmo o impensável: votaram pelo Brexit. Depois do referendo, Cameron demitiu-se. O feitiço consumiu o feiticeiro.

Terá Macron mais sorte? Não importa agora adivinhar o fim do jogo em França. Importa, antes, perceber o que há aqui de comum. Tal como Macron, Cameron fez muita questão de exibir a sua juventude quando se tornou líder do Partido Conservador em 2005. Tal como Macron, Cameron quis libertar-se da tradição partidária, e oferecer-se, não como um dos dois lados de um sistema político bipolar, mas como um “centro” imaculado, rodeado da sujidade dos “extremos” (em 2016, Farage, à direita, e Jeremy Corbyn, o líder trabalhista, à esquerda). Tal como Macron, Cameron fez o seu “centro” assentar em duas coisas: o culto perdulário de um Estado grande, para clientelizar o voto da maioria idosa da população; e a adopção pirosa das causas a que hoje chamaríamos “woke”, de modo a obter a complacência da esquerda mediática e universitária. Com este exercício de demagogia e oportunismo, julgou-se imbatível para sempre.

Nunca ocorreu a Cameron que os eleitores pudessem chegar a um ponto em que aquilo que ele lhes mostrava como um precipício lhes parecesse a eles uma porta de saída. Há uma mistura perigosa de cinismo e falta de imaginação neste “centrismo”. Macron e Cameron pretendem substituir a dicotomia direita-esquerda, pelo maniqueísmo do centro vs. extremos. O objectivo é óbvio: demonizar como “extremistas” todas as alternativas ao seu poder. A alternância no governo passa assim a ser inconcebível: ou eles, ou os bárbaros; ou eles, ou o fim do mundo. E esperam, naturalmente, que ninguém prefira o fim do mundo. Daí, o paradoxo: porque acham que a razão e o bom senso estão exclusivamente do seu lado, não hesitam, quando aflitos, em sujeitar os países às mais radicais experiências de roleta russa. Eis como este “centrismo” suicida, pretensamente moderado, se tornou uma fonte de tensão e instabilidade na Europa.

Macron e Cameron assustam os salões com a “ameaça dos extremistas”. Talvez fosse de reflectirmos também na “ameaça dos centristas”, sempre prontos a fazer explodir o mundo para salvarem as suas vaidades e interesses.

FRANÇA     EUROPA     MUNDO

COMENTÁRIOS (de 32)

Carlos Chaves: Pois é caro Rui Ramos, com as devidas distâncias e sem (aparentemente) eleições à porta, se substituir Macron e/ou Cameron por Luís Montenegro a sua análise assenta que nem uma luva à nossa situação actual!                                   Joao Cadete: Belo artigo.                     José Pedro Novais: Dois textos em vez de um são uma bênção!                  Maria Tubucci: A ameaça dos centristas é a mais perigosa, Dr. RR. Para estarem de bem com Deus e com o Diabo simultaneamente, querem os votos dos moderados, mas quando chegam ao poder adoptam as causas da esquerda, agradando à esquerda que não votou neles e lixando quem neles votou. Estes traidores contribuíram para a implantação da ideologia woke, para a imigração descontrolada e para o ensino sem mérito, só pela inclusão e equidade. E quem alerta, que estes factos que podem destruir o futuro da próxima geração, leva com o rótulo de extrema-direita. Depois admiram-se do CH, ou outro ainda pior, é que as pessoas sensatas estão cansadas de traidores, entre a espada e a parede escolhem a espada e o caos...                Rui Lima: A França já não tem salvação nem futuro, hoje há uma guerra civil de baixa intensidade que irá acabar numa confrontação bem quente. Em França há 2 civilizações que se confrontam, uma sente que tem direitos por questões históricas já lá estava, a que veio do exterior sente que tem todos os direitos vendo a legislação criada em França na Europa ou na ONU tudo o que não respeite os seus desejos é racismo aos olhos da lei, por isso sente que está a ser oprimida pelos antigos colonizadores, todos os dias chegam milhares de reforços para o exercito invasor por isso acredito que serão os vencedores deste conflito de civilizações .                João Floriano: Na prática os franceses estão a ser convidados a escolher entre dois abismos: o demonizado por Macron sob a forma de Marine Le Pen (não acredito que Mélenchon ganhe as eleições em França) e o abismo que ele próprio tem criado com os seus governos. Se preferirmos, podemos substituir a imagem dos abismos por becos sem saída. O beco de Macron já mostrou à saciedade que não tem saída e que só tem vindo a afunilar. Já com Marine Le Pen e Rassemblement National pode haver uma via de fuga. O caso italiano é um exemplo para toda a Europa. Meloni está a sair-se muito bem. Curioso como pensamos imediatamente em Le Pen quando falamos de Rassemblement National. O presidente é agora o jovem Bardella. Por cá passa-se o mesmo com o PS, sempre associado a António Costa e agora mais do que nunca. Pedro Nuno Santos não consegue impor a sua marca. O caso português não difere muito do caso francês ou britânico. Também aqui o centro procura desesperadamente agarrar-se ao poder. Também aqui trata a pão de ló a extrema esquerda que ainda se aguenta porque esta tem um peso fundamental na CS e na propaganda. Não se trata de aplicar novas formas de Censura como muitos democratas da boca para fora apregoam, mas de ter as mesmas oportunidades de desmistificar as narrativas de esquerda que tanto agradam à CS. Mas é vê-los a retorcerem-se como rabos de lagartixa quando se sentem atacados. Esta semana o Observador está a ser palco dos ataques woke ao historiador João Pedro Marques. E não vamos ficar por aqui.               O Serrano > Maria Tubucci: Muito bem, acho que tem toda a razão. Se nos lembrarmos da primeira eleição de Marcelo Rebelo de Sousa sabemos que quem o elegeu foi o centro-direita e depois andou com a geringonça e António Costa ao colo de uma maneira escandalosa, chocante. Portugal desde o 25 de Abril foi sempre governado à esquerda, porque após os primeiros governos o PSD depois de eleito era muito esquerdista, excepto na Troika em que o primeiro ministro era um político de invulgar capacidade, um líder nato - Passos Coelho, ainda hoje idolatrado e desejado por muita gente.                   Carminda Damiao: Excelente artigo. Que os franceses deixem de ter medo do "papão" que a esquerda criou.               Joaquim Almeida > Carlos Chaves: Se o Monte Rosa e seus próximos não fossem uns parolos, já saberiam há muito que essa politiquice do PSF-Miterrand e do PS-Costa de assustar com extremismos de direita estava a dinamitar o "centro" em França. Começando pelo centro-direita, evidentemente - RPR, UDF, Bayrou, etc. - enquanto a chaga islâmica alastra, com criminalidade e "terras de ninguém", bem piores que a Cova da Moura, Bela Vista.

 

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Histórias de encantar


Sobre um Santo e uma Igreja de Coimbra, que visitava, in illo tempore… Uma bela história de um Santo, superiormente contada por JOSÉ EDUARDO FRANCO, pretexto para a pesquisa numa Internet revigorante, para uma revivescência de profundo encanto. E um fado em gratidão, pela História que nos leva às nossas origens, com santos a amparar a nação, e um Sebastião Desejado, pelo meio, a fortalecer, contra os fins da nossa previsibilidade sem santidade, mas com alegria e simpatia naturais.

São Teotónio, o primeiro santo português

São Teotónio, amigo de D. Afonso Henriques e fundador do Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, representa a convergência entre santidade e política no projecto de fundação de um Portugal independente.

JOSÉ EDUARDO FRANCO Vice-Presidente da Comissão Executiva de Portugal 900 Anos. Director do Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta

OBSERVADOR, 27 jun. 2024, 00:1714

A afirmação do estatuto de santidade e o seu reconhecimento pela autoridade eclesiástica assumem contornos e funcionalidades simbólicas, sociais e mesmo políticas que ultrapassam a estrita esfera espiritual e o critério de legitimação de um dado modelo de exemplaridade cristã creditada por critérios evangélicos canonicamente estabelecidos.

São Teotónio, amigo de D. Afonso Henriques

O investimento na proclamação oficial de uma dada personalidade como tendo tido uma vida santa de acordo com os parâmetros cristãos serve vários fins. Primeiro, os fins canónicos e explícitos de quem é declarado santo: tornar-se modelo inspirador de vida e representar um papel intercessor diante da corte divina em favor dos humanos. Depois, vêm os fins implícitos e não declarados que remetem para funcionalidades de legitimação de instituições, de movimentos, de comunidades autónomas, de nações que desejam confirmar e reforçar identidades distintivas com caução sustentada na esfera transcendente.

São Teotónio, contemporâneo e amigo do Fundador da Nação Portuguesa, D. Afonso Henriques, é uma figura que ganha, desde o seu tempo, reconhecimento de santidade popular e eclesiástica, mas cuja função enquanto primeiro santo dos primórdios fundacionais do Reino de Portugal será muito valorizada nos processos de construção da memória histórica, adquirindo funcionalidades simbólicas de grande significado.

De tal modo são ampliados pela posteridade o valor e a importância espiritual e até política da sua vida que outras figuras mais relevantes do seu tempo ficaram subalternizadas na sombra do esquecimento historiológico. Falar de São Teotónio implica assumir a tarefa de tentar descortinar aquilo que teria sido a sua biografia histórica e distingui-la daquela que podemos chamar a sua biografia hagiográfica, nacionalizante e política, servindo o ideário de afirmação da nacionalidade e da identidade portuguesas com fundamentação de natureza sobrenatural.

Importa, pois, perceber que, na interpretação das fontes, o fito que presidia à construção das narrativas históricas era apologético, ético, espiritual e político, visando torná-las funcionais para efeito de exemplaridade e para o estabelecimento de uma imagem ideal das origens. Aliás, estas narrativas de legitimação, de horizonte providencialista, contribuíram para erguer aquilo que chamamos a construção do mito das origens da nacionalidade. Inseriam-se numa corrente europeia com denominadores comuns, que procurou legitimar a afirmação dos reinos e das nacionalidades, descrevendo de forma idealizada o dealbar das origens com tónus transcendente.

São Teotónio, numa pintura de Nuno Gonçalves

A fundação do reino autónomo de Portugal por D. Afonso Henriques não se deveu apenas à sua perícia militar e à da nobreza que juntou meios materiais e milícias armadas para formar um exército muitas vezes vencedor. Deveu-se também a uma estratégia de diplomacia e de investimentos no mercado simbólico, para o que a Igreja e a fé do povo muito contribuíram. De facto, o primeiro Rei de Portugal contou com qualificados assessores, nomeadamente eclesiásticos. Aquele que foi mais relevado na memória histórica posterior foi São Teotónio, apesar da sua função ter sido mais moral e espiritual e menos política, propriamente falando. No plano político e diplomático, especialmente nas relações com a autoridade internacional da época, a Santa Sé, D. João Peculiar teve o papel preponderante, apesar de a História o ter destacado pouco. Este importante e politicamente empenhado arcebispo de Braga acabou por ser secundarizado pela visibilidade e pelo significado atribuído pela memória escrita e apologética a São Teotónio. São Teotónio foi, de facto, promovido e apoiado por D. João Peculiar, que reconheceu, desde logo, a sua grande qualidade espiritual e a capacidade para assumir funções eclesiásticas relevantes. Aliás, os talentos de São Teotónio cedo foram notados e a sua formação foi promovida sob os auspícios de grandes figuras e instituições eclesiásticas do seu tempo.

Segundo a tradição, São Teotónio teria nascido na terra minhota de Ganfei, pertencente ao concelho de Valença, que sediava um importante convento e igreja beneditina, onde foi batizado e recebeu os primeiros rudimentos da espiritualidade cristã, juntamente com a aprendizagem das primeiras letras, até aos 10 anos. Teve, depois, o importante patrocínio do bispo de Coimbra, seu tio paterno, D. Crescêncio, que promoveu a sua formação em ordem a uma carreira eclesiástica promissora. Com a morte do seu tio, transferiu-se para a cidade de Viseu, onde se ordenou sacerdote com grande ardor pastoral, revelando desde cedo, na sua missão pastoral, o desejo de seguir uma via ascética de aperfeiçoamento espiritual e de dedicação ao ideal de evangelização. D. Gonçalo, sucessor do seu tio Crescêncio à frente do bispado de Coimbra, nomeou-o, entretanto, prior da Sé de Viseu, que então dependia do bispado de Coimbra.

O apelo da Terra Santa

Em ambiente de Cristandade, no coração da Idade Média, animado pelo espírito de cruzada e de peregrinação, o apelo da Terra Santa atraía tanto nobres guerreiros, como homens espirituais com desejo de percorrer os caminhos do fundador do Cristianismo e de experimentar uma maior intimidade com Deus na terra considerada santa para os cristãos, como era também para os fiéis das outras duas religiões do livro. Teotónio, movido pelo ideário de peregrinação e de ascese, também foi atraído pelo desejo de seguir a via peregrinante em direcção a Jerusalém, que, no imaginário medieval, era o centro da Terra e, por excelência, da geografia do sagrado cristão, onde o caminho ascético de procura de maior conversão interior se consumaria mais plenamente. São Teotónio abandona, em nome deste ideal, o priorado da Sé em favor do seu amigo Honório e arrisca uma viagem à Terra Santa com trajes de peregrino, associando-se ao grande movimento medieval europeu de peregrinação aos lugares santos.

Por isso, no regresso, acaba por voltar a assumir as funções de prior da Sé de Viseu, dedicando-se intensamente àquilo que configura o modelo de sacerdote santo: extraordinária dedicação ao múnus de pregação da palavra de Deus e atenção socio-caritativa aos mais necessitados, em plena sintonia com o movimento europeu que preconizava um novo modelo de padre, à luz da reforma gregoriana e canonical.

Mas, novamente, cede ao apelo de regressar à Terra Santa e à procura de uma vida mais contemplativa. Nesta segunda peregrinação, contacta de perto com os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, que teriam ganhado grande apreço pelas qualidades deste sacerdote lusitano, querendo mesmo fazê-lo seu superior. Não teria anuído a esta intimação, antes teria regressado a Portugal, mas já imbuído do ideal monástico vivido pelos Cónegos seguidores da Regra do Bispo de Hipona.

Nas viagens de Teotónio à Terra Santa e no contacto com esta experiência monástica canonical se pode entrever as origens daquela que pode ser considerada a instituição religiosa e cultural também fundadora da nacionalidade portuguesa: o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, assente na regra e no modelo de vida dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Com efeito, no regresso da sua segunda viagem de peregrinação, São Teotónio é convidado pelo arcediago D. Telo e pelo bispo de Coimbra a instalar, em Coimbra, uma nova congregação/comunidade de Cónegos Regulares de Santo Agostinho, que marcará decisivamente a cultura portuguesa e o apoio espiritual à monarquia, tão decisivo para a sua estruturação enquanto poder organizado e reconhecido como para a afirmação de uma identidade nacional distinta dos reinos vizinhos de Leão e Castela.

O Mosteiro de Santa Cruz

O mosteiro é instalado com o patrocínio de Afonso Henriques, sob a direção de São Teotónio, nos arredores da cidade coimbrã, a 28 de junho de 1131. A comunidade monástica, fundada sob a invocação de Santa Cruz (Ordo Canonicorum Regularium Sanctae Crucis), começou a funcionar com vida religiosa regular a 25 de fevereiro do ano seguinte, com 72 religiosos consagrados sob a direcção do primeiro prior eleito, Teotónio. É destacada, na espiritualidade de São Teotónio e na dos seus Cónegos de Santa Cruz, uma atenção espiritual à devoção a Nossa Senhora, o que tornará este mosteiro um centro importante para compreender a história da irradiação da espiritualidade mariana em Portugal.

Fachada da Igreja de Santa Cruz, em Coimbra

A primeira dinastia portuguesa, a começar pelo seu fundador Afonso I, cumulou este mosteiro de abundantes privilégios e bens, por ter percebido, desde logo, a importância que representaria garantir apoio a uma instituição que ofereceria um suporte espiritual, cultural e até mesmo no plano da formação de quadros para o reino que se queria estruturar com uma autonomia que perdurasse.

Importa acentuar que esta fundação monástica deve inscrever-se no ideário de renovação espiritual da Cristandade que tanto Telo, como Teotónio incarnavam. Este desejo de reforma, que marcou a transição da Alta para a Baixa Idade Média, resultou da consciência gritante da corrupção e do afrouxamento espiritual que tinham afectado largas camadas da hierarquia eclesiástica, que geraram movimentos críticos de descontentamento, por vezes derivando em correntes heréticas e em propostas utópicas de transformação social e eclesial.

As suas viagens à Terra Santa, passando pelo sul de França, permitiram conhecer de perto os ventos de renovação promovidos pela reforma de Cluny e pela reforma gregoriana da Igreja. Esta reforma eclesial, inspirada no modelo monástico de que o Papa Gregório VII, antigo monge da regra beneditina, era herdeiro, gerou uma corrente em toda a Cristandade que levou, por um lado, à procura da reforma da vida do clero e dos cabidos canonicais adscritos às sés, procurando imprimir-lhe ritmos de vida mais exigentes, à luz dos modelos de vida monástica, e, por outro, mobilizou para uma dedicação pastoral mais intensa guiada pelo escopo de conversão da vida secular a uma vida cristã mais santa. A opção dos Regrantes dos séculos xi e xii pela Regra Agostiniana não pode ser desligada, portanto, do renascimento das urbes e das redes de comércio, que fazia concentrar nos novos aglomerados citadinos populações mais numerosas, as quais interpelavam a uma acção espiritual mais intensa pela palavra e pelo exemplo.

Espiritual por excelência

São Teotónio é descrito pelos textos hagiográficos e pelas crónicas de Santa Cruz como um homem espiritual por excelência: homem de oração intensa, amigo dos pobres e humildes, austero na vida, conciliador na sociedade e operador de ações prodigiosas. A sua vida evoca bem a tensão entre dois apelos que as reformas do clero em concurso implicavam e, por vezes, também impunham dificuldades da gestão de opções; ou seja, o apelo da vida contemplativa e a exigência ou obrigação de uma vida activa de pregação e serviço aos mais pobres, interrompendo um recolhimento de natureza monástica. Se a reforma gregoriana valorizava uma gestão equilibrada do atendimento a estes dois apelos, que repartisse a vida do clero entre a contemplação, o cuidado da liturgia e a ação evangelizadora, o modelo de Cluny acabava por sobrevalorizar a contemplação em detrimento da acção, em que se investia mais nos ritos litúrgicos com solenidade e nos ritmos de oração e menos numa vida de acção pastoral.

Do ponto de vista político, são estabelecidas ligações íntimas entre o primeiro prior de Santa Cruz e as acções políticas e militares bem-sucedidas de D. Afonso Henriques, que lhe pedia conselho e apoio espiritual. Ao poder do seu apoio espiritual, através da oração e do conselho conveniente, foram atribuídas importantes vitórias da reconquista cristã dos territórios de mouros operadas por Afonso Henriques, nomeadamente a estratégia de conquista de Santarém. É também imputado a São Teotónio um papel no aconselhamento em favor de uma política de tolerância e integração dos cristãos moçárabes nas povoações conquistadas aos mouros. Relatados são os casos das incursões militares de Afonso Henriques à região da Andaluzia, onde fez cativos muitos mouros, com moçárabes à mistura.

A experiência internacional de Teotónio, advinda das suas viagens de peregrinação, permitia-lhe distinguir facilmente fiéis islâmicos de fiéis cristãos inculturados sob domínio muçulmano. A distinção foi tornada patente junto do rei, que, por conselho deste cónego-monge, os libertou e lhes deu cidadania cristã.

A morte de São Teotónio, a 18 de fevereiro de 1162, é descrita de forma prodigiosa e mística. Como acontece com descrições semelhantes de homens eminentes pela sua santidade e outras qualidades excepcionais, no momento da morte de Teotónio vê-se um globo luminoso a descer e a subir sobre o claustro do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, abundando narrações de milagres e prodígios, atribuídos, depois, ao poder intercessor de Teotónio, que o povo rapidamente considerou santo. A fama de santidade foi tal que a sua canonização pela autoridade eclesiástica aconteceu logo no ano seguinte. Por iniciativa do arcebispo de Braga, D. João Peculiar, reuniram-se os bispos do reino e, usando do poder que tinham então os metropolitas, reconheceram o grau de santidade em Teotónio, canonização que veio a ser confirmada pela Igreja Universal pela mão de Alexandre III.

A vida de São Teotónio foi revisitada em várias crónicas e histórias, muitas delas produzidas no percurso de feitura da história e da valorização da importância do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. O prestígio da sua figura e da sua santidade é-lhe dado também pela sua eleição para patrono de importantes cidades portuguesas. Este santo fundador do Reino de Portugal tornou-se padroeiro de Viana do Castelo, de Viseu e de Coimbra. Além de outros significados patentes na construção da memória histórica da vida e acção deste santo fundador de Portugal, São Teotónio representou, no processo de afirmação da nacionalidade portuguesa, a prototípica figura religiosa intermedial que operou a articulação entre o plano humano de criação de um novo reino autónomo e o plano transcendente, em que se procurava encontrar a bênção e a legitimação divinas para dar sentido sobrenatural ao empreendimento desta edificação terrena que era o novo Reino de Portugal.

PORTUGAL 900 ANOS     HISTÓRIA     CULTURA

COMENTÁRIOS (de 14)

Maria Augusta Martins: Haja quem ensine a nossa História, aliás é Obra de Misericórdia num tempo em que campeia a ignorância o futebol e os festivais. Parabéns!                Maria Nunes: Excelente artigo. Nunca é demais recordar a nossa magnífica História. Obrigada.                Francisco Almeida: Obrigado pelo que me relembrou e ensinou. Pensar em D. Afonso Henriques e São Teotónio e lembrar comparativamente Guterres e Vítor Melícias, é deprimente.

NOTAS da Internet:

SOBRE

Mosteiro de Santa Cruz - Coimbra

Situado nas margens do Mondego, o Mosteiro de Santa Cruz é um dos mais antigos e importantes monumentos de Coimbra, fundado em 1131 pelos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho no exterior das muralhas que rodeavam a cidade. D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, vinha aqui assistir aos ofícios religiosos quando regressava das suas batalhas de Reconquista Cristã, e é aqui que se encontra o seu túmulo, bem como o de seu filho D. Sancho I.

Santa Cruz foi berço dos primeiros estudos medievais em Portugal, que iriam fortalecer o poder real emergente através da sua acção educativa. Foi dentro das suas paredes que uma das figuras mais universais da cultura ocidental dos séculos XII/XIII, Santo António, Doutor da Igreja, aprofundou os seus estudos teológicos e o vasto conhecimento das Sagradas Escrituras patente nos seus sermões.

A igreja, o claustro e as capelas foram reconstruídos no séc. XVI, de acordo com um plano de Diogo de Boitaca, tornando-se uma das mais belas obras do Renascimento artístico português. Conserva ainda pormenores magníficos: a fachada, o púlpito e os túmulos dos reis, o claustro do silêncio, os baixos-relevos do claustro e os quadros da sacristia.

Actualmente, é possível visitar também o interior do Mosteiro que é panteão nacional e onde, além dos túmulos dos dois primeiros reis de Portugal, se pode ver o Museu de Arte Sacra (com as reliquias do primeiro santo português, S. Teotónio), o Claustro do Silêncio, o Cadeiral do Coro Alto (situado no segundo andar e que dá acesso a uma vista panorâmica da igreja) e um Santuário relicário.

 

Igreja de Santa Cruz

Também virou fado – de amor - que costumávamos cantar:

Fado de Coimbra

Igreja de Santa Cruz
Feita de pedra morena

Dentro de ti vão rezar
Dois olhos que me dão pena

 

Quando estavas na igreja
A teus pés ajoelhei
À Virgem por mim rezavas
À Virgem por ti rezei