sábado, 17 de outubro de 2026

DISCURSOS E AFAZERES BOMBÁSTICOS

 

No Mundo da ambição e da conquista contemporâneo, que se negam, obviamente. Virtuosamente também. Até ver: o “salve-se quem puder” sendo uma constante nos povos de todos os tempos.

Felizmente, nós cá, temos uma canção orientadora:  - "Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado.” – de resultado nem sempre positivo, é certo. Mas os amigalhaços Trumps estão por conta. Embora não se perceba bem de quem.  

 

Em directo/ Trump nega envio de tropas terrestres para o Irão. Zelensky discursa esta sexta no Conselho Europeu

Donald Trump falou ao canal de televisão de tendência conservadora "Newsmax", afirmando que não está a ponderar o envio de tropas para o Irão. Acrescentou que a "mãe de todas as bombas" não é nuclear.

Marina Ferreira: TEXTO

▲Presidente dos EUA voltou a garantir que a guerra vai terminar "em breve"

OBSERVADOR, 16/10/26

Momentos-chave

Trump assume em entrevista que "não é um grande fã" de Zelensky.

Zelensky vai discursar hoje no Conselho Europeu.

Trump afasta envio de tropas terrestres para o Irão.

MARINA FERREIRA

Trump assume em entrevista que "não é um grande fã" de Zelensky.

Ainda na entrevista que Donald Trump deu à Newsmax, na quinta-feira, o líder norte-americano afirmou que “não é um grande fã” do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

Considera-o mais difícil de negociar do que o Presidente russo Vladimir Putin, criticando a decisão da Ucrânia de retomar os ataques às refinarias de petróleo russas.

Zelensky vai discursar hoje no Conselho Europeu

Volodymyr Zelensky discursa esta sexta-feira no Conselho Europeu, em Bruxelas. O Presidente ucraniano chegou à capital belga esta quinta-feira.

Nas últimas horas, Zelensky esteve reunido com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, com o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk e ainda com Emmanuel Macron, Presidente francês.

Espera-se que o Presidente da Ucrânia exponha as principais actualizações do conflito no país.

Marina Ferreira

Trump afasta envio de tropas terrestres para o Irão.

Donald Trump deu uma entrevista ao canal de notícias conservador “Newsmax”. O Presidente norte-americano foi questionado sobre as notícias de que estaria a considerar usar a “mãe de todas as bombas” no Irão, possivelmente após as eleições intercalares de 3 de novembro nos EUA. Negou que se trate de uma arma nuclear, mas continua a assumir usar a maior bomba que o país que lidera tem no seu arsenal.

O líder norte-americano rejeitou ainda o envio de tropas terrestres para o Irão. “Não vejo isso a acontecer”, respondeu quando questionado sobre essa abordagem militar.

Marina Ferreira

Bom dia,

Começamos aqui a cobertura desta sexta-feira das tensões geopolíticas e dos conflitos mundiais, com destaque para o Médio Oriente e a guerra na Ucrânia.

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Ocidente bondoso


Hoje, não para “inglês ver”, mas para ser visto e considerado, de par com o tal inglês vidente, que não deixou, contudo, os seus créditos por mãos alheias. Há muito que o tal “Ocidente” quis mostrá-lo. E conseguiu-o, com o dito “inglês” puxando a carroça da humanidade humilde… e sempre cristãmente digna, na sua crítica condigna. Nós, os "ultramarinos", demos bem conta disso, acusados que fomos de "escravatura", pese embora a "formatura" de tantos povos que assim foram engrandecendo... e não só culturalmente, mas economicamente, naturalmente... Como, de resto, os Trumps deste mundo bem podem confirmar, por conta própria, os seus próprios espaços de assentamento, resultantes da mesma coragem desses povos de navegantes de outrora, assim destemidos, que não largaram o naco, contudo, entregando-o, igualmente, aos seus naturais, como exigiram de nós outros, mais dispersos… 

Nunca mais teremos Paris (nem Londres)?

Dois titãs europeus dos tempos de “Casablanca” ajudam a perceber alguns pigmeus contemporâneos.

PAULO NOGUEIRA Escritor e jornalista, autor de 14 livros - o mais recente, “O Cancelamento do Ocidente” (Guerra e Paz, 2024)

OBSERVADOR, 15 out. 2026, 00:23

Sem os eventos de 1940, Charles de Gaulle talvez fosse lembrado só como um pensador militar interessante. E Winston Churchill como um combo de dom Quixote e Sancho Pança, com fiascos retumbantes. A II Guerra transfigurou-os em colossos, uniu-os e separou-os. Churchill autorizou que um obscuro general de brigada falasse na BBC como líder da França Livre. Quando a parceria azedou, o inglês ironizou: “De Gaulle pensa que é Joana d’Arc, e não consigo que o raio dos meus bispos o queimem na fogueira”.

Churchill, feérico e mundano, amava prazeres opulentos. De Gaulle, taciturno e austero, marimbava-se para o luxo – Presidente da República, instalou um medidor de electricidade nos seus aposentos particulares no Palácio do Eliseu para pagar as despesas do próprio bolso. E resmungou: “Como é possível governar um país que tem 246 tipos de queijos?”

Churchill professou-se um mamute vitoriano: “Com tristeza assisto ao fim do Império Britânico e suas glórias”. De Gaulle duvidava que a França absorvesse os muçulmanos da integração da Argélia. Gracejou que seu lar espiritual, Colombey-les-Deux-Églises, já era  “Colombey-les-deux-Mosquées”. Mas engoliu o sapo: “É natural sentir nostalgia do Império, da luz suave das lamparinas a óleo, do esplendor dos navios à vela… Mas um político tem que ser realista”. A extrema-direita não o perdoou por “abandonar a Argélia”, porém falhou os atentados contra aquele alvo de 2 metros de altura.

No fim, competiram pela posteridade literária: a prosa exuberante dos 6 volumes de “The Second World War” (Churchill), contra a sobriedade clássica dos 3 tomos de “Mémoires de Guerre” (de Gaulle). O britânico contou com uma equipa, e encheu o chouriço com copiosos documentos. O francês esfalfou-se sozinho, para “criar uma obra de arte”. E grunhiu: “Churchill jamais escreveu um livro propriamente dito”. Quando Churchill recebeu o Nobel de Literatura em 1953, de Gaulle reagiu com a mesma alegria de Lobo Antunes em 1998 ao saber das notícias de Estocolmo sobre Saramago.

De Gaulle saiu à francesa em 1969. “La Bataille de Gaulle”, um biopic de  Antonin Baudry, foi a maior bilheteira do cinema francês no Verão de 2026, incluindo a libertação de Paris e os amuos com Churchill. Mas a revolta estudantil de hoje é igual à de 58 anos atrás? Nem por isso. Em 1968, a França surfava 30 anos de prosperidade desde o pós-guerra (Les Trente Glorieuses), com um poder de compra e consumo inéditos – e dez vezes mais universitários do que em 1939. Nascia o conflito geracional, e os meninos maus das boas famílias desatavam a chorar de barriguinha cheia.

Nem Mao explica Maio: o estopim foi exigência dos alunos da Universidade de Nanterre de irem aos quartos das alunas, e vice-versa.  A pílula anticoncepcional fora legalizada no dia 27 de dezembro de 1967 - e as restrições à sexualidade já pareciam opressivas: é proibido proibir. Os soixante-huitards acabaram por baixar a bolinha, mas vivemos no corolário deles. Hoje a noção de restringir o acesso de jovens aos dormitórios do sexo oposto soa digna de um brontossauro – e há quem já não faça a mínima ideia do que é um sexo oposto, ou sequer se isso existe.

A recente visita de Leão XIV à França matizou um bocadinho as coisas: 80 mil jovens a rezarem no Stade de France, apoteose na Notre Dame, 800 mil fiéis na Place de la Concorde. Reparação pela abertura das Olimpíadas de Paris de 2024, que incluiu uma paródia da Última Ceia com drag queens? Embora 58% dos franceses entre 18 e 59 anos declarem não ter religião, os baptismos de adolescentes e jovens adultos em 2026 aumentaram dez vezes desde 2019. Mas assim que o Papa virou as costas, o país voltou à vaca fria (ou a la vache qui rit), com as fracturas nacionais já reflectidas na legalização da eutanásia.

No dia 21 de setembro, fervilharam os protestos contra a escassez de professores e a precariedade de escolas. Barricadas para impedir qualquer entrada nos liceus, labaredas de lixo incendiado nas ruas, manifestantes com máscaras, 100 estabelecimentos de ensino vandalizados, dezenas de funcionários, estudantes e polícias feridos, 500 escolas fechadas por segurança. Em Nantes, o liceu Nelson Mandela, novinho em folha, foi reduzido a cinzas, e uma tenente da polícia atacada no chão sob os urros de “Matem a cabra!”. 6.000 pessoas foram presas.

Jean-Luc Mélenchon, candidato às presidenciais de 18 de abril de 2027 por La France Insoumise (LFI), deita lenha à fogueira através de aliados como o Extinction Rebellion, o RED Jeunes, os Étudiants Musulmans de France e a Urgence Palestine, ligados à Irmandade Muçulmana. Cada escola secundária tem o seu representante eleito pela LFI. O maire de Saint-Denis, Bally Bagayoko, inflama a malta; o deputado Louis Boyard filma a si próprio como líder de recreio; Aymeric Caron arenga miúdos envoltos em bandeiras palestinianas, argelinas, sírias, marroquinas (não se percebe bem o que elas têm a ver com a educação nacional, mas faz de conta). Bandeiras da França, nem vê-las.  A LFI saliva pelos eleitores que votarão pela primeira vez em 2027. Clémence Guetté lembrou que em 2022 faltaram “ridículos 400 mil votos, ou 1%, para Mélenchon estar na segunda volta – mas agora a juventude irá levar-nos à vitória”.

Não que os sarilhos franceses se reduzam à radicalização imberbe. Trabalhadores entraram em greve e marinheiros bloquearam portos contra o aumento dos combustíveis. A dívida da França é de 120% do valor de tudo o que o país arrecada num ano, encarquilhando o magnânimo estado de bem-estar social, apanágio da identidade nacional. Por décadas, impostos elevados, déficits e juros baixos permitiram que se empurrasse a miragem com a barriga. Esse tempo acabou – mas a tentativa de passar a idade de reforma de 62 para 64 anos já incendiara o país.

Do outro lado da Mancha, há uma Grã-Bretanha com mais berbicachos. A elite é tão woke como a dos EUA (e a do Brasil). Segundo o censo de 2021, 2,5% da população britânica é negra, mas mais da metade de todos os anúncios de TV apresentam pessoas negras. (Essa disparidade é ainda maior do que a representação negra nas estatísticas de homicídios, em que os britânicos de cor são 26% de todos os assassinos condenados.) Ninguém diria que a Grã-Bretanha foi a primeira nação do planeta a abolir a escravidão e, em seguida, usou a marinha mais poderosa do mundo para acabar com o tráfico global de escravos – as vidas negras importavam para os britânicos muito antes de George Floyd. Ao custo de milhares de vidas de marinheiros e milhões de libras, navios britânicos patrulharam a costa africana durante 50 anos, interceptando mais de mil navios negreiros e libertando 150 mil pessoas. Os contribuintes britânicos finalmente terminaram de pagar essa conta em 2015. Pelos vistos, a Grã-Bretanha ainda tem imenso a expiar.

Para aumentar a “diversidade”, asiáticos (indianos, paquistaneses, afegãos), que representam 9,3% da população, protagonizam 28% dos anúncios (paquistaneses também são sobrerrepresentados nos gangues de tráfico de adolescentes para fins de abuso sexual). 81,7% dos britânicos identificaram o seu grupo étnico como “branco” – mas só 12% dos anúncios de TV mostram pessoas brancas. Agora até Anna Bolena e Macbeth foram interpretados no cinema por actores negros, e há elfos negros nas novas versões de Tolkien. Vilões? Sorry, mas só brancos, héteros e cristãos (já não precisamos dos mordomos dos policiais para nada).

Quando em 2014 Michael Brown foi morto pela polícia em Ferguson, Missouri (acção justificada pelo júri e pelo Departamento de Justiça de Obama), manifestantes britânicos marcharam por Londres, a gritar “Mãos ao alto, não atirem!” – o que foi um bocadinho pateta, pois os policiais londrinos não andam armados.

Desde 2021, tudo mudou alucinadamente. No ano passado, o “crescimento natural” entre os povos nativos das ilhas britânicas adicionou 19.000 pessoas à população. Mas a imigração em massa somou o recorde de 816.500 almas em apenas 11 meses. Durante gerações, a população cresceu porque nasciam mais britânicos do que morriam – uma evolução administrável, que preservava valores e cultura. Na nova era demográfica, comunidades inteiras (cidades, vilas e aldeias) estão irreconhecíveis.  Em 2025,130 áreas de conselhos na Inglaterra e no País de Gales viram as populações locais aumentarem em no mínimo 1.000 pessoas -, 15 delas com uma adição de 3.000. Em 11, a imigração foi mais de 100% de todo o crescimento populacional. Como, mais de 100%? Porque, sem ela, as populações dessas áreas tinham diminuído. No UK já há mais muçulmanos do que galeses.

Os moradores da liliputiana aldeia de Piddington realizaram um referendo simbólico no qual 285 dos 312 eleitores votaram a favor da independência do Reino Unido. Eles estão aterrorizados com os planos do governo de abrigar 1.250 homens solteiros solicitantes de asilo numa instalação militar contígua, de onde poderão entrar e sair quando quiserem. O primeiro-ministro Andy Burnham ralhou-lhes: “O povo de Piddington precisa de fazer a sua parte!” Cruzes canhoto.

Vá lá: o governo distribuiu a candidatos à imigração um folheto a explicar que a violação de menores de idade não é um costume britânico. Mas, no mundo paralelo do multiculturalismo, gosto não se discute.

O chanceler alemão Friedrich Merz evocou uma Europa “satisfeita com a exportação de produtos caros, a protecção dos EUA e a importação barata de produtos da China e do petróleo russo”. Mas essa divisão de tarefas foi chão que já deu uvas. As fricções globais proliferam e a Europa precisa de gastar mais com defesa e energia, enquanto os EUA se distanciam do Velho Continente em produtividade e inovação.

A geração Baby Boomer nasceu após a II Guerra Mundial de Churchill e de Gaulle. A ideia de que o conflito foi causado por um distúrbio psicológico em massa de medo e ódio cristalizou-se num consenso. E a respectiva panaceia: tolerância incondicional, mas com repressão automática à veleidades “fascistas”.

Os boomers cresceram numa cultura confiante, centrada na família e na religião: se um cidadão fizesse as escolhas certas podia contar com uma vida boa. Outro slogan do Maio de 68: “Debaixo da calçada, a praia”. Enfim: trabalhar, só se fosse para o bronze. Tão boa era a vidinha que na década de 1960 aquelas augustas premissas foram mandadas à fava – um truque que só podia ser usado uma vez. O que se sedimentou foi a convicção de boa parte da elite de que era necessário suportar qualquer custo para impedir patologias como as dos satânicos anos 1930, com aqueles nazis todos (contra os quais, aliás,  Churchill e de Gaulle nunca desistiram de lutar). Fora a xenofobia, viva a xenofilia.

“Wir schaffen das!” (“Nós aguentamos!”) ronronou Angela Merkel em 2015, ao escancarar de par em par as fronteiras da Alemanha para mais de um milhão de pedidos de asilo e imigrantes ilegais, semeando pressões demográficas e culturais, e instabilizando a política em boa parte da Europa. Traduzindo para o Espanhol de Pedro Sanchez: “Mi casa es su casa!” Afinal, os europeus são ricos e sortudos, e tudo acaba por correr bem.

Pena que agora as nações sejam menos endinheiradas e coesas. Inúmeros jovens, danados com a crise habitacional (e por isso até cinquentões gramam com casa, comida e wi-fi dos pais), já não vislumbram o tal excedente à mão de semear. A França está de tanga e à pancada, e a crise ameaça empestar outros países da Zona Euro. Homens e mulheres comuns suspiram por fronteiras seguras, imigração controlada, medidas energéticas sensatas e governos que priorizem os seus próprios cidadãos – se não for pedir muito.

Greta Thunberg – a adolescente mais idosa do mundo, e viciada em Apocalipses – chegou a Paris, foi a um liceu em Saint-Denis e regurgitou uma das suas platitudes amuadas: “O nosso futuro está a ser roubado de nós!” Mas alguma vez na vida ela frequentou uma escola?

Na Suécia de Greta, hoje 3 dos 11 milhões de habitantes são estrangeiros ou filhos de pais estrangeiros. Cerca de 65% dos estrangeiros podem votar. Em setembro, votaram contra o SD, o partido no governo, que proibira o hijab em público e refreara a imigração em massa. Começou uma nova fase na história sueca: a questão não é mais como impedir a imigração, mas sim o que esses eleitores muçulmanos desejam. Os Social-Democratas e o Partido da Esquerda distribuíram material de campanha em árabe. Na Dinamarca 51% dos islâmicos creem que a lei dinamarquesa deve ser baseada na sharia – para o seu ethos pré ou anti-Iluminista, a fé não é um assunto privado. No romance “Submissão”, de Michel Houellebecq, o Islão não conquista a França pela força. O establishment cede a um movimento muçulmano porque precisa dos votos e quer manter os rivais fora do poder. O Islão avança através da própria democracia, que se curva à demografia.

Em Bruxelas, também em convulsão, só 21,5% dos residentes são de origem estritamente belga (gente que nasceu com nacionalidade belga e cujos pai e mãe também são belgas). Entre os menores de 18 anos, a origem belga na capital da Bélgica cai para 10,5%. E é assim que as elites radicais (cujo sonho é viver para sempre na canção “Imagine”, de John Lennon) alienam e exasperam milhões de europeus, à mercê das consequências de políticas pelas quais muitas vezes jamais votaram. O plano é: para salvar o Ocidente, vamos destruí-lo primeiro. Está a resultar.

Nancy Astor foi a primeira mulher a integrar a Câmara dos Comuns no Reino Unido. Um dia, disse a Churchill: “Winston, se eu fosse a sua esposa, punha veneno no seu chá”. E ouviu a réplica: “Lady Astor, se eu fosse o seu marido, eu bebia esse chá.” Bem, se tal diálogo fosse hoje, e a interlocutora Angela Merkel, creio que a resposta de Churchill era outra: “Madame, as senhoras, primeiro!” E com o apoio do general de Gaulle: “Bon appétit , frau Merkel!”

Por lapso a que o autor é alheio, o artigo foi publicado sem a sua parte final. Pedimos desculpa aos leitores pelo sucedido.

Europa      Mundo

COMENTÁRIOS:

António Soares

Nem Lisboa teremos...

Brilhante crónica, como é apanágio do autor!

Jorge Isidoro

Obrigado pelo excelente artigo.

José B Dias

... o estopim foi exigência dos alunos da Universidade de Nanterre de irem aos quartos das alunas, e vice-versa.

Ao contrário dos de hoje os jovens de 68 sabiam identificar perfeitamente o que permite a manutenção da espécie ...

José Tomás > Américo Silva

Em 1948, no território do Mandato da Palestina havia 1,3 milhões de árabes e 600 mil judeus. Se muitos descendentes dos árabes da Palestina já não estão lá (e estão lá 7,5 milhões e não 5), foi porque 5 países árabes invadiram o Estado Judaico na data da sua independência, para tentar exterminar quem lá vivia, e falharam. Se não existe Estado Palestiniano, foi, antes de mais, porque, entre 1948 e 1967 o Egipto e a Jordânia, que ocuparam Gaza, a Margem Ocidental e Jerusalém Oriental não deixaram.

Lily Lu > Américo Silva

Não há palestinos.

Manuel Barroso

A Europa anda mais preocupada com a Rússia que com a destruição que está a sofrer por dentro.

Magda

Que óptimo artigo!

Manuel Lisboa

Excelente crónica, como é habitual. Gostei, em especial, dos paralelismos entre Churchill e De Gaulle.

Quanto ao quotidiano é o que vê: triste e vil. Em menos de um ano talvez a França esteja em situação semelhante à que se vive actualmente no Brasil: a escolha entre dois candidatos presidenciais muito maus ou péssimos.

Luis Silva

É um artigo de opinião identitário-conservador globalmente bem escrito. Dificilmente se encontra disto em Portugal, tivemos de ir ao Brasil. Ponto.

António Duarte

Extraordinária, esta crónica! Em boa hora encontrei este autor, do melhor que por aqui anda!


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Amou

 

Corajosamente, a sua PÁTRIA, sempre me pareceu. Digo, SALAZAR, um nome sonoro. Imorredoiro.


Salazar, os americanos e as Lajes

Por duas vezes, em Washington, gizaram-se planos de ocupação dos Açores e houve mesmo o deslize de falar das ilhas como se fossem terra de ninguém.

JAIME NOGUEIRA PINTO,  Colunista do Observador

OBSERVADOR, 15 out. 2026, 00:25

O uso pelos norte-americanos da base das Lajes, recentemente evocado pela visita do Secretário de Estado Marco Rubio a Lisboa e pelos protestos da esquerda parlamentar pela passagem pela Terceira de aviões destinados a operações aeronavais na guerra do Médio Oriente, trouxe para a actualidade um tema-base das relações luso-americanas ao longo da História do século XX.

Os Açores estiveram no centro da política externa portuguesa em momentos decisivos em que Salazar foi determinante. Agora que, por decisão da autarquia de Santa Comba Dão, os trabalhos do novo “Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência” ficaram entregues à Ephemera de José Pacheco Pereira, os portugueses vão finalmente ficar esclarecidos quanto a este e outros aspectos da vida e obra do munícipe mais notório da terra.  Ou não, já que o Centro Interpretativo de Santa Comba, talvez na ânsia de surpreender e de fazer incidir nova luz sobre o regime anterior e o seu “ditador”, abre com uma exposição sobre… a Censura. Dificilmente se poderia ilustrar melhor a divisa da exposição – “Só existe o que se sabe que existe”.  O resto continua a não existir.

Adiante. Durante a Segunda Guerra Mundial, Salazar, que em 1936, no princípio da Guerra Civil de Espanha, acumulara a presidência do Conselho de Ministros com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, equacionou os interesses nacionais com a neutralidade. O império ultramarino português, entre os territórios de África, a então Índia portuguesa, na costa ocidental da Índia inglesa, e Timor e Macau, no Extremo-Oriente, dependia dos ingleses. Ingleses esses que, em Setembro de 1939, não tinham solicitado assistência militar. E Salazar embirrava com Hitler, que considerava um demagogo histriónico.

Na Segunda Guerra Mundial

Mas a neutralidade portuguesa implicava a neutralidade peninsular. E embora Franco, o exército e o povo espanhol, saídos da guerra civil meses antes do começo da guerra na Europa, não quisessem nem pudessem dar-se ao luxo de entrar no conflito, havia entre a ala nacionalista radical do regime franquista fortes simpatias pró-alemãs: afinal, Berlim ajudara militarmente os rebeldes franquistas na guerra civil e a Wermacht tomara a França na Primavera de 1940, numa campanha relâmpago.

Franco jogava, então, na ambiguidade manhosa. Enquanto, na entrevista de Hendaia, proclamava inequívoca solidariedade anticomunista com Berlim, ia pondo a Hitler condições que sabia que o Führer não lhe podia dar.

As ilhas atlânticas de Portugal, principalmente os Açores e Cabo Verde, estavam em causa, já que F. D. Roosevelt e alguns na sua Administração pensavam que os alemães podiam invadir e ocupar Portugal com a cumplicidade de Madrid. Preventivamente, em Washington, gizavam-se planos de ocupação e houve mesmo o deslize de falar das ilhas como se fossem terra de ninguém, o que levou Lisboa a enérgicos protestos diplomáticos, reforçados por Londres.

As coisas acalmaram, até os americanos voltarem à carga em 1943, com o núcleo duro do OSS – Office of Special Services, o antecessor da CIA – pronto a pôr em acção uma operação para ocupar os Açores. Por sorte, quem estava em Lisboa como conselheiro da Embaixada americana era George F. Kennan, depois autor do “Longo Telegrama” de Moscovo e o grande estratega da Política de Contenção.  A morte do embaixador, Bert Fish, apadrinhado por Roosevelt, tornou Kennan responsável pela Embaixada e pelas negociações directas com Salazar.

Kennan tinha ideias conservadoras e realistas e estabeleceu com Salazar uma relação de admiração e respeito mútuo. De regresso a Washington, Kennan soube da operação Alecry do OSS para tomar os Açores e tentou, em vão, pará-la em sede própria. Depois, através de Harry Hopkins, teve acesso a Roosevelt e explicou-lhe quem era e quem não era Salazar – e o que não era, seguramente, era um “ditador de república das Bananas”. Roosevelt, que conhecia bem os Açores dos seus tempos de Subsecretário da Marinha durante a Grande Guerra, quando a Marinha norte-americana ali estivera instalada, ficou convencido com os argumentos de Kennan e escreveu uma carta a Salazar, ditada por Kennan, dando garantias do respeito de Washington pela soberania portuguesa sobre as ilhas. E tudo se resolveu a bem, e por bem, graças ao prestígio do “ditador”.

Na Guerra de África

Os Açores voltaram a ser importantes para a afirmação dos interesses portugueses no início da guerra do Ultramar em Angola, em 1961-1962. Os Estados Unidos, sob a Administração J.F. Kennedy, decidiram optar por uma política “anti-colonial”, a fim de agradarem ao bloco terceiro-mundista, agregando os novos Estados saídos da descolonização europeia. Era compreensível: estava-se em plena Guerra Fria e no quadro da disputa com a União Soviética nas Nações Unidas e na cena mundial.

O grande impulsionador dessa política era o Subsecretário de Estado para os Assuntos Africanos, Mennen “Soapy” Williams, um progressista norte-americano que, em 1961, ao eclodir a guerra insurrecional em Angola, com os sangrentos massacres da UPA de Holden Roberto no Uíge e no Norte, levou os Estados Unidos a votar contra Portugal nas Nações Unidas.

Salazar não gostou. Mas primeiro tratou de controlar internamente o grupo de generais conspiradores, liderado por Júlio Botelho Moniz, Ministro da Defesa que, com alguma simpatia de Washington, tinha paralisado o envio para Angola de reforços à escala das necessidades. E em 13 de Abril, apoiado por João Lumbrales e Santos Costa, e com o decisivo suporte de Kaúlza de Arriaga, então Subsecretário da Força Aérea, Salazar deu o contragolpe, assumiu a pasta da Defesa, “falou à Nação” e promoveu o envio de tropas “rapidamente e em força” para Angola.

Depois da chegada dos reforços, sob a responsabilidade dos generais Venâncio Deslandes, governador e comandante em chefe da Província, e Silva Freire, comandante da Região Militar de Angola, acelerou-se a reocupação das zonas tomadas pelos guerrilheiros da UPA no Norte, em Nambuangongo.  Foi a Operação Viriato, em que se distinguiram o tenente-coronel Armando Maçanita e o tenente miliciano de Engenharia Jardim Gonçalves. Em Agosto, a maior parte do território voltava ao controlo português.

Os americanos não se mostraram muito sensíveis à nova situação e, no fim do ano, dava-se a invasão da Índia portuguesa pelo Exército indiano, por decisão do primeiro-ministro Nehru. Também aí, faltaria a “solidariedade ocidental”.

Mas em 31 de Dezembro de 1962 ia ser preciso rever o Acordo das Lajes, e Salazar e Franco Nogueira deram a entender aos norte-americanos que não haveria renovação do uso da base caso os Estados Unidos continuassem hostis à política ultramarina portuguesa. A opinião dos responsáveis americanos estava dividida: Mennem Williams e Chester Bowles (grande adepto da política de captação do Terceiro Mundo à custa dos aliados europeus) faziam pressão pela continuação da oposição a Lisboa, enquanto os militares do Pentágono insistiam na importância das Lajes.

Dean Rusk, Secretário de Estado de Kennedy, veio a Lisboa, onde esteve 22 horas.  Rusk percebeu a determinação de Salazar em ir para frente com a não-renovação dos Acordos se não houvesse uma mudança de política.

E houve. Rusk esteve com Salazar duas horas e a política norte-americana mudou – embora, “para Terceiro Mundo ver”, se mantivessem as ambiguidades retóricas.

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COMENTÁRIOS (de 15)

António Costa e Silva

Franco Nogueira conta muito bem a História da questão das Lajes e da  operação diplomática de Salazar que, numa conjuntura crítica e sob uma violenta pressão americana, forçou o respeito pela soberania portuguesa nos Açores.

As memórias de Pedro Theotonio Pereira são também muito elucidativas da acção diplomática portuguesa desenhada por Salazar e conduzida por Theotonio Pereira junto de Franco, que evitou a entrada da Espanha na guerra e por consequência, também a de Portugal.

Hoje, sobre esse tempo, Pacheco Pereira destaca a censura; censura que era muito tímida e surpreendentemente tolerante.

A cada um a sua dimensão.

COMENTÁRIOS:

Jorge Barbosa

Eis mais um excelente artigo Histórico de JNP

Observador

Gostei muito da expressão “demagogo histriónico” com que Salazar qualificava Hitler. Não sei porquê, mas fez-me lembrar outro demagogo histriónico, mais actual, que exerce os seus talentos cá no burgo. Tenho poucas dúvidas de que Salazar o caracterizaria precisamente da mesma forma.

Quanto ao resto, reconheço que Salazar fez coisas importantes e soube, em vários momentos, defender os interesses do país com inteligência. Uma parte da esquerda parece entender que tudo o que fez foi mau. Não concordo. Considero até que foi necessário e importante num determinado período da nossa história. Foi pena que, depois da Segunda Guerra Mundial, não tivesse liberalizado o regime e aberto caminho à democracia. Poderia ter ficado na história como um grande estadista. Essa sempre foi a minha opinião.

Agora, também tinha defeitos, como é evidente, e foi um ditador, sem aspas. Disso não há dúvida.

José B  >DiasAntónio Costa e Silva

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