Não falta coragem… É certo que… para inglês ver… Nos nossos improvisos… de imitação alheia.
"É para aguentar!" Com dezenas de tendas,
grupos de afinidade e vigias, acampada de Lisboa pela Habitação manteve-se
madrugada adentro
Adriana
Alves:
Texto
Diogo
Ventura: Fotografia
Quando as primeiras
tendas foram montadas no Rossio ninguém arriscava dizer até quando ficava. No
limite de hora legal formava-se um cordão para "aguentar" de forma
"pacífica".
18 out. 2026, 04:39
Uma tenda azul, de aspecto
frágil, é erguida no ar na praça D. Pedro IV, em Lisboa. Uma multidão
aplaude e assobia. Às 17h30 de sábado a manifestação da CGTP ainda está a
dispersar no Rossio, misturando-se com as pessoas que chegam para a “acampada”
de Lisboa pelo direito à habitação. Junto à estátua da praça forma-se um
círculo com os abrigos. Aos primeiros minutos do protesto ainda ninguém quer
arriscar dizer se vai passar aqui a noite, mas ao longo da tarde e início da
noite os sinais são claros: “É para aguentar”.
Quando o relógio marca a
meia-noite e meia — o horário limite definido por lei para uma manifestação —
chega o derradeiro aviso: “Pedimos que quem decida ficar na praça que o faça
de forma pacífica. E pedimos que os agentes respeitem o nosso protesto”.
Ninguém parece disposto a partir. É ao som de Grândola, Vila Morena, de Zeca
Afonso, e de cânticos contra o primeiro-ministro, que marcaram todo o protesto,
que se forma um cordão humano à volta das tendas. Há de desfazer-se e
reagrupar-se ao longo das duas horas seguintes. É só perto das 02h30 que os
cânticos abrandam até cessarem quase completamente. Ao microfone sugere-se a
criação de “grupos de afinidade” para passar a noite e para se criarem vigias,
caso a polícia apareça.
▲
Durante a colocação das tendas foram-se ouvindo inúmeras palavras de ordem e, por várias
vezes, o barulho de centenas de chaves a serem agitadas.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
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“Uma
vida digna não é só pagar contas”
Às 17h30, ao mesmo tempo que
terminam de ser montadas as primeiras tendas, agitam-se centenas de chaves —
umas a pender de cordões, outras enfeitadas com bonecos — para lembrar o mote
do protesto (e imitar Madrid): Habitação para todos.
Erguem-se por toda a praça D.
Pedro IV cartazes: “A política é bela, os políticos é que dão cabo dela”,
“Casa mobilada com electrodomésticos e dívidas”. Mas o
principal alvo é o primeiro-ministro. “Se protesto é egoísmo, ter
55 imóveis é o quê?”, lê-se numa cartolina, uma referência às palavras de
Luís Montenegro, quando apelou aos manifestantes para que não fossem egoístas. As
críticas ao primeiro-ministro marcam toda a tarde e noite. “Oh
Montenegro, presta atenção, a tua casa vai virar ocupação”, ouve-se ao som
de tambores. Já numa versão da tradicional música “Laurindinha” cantam também:
“Oh Montenegro, vai para o c******”.
“Eu acho que o
primeiro-ministro, que é uma pessoa que tem 55 casas, está bastante confortável
para nos chamar egoístas quando estamos a lutar pelo nosso direito, começa por
dizer Adriana Lima,
uma das porta-vozes da acampada de Lisboa. “E também acho muito curioso,
quanto mais ele tenta diminuir a nossa luta, mas na verdade ele está a mostrar
o medo que tem de nós”, afirma. Sublinha que está em causa “a luta mais
importante” em todo o país.
Apesar dos abrigos que vão
surgindo, que são já mais de uma dezena, ao início da tarde muitos ainda não
arriscavam dizer se iriam dormir na rua. “Vamos ficar aqui enquanto nos
deixarem”, vão explicando alguns manifestantes ao Observador.
Dentro do círculo de tendas,
onde se torna quase impossível passar sem pisar algum canto, há vários
rostos tapados, quer por máscaras cirúrgicas, quer por lenços. Aos
megafones gritam-se palavras de ordem — “Habitação é um direito, sem ela
nada feito” — enquanto os manifestantes se vão acomodando.
▲ As
primeiras tendas começaram a ser
montadas por volta das 17h30.
Sentado dentro de uma tenda,
de rosto parcialmente tapado, Gabriel, de 22 anos, enumera os motivos que aqui o trouxeram. “Não
consigo arrendar uma casa neste momento. Estava a dividir a casa com três
pessoas, uma saiu e agora temos todos de sair”, conta. Pagavam dois mil
euros pelo apartamento. Agora tem até ao final do mês para encontrar outra
opção. “Não temos ideia mesmo [se vamos conseguir arranjar]. Talvez tenhamos de
ir para a rua, não sei».
Não faltam exemplos. Adriana Lima tem 26 anos,
um contrato efectivo como professora e não antecipa sair da casa que aluga e
conseguir comprar casa num futuro próximo. “Apesar de ter feito tudo o que
nos mandam fazer — ir para a faculdade, ter mestrado, arranjar trabalho na
minha área — não consigo comprar casa em Lisboa. Estou a pagar 600 euros por
uma casa que estou a dividir com seis pessoas”, explica.
Há muitos outros que se juntam
à manifestação por solidariedade. Ana Loureiro, de 43 anos, há muito que conseguiu
comprar casa e veio para se juntar aos muitos que passam dificuldades para
conseguir a mesma conquista. “Aquilo que eu estou a fazer, que é um trabalho
essencial — eu sou enfermeira —, o ordenado que eu ganho com este modo de vida,
com este incremento do custo médio de vida, eu não sei se vou conseguir até ter
uma vida digna”, admite. “E uma vida digna não é só pagar contas”.
A enfermeira veio com uma
tenda e está pronta para ali ficar enquanto for possível. Quanto tempo? Não
sabe dizer. “Acima de tudo estarmos aqui a marcar todos presença. Deixem os bares,
deixem os cafés, tragam tudo para aqui, acho que é o lema destes dias”.
Há também quem recorde que o
problema não é só em Portugal, aludindo ao país vizinho. O
caso de Maricarmen, uma idosa de 87 anos despejada da casa onde vivia há 70
anos, lançou os acampamentos em Puerta del Sol, em Madrid, que já duram há três
semanas. “No fundo, houve uma visibilidade maior dessa senhora, mas há
montes de gente nesta situação”, diz Liliana (nome fictício), de 26
anos. “Não são só jovens, é uma questão muito etária, mas não são só
jovens”, sublinha.
“Não se
fala com a bófia”
Os cânticos de ordem são
interrompidos a meio da tarde para um breve alerta à multidão: “Não se fala
com a bófia”. “Se alguém for detido, se alguém perguntar alguma coisa
não falem. Toda a gente tem o direito de fechar a boca”, diz uma mulher ao
megafone. “A bófia não é nossa amiga”. “Não precisam de saber as
nossas informações, como viemos aqui ter, toda a gente que aqui está veio aqui
ter por mero acaso”, afirma. Explica que, se alguém for detido, a primeira
coisa que deve fazer é pedir um advogado.
As palavras recordam os
momentos vividos nas manifestações no Porto, nos últimos dias. Na quinta-feira
houve pessoas feridas e sete precisaram de assistência hospitalar após uma
operação policial na Praça D. João I. Um agente também ficou ferido.
Os manifestantes e
autoridades apresentam versões diferentes do que se passou. De um lado
alegou-se que não chegaram ordens claras para dispersar e desmontar o
acampamento, mantendo-se por isso um “cordão pacífico” à volta das tendas. Já
a PSP recordou que a lei impede manifestações a partir das 00h30 e garante que
agiu porque os manifestantes resistiram e tentaram impedir a sua acção.
No Rossio olha-se com
desconfiança para os agentes da PSP, das equipas de intervenção e polícia
municipal que patrulham na praça. O número de carrinhas das
autoridades vai aumentando durante a tarde. Adriana Lima sublinha
que os manifestantes não se sentem intimidados: “Ninguém deve ter medo de sair
à rua”.
“Optimista”, a enfermeira Ana Loureiro espera que
não haja problemas esta noite. Mas para prevenir, e porque vê “muita raiva
acumulada daquele lado, sem razão”, trouxe consigo um kit de primeiros socorros.
“Como já deu para ver ali atrás, parece que vai haver uma guerra. A pressão
visual é muito grande, a quantidade de carros que está aqui para a quantidade
de pessoas que aqui está (…). Tenho até pena deles de uma certa forma, porque
eles também vivem em casas partilhadas, vêm de aldeias, ganham muito pouco e
são instrumentalizados desta maneira”, diz.
A tarde ainda é marcada pela
assembleia geral da acampada, com espaço para os manifestantes interessados
falarem, dentro de um limite de dez minutos. “O que é que podemos esperar de
Luís Montenegro, que tem 55 casas?”, começa logo por dizer o primeiro interveniente.
No final são aprovadas as seis reivindicações: a reversão da lei do
arrendamento; o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional;
um travão à aquisição de habitação por parte de fundos imobiliários; o aumento
de habitação pública; a iniciativa pública de recuperação de imóveis devolutos
para fins habitacionais; e a aplicação de tectos de renda acessíveis.
▲
A assembleia popular, onde participaram centenas de manifestantes, começou poucos minutos depois das 19h.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“É para aguentar”
Os cânticos e testemunhos
prosseguem noite fora até serem interrompidos para um novo aviso. São 23h e ao
microfone alertam que, legalmente, a manifestação não pode continuar para lá
das 00h30, que nessa altura a polícia pode intervir para retirar os
manifestantes. Apela-se a que, ainda assim, as pessoas não desmobilizem: “É
exactamente depois dessa hora que temos de estar aqui, por isso aguenta!”. Garantem
que estão preparados para, se necessário, enfrentar a polícia, mas pedem que
todos o façam de forma pacífica. Indicam como organizar as
tendas, em meia lua, com “espaço suficiente para passar uma pessoa, mas não o
suficiente para passar a bófia”.
Às 00h30 o cordão humano está
formado. Há muitos manifestantes de cara tapada, alguns com capacetes na
cabeça. Durante as próximas duas horas as pessoas vão descontrair, conversando
e cantando madrugada fora, retomando o cordão humano apenas quando há algum
aviso dos megafones ou há sinais de movimentação das autoridades. Foi
o caso quando elementos da Polícia Municipal vieram retirar algumas grades
deixadas para trás durante o protesto da CGTP, que tinham sido aproveitadas na
acampada para reforçar a corrente à volta das tendas.
O ritmo só abranda cerca
das 02h30. Algumas manifestantes de megafone espalham-se pela praça para
aconselhar a criação de grupos de afinidade (que, em protestos, servem para impedir
que alguém fique sozinho) e apelar ao descanso. Sugerem também que se escolham
vigias para estarem atentos às movimentações das forças policiais, mas
são poucos os carros das autoridades na praça.
▲
No limite de hora legal formou-se um cordão para "aguentar" de forma "pacífica".
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Depois do anúncio, cessam
os cânticos e os tambores. Alguns grupos vão abandonando o local lentamente,
mas permanecem ainda algumas centenas de pessoas no Rossio. A maior parte
ainda não recolheu às tendas. Para amanhã já estão previstas novas acções.
Às 10h está marcado “boxe popular”, seguido de uma “corrida popular
solidária” e nova assembleia. O lema mantém-se: “É para aguentar”.
Quando as primeiras tendas
foram montadas no Rossio ninguém arriscava dizer até quando ficava. No limite
de hora legal formava-se um cordão para "aguentar" de forma
"pacífica".
18 out. 2026, 04:39
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