Por conta dos bons princípios – por cá, também, em espírito de imitação, frisando o nosso humanismo de empréstimo.
À
falta de votos, a rua
Em França, onde tudo
começa, a ideia é enfrentar o Estado burguês na rua, minorando “emergências”
climáticas, palestinas e de género e voltando às causas sociais, para competir
com a direita lepenista
Jaime
Nogueira Pinto Colunista do Observador
22 out. 2026, 00:25
No preciso dia em que, de
acordo com o comunicado do governo francês, a “mobilização da extrema-esquerda e
da extrema-esquerda radical”, com o concurso de alguns “delinquentes de oportunidade”,
resultava numa das mais violentas jornadas político-sociais da História da
França e da Europa contemporâneas, cronicava, oportunamente, um filósofo local
num dos nossos jornais de referência:
“Mais do que a liquidação progressiva – já de si
criminosa – das liberdades e dos direitos das democracias liberais, é a
violência que marca a extrema-direita como anunciadora de futuros fascismos.”
Dir-me-ão que o tempo e o modo
da filosofia são outros, mas o que dizer do tempo e do modo do nosso
jornalismo, que, nesse mesmo sábado, 17 de Outubro, traduzia expressamente a
comunicação do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, “Aujourd’hui, des groupes
d’ultra-gauche ont organizé la violence dans plusieurs villes de France”,
por “Hoje, grupos de extrema-direita…” ? Valerá a pena
apresentar queixa à ERC, tão rápida a aplicar sanções financeiras a quem ousa
confundir cruamente “interrupção voluntária da gravidez” ou “saúde reprodutiva”
com “aborto” e insiste em publicitá-lo? Talvez não.
O que é facto é que, em
França, cerca de meio milhão de manifestantes de Esquerda, dos quais
100.000 em Paris – quem sabe, movidos pelo “fascínio pela violência” da
Direita, evocado pelo luso filósofo, num daqueles comportamentos miméticos à René
Girard –, parecem ter resolvido equivocar-se. Como? Traindo a índole da Esquerda e cumprindo a sonhada e
profusamente antecipada “ameaça violenta da extrema-direita”.
Agressões a polícias, queima de edifícios públicos, saque de grandes
armazéns e de pequenas e médias lojas, não faltou nada. Que a
violência não está na índole nem na tradição da Esquerda, até a Inteligência
Artificial portuguesa e os seus programas de tradução automática o sabem; ou
não teriam sido induzidos a cometer o acto falhado de traduzir “Extrema-esquerda” por
“Extrema-direita”.
De qualquer forma,
segundo o ministro do Interior francês, cerca de 2.400 detenções, perto de mil
polícias e gendarmes feridos (sete com gravidade), cerca de 1.500 lojas
vandalizadas e centenas de milhões de euros de prejuízo foi, só no
sábado, o saldo das manifestações contra o custo de vida, a educação e a habitação.
Tudo isto entre foices e martelos e dizeres anarquistas, com a
extrema-esquerda, que ainda não percebeu que a emergência voltou a ser
“social”, a insistir no keffiyeh, sempre útil numa guerra santa e nesta em
particular, e a pontuar o vermelho mais em voga com as semi-depostas cores do
arco-íris. Colunista do Observador Greta Thunberg também
canalizou a sua proverbial indignação para o “protesto estudantil”, que
agraciou com a sua miraculosa presença para um toque nostálgico de emergência
climática.
“Qu’elle brûle en entier!”
Em Limoges, umas centenas de manifestantes largaram
fogo ao edifício da Câmara Municipal, um edifício do último quartel do século
XIX, registado entre os monumentos nacionais de França. Havia
funcionários municipais dentro, que conseguiram escapar pelas traseiras. Quando
os bombeiros chegaram, uns 300 ou 400 manifestantes agrediram-nos berrando: “Vous
ne passez, on s’en fout q’elle brûle en entier!” O fogo propagou-se a todo o edifício
e cerca das oito da noite de sábado o histórico campanário de 43 metros de
altura ruiu, causando emoções contraditórias entre os manifestantes – uns, mais consternados; outros a rir e a
aplaudir.
O princípio e os fins
Tudo começou por um carnet de doléances dos
alunos liceais que, à partida, tinha alguma razoabilidade: a 18 de Setembro, em
Créteil, Val-de-Marne, os alunos bloquearam o liceu, pedindo “igualdade de
oportunidades” com os estabelecimentos de ensino equivalentes do XVIème
Arrondissement de Paris, o bairro mais chique da capital. Houve conversas mais
ou menos civilizadas dos representantes dos alunos com o reitor.
Mas eis que dois deputados de
La France Insoumise, Clemence Guetté e Louis Boyard (o mesmo Boyard que,
em 2023, proclamara o “Blocus Challenge” e afirmara “Il faut crier un panique
générale”, um belo programa para que “os amanhãs cantassem”), resolveram
aproveitar a boleia dos miúdos.
E os amanhãs cantaram. As imagens de
Créteil seguiram pelas redes sociais e Jean-Luc Mélenchon apelou aos pais e aos
“militantes insubmissos” para responderem à “selvajaria policial”.
Decisivo para a escalada,
foi o “Maire” de Saint-Denis, Bally Bagayoko, francês de raízes malianas
e dirigente do La France Insoumise, que, talvez para evitar a “selvajaria
policial”, se interpôs entre os estudantes e a polícia. E o próprio chefe do
partido, Mélenchon, desfilou em Paris à frente da manif.
A ideia era desafiar o pot-pourri das famílias
esquerdistas de França a enfrentar o Estado burguês na rua, fazendo uma revisão
ideológica e voltando às causas sociais, para competir com a direita lepenista.
Tal como Sanders e Mamdani ensaiavam nos Estados Unidos, deviam calar-se
estrategicamente as novas causas do wokismo e voltar à linha dura
marxista-leninista, declaradamente vermelha e violentamente insubmissa.
Assim, contrariamente aos fantasmas agitados,
era afinal a
extrema-esquerda europeia – com a francesa à frente – que, perante os
progressos da direita nacionalista e popular nas urnas, preparava uma resposta
violenta.
Lembre-se que as sondagens dão Marine Le Pen largamente
à frente na primeira volta, com 32 ou 33%, ficando o esquerdista radical
Mélenchon,
o social-democrata Glucksmann e o centro-direitista Édouard Philippe a par, nos 15 ou 16%. A estratégia da extrema-esquerda é, assim, radicalizar, trazer o medo da
rua, para que o seu candidato passe à final com Le Pen, tentando depois
ressuscitar a maioria antifascista que elegeu e reelegeu Macron em 2017 e 2022.
Não deve funcionar, mas
se não funcionar, os insubmissos, sempre contando com a ternura da generalidade dos
media e com a “união antifascista”, preparam a revolução nas ruas, com incêndios, pilhagens, terror, para
“parar a ultradireita”. O 17 de Outubro terá sido como que um ensaio geral.
E por cá?
Por cá traduzimos e traduzimos mal. Neste
caso, felizmente, quanto à violência.
Não era o
Eça que dizia que Portugal era “um país traduzido do francês, em calão”? Nos nossos campos de férias, que não estão
isentos de risco de escalada, há candidatos a vítimas que esperam
ansiosamente que a polícia entre no jogo para a photo-opportunity, fazendo
cordão atrás de enternecedores cartazes com nostálgicas palavras de ordem como: “Contra
o Estado, contra o Capital: Guerra Social.”
Todos sabemos que o problema da habitação é real, mas
também todos sabemos, ou devíamos saber, no que dão as boas intenções
manobradas pelos líderes evocados pelos manifestantes e as sociedades que daí
resultaram. Lenine é um dos mais citados nas nossas “acampadas”, onde, à falta dos
votos de hoje, se cantam “amanhãs de ontem” – Grândolas, Bella Ciaos, vinte e
cincos de Abril sempre e fascismos nunca mais.
Em directo/ Manifestantes continuam no Rossio e voltam
a montar tendas após noite passada ao relento. Para já, polícia não está no
local
Cerca de uma centena de
manifestantes continuam reunidos na Praça D. Pedro IV, em Lisboa. Passaram a
noite ao relento após acordo com a polícia e estão agora a voltar a montar as
tendas.
João
Francisco Gomes: TEXTO
Momentos-chave
Praça D. João I, no Porto,
vazia após desmobilização ontem à noite
A noite sem tendas que
virou "aconchada"
Manifestantes continuam no
Rossio e voltam a montar tendas após passarem noite ao relento
Inês
Lacerda
Assembleias, tendas,
cartazes e uma "aconchada". As imagens da madrugada em que o protesto
ficou no Rossio
Manifestantes foram
autorizados a permanecer no Rossio, desde que largassem as tendas e mantivessem
o ruído no mínimo. “Não é por cartazes que vamos chatear”, disse PSP.
João
Francisco Gomes
Praça D. João I, no Porto,
vazia após desmobilização ontem à noite
No Porto, a Praça D. João I
estava esta manhã vazia, depois de os manifestantes terem desmobilizado no
final de uma votação popular ao fim da noite.
A organização dos protestos
confirmou que esta quinta-feira voltaria a haver actividades na praça,
particularmente momentos culturais como dança, música e poesia.
Haverá uma nova
manifestação no sábado, mas não há novas pernoitas agendadas.
João
Francisco Gomes
A noite sem tendas que
virou "aconchada"
A propósito do modo como se
desenrolou a noite de protestos na emblemática praça lisboeta, poderá ler a
reportagem da jornalista do Observador Adriana Alves, que passou uma grande
parte da noite no local.
João
Francisco Gomes
Manifestantes continuam no
Rossio e voltam a montar tendas após passarem noite ao relento
Cerca de uma centena de
manifestantes continuavam esta madrugada no Rossio, em Lisboa, após uma noite
passada ao relento.
De acordo com o que o
Observador pôde testemunhar no local, esta quinta-feira começou de forma
diferente dos últimos dias, já que esta noite a polícia permitiu mesmo aos
manifestantes que pernoitassem na emblemática Praça D. Pedro IV, na capital,
desde que desmontassem as tendas e não se comportassem como numa manifestação.
Os manifestantes
acabaram por aceitar as condições da polícia e pernoitaram com sacos-cama e
colchões.
Ao nascer do dia, não se
via ainda presença policial no Rossio. Pelas 7h, a maioria dos manifestantes já
se tinha levantado e estavam novamente a montar tendas para continuarem o
protesto durante o dia desta quinta-feira.
Beatriz Félix/Observador
João
Francisco Gomes
Bom dia.
O Observador continua esta
quinta-feira a acompanhar ao minuto os desenvolvimentos dos protestos pelo
direito à habitação que têm marcado a agenda nos últimos dias e que têm tido
lugar em Lisboa e no Porto.
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