quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Criminologia em acção

 

Por conta dos bons princípios – por cá, também,  em espírito de imitação, frisando o nosso humanismo de empréstimo.

À falta de votos, a rua

Em França, onde tudo começa, a ideia é enfrentar o Estado burguês na rua, minorando “emergências” climáticas, palestinas e de género e voltando às causas sociais, para competir com a direita lepenista

Jaime Nogueira Pinto Colunista do Observador

22 out. 2026, 00:25

No preciso dia em que, de acordo com o comunicado do governo francês, a “mobilização da extrema-esquerda e da extrema-esquerda radical”, com o concurso de alguns “delinquentes de oportunidade”, resultava numa das mais violentas jornadas político-sociais da História da França e da Europa contemporâneas, cronicava, oportunamente, um filósofo local num dos nossos jornais de referência:

“Mais do que a liquidação progressiva – já de si criminosa – das liberdades e dos direitos das democracias liberais, é a violência que marca a extrema-direita como anunciadora de futuros fascismos.”

Dir-me-ão que o tempo e o modo da filosofia são outros, mas o que dizer do tempo e do modo do nosso jornalismo, que, nesse mesmo sábado, 17 de Outubro, traduzia expressamente a comunicação do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, “Aujourd’hui, des groupes d’ultra-gauche ont organizé la violence dans plusieurs villes de France”, por “Hoje, grupos de extrema-direita…” ? Valerá a pena apresentar queixa à ERC, tão rápida a aplicar sanções financeiras a quem ousa confundir cruamente “interrupção voluntária da gravidez” ou “saúde reprodutiva” com “aborto” e insiste em publicitá-lo? Talvez não.

O que é facto é que, em França, cerca de meio milhão de manifestantes de Esquerda, dos quais 100.000 em Paris – quem sabe, movidos pelo “fascínio pela violência” da Direita, evocado pelo luso filósofo, num daqueles comportamentos miméticos à René Girard –, parecem ter resolvido equivocar-se.  Como? Traindo a índole da Esquerda e cumprindo a sonhada e profusamente antecipada “ameaça violenta da extrema-direita”. Agressões a polícias, queima de edifícios públicos, saque de grandes armazéns e de pequenas e médias lojas, não faltou nada. Que a violência não está na índole nem na tradição da Esquerda, até a Inteligência Artificial portuguesa e os seus programas de tradução automática o sabem; ou não teriam sido induzidos a cometer o acto falhado de traduzir “Extrema-esquerda” por “Extrema-direita”.

De qualquer forma, segundo o ministro do Interior francês, cerca de 2.400 detenções, perto de mil polícias e gendarmes feridos (sete com gravidade), cerca de 1.500 lojas vandalizadas e centenas de milhões de euros de prejuízo foi, só no sábado, o saldo das manifestações contra o custo de vida, a educação e a habitação. Tudo isto entre foices e martelos e dizeres anarquistas, com a extrema-esquerda, que ainda não percebeu que a emergência voltou a ser “social”, a insistir no keffiyeh, sempre útil numa guerra santa e nesta em particular, e a pontuar o vermelho mais em voga com as semi-depostas cores do arco-íris. Colunista do Observador Greta Thunberg também canalizou a sua proverbial indignação para o “protesto estudantil”, que agraciou com a sua miraculosa presença para um toque nostálgico de emergência climática.

“Qu’elle brûle en entier!”

Em Limoges, umas centenas de manifestantes largaram fogo ao edifício da Câmara Municipal, um edifício do último quartel do século XIX, registado entre os monumentos nacionais de França. Havia funcionários municipais dentro, que conseguiram escapar pelas traseiras. Quando os bombeiros chegaram, uns 300 ou 400 manifestantes agrediram-nos berrando: “Vous ne passez, on s’en fout q’elle brûle en entier!” O fogo propagou-se a todo o edifício e cerca das oito da noite de sábado o histórico campanário de 43 metros de altura ruiu, causando emoções contraditórias entre os manifestantes – uns, mais consternados; outros a rir e a aplaudir.

O princípio e os fins

Tudo começou por um carnet de doléances dos alunos liceais que, à partida, tinha alguma razoabilidade: a 18 de Setembro, em Créteil, Val-de-Marne, os alunos bloquearam o liceu, pedindo “igualdade de oportunidades” com os estabelecimentos de ensino equivalentes do XVIème Arrondissement de Paris, o bairro mais chique da capital. Houve conversas mais ou menos civilizadas dos representantes dos alunos com o reitor.

Mas eis que dois deputados de La France Insoumise, Clemence Guetté e Louis Boyard (o mesmo Boyard que, em 2023, proclamara o “Blocus Challenge” e afirmara “Il faut crier un panique générale”, um belo programa para que “os amanhãs cantassem”), resolveram aproveitar a boleia dos miúdos.

E os amanhãs cantaram. As imagens de Créteil seguiram pelas redes sociais e Jean-Luc Mélenchon apelou aos pais e aos “militantes insubmissos” para responderem à “selvajaria policial”.

Decisivo para a escalada, foi o “Maire” de Saint-Denis, Bally Bagayoko, francês de raízes malianas e dirigente do La France Insoumise, que, talvez para evitar a “selvajaria policial”, se interpôs entre os estudantes e a polícia. E o próprio chefe do partido, Mélenchon, desfilou em Paris à frente da manif.

A ideia era desafiar o pot-pourri das famílias esquerdistas de França a enfrentar o Estado burguês na rua, fazendo uma revisão ideológica e voltando às causas sociais, para competir com a direita lepenista. Tal como Sanders e Mamdani ensaiavam nos Estados Unidos, deviam calar-se estrategicamente as novas causas do wokismo e voltar à linha dura marxista-leninista, declaradamente vermelha e violentamente insubmissa.

Assim, contrariamente aos fantasmas agitados, era afinal a extrema-esquerda europeia – com a francesa à frente – que, perante os progressos da direita nacionalista e popular nas urnas, preparava uma resposta violenta.

Lembre-se que as sondagens dão Marine Le Pen largamente à frente na primeira volta, com 32 ou 33%, ficando o esquerdista radical Mélenchon, o social-democrata Glucksmann e o centro-direitista Édouard Philippe a par, nos 15 ou 16%. A estratégia da extrema-esquerda é, assim, radicalizar, trazer o medo da rua, para que o seu candidato passe à final com Le Pen, tentando depois ressuscitar a maioria antifascista que elegeu e reelegeu Macron em 2017 e 2022.

Não deve funcionar, mas se não funcionar, os insubmissos, sempre contando com a ternura da generalidade dos media e com a “união antifascista”, preparam a revolução nas ruas, com incêndios, pilhagens, terror, para “parar a ultradireita”. O 17 de Outubro terá sido como que um ensaio geral.

E por cá?

Por cá traduzimos e traduzimos mal. Neste caso, felizmente, quanto à violência.  Não era o Eça que dizia que Portugal era “um país traduzido do francês, em calão”?  Nos nossos campos de férias, que não estão isentos de risco de escalada, há candidatos a vítimas que esperam ansiosamente que a polícia entre no jogo para a photo-opportunity, fazendo cordão atrás de enternecedores cartazes com nostálgicas palavras de ordem como: “Contra o Estado, contra o Capital: Guerra Social.”

Todos sabemos que o problema da habitação é real, mas também todos sabemos, ou devíamos saber, no que dão as boas intenções manobradas pelos líderes evocados pelos manifestantes e as sociedades que daí resultaram. Lenine é um dos mais citados nas nossas “acampadas”, onde, à falta dos votos de hoje, se cantam “amanhãs de ontem” – Grândolas, Bella Ciaos, vinte e cincos de Abril sempre e fascismos nunca mais.

 

Em directo/ Manifestantes continuam no Rossio e voltam a montar tendas após noite passada ao relento. Para já, polícia não está no local

Cerca de uma centena de manifestantes continuam reunidos na Praça D. Pedro IV, em Lisboa. Passaram a noite ao relento após acordo com a polícia e estão agora a voltar a montar as tendas.

João Francisco Gomes: TEXTO

Momentos-chave

Praça D. João I, no Porto, vazia após desmobilização ontem à noite

A noite sem tendas que virou "aconchada"

Manifestantes continuam no Rossio e voltam a montar tendas após passarem noite ao relento

Inês Lacerda

Assembleias, tendas, cartazes e uma "aconchada". As imagens da madrugada em que o protesto ficou no Rossio

Manifestantes foram autorizados a permanecer no Rossio, desde que largassem as tendas e mantivessem o ruído no mínimo. “Não é por cartazes que vamos chatear”, disse PSP.

João Francisco Gomes

Praça D. João I, no Porto, vazia após desmobilização ontem à noite

No Porto, a Praça D. João I estava esta manhã vazia, depois de os manifestantes terem desmobilizado no final de uma votação popular ao fim da noite.

A organização dos protestos confirmou que esta quinta-feira voltaria a haver actividades na praça, particularmente momentos culturais como dança, música e poesia.

Haverá uma nova manifestação no sábado, mas não há novas pernoitas agendadas.

João Francisco Gomes

A noite sem tendas que virou "aconchada"

A propósito do modo como se desenrolou a noite de protestos na emblemática praça lisboeta, poderá ler a reportagem da jornalista do Observador Adriana Alves, que passou uma grande parte da noite no local.

João Francisco Gomes

Manifestantes continuam no Rossio e voltam a montar tendas após passarem noite ao relento

Cerca de uma centena de manifestantes continuavam esta madrugada no Rossio, em Lisboa, após uma noite passada ao relento.

De acordo com o que o Observador pôde testemunhar no local, esta quinta-feira começou de forma diferente dos últimos dias, já que esta noite a polícia permitiu mesmo aos manifestantes que pernoitassem na emblemática Praça D. Pedro IV, na capital, desde que desmontassem as tendas e não se comportassem como numa manifestação.

Os manifestantes acabaram por aceitar as condições da polícia e pernoitaram com sacos-cama e colchões.

Ao nascer do dia, não se via ainda presença policial no Rossio. Pelas 7h, a maioria dos manifestantes já se tinha levantado e estavam novamente a montar tendas para continuarem o protesto durante o dia desta quinta-feira.

 Beatriz Félix/Observador

João Francisco Gomes

Bom dia.

O Observador continua esta quinta-feira a acompanhar ao minuto os desenvolvimentos dos protestos pelo direito à habitação que têm marcado a agenda nos últimos dias e que têm tido lugar em Lisboa e no Porto.

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