Publicado no “A Bem da Nação”. Um poema de humor, humor de
quem se torturou e bateu pela sua causa de amante da sua Pátria e da sua Língua,
e que deve ter guardado, numa vida que se foi autodestruindo no pensamento da
sua impotência, as reservas irónicas contra os destruidores dos valores
sagrados que ele julgara definitivos. O tom de mordacidade chocarreira, no jogo
de oposições entre o mito e o comezinho burlesco, o épico sagrado destruído
pelo boçal, forma um quadro de ironia de extraordinária dimensão. Um obrigada a
Salles da Fonseca que o publicou. Com idêntica valentia.
DESFORRA
É a vingança do velho do Restelo:
Cavar a terra junto à Torre de Belém.
Andámos séculos a montar a história em pêlo
E o que tivemos, deixámos já de tê-lo.
Não digas a ninguém.
Nem Império, nem nada, a terra com minhocas
(se ainda as tiver) é boa para o cultivo
De legumes, tais favas ou feijocas,
Que a Europa aceitar nas suas trocas.
Ser português, ó miss, não foi nunca excessivo.
Ondula a terra revolvida. Caravelas
São apenas metáforas, disfarce.
Bem melhor é a couve-de-bruxelas
Com batata e unto nas panelas.
Viva a catarse.
Resta falar a Freud do Adamastor profundo.
A sua sombra densa encolhe, mas distingo-a,
Humana, universal, e me corcundo:
Dizem que vamos reconquistar o mundo.
Bastam a beldroega e a lusa língua.
Vasco Graça
Moura
Nenhum comentário:
Postar um comentário