Do texto anrterior: Conde de Gobineau: o homem que inventou o racismo
Por
João Miguel Tavares: Texto
Rui Ramos: Texto
Em 1848, há revoluções em quase todas as capitais europeias, as monarquias são derrubadas, são proclamadas repúblicas. Estas revoluções são interpretadas por alguns autores como um choque entre dois princípios políticos, isto é, o princípio da soberania dinástica, o princípio da soberania nacional, representado pelas repúblicas, mas também é interpretado por outros autores como um choque social, um choque entre a aristocracia, a burguesia, o povo trabalhador, isto é, um choque entre estes grupos, um choque pelo domínio entre estes grupos. E isto, de alguma maneira, refletia a impressão que tinha havido das batalhas de ruas, por exemplo, em Paris, em junho, julho de 1848, em que uma parte da classe trabalhadora tinha feito barricadas, tinha lutado contra a polícia e contra o exército. Isto foi visto a partir do quadro que então era o quadro interpretativo da história, que era a história da Roma Antiga, da República Romana, da luta entre o patriciado e a plebe, portanto, uma luta social. E Gobineau quer explicar isso, de onde é que vem essa luta.
E cuja consequência é a queda
do império, é isso? Pelo menos, se calhar, na cabeça dele. Pelo menos a queda
de uma aristocracia.
Exato. Ele quer perceber de
onde é que isso vem. E ele interpreta estes grupos que estão em conflito, não
exatamente como classes sociais, mas como raças. Esse é que é o ponto dele.
Ok. Então, se calhar,
interrompo-te aqui e nós voltamos já a seguir após um breve intervalo. Olá,
seja bem-vindo de volta a esta segunda parte. Nós estamos a falar do Conde de
Gobineau, o chamado pai do racismo, mas estamos a tentar mostrar que era um pai
bastante complexo. Nós, na primeira parte, tínhamos ficado ali por volta de
1848, e tu estavas a tentar explicar qual é que era realmente a essência
daquele conflito segundo os olhos de Gobineau.
Para Gobineau, o que estava a
acontecer em 1848 era a tomada do poder na Europa pelo povo. E isto
significava, para ele, uma mudança de raças, porque para Gobineau também há uma
divisão de raças naquilo que era a raça branca. A aristocracia descendia dos
povos germânicos, em França, dos francos, que tinham conquistado a França, e o
povo descendia dos celtas, dos gauleses. Portanto, os francos e os gauleses
eram duas raças. Os francos eram a aristocracia, os gauleses eram o povo. Os
germânicos eram uma raça superior, de guerreiros, e o seu domínio coincidia com
a grandeza da França. E a sua substituição no poder por uma massa de mestiços
em que predominavam os celtas, que era uma raça inferior, e era isso que era a
democracia para ele, para Gobineau, a democracia era precisamente o poder das
massas inferiores, a tomada do poder por estas raças inferiores, só podia
trazer precisamente a decadência. Portanto, Gobineau é um pessimista, ele diz
que a humanidade A começar por França, está a caminhar para a unidade através
da miscigenação e que isso é feito à custa da elite humana, isto é, daquilo que
ele chama os filhos dos reis, a aristocracia. Esta aristocracia guerreira está
a perder-se. Esta aristocracia era o fator principal da vitalidade, da força,
da procura da beleza, da grandeza da civilização, e estava a ser entregue a uma
camada populacional que vinha de uma raça materialista, egoísta, de gente
ligada à produção, etc.
Mas o Gobineau, estas ideias
nasceram na sua própria cabeça ou tinham influências?
Não, isto eram ideias. Na
prática, o que ele faz no ensaio, a sua originalidade está em combinar coisas
que vêm de lados diferentes, e a originalidade dele é agarrar naqueles
elementos todos. É muito lido, é um erudito, é muito imaginativo, é um escritor
criativo e agarra naquelas coisas.
Talvez um pouco mais
imaginativo demais.
Muito imaginativo. E agarra
naquelas coisas e combina-os numa teoria. A ideia de raças, ele vai buscá-la
aos antropólogos, que desde o século XVII se propõem estudar os seres humanos
do ponto de vista da história natural. Isto é, como estudam as plantas e como
estudam os animais. Ora, como é que eles estudam as plantas e estudam os
animais? É descrevendo e classificando espécies e famílias. Estes antropólogos,
estes historiadores naturais da humanidade, começam também a fazer como faziam
às plantas e aos animais, a descrever espécies e famílias a partir de critérios
físicos, às vezes geográficos, culturais também. É uma mistura de critérios
para definirem estas famílias. Por exemplo, no século XVII, um médico francês, Bernier,
foi um dos primeiros a dividir a humanidade no que ele chamou raças, usando a
cor da pele e outros traços físicos, mas também a geografia. Ele acha que há
uma raça que compreende a Europa, o Médio Oriente, a Índia e as Américas,
seriam todos a mesma raça, curiosamente. Outra a dos africanos subsaarianos e
outra a dos asiáticos do Extremo Oriente. Isto é para François Bernier. No
século XVII, ele faz esta categorização. E depois há uma série de outros
autores, o naturalista sueco Carl Linnaeus, no século XVIII, que é um dos mais
conhecidos, estabelece uma divisão semelhante ao comum naturalista francês
Cuvier. E depois, no princípio do século XIX, aparecem outros que tentam tornar
a divisão das raças mais científica através de critérios mais precisos. Por
exemplo, o médico americano Samuel George Morton tenta medir as diferenças
raciais através da capacidade do crânio. Começa a medir crânios para
estabelecer a diferença entre as raças a partir dos crânios. Claro, quanto
maior o crânio, maior seria o cérebro, maior seria a inteligência. É a ideia
dele.
Também não foi à gagantifa.
Além desta ideia da
classificação e descrição, aparece também a ideia de uma degenerescência das
raças. Isto é uma ideia que vem do século XVIII, de um naturalista francês,
Buffon. Buffon diz que inicialmente só havia brancos e as outras raças que não
são brancos, são degenerescência dos brancos. Degeneraram. Depois há um médico
americano, o Benjamin Rush, no fim do século XVIII, que acha que os negros eram
brancos com uma doença de pele. Gobineau, na década de 40, quando começa a
escrever o seu livro, vai a estes livros todos, a estas publicações todas,
começa a ler e começa a tirar aquilo que lhe interessa para combinar, para
fazer a sua teoria.
E nessa altura ainda não
estava estabelecido que supostamente foi em África que o ser humano apareceu.
Ninguém tem ideia disso. A
maior parte deles atribuem à Ásia, que teria sido na Ásia. Há várias teorias,
até porque ainda é uma época em que a Bíblia, para muitos destes autores, é
tomada como uma fonte científica, diríamos nós, isto é para estabelecer factos.
A outra ideia que está aqui é a da desigualdade e concorrência entre as raças.
Isso também é uma ideia antiga. É uma ideia que remonta a um historiador
francês do século XVII, Henri de Boulainvilliers. Henri de Boulainvilliers
concebe a história de França em termos de uma luta de raças. A ideia dele: as
raças era a raça dos gauleses e a raça dos francos. A luta teria começado
quando a Gália Romana, habitada pelos gauleses, pelos celtas, é invadida e
ocupada pelas tribos germânicas dos francos. Os francos teriam constituído uma
aristocracia militar, de que sai a nobreza, e os gauleses, os celtas, teriam
constituído o resto da sociedade, isto é, aquilo que no antigo regime se
chamava o terceiro estado, a burguesia e os trabalhadores, os plebeus. Qual era
o objetivo desta história de Boulainvilliers? Era uma crítica do absolutismo do
rei. Ele dizia que os reis estavam a desprezar a nobreza e estavam a apoiar-se
no terceiro estado. Para ele, basicamente, os reis estavam a apoiar-se na pior
parte da sociedade contra a melhor parte. Além disso, estavam a tentar conceber
a sociedade como um corpo unificado sob o rei, quando de fato a sociedade era
um conflito de raças, era um conflito entre duas raças. E claro, isso remetia
para os preconceitos nobiliárquicos da aristocracia, as suas genealogias. A maior
parte das nobrezas no sul da Europa, a portuguesa, a espanhola, etc, todos eles
se atribuíam descendência germânica, todos eles achavam que eram descendentes
dos germânicos e que o resto da população tinha uma descendência antiga. Esta
história captava preconceitos genealógicos da própria nobreza. Estas teorias
que chegam ao século XIX ainda como teorias de raças, depois têm um
desenvolvimento interessante das primeiras décadas do século XIX. Historiadores
franceses como Augustin Thierry e François Guizot Que agarram nesta história de
raças e acabam por diminuir a característica racial para se concentrarem,
sobretudo, nas características sociais. Eles resolvem traduzir esta história de
luta de raças numa história de luta de classes sociais. Eles esquecem os
francos e os gauleses, e o que lhes interessa é a aristocracia, a burguesia e o
povo. Guizot e Thierry concentram-se desta maneira. Gobineau, de alguma
maneira, vai recuperar a dimensão racial que esta historiografia francesa mais
recente tinha desprezado. Isso não quer dizer que a sua caracterização das
raças não tenha imensas características de visão social. Há um historiador,
George Mosse, que se ocupou muito das origens do racismo e das teorias racistas
na Europa do século 19. Ele nota, ele lê com atenção as 1600 páginas do
Gobineau. Devo confessar que não li com atenção as 1600 páginas do Gobineau,
mas vi resumos, ele está disponível na internet.
Estava a pensar que tinhas
passado este tempo a ler 1600 páginas.
Não, há outras coisas que é
preciso ler. Mas George Mosse nota que a maneira como Gobineau caracteriza as
supostas raças deriva muito de preconceitos sociais. Por exemplo, os asiáticos.
Os asiáticos pra ele são materialistas, são egoístas e George Mosse nota que é
exatamente da mesma maneira como Gobineau descreve a burguesia francesa. A
burguesia francesa é muito parecida com os asiáticos. Da mesma maneira, ele
descreve os negros africanos como sensuais, como violentos, e é a mesma maneira
como ele descreve a classe trabalhadora francesa. Também é sensual, também é
violenta, sobretudo os camponeses. Ou seja, a sua visão racialista de raças é,
de facto, uma visão classista. E daí a facilidade com que as teorias racistas
se tornam teorias de classe e vice-versa. Aliás, há um outro contemporâneo de
Gobineau, alemão, que está a investigar e a escrever ao mesmo tempo que
Gobineau. Também é um escritor extraordinariamente imaginativo e tem também
esta capacidade do Gobineau de ler muita coisa, juntar muitos elementos pra
fazer uma teoria. É Karl Marx. Karl Marx leu os historiadores franceses e daí
tirou a ideia da luta de classes, do Manifesto Comunista de 1848. E Karl Marx
também está a explicar as revoluções de 1848. É uma interpretação do que estava
a acontecer, mas pra Karl Marx é um conflito de classes. Mas Karl Marx, que é
muito lido, tem noção de onde é que veio a teoria de classes. E ele numa carta
ao seu amigo e colaborador Friedrich Engels, 1882, é uma carta que é citada por
Michel Foucault num livro chamado "Os Fundamentos da Sociedade", e
que é precisamente sobre a origem destas teorias raciais e a sua ligação com as
teorias de classes sociais, com as teorias sociológicas. Marx diz isto a
Engels: "A nossa luta de classes, tu bem sabes onde nós a encontrámos. Nos
historiadores franceses, quando eles contavam a luta de raças." Ele sabe
que aquilo que ele está a fazer, isto é, que a sua teoria da luta de classes é
uma adaptação da teoria da luta de raças tradicional na historiografia francesa
até ao princípio do século 19.
E eles são contemporâneos.
Marx e Gobineau são
contemporâneos, um de 1816, o outro 1818.
Nascimento.
Nascidos, datas de nascimento.
E também morrem quase na mesma
altura.
Exato, também, 1882 e 1883.
Sim, na década de 80 do século
passado.
Eles estão a escrever os dois,
um a começar a preparar aquilo que vai ser "O Capital", que vai ser
publicado em 1867, o outro a começar a preparar um ensaio sobre a desigualdade
das raças humanas. Estão a escrever na mesma altura, fim dos anos 40,
princípios dos anos 50, e estão a tentar fazer a mesma coisa, isto é,
compreender a história que eles estão a viver em 1848, sobretudo a história das
revoluções, não em termos da luta entre partidos e da concorrência entre
propostas políticas, que era assim que era analisada, mas sim de uma espécie de
um conflito fundamental, épico, entre grupos humanos. Para Marx, esses grupos
humanos são grupos que ele define de um ponto de vista econômico e social, em
função da relação dos meios de produção. Para o Gobineau, tem uma dimensão
biológica, mas a ideia é mesmo esta ideia de: "Não, o que interessa é
isto, estamos perante um conflito de grupos humanos."
E depois também cada um
aprecia coisas diferentes.
Sim, a valorização é
diferente. Gobineau estima a aristocracia, portanto vê a ascensão daquilo que
Marx vai chamar o proletariado como o princípio da decadência, e Marx é
otimista, acha que, pelo contrário, a libertação do proletariado vai manter o
progresso.
Sim, Gobineau de optimista não
tem nada.
É extraordinariamente
pessimista, Marx é otimista. Mas agora, de onde é que vem esta terceira origem,
aquilo que nos falta ainda investigar das origens destas ideias de Gobineau,
porque esta ideia sombria, esta ideia pessimista, de onde é que isto vem? Desta
ideia de decadência.
Do fim da aristocracia. Estava
tudo a dissolver à sua volta.
Não, mas por que o fim da
aristocracia é uma decadência? Esse é que é o ponto. De onde é que lhe vem essa
ideia?
Porque é onde ele está.
Não, ele atribui à
aristocracia, precisamente, ele vê na aristocracia a liberdade individual. É
onde os indivíduos são mais livres. E, portanto, a decadência da aristocracia é
a decadência da liberdade. Isto é, a vitória da igualdade é feita à custa da liberdade
individual. E isto é uma ideia que ele apanhou de várias fontes, mas apanhou de
uma fonte principal, que é o livro "A Democracia na América" do
Alexis de Tocqueville, que é um amigo dele. Aliás, eles são grandes amigos, têm
uma grande correspondência entre os dois. Tocqueville também é mais ou menos da
geração de Gobineau. É Tocqueville que diz que o sentido da evolução social,
política e cultural contemporânea no século XIX é no sentido da igualdade, e
que esse sentido da igualdade vai ser feito com base no sacrifício da liberdade
individual, e que essa liberdade individual no passado tinha sido representada
pela aristocracia, que eram dos indivíduos que eram capazes de desenvolver
características mais pessoais, até pelo conforto em que estavam, mas também
pelos códigos a que estavam sujeitos, quer dizer, os códigos de honra, de
competição entre eles, de afirmação individual. E portanto, que isso iria
perder-se numa humanidade que estava a ser homogeneizada e ao mesmo tempo
sujeita a um Estado centralizado. E isso é uma degradação. Não, e Gobineau tira
ideias dele, aliás, ele até é acusado um pouquinho de plagiar o Tocqueville,
"Democracia na América" no ensaio, tirar imensas ideias de lá, só que
para Gobineau isso traduz-se em termos de raças. Para Tocqueville ainda era em
termos de classes, como ele tinha lido em Guizot e em Thierry. Por outro lado,
Tocqueville acha Gobineau demasiado fatalista. Acha-o muito pessimista. Aliás,
na correspondência ele o acha extraordinariamente pessimista. Ele diz:
"Não, mas apesar de tudo, as pessoas ainda podem reagir, podem fazer
qualquer coisa, podem criar instituições que preservam a liberdade."
Tocqueville tem essa ideia, por isso é que ele tem admiração pelos Estados
Unidos. É uma democracia, mas onde foram criadas instituições que sem a
aristocracia, apesar de tudo, preservam a igualdade. Para Gobineau, isso não
faz sentido, aquilo é uma decadência. Isto são as várias origens, isto é, as
antropologias desde o século XVII, XVIII, estas ideias de um conflito, a
história ser explicada por um conflito, isto é, por um conflito entre grupos ou
sociais, ou raciais, e esta ideia da decadência associada, curiosamente, ao
progresso, à democracia, isto é, vir trazer a decadência, que é uma opinião
paradoxal, mas que é a opinião de Gobineau. Essas teorias em França não têm
grande sucesso.
Nos Estados Unidos, o ensaio
de Gobineau é traduzido logo em 1856. O livro é publicado entre 1853 e 1855. No
ano seguinte é traduzido em inglês nos Estados Unidos, por Josiah Nott e Henry
Hotze Agora, eles não traduziram as 1600 páginas, um pouquinho à americana,
fizeram um digest e fizeram 400 páginas.
Sim, isso dava-lhes imenso jeito enquanto ainda havia escravidão, e depois deu-lhes ainda muito mais jeito quando a escravidão deixou de existir depois da Guerra Civil, depois de 1865. Por quê? Porque foi usado para justificar a segregação racial no sul dos Estados Unidos, de que já falamos aqui. Isto é a ideia do desenvolvimento separado das raças, há raças com níveis de civilização completamente distintos e Gobineau era um autor interessante. Agora, isto foi o que eles aproveitaram. Eles não aproveitaram outra parte que era fundamental. Para Gobineau, os americanos brancos não eram uma raça branca, eram uma raça mestiça.
Muito bem. Bom, e assim termina esta "E o Resto é História". Nós voltamos pra semana. Até lá. "E o Resto é História".
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