quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As mulheres têm menos visibilidade

O país está a desfazer-se, vagalhões de anúncios de catástrofes irrompem pela terra portuguesa, espraiando-se até aos confins da raia setentrional e oriental, nos jornais, nos audiovisuais, nos ais dos que já sofriam antes e vão sofrer mais, apesar da continuação na prosperidade dos que já prosperavam antes, com os artifícios habituais, entre nós, normais. Fatais.
Não, não temos mais estômago, não temos mais coragem para enfrentar as parangonas dos noticiários, ou a figura dos governantes, de uma soturnidade perversa, e “de uma fúria grande e sonorosa, de tuba canora e belicosa”, talvez, mas poderá ser também “de agreste avena ou frauta ruda” que ninguém lhes vai à mão por isso, a anunciar os cortes nos salários, as subidas nos custos, os acréscimos nos impostos, com a omissão dos triplos vencimentos, dos vencimentos exorbitantes, dos pagamentos daqueles que foram fraudulentos e que vão continuar a sê-lo com os améns dos governantes, só soturnos para os habituais roídos até aos ossos ou mesmo ao sabugo pelos roedores ancestrais. Os ratos e os roídos normais. Todos eles, funcionais.
Ainda há os que vão tentar puxar o travão de mão antes que o país resvale, dizem eles. Mas tudo isso é brincadeira, que todos sabem que já resvalou, não tudo, porque ainda vai resvalar mais, sobretudo o vão ser os habituais. Os leais. Só o sendo, porque são à lealdade forçados, embora sempre atraiçoados pelos promissores de medidas sociais, negativas em termos gerais, positivas em termos individuais. Marcadamente desleais. Bestiais.
Não, não quisemos gemer mais. Lembrámos a notícia saída ontem em rodapé, no canal 5, de que um estudo prova que as mulheres têm menos visibilidade. Comentámos a parvoíce desse estudo, só mesmo para entreter paspalhos, quando andamos às voltas com as medidas governamentais a que ninguém consegue pôr cobro.
A minha amiga ainda troçou da informação, nem se deu ao cuidado de citar excepções de mulheres bem visíveis, ainda que na imprensa cor-de-rosa, às vezes escandalosa. Considerámos que, apesar da condição de sombra da mulher na vida mundial, ela lá está, como sempre esteve, na sua labuta que mais ninguém tem nem vê, nem reconhece, luta dura, obscura, mas eficiente, óleo que seja nas rodas da carruagem familiar. Mas além dessas, há as que trabalham fora e acumulam com o trabalho na carruagem. E há as excepções honrosas das mulheres visíveis. Poucas mas boas.
Mas temos os homens audíveis, no nosso Parlamento. Ouçamos-lhes as vozes fenomenais, vaidosas, tranquilas, inimputáveis, ancestrais. Nacionais.
E retomemos os ais.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

“Chamem-se as donas de casa”

- Ai, as notícias são tristíssimas, alarmantes, degradantes – responde a minha amiga à minha questão sobre o andamento das coisas por cá. - Quando eles põem lá os milhões que se devem, os milhões que se gastaram, tudo cabeças leves, é o que se deduz. E ainda se permitem mudar as frotas dos carrões.
Com a integridade em que fui educada desde a idade tenra, repus a verdade, segundo a notícia que ouvira de que a frota topo de gama este ano não se mudava, mas a minha amiga não acredita muito nas minhas informações, geralmente escutadas com a ligeireza da dispersão, é certo, mas não desta vez, garanti, formalizada.
- Se proibiram, foi o mês passado. Desde o 25 de Abril era só mudar as frotas.
E retomou, com arranque, a questão económica:
- Entreguem às donas de casa, qualquer dona de casa via isso – os gastos superiores aos ganhos – menos os palermas. Estes nunca souberam fazer contas. Coisa tão estúpida, tanta asneirada, um país que não produz… O destino deste país mudou no dia em que morreram Sá Carneiro e Amaro da Costa. Com estes, seria a mudança. Não estou a dizer que seria um país rico, mas normal. Era gente com vontade de fazer obra. Foi por isso que morreram. A pouca sorte dos portugueses foi aquele crime. Eram dois homens interessados. Eles e os que os acompanhavam. Como foi possível? Um país deste tamanho… era caso para levar isto a sério… descobrir quem os matou.
- Nisso concordo. Mas o destino dos portugueses mudou muito mais cedo. E quando os diques rompem, dificilmente se reconstrói, vai tudo raso. Eles fizeram parte da enxurrada que o dique provocou, mau grado as suas boas intenções. E por aqui vamos nós também, na enxurrada que irá atingir as gerações vindouras, cada vez mais desabituadas de fazer contas, indispensáveis para o travão. O actual ensino dá-lhes brinquedos para não se preocuparem muito com previsões e cálculos, retira-lhes a reflexão do ensino sério e responsável.
A minha amiga mudou de assunto, com a costumada volubilidade:
- A gente ainda não falámos – é assim que se diz, não é? – nos mineiros do Chile, que aquilo é uma coisa horrorosa. Como é possível que haja minas assim a arriscar a vida dos homens daquela maneira? E não há solução rápida. E os donos são muita ricos, muita ricos – e aquela gente festeja, lá fechados… Falam em três meses para sair, se conseguirem. Falta o ar só de pensar. Como é que se permite que estes homens trabalhem nesta profundidade?! Uma mina! Há um espação de tempo para lá se chegar ao sítio. Há direito que o ser humano desça tão fundo?! Aquilo é crueldade até dizer chega. Tudo o que vive ali na terra é mineiro. Têm um ordenado que dá para formarem família. E os donos muita ricos. É exploração pura…
- Os submarinos também causam falta de ar. Lembra-se do desastre do submarino russo no mar Árctico, há uns anos? A minha mãe nunca gostou do Putin, em parte, à conta disso, porque o Putin não interrompeu as suas férias para se associar ao pavor que foi, que nós vivemos cá em casa com verdadeiro horror .
- Cá e lá e mais acolá más fadas há, é a conclusão…
- Pois, mas o sofrimento de lá e de acolá é mais violento. Nós por cá até somos favorecidos. Pela nossa falta de educação e vergonha, de vivermos há longos anos à custa alheia, sem preocupação. Parece que chegou a vez de pagarmos em força. Mas sempre temos o fado a ajudar-nos a superar a dor...

domingo, 26 de setembro de 2010

O rabecão

Mais uma vez o Esopo
Tem toda a razão,
Ao mostrar
Como é velha a sentença
Do povo sabichão,
“Quem te manda a ti, sapateiro,
Tocar rabecão?”…
Embora a flauta
Do lobo da sua fábula
Tenha uma elegância
E uma vibração
Que não tem a rabeca
Do nosso remendão…
O que não é admiração!

«O cabrito e o lobo que tocava flauta»
«Um cabrito que se afastara do rebanho,
Por um lobo delambido
Foi perseguido.
Olhou para ele e disse, com ar meigo
E casto:
- Ó lobo! Eu não tenho nenhuma dúvida
De que te vou servir de repasto!
Mas uma morte ignominiosa é tristeza.
Toca flauta para que eu possa dançar
Antes de, em beleza,
Acabar.
Enquanto o lobo a flauta tocava
E o cabrito dançava,
Pelo ruído alertados,
Os cães, enfurecidos,
Acorreram mesmo na hora
E puseram o lobo a andar
Dali para fora.
Ao voltar a cabeça,
O lobo delambido,
Cheio de pesar,
Disse ao cabrito arguto
E muito atrevido:
“ – Pelo meu destino
Sou bem responsável
Por não ser fino
Ou arteiro.
Não passo dum carniceiro
E quis armar em flautista
Admirável!
O castigo mereço,
Imperdoável
E sem desconto,
Pois me portei como um tonto
Ou um menino sem tino,
Diria até, masoquista!

Assim acontece,
Frequentemente,
Àqueles que,
Sem terem em conta
As circunstâncias,
Da vida presente,
Se vêem privados
Sem tom nem som
Mesmo daquilo
Que têm na mão.»

E aqui está mais uma
De aplicação
Aos nossos tempos
De muita bruma
Na nação,
Na indigestão
De muitos
E na fome do pobre,
Embora o pobre agora
Seja mais ajudado
Do que o desempregado,
Por devermos mostrar
Na habitual bondade
– Digo, hipocrisia -
Que a democracia
Está em primeiro lugar.
De cabeça perdida
E sem comedimento,
O nosso Primeiro
Já faz queixas lá fora
Às grandes potências
Do que aqui se passa.
Que atrevimento
E que falta de classe!
Como se importasse
Aos outros povos
Aquilo que somos
E o que fazemos!
Somos sapateiros,
Remendões, embora,
Que nos vamos amanhando,
E atamancando,
Com muita penúria
Mas não de tolice,
Lançando sempre mão
De qualquer rabecão.