quarta-feira, 24 de abril de 2013

Dois em um


De Fernando Pessoa, in “Mensagem”, (III Parte- “O Encoberto”)
«NEVOEIRO»

«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer.
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,


Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!»


Não, não é a hora de nenhum auspicioso “Quinto Império”, que Vieira definiu, apoiado em profecias ambiciosas, em tempo de miséria e dependência, e em cujo rasto Pessoa seguiu, no mesmo orgulho patriótico que inspirou o primeiro, e no prosseguimento de tempos nublados num país de atraso, mas com algumas mentes de génio, entre as quais a do próprio Pessoa, crente num novo “Sebastião” e num “Quinto Império” espiritual protagonizado pelo seu país, num amanhã começado nessa Hora.

Parece absurdo, ontem como hoje, em que os meios mediáticos nos permitem conhecer melhor a matéria de que é feita a natureza lusa que possibilitou o “nevoeiro” cerrado adensando mais as trevas da nossa actual condição de dependência, um tão insensato orgulho de valorização deste país, ainda que sob uma forma poética de extraordinária feitura. Absurdo que pretendêssemos tal projecção, se fôssemos trabalhadores e aptos como outros povos de superior modéstia intelectual, os quais respeitam outros valores menos exibicionistas e mais dignos da condição humana, como o descreverá Vasco Pulido Valente na excelente análise do seu artigo “Um economista com dúvidas” de Domingo, 21/4, sobre um livro de Vítor Bento – «Euro Forte, Euro Fraco, Duas Culturas, Uma Moeda: Um Convívio (Im)possível?» :

 «… As duas culturas de que fala o título são, como era fatal, a cultura dos países do Norte (a Alemanha, a Áustria, a Holanda, a Bélgica) e a cultura dos países do Sul (a Irlanda, a Itália, a Espanha, Portugal e a Grécia). As duas culturas têm uma “moral social” diferente, e, como é lógico, diferentes “preferências sociais”. A cultura do Norte tende a valorizar a lei, sobretudo a lei fiscal, promove a fiança colectiva e a confiança de cada cidadão no Estado. A cultura do Sul favorece a infracção, sobretudo a infracção fiscal, enfraquece a confiança colectiva e genericamente não permite uma sólida confiança no Estado.»

Mas as razões invocadas por Pulido Valente são bem diferentes das que enfatiza Vítor Bento, centradas em diferentes valores socioculturais .

«Esta divisão, à superfície perspicaz, não parece realista e bem fundamentada. O facto principal é que os países do Sul não se industrializaram, não por sua culpa, mas, primeiro, porque lhes faltavam matérias primas fundamentais: o carvão e o ferro. E, segundo, porque estavam longe do centro da Europa e das grandes vias comerciais. Se pensarmos nas regiões que se desenvolveram dentro dos países do Sul: o Norte e o Nordeste de França, o Milanado e a Venécia (como dantes se dizia), a província basca, veremos que o seu “atraso” e sua “cultura” se devem essencialmente à sua pobreza e que essa pobreza deriva da pobreza do solo e de um irremediável isolamento. »

Segue-se que «A mistura no euro de países que eram historicamente miseráveis com os ricos a quem sempre haviam obedecido e de que sempre haviam dependido é que em pouco tempo provocou a ideia, de resto utópica, da “Europa”.»

E Pulido Valente continua comentando as teses de Vítor Bento:

«Mas Vítor Bento, depois de contar com a sua competência de economista e a sua vasta ignorância do passado, a fabricação do euro sob o alto patrocínio da Alemanha e a cumplicidade pateta dos franceses (que não tardarão a pagar por isso), não consegue ainda decidir entre o possível e o impossível. E com uma habilidade que se recomenda, depois de rejeitar o federalismo político e o federalismo fiscal, o que é de uma sensatez mais do que primária, persiste na fantasia da “federalização dos sistemas bancários”, claro, e também das “prestações sociais, como o “subsídio de desemprego”.»

E conclui:

«Além de a sugestão ser politicamente absurda, Vítor Bento, para mal dos seus pecados, não percebe que com isso iria aumentar o poder, já excessivo, da Alemanha sobre os países do Sul, cujo único destino seria o das colónias balneares para o Império central. Mas não nasceu por enquanto o economista capaz de se entender com o mundo como ele é.»

 
Vasco Pulido Valente é historiador, deve saber bem o que diz a respeito dos países ricos e pobres da Europa, motivo da maior ou menor amplitude económica com reflexos sobre o desenvolvimento cultural.

Na parte que nos diz respeito, mesmo sem o poderio mineiro dos povos europeus nortenhos, tivemos colónias que a Metrópole explorou a seu tempo, podendo ter alargado mais visivelmente as estruturas económicas, sociais e culturais do povo português. Paradoxalmente, ao longo dos séculos esse povo foi sendo continuamente marginalizado em termos socioculturais relativamente aos mais povos europeus e não só. E esse facto não se deveu à falta de riqueza, porque a tivemos bastante, mas aproveitada em termos glorificadores dos reis, no passado monárquico, ou de exaltação católica, não em termos de desenvolvimento social, o povo sempre joguete da avidez ou dos egoísmos dos mandantes, como bastamente o denuncia, por exemplo, Saramago em “Memorial do Convento”.

Também essa falta de respeito humano ou de pequenez mental o vemos nos programas da nossa estridência verbal televisiva hodierna, e muito especialmente nos do excesso dos nossos debates que todos giram em torno da nossa crise, com muitos sabedores cheios de certezas a respeito da nenhuma expectativa de melhoria económica, os que apoiam o governo traduzindo cada vez mais debilmente a confiança no êxito daquele, mas nenhum se dispondo a assumir responsabilidades ou uma orientação de interapoio que pudesse revelar, não a máxima camoniana “também dos portugueses alguns traidores houve algumas vezes”, mas uma máxima oposta, lembrando os actos de coragem e de dedicação pátria que o mesmo Camões exaltaria entre os “barões assinalados” que tão magistralmente cantou. Mas parece absurdo que tantos sejam os atacantes em torno do osso pátrio em frangalhos, aparentemente para o protegerem, na realidade para mais o abocanharem.

E é mais um texto de Vasco Pulido Valente, publicado no “Público” de sábado, 20/4/13, que transcrevo, sobre essa questão da monocórdica temática televisiva que ele intitula “Os dois “debates” de televisão”:

«As televisões (sete ou oito canais) têm agora dezenas de programas de debate, com centenas de salvadores, incluindo – não se percebe porquê – o Herman José, sob o pseudónimo de Ana Gomes, a mulher que mais grita em Portugal. Isto seria normal, se os debates não fossem sempre só dois da RTP à CMTV, apesar da profusão de sábios que nos tentam ilustrar e esclarecer. Ao fim de algumas semanas já se repetem todos, sem que se perceba esta estranha multiplicação de falatório em pessoas, com livre arbítrio e alguns neurónios no cérebro. Com tantas faculdades de “comunicação social” devia haver um grupo de investigação para descobrir a origem deste fenómeno, manifestamente típico do génio do indígena e – suspeito – com grandes possibilidades de exportação , pelo menos para a Venezuela.
«O primeiro debate versa sobre a “austeridade”. Os mandatários de Pedro Passos Coelho e de Vítor Gaspar insistem que a “austeridade é necessária” e o único caminho para tirar Portugal de sarilhos e a condição básica para começar uma política de crescimento económico e um “combater o desemprego” (um eufemismo incompreensível). A oposição, pelo contrário, acha que a “austeridade” está a criar desemprego e a “desfazer o tecido económico” do país, propondo uma “renegociação” com a troika (sem explicar precisamente sobre o quê e sem a menor ideia se a troika aceitaria esse plano salvífico e perspicaz. Nesta altura o debate costuma degenerar num arraial de feira, em que o moderador se desespera e ninguém ouve o que o próximo está a dizer, de resto com imensa razão, porque o próximo é um agente do mal e do estrangeiro. Para se distrair, o cidadão comum pode passar para o canal ao lado e tornar a ver o espectáculo com outras caras.

«O segundo debate versa sobre o “consenso”, que ninguém se deu à excessiva franqueza de explicar exactamente em que consiste. A troika quer o consenso, por motivos que não se compreendem e que, de qualquer maneira, não convém que a ralé conheça. Como a troika quer, de quando em quando o governo conversa com o PS ou manda uma cartinha ao dr. Seguro com o propósito de exibir a sua obediência e magnanimidade; e o PS, que se acha “humilhado” e “enxovalhado” responde com duas pedras na mão. Aqui, chega a altura do PSD também se sentir “humilhado” e “enxovalhado” e de se cobrir dignamente com a gravidade do Estado. Sucede, ainda por cima, que o PS nunca aceitará a política do PSD, nem o PSD a do PS (ver primeiro debate). E é assim que, com meia dúzia de horas de “debate” por noite, a nata do nosso querido país pratica a democracia e, com dificuldade, vai educando a ralé.»
Ecce homo.
Ecce homines.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

“Conhece-te a ti mesmo!”


Foi Esopo e Fedro que inspiraram
La Fontaine e o motivaram
Para uma história de manhas,
De um Gato espertalhão
Como o seria o das Botas
Que Perrault criaria
Para encantar as crianças
Com tão bela fantasia:

«O Gato e o velho Rato»
«Li, num contador de histórias,
Mais propriamente de fábulas,
- Histórias bem meritórias -
Que um certo Rodilardo,
Alexandre Magno dos Ratos,
Ou Átila, seu flagelo,
Tornava aqueles, mesmo os amáveis,
Bem miseráveis.
Eu li, repito, em certo autor,
Que este gato exterminador,
Verdadeiro Cérbero,
Era temido numa légua em redor;
Ele queria o mundo inteiro
Despovoar de Ratos.
As armadilhas suspensas por leve apoio,
A Morte-aos-Ratos, as ratoeiras,
Não eram mais que leves brincadeiras dele
A prémio.
Como vê que nos seus esconderijos
Os Ratos estavam prisioneiros
E não ousavam sair, por mais que os procurasse,
E mesmo os avistasse,
O Galante finge-se morto
E do alto do tecto, de cabeça para baixo
Fica pendurado.
O animal celerado
Agarrava-se pelas patas a uns cordões,
Como uns trapezistas figurões,
Sem perturbações.
A plebe dos Ratos julga nisso um castigo do dono
Por ter furtado um queijo ou o assado,
Ou arranhado alguém
Ou causado algum outro dano
Malandro.
Enfim, ela cuidava
E se regozijava
Porque tinham enforcado
Um patifório de todo o tamanho.
Todos, unanimemente,
Prometem rir no seu enterro,
Põem o nariz no ar, mostram as cabeças,
Depois voltam para os seus ninhos sem sustento,
A seguir, voltando a sair, dão quatro passos,
E por fim põem-se à procura do alimento.
Mas a festa não é a esperada:
O enforcado ressuscita; e caindo
Sobre os seus quatro silenciosos pés,
Agarra os mais preguiçosos, sem rapapés:
“Nós temos muitas na manga, disse ele a engoli-los:
É uma partida velha da guerra; e as vossas cavernas ocas,
ão vos salvarão; aviso-vos;
Vós vireis todos à casinha;

Ele profetizava verdade: o nosso mestre doçuras
Pela segunda vez os engana,
Branqueia a sua roupa, cobre-se de farinha,
E assim mascarado, aninha-se e agacha-se
Numa amassadeira aberta.
Foi bem pensado:
A rataria vem procurar
Lenha para se queimar.
Um Rato, em boa hora, abstém-se de farejar lá fora.
Era um velho experiente; conhecia as partidas
Na berra;
Ele tinha até perdido a sua cauda na guerra.
“Este bloco enfarinhado nada me diz que valha”
Exclamou de longe ao General dos Gatos.
Suspeito alguma farsa de efeito, nessa tralha.
Nada te serve seres farinha,
Porque mesmo que fosses saco, eu não me aproximaria.”
Muito bem ele dizia; aprovo a sua prudência;
Ele tinha experiência,
Sabia que a desconfiança
É mãe da segurança.»

De facto, quando penso em nós, os ratos,
A recebermos tantos maus tratos,
A sermos comidos pelos gatos,
Que são vários e bem fartos,
Não posso deixar de pensar
Que se damos acolhida àqueles gatos
Que com pezinhos de lã,
Destruíram a pátria órfã,
E saíram e voltaram
Recebidos com muito afã,
Para a continuar destruindo
Com as falas da sabedoria
Da traição e da cobardia,
Para patego ouvir,
Merecemos os males que passamos.
Pois não choremos,
Já que as falas avisadas
Dos ratos mais sabedores
Não queremos escutar
E muito menos seguir.
Se ao menos essa eloquente gataria,
Com as suas chorudas quotas,
E oportunas reviravoltas
Fosse da categoria
Daquele Gato das Botas
Que transformaria
Em marquês de Carabas
Um amo mais pelintra que nós!

Outro galo nos cantaria!

 

 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sobre a utopia


Levei à minha amiga o artigo de Vasco Pulido Valente sobre o conceito da Igualdade que levou o Tribunal Constitucional a rejeitar quatro das normas do Orçamento de Estado e que tramou manifestamente o Governo de tal forma que agora este se vê e se deseja para tapar o buraco que já anteriormente tinha coberto. Ei-lo:
 
«Sobre a igualdade»

«Muita gente se tem declarado incapaz de perceber a ideia de “igualdade” em que o Tribunal Constitucional fundou a sua decisão de rejeitar uma parte do Orçamento do Estado. É compreensível: “igualdade” é uma noção por natureza equívoca e ambígua. Quando apareceu pela primeira vez, em 1789, na “Declaração dos Direitos do Homem”, por proposta dos liberais da Assembleia Constituinte, queria dizer, muito simplesmente, “igualdade” legal. Ou seja, servia para condenar e abolir os privilégios de que gozavam a nobreza de “espada”, a nobreza “judiciária”, parte da “classe comercial” e as corporações. Mas pouco a pouco acabou por se alargar à população inteira, dissolvendo as fronteiras entre os representantes políticos da França e o homem comum; e o sufrágio censitário em que assentava a única possibilidade de substituir o regime “absolutista”. Com essa solitária palavra a revolução começou.
E a revolução aumentou ainda o alcance desse maleável conceito. “Depois da “igualdade” legal chegou rapidamente a “igualdade” social. (Depois da queda da monarquia, e sob a pressão das “secções” de Paris (que não passavam de agências do radicalismo), os jacobinos pediram pela voz do “virtuoso” Robespierre que o direito a uma existência digna e modesta (claro!) fosse reconhecido como um direito universal. Isto implicava, é claro, num país do século XVIII, a fixação dos preços e o abastecimento do “povo” pelo confisco dos produtores e também dos “ricos” (“les riches égoïstes”). O regime só podia sobreviver pelo terror. E o “terror” veio como devia vir.

A carreira da “igualdade”, com algumas diferenças de tempo e circunstâncias, voltou a acontecer nas genuínas revoluções do século XIX e até do século XX, da revolução russa à revolução cubana. Todas trouxeram a miséria e o desespero. O “igualitarismo” (de resto anunciado pela política de Bismarck e pelo Império Austro-Húngaro e não pelos socialistas, que o combateram) da Europa Ocidental posterior à II Guerra mundial evoluiu para o Estado social, que o transitório domínio dos mercados mundiais e a ajuda americana permitiam à Europa financiar, sem violência ou acidentes de maior. Mas, desgraçadamente, esse paraíso artificial, que parecia eterno, começou a morrer por volta de 1970 e hoje está manifestamente em agonia. Aceitar o princípio da “igualdade” como princípio regulador da Constituição Portuguesa é, em 2013, absurdo e perigoso; e um sinal do provincianismo de um país que, desde meados do século XVIII, viveu sempre à margem da cultura europeia.»

Levei, pois, à minha amiga o artigo supracitado de V. Pulido Valente sobre a norma da Igualdade como ponto de partida para a tal rejeição supracitada, a qual tramou o Governo de tal forma que agora, segundo o Público de sábado 13/4, quem vai ajudar a tapar o buraco são os sem-emprego e os doentes subsidiados, o que não condiz com o nosso habitual conceito de Justiça e muito menos com esse da Igualdade mentora da rejeição do T.C..
Pusemo-nos, a minha amiga e eu, a dissertar sobre o tal chumbo das quatro normas do OE, chumbo aparentemente fundamentado nos princípios da Igualdade que a Constituição de 1975 tão generosamente consagra, juntamente com a repartição solidária de sacrifícios de todos os cidadãos, o que é de uma justiça mais que evidente, embora de modo nenhum estranhável neste país tão equilibrado na repartição dos direitos e dos haveres e na aplicação das justas leis.

Mas não é essa a ideia de VPV sobre o conceito de Igualdade dos juízes do TC que chumbaram o OE, conceito que ele considera démodé desde os anos 70, certamente que inspirado no livro de George Orwell «1984», sobre um Estado futuro, relativamente a 1948, -dada da sua escrita – Estado passado, relativamente a 2013 – data do chumbo do OE pelo TC e do artigo de VPV sobre esse conceito - Estado omnipresente e omnipotente, e para mais com o olho supervigilante do Grande Irmão a coarctar toda a espécie de liberdade, e funcionando segundo uma Novilíngua por ele criada, em que “o conceito de igualdade política desaparecera, por conseguinte a palavra igual fora expurgada desta acepção secundária, só verdadeira gramaticalmente falando ou seja, “todos os homens são iguais, frase possível em Novilíngua, só que apenas do mesmo modo em que “todos os homens são ruivos” surge em Velhilíngua: não continha nenhum erro gramatical, mas exprimia uma inverdade palpável -. ou seja, que todos os homens têm idêntica altura, idêntico peso ou força.”

Na Novilíngua do Estado totalitário de «1984» e de V.P.V. que certamente o leu, não existe pois, tal conceito de cidadania igualitária, próprio das revoluções dos tempos modernos até 1970, data das revoluções libertadoras dessas injustiças passadas, mas suficientemente utópicas, mesmo para os povos provincianos que viveram “sempre à margem da cultura europeia.»
Mas parece que os juízes do TC, ao chumbarem o OE, por serem seus adeptos, contrariando o livro orwelliano e o nosso articulista, ignoraram as aflições dos nossos governantes, por conta do buraco herdado que estes se comprometeram a pagar, e fizeram finca-pé no subsídio de férias de que eles próprios não prescindem, o qual lhes dá muito jeito, como a todos nós, de resto, que nem por sombras nos equiparamos a eles nisso dos subsídios, vencimentos ou até eventualmente espórtulas ocasionais para sentenças mais justas.
Os governantes tiveram que apresentar outras normas, não sei se para serem novamente chumbadas e diz o Público citado que “quem vai ajudar a tapar o buraco são os sem-emprego e os doentes subsidiados”.
Parece que não há outras alternativas, embora a minha amiga ache que há, falando em fundações que se mantêm de pé e que deviam cair e nos deputados a mais que deviam sair, e nos peculatos que se deviam impedir, e na sumptuosidade dos repastos parlamentares que devia esmorecer e nas muitas passeatas governamentais que também deviam, embora agora sejam feitas aparentemente para a expansão económica do país com pouca.

Mas eu, ainda dentro da história comovente dos “Bourgeois de Calais”, que evoquei há dias, sugeri que um grupo dos nossos burgueses do país inteiro juntassem os seus trocos, mesmo os dos peculatos e das lavagens de dinheiro, para se pagar o  tal buraco causado pelo chumbo do TC e até mesmo o causado pelos governos precedentes. Os Troikos já têm as maletas para a recepção dos milhões – côdeas para os nossos burgueses que nem precisariam da corda do sacrifício no seu pescoço - que não queremos cá carnavais desses, temo-los de sobra.     

Mas a minha amiga logo troçou dessa minha crença em fadas boas resultante do excesso de leituras infantis na minha infância, o que eu contestei com as minhas outras leituras da minha velhice, preferentemente optimistas ou até de uma fantasia tão descabelada que não há quem nelas creia.
A menos que se chame Vasco Pulido Valente. E eu própria, não nego.