sábado, 28 de setembro de 2024

Sociedade chinesa

 

Que íamos conhecendo na juventude, no prazer dos livros da Pearl Buck, o Mao Tsé Tung adquirindo já, neles, ou num deles, creio que o último que li dela, as manhas e crueldades que revelou com o seu maoísmo assustador - pelo menos inicialmente… Mas que os chineses foram sempre “penetrantes”, porque sempre penetraram, nas terras que cultivavam mansamente, não há dúvidas disso, Rui Knopfli já definira o chinês de Moçambique - já o citei por aqui - no seu livro “Reino Submarino, “O povo da China visto do Alto-Maé”, um bairro de Lourenço Marques - um povo sossegado que não quebra um prato, silencioso e sorridente, suavemente deferente, mas indiferente, intimamente cônscio do poderio da sua nação, espelho, aliás, do seu actual presidente, as pálpebras sempre descaídas, na reserva do pensamento brilhante, prudente, resiliente, se necessário for… Sem medos.

A desforra de Estaline

Os golpes de Xi podem ser, não os caprichos de um autocrata narcisista, mas tentativas desesperadas de manter o poder nas mãos de um partido totalitário numa sociedade do século XXI.

JOÃO CÉSAR DAS NEVES Professor da Católica Lisbon School of Business & Economics

OBSERVADOR, 27 set. 2024, 00:1621

O mundo vive hoje assombrado pela decadência de uma das maiores realizações económicas de sempre, em derrapagem para um dos grandes pesadelos do passado. Para entender o drama é preciso recuar 300 anos.

O projecto comunista de criar uma economia planeada, sem ganância e incompetência privadas, é um dos mais magníficos empreendimentos da humanidade. Idealizado no século XVIII, e prometendo acabar com a miséria, desigualdade e exploração numa economia ordenada, justa e dinâmica, o modelo só se viria a concretizar na URSS, a qual, após os inevitáveis percalços iniciais de Lenine, de 1917 a 1924, atingiu o sucesso no consulado de Estaline, de 1928 a 1953, sobretudo com a vitória na “grande guerra patriótica” de 1941 a 1945. Na época em que o sistema capitalista, com a depressão e a guerra, mostrava a sua decadência, este êxito soviético espalhou o comunismo por todo o mundo.

Todos sabem que, após esse episódio triunfante, o modelo estalinista desabou vergonhosamente em 1989, após décadas de terrível incompetência, opressão e apatia. Para muitos, a derrocada provou irremediavelmente o falhanço do comunismo; só que, quando aconteceu, estava já em curso a variante que traria novo fôlego ao sistema colectivista, recolocando-o no centro da dinâmica mundial.

Deng Xiaoping chegou a líder do Comitê Central do Partido Comunista a 8 de março de 1978, lançando uma drástica reforma. A nova orientação baseava-se em dois pilares: no campo político, estabelecia-se uma rotação de dez anos na direcção do partido e do país, evitando o esclerosamento da governação; no campo produtivo era dada liberdade de iniciativa empresarial, primeiro em Zonas Económicas Especiais, depois em todo o país.

O resultado, como todos também sabem, foi espantoso. Nos 45 anos seguintes, a China transformou-se numa superpotência, com influência global. O produto decuplicou nessas décadas, sendo, em paridades de poder de compra, já o maior do mundo. Em termos diplomáticos, o país assumiu-se como uma referência central do planeta, desafiando as hegemonias anteriores. Mais importante, este sucesso, tão ou mais retumbante que o de Estaline em 1945, provou definitivamente que uma economia comunista pode funcionar bem e crescer a sério.

Só que agora são crescentemente visíveis os sintomas do velho estalinismo. Xi Jinping, líder do Comitê Central do Partido Comunista desde 15 de novembro de 2012, tem desmantelado as reformas do seu brilhante antecessor. Primeiro, violando a regra governativa, fez-se reeleger em outubro de 2022 para um terceiro mandato à frente do partido, algo igualado apenas pelo fundador Mao Zedong. O actual culto da personalidade e a concentração de poder só têm paralelo no maoísmo dos anos 1960, como no estalinismo dos anos 1940.

Além disso, as interferências sobre a liberdade económica são crescentemente intensas e danosas. Sucessivos pacotes, como as “três linhas vermelhas”, “prosperidade comum”, “iniciativa do cinturão e rota”, “Made in China 2025”, etc., traduziram-se num controle cada vez mais apertado das empresas públicas e privadas. Em particular, a intervenção pessoal do líder em 2020 contra o Ant Group e outros negócios digitais, destruiu a vantagem tecnológica chinesa que então assustava o mundo. Hoje, fortes suspeitas de manipulação estatística e informativa, bem como o medo da excessiva e caprichosa regulação, afastou muito do investimento nacional e estrangeiro. Naturalmente que o ritmo de crescimento se tem vindo a ressentir (o Vietname, o único outro caso de sucesso económico colectivista, apesar das diferenças, segue trajectória paralela).

Esta decadência da economia e sociedade chinesas será muito mais influente que a queda soviética há 35 anos. A dimensão económica, mas também política, diplomática e até demográfica, são muito superiores à da Rússia de então. Ninguém sabe o que acontecerá, e a China, uma das civilizações mais antigas e ricas da humanidade, tem repetidamente surpreendido o mundo com as suas glórias e misérias. Aquilo que já sabemos é que poucos terão algo a ganhar com um colapso chinês. A maior ameaça da China para o mundo está, não no seu apogeu, mas na sua derrocada.

Mais interessante é saber os motivos deste recuo na solução Deng. Pode dizer-se que ela sempre foi frágil, refém de um qualquer Estaline embriagado de poder. Mas existe uma explicação mais perturbadora: a China em 1978 estava ainda numa fase embrionária da industrialização. O modelo Deng funcionou bem num país pobre e rural. Depois do estrondoso e inesperado sucesso, a actual sociedade chinesa, ainda com um nível médio semelhante à América Latina, é muito complexa, com zonas e classes ricas e sofisticadas, ansiando por uma vida diferente.

Isso significa que os golpes de Xi podem ser, não os caprichos de um autocrata narcisista, mas tentativas desesperadas de manter o poder nas mãos de um partido totalitário numa sociedade do século XXI. Isso pode dizer-nos que, afinal, o estalinismo não é um erro de ditador, mas uma fase inevitável do sistema comunista.

ECONOMIA EM DIA COM A CATÓLICA-LISBON 

COMENTÁRIOS (de 21)

Tim do A: Muito certo. Mas, sem querer defender no sistema chinês, o Ocidente também tem telhados de vidro. No Ocidente actual, a seita Woke liberal globalista e neo marxista de ricos elitistas, no poder, também é totalitária e não está a elevar o poder de compra dos habitantes das suas nações, pelo contrário. Ao passo que a China tem vindo a criar uma classe média forte, e tirado dezenas de milhões de chineses da pobreza. Ao contrário, no Ocidente liberal Woke totalitário, a classe média está a desaparecer e a pobreza a crescer ao ritmo que avança a ideologia ou o pensamento religioso totalitário e censório Woke. A liberdade está a reduzir-se muito no Ocidente e, com a implantação do capitalismo, apesar de tudo, a liberdade tem aumentado na China. Eu cá estou mais preocupado com a perda de liberdade e de poder de compra das pessoas no Ocidente do que com os chineses. O foco deve ser aqui, que isto não vai por bom caminho.

Vasco Ferreira: Creio que os principais motivos da ascensão meteórica da China foram a sua imensa população e, como o autor indica, a pobreza e ruralidade nas décadas de 60 e 70 do século XX. Actualmente, a China possui cidades industrializadas, "ocidentalizadas" e comerciais, o que torna muito mais complicado manter as directrizes inflexíveis de ideologias políticas comunistas. Como se consegue inovar e tornar os mercados cada vez mais competitivos se apenas se presumir que a visão estatal é suficiente para que isso aconteça? É imprescindível a iniciativa privada e a liberdade de acção, pelo que a China se apresenta, aos olhos de hoje, como um camaleão em termos sociopolíticos e ideológicos - podendo ser neocomunista quando lhe convier e o seu contrário se for necessário.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Será

 

Que alguém tem dúvidas de que Salazar foi um Homem Superior, que teve de adoptar princípios de certa dureza de governação para impedir o desgarrar de um país na senda da indignidade, em que o desprezo dos valores pátrios – estes substituídos ou ignorados anteriormente ao 28 de Maio e posteriormente ao 25 de Abril – salvo as excepções reconhecidas - insuficientes, todavia, para o volte-face de respeito e amor pátrio imprescindíveis em qualquer nação que se preze - alguém tem essas dúvidas? Assim é.

Henrique Salles da Fonseca, todavia, não, de coragem reconhecida.

SALAZAR - 5

 HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 26.09.24

 Salazar caiu da cadeira, agonizou e morreu. Contudo o Estado de Direito sobreviveu-lhe; as «contas certas» sobreviveram-lhe; os nazis e os soviéticos ainda hoje não tomaram conta da Península Ibérica; o Império sobreviveu-lhe.

Deixem lá o Homem ter uma estátua em Santa Comba. Ou será que os servidores do imperialismo russo ainda hoje o temem?

NOTA FINAL:

Para conhecer os defeitos políticos de Salazar, ler os meus próximos textos sobre o Professor Marcelo Caetano.

 

Setembro de 2024

Henrique Salles da Fonseca

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Se bem me lembro

 

Era um homem timidamente sorridente - ou sorridentemente tímido –  para todos os efeitos, de uma ambiguidade simpática  – que aparentava não quebrar um prato. Não sei se quebrou os pratos do Zé. Os seus, deve tê-los preservado, que a timidez nem sempre oferece solidez suficiente para partir loiça própria. Voltará, pois, à loiça alheia, a ser eleito PR, de simpatia, essa, inquebrável, se aparentada com a reconhecida timidez.

Política /

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Pedro Duarte atira-se a Centeno e aos "brilharetes estatísticos" que foram bons para a "sua carreira política"

Quando se fala em Centeno para a Presidência (com apoios que podem vir da direita), o ex-ministro é apontado pelo Governo como responsável pela "estagnação" do país.

RITA TAVARES: Texto

MIGUEL VITERBO DIAS: Texto

OBSERVADOR, 25 set. 2024, 17:24 4 

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Numa altura em que se movem peças, também à direita, favoráveis a uma candidatura presidencial de Mário Centeno no Parlamento, o ministro dos Assuntos Parlamentares disparou esta tarde, numa declaração política, uma rajada contra o ex-ministro. Quando falava nos últimos oito anos de “estagnação”, apontou diretamente aos custos que diz terem sido consequência das ambições políticas de Centeno.

Foram “oito anos em que se sacrificou o verdadeiro interesse dos portugueses em benefício de cativações e brilharetes estatísticos que foram certamente muito relevantes para a carreira política do então ministro das Finanças, mas saíram caros aos portugueses”, descreveu Pedro Duarte no plenário da Assembleia da República.

O ministro considerou mesmo que “o preço” de o país ter “a presidência do Eurogrupo, promovida pela frente de esquerda unida, foi muito alto, saiu muito caro aos portugueses”. Para o social-democrata, a gestão de Centeno nas Finanças “significou o travão a fundo no investimento público e na aceleração máxima dos serviços públicos”. Isso, sublinhou ainda, “prejudicou muito os portugueses.

Na parte do debate desta tarde que foi dedicada às declarações políticas, o ministro aproveitou para um “diagnóstico” do Estado, mas a partir da avaliação dos “oito anos de serviços mínimos com impostos máximos”, de “estagnação” e “desinvestimento” que diz ter sido provocado pela governação socialista. Pedro Duarte diz até que “em muitos desses anos o país foi governado por uma frente de esquerda unida“.

Quanto ao papel do Governo que se seguiu a esse, e que integra, o ministro avisa que “não se resolve em oito dias nem em oito meses o que se estragou em oito anos”, avisando que o “Orçamento é uma ferramenta e um motor de melhoria para a vida das pessoas”. Assim, e a dois dias de uma reunião entre líderes do Governo e do PS sobre esse tema, Pedro Duarte deixou o “apelo”: “Deixem-nos governar e continuar a melhorar a vida dos portugueses”.

GOVERNO     POLÍTICA     ORÇAMENTO DO ESTADO     ECONOMIA     MÁRIO CENTENO     PAÍS     ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS     ELEIÇÕES

COMENTÁRIOS:

Domingas Coutinho: Mario Centeno é um bluff. Sempre com aquele ar de sonso fez o trabalho sujo nas Finanças com as cativações para fazer boa figura na apresentação das contas, levando essas cativações a estagnação que agora a esquerda nomeadamente o PS, principal responsável por isso tudo, dizer que tudo está mal e que tem de ser resolvido à pressa. Boa argumentação de Pedro Duarte que fechou com chave de ouro: deixem o Governo governar. E eu acrescento: senão vem outra vez o caos e a miséria embrulhada em papel muito bonito.

Pertinaz: Quem é esse Centeno…???