sábado, 29 de maio de 2010

Os Gaios de Esopo e de La Fontaine

Pavonear-se com as penas de pavão
É uma expressão
De tal modo corriqueira
Que não encontro maneira
De a alterar,
Pois o pavão tem penas
De uma beleza invulgar,
Embora a da Fénix
Fosse superior,
Porque podia, fresca, renascer
Depois de morrer a arder.
Mas enquanto Esopo foi buscar
As penas dos passarinhos
Para um gaio enfeitar
Que delas se apoderou
Para melhor merecer
O título de realeza,
Voltaire usou mesmo o Pavão
Como termo de comparação,
Com objectivos literários
Para acusar os plagiários.
Mas todas essas questões
Estão tão banalizadas
Que as rainhas de beleza
Conquistam galardões
Tendo feito operações
Aos narizes e aos peitos
P’ra ficarem mais perfeitos
E isso não é indecente.
Contudo os plagiários
São alvos de ataques vários
Embora a intertextualidade
Justifique a indignidade
Com a imitação por preceito.
E isso é bem fascinante
Num tempo em que a rota batota
Figura como instituição
A que ninguém põe travão.

Leiamos em tradução:

De Esopo: “O Gaio e os Pássaros

«Tencionando um rei dos pássaros coroar,
Zeus intimou a passarada
A diante de si comparecer
Carregada
Com as qualidades que em si reconhecesse
- Se as tivesse -
Para merecer tal dignidade.
Consciente da sua fealdade,
O gaio revestiu-se
Com as penas caídas
Das outras aves mais descontraídas
Ou menos preocupadas
Com posições de realce.
No dia aprazado, o gaio
A Zeus se dirigiu, arvorando
A sua plumagem multicor
Com ar superior.
E como, pela sua beleza,
Zeus ia nomeá-lo rei,
Sem qualquer estranheza,
Mau grado a sua real grandeza,
Que exigiria mais esperteza,
Os pássaros, ultrajados, protestaram
E o gaio enfeitado cercaram,
Uma a uma as penas retomaram
Que lhes pertencia por direito.
Deste jeito,
Assim despojado e maltratado,
O nosso gaio não foi mais do que um gaio.
Raio!

O mesmo acontece com as pessoas
Com dívidas no seu viver:
Enquanto usufruem do dinheiro alheio
Parecem ser
Grandes personagens
De lindas plumagens.
Mas logo que restituem o dinheiro
Às vezes por imposição
De quem condena o ladrão,
Regressam ao estado primeiro.»


De La Fontaine: «O Gaio ornado com penas de Pavão”

Um Pavão estava na muda:
Um Gaio apanhou-lhe a plumagem,
Depois adaptou-a à sua própria imagem.
Seguidamente,
Sem mais ponderações,
Foi pavonear-se
No meio dos outros Pavões,
Julgando-se bela personagem.
Por alguém reconhecido,
Logo se viu escarnecido,
Apupado, assobiado,
Troçado, perseguido,
Indecentemente depenado
Pelos outros senhores Pavões,
Estranhos figurões.
Tendo-se refugiado
Entre os da sua igualha,
Foi por eles posto no olho
Da rua.

Muitos gaios há, de dois pés como este,
Que se adornam com os despojos alheios:
Chamam-se plagiários.
Eu calo-me, não quero perturbá-los
Com semelhantes aborrecimentos.
Longe de mim tais intentos.»

Modernamente,
E para responder a ambas as fábulas
Na questão da realidade,
Se as misses tivessem
Que se despojar
Dos silicones correctivos,
Ficariam
Menos misses de beleza
E retomariam
O estado primitivo
Da sua verdadeira
Identidade.
O mesmo poderíamos dizer
Dos plagiários vários
Regressados a uma situação
De escrita própria
E sem mistificação.
Quanta desilusão !

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