quarta-feira, 9 de junho de 2010

Poupanças

No artigo “Dois em um” de “Público”, 1 de Junho, considera Vital Moreira o tema da diminuição das autarquias locais, como imprescindível para a redução da despesa pública. V. Moreira apresenta-se, no final do texto, como professor universitário. Deputado ao Parlamento Europeu pelo Partido Socialista.
O tema pode ter a sua relevância. É preciso poupar e estes desperdícios de excesso de autarquias foi a forma que Vital Moreira achou para uma política de poupança estrutural num país de esbanjamentos governamentais, nacionais, pessoais, de dinheiros alheios, que ninguém se preocupa em repor. Porque nem sequer estamos certos de que os cortes nos vencimentos e os aumentos dos impostos servirão para isso, tais os buracos a tapar já existentes e os outros que se projectam, nos ziguezagues da nossa política de mentira, entregue a indivíduos habituados a gritar e a parir ratos, o que não é tão despiciendo assim. Porque os ratos roem, roem, roem. E não só a rolha da garrafa do rei da Rússia, que essa é passado popular. Os ratos não constroem, roem. Já roeram os campos, já roeram as pescas, os artefactos, a língua.
No seu artigo, Vital Moreira, professor catedrático, escreveu, dentro das normas estabelecidas pelos roedores linguísticos que nos governam: afetam, setores, objetivos, adoção, direta (2), atuais. Roeu, pois, as consoantes do étimo latino que estorvava, porque consoantes áfonas, que os roedores de vanguarda acharam por bem eliminar, na sua ânsia de prostração perante os espaços amplos de um Brasil que portugueses descobriram e cuja língua os brasileiros corromperam, naturalmente, impondo agora eles, as suas corruptelas linguísticas, inúteis à subserviência da nossa fome e da nossa falta de brio.
Outros o vão fazendo. Dengosamente. Mesmo aqueles que construíram úteis saberes a gerações de aprendentes reconhecidos, caso de Carlos Reis, indiferente a essa língua a cuja teta mamou e que desprezou sem pejo.
De resto, sem pejo é o termo que nos define como gente. Sem escrúpulos também. Que, sem pejo e sem escrúpulos, destruíram a sua própria nação. Porque não fazê-lo à língua dessa mesma nação?
“Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
A portuguesa língua e já onde for
Senhora vá de si, soberba e altiva...”
Mas António Ferreira era doutro tempo, coitado. Ainda tinha esperança.
Quem vai senhor de si agora são outros. Os dilapidadores. E não só da língua, que isso pouco importa. Os do erário, nosso ou alheio. Mas para seu próprio proveito, não da naçãozita que sobrou. Até ver.

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