Há muitos.
O mefistófeles tropical
O que se passa no Brasil
excede qualquer comparação. Pela escala e pela exibição de decadência do
Supremo Tribunal Federal, o terceiro poder, que devia ser o garante e o
árbitro dos outros dois.
JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do
Observador
OBSERVADOR, 24 set. 2026, 00:25
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em Madrid à quarta tentativa
A história pareceria normal
numa daquelas cleptocracias ditatoriais centro-americanas ou africanas de há um
século ou meio século; mas trata-se, apesar de tudo, do Brasil.
Não que o tráfico de influências em Portugal não seja
uma praga histórica consagrada pela Terceira República, e que também não assistamos aqui ao
triste espectáculo da promiscuidade entre política e negócios; ou à geral
impunidade dos poderosos, hábeis em iludir com artifícios processuais e formais
a substância das coisas perante uma justiça cara e tardia; mas o que se passou e passa no Brasil
excede qualquer comparação. A escala é outra, os contornos infinitamente
mais rocambolescos e as cenas no Supremo Tribunal particularmente degradantes.
O Juiz e o Banqueiro
Recapitulemos: um dos
juízes do Supremo Tribunal, André Mendonça, um cristão de confissão evangélica
que, com zelo religioso, tem feito da luta contra a corrupção um artigo de fé,
descobriu que um seu colega de instituição, o juiz Alexandre de Moraes,
aparecia como interlocutor próximo, conselheiro e amigo de grande confiança do
banqueiro Daniel Vorcaro, autor da maior burla financeira da História do
Brasil. Do telefone de Vorcaro, apreendido pela Polícia, tinham
saltado mais de cinquenta mensagens de Vorcaro para Moraes, entre as quais uma,
pedindo-lhe para influenciar o Procurador-Geral da República e o Director da
Polícia Federal a seu favor; e outra, na véspera de ser detido,
perguntando-lhe se o aconselhava a sair do país.
Já se sabia desde Março deste
ano, através do jornal O
Globo, que o escritório da mulher de Moraes tinha um contrato com
o Banco Master, de Vorcaro, no valor de 129 milhões de Reais (cerca de 22 milhões de
Euros), pagos em prestações mensais de 3 646 529,77 reais
(cerca de 620.000 Euros). Quando o Banco do Brasil fechou o Master por fraude, já
tinham sido pagos mais de 80 milhões de Reais ao escritório da mulher de Moraes.
O contrato foi depois
revisto e teve a sua versão final
Alexandre Garcia, um respeitável e respeitado
comentador brasileiro, evocou Mefistófeles a propósito deste
escândalo, na revista Oeste. Para Garcia, o génio do mal do Fausto de Goethe e do Doutor
Fausto de Thomas Mann era Vorcaro e andava à solta no Supremo,
onde comprara parte dos magistrados.
Tendo André Mendonça tornado
pública a troca de mensagens entre Vorcaro, o Mefistófeles, e Moraes, um dos Doutores
Faustos desta história, ficou então decidido que o Supremo Tribunal
Federal se reuniria a 15 de Setembro para decidir se Moraes iria ou não ser
investigado. Mas antes disso, já o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, tinha tentado anular a pretensão de
Mendonça, argumentando que “sem pedido do Ministério Público” a
pretensão era nula.
Não faltam documentos sobre outros juízes do Supremo
que também terão vendido a alma a Vorcaro. Uma fotografia
do procurador-geral Gonet – tão apressado em anular o requisito de Mendonça
– mostra-o em Londres, bebendo e fumando um charuto com Daniel Vorcaro com grande
intimidade no dia 25 de Abril de 2024 (e não consta que estivessem a celebrar o
meio século da Revolução dos Cravos na antiga metrópole).
Moraes e Vorcaro tiveram oito encontros pessoais,
além das mais de cinquenta mensagens trocadas, algumas bastante elucidativas: “Estamos juntos desde sempre. Você sabe
que tenho gratidão da minha vida a você. Toda a minha família, funcionários,
parceiros e amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e com sua
família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir
concluir, se Deus quiser.”
Todo este enredo vem agora à luz do dia, precisamente
nos 70 anos da mudança da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília.
Mefistófeles
no Supremo
Talvez tenha razão
Alexandre Garcia: tal como o Mefistófeles de Goethe e de Thomas Mann, também Daniel Vorcaro comprava
as almas que lhe interessavam, a troco dos prazeres terrestres.
Na festa que promoveu em São
Paulo na boîte Madame Club (conhecida por Madame Satã) o mote era o poder: o poder dos 20
homens convidados e o poder de sedução das 120
mulheres presentes. O anfitrião tinha proibido os telemóveis. Ana Raquel Santos Ribeiro, uma
influencer ligada ao mundo da música electrónica que, no dia 1 de Novembro
de 2023, publicou um
vídeo da festa (onde não tinha estado, mas de que obtivera
imagens pelo técnico de som, seu conhecido), viu o seu perfil
erradicado do ciberespaço por Vorcaro, incomodado com a divulgação daquela “festa
privada”.
O que se passou na
sessão do dia 15 de Setembro do Supremo Tribunal Federal também foi uma
“festa”, mas não foi privada. Para a
esmagadora maioria dos cronistas e editorialistas brasileiros, foi uma farsa
vergonhosa, imprópria
para um tribunal
normal e inqualificável para um Supremo Tribunal.
O “investigado” Moraes votou
em causa própria. Gilmar
Mendes (cujo cunhado tinha um contrato de 500.000 Euros mensais
também com Vorcaro) concentrou-se na
desconstrução da investigação de Mendonça; Flávio Dino, antigo membro do Partido
Comunista do Brasil e ministro da Justiça de Lula (aquele que,
deixando oportunamente o Congresso desprotegido, permitiu o assalto dos
bolsonaristas que depois Moraes
perseguiu e enjaulou), fez um discurso circular para ganhar tempo e conseguir um
adiamento.
As
eleições – presidenciais, legislativas, estaduais – estão à porta, com a
primeira volta a 4 de Outubro.
Depois de estar à frente
nas sondagens durante muitos meses, Lula está agora tecnicamente empatado para
a segunda volta com Flávio Bolsonaro, o filho do ex-presidente que Moraes meteu
na cadeia e depois condenou a prisão domiciliária.
Mas esta reviravolta nas sondagens tem-se revelado,
para alguns leitores, espectadores e comentadores portugueses,
incompreensível. Aparentemente, a única
coisa que lhes chegou sobre o Brasil e sobre este escândalo foi o generoso e
também pouco edificante donativo de Vorcaro a Flávio Bolsonaro para o filme
sobre o pai, Jair Bolsonaro, e o facto de o juiz André Mendonça, o juiz
denunciante, ser evangélico, bolsonarista, oportunista e intrometido. Nada sobre o lulista Alexandre de Moraes, íntimo amigo e
consultor estipendiado do banqueiro fraudulento, autor do maior buraco
financeiro de que há memória no Brasil. E sobre a decadência do terceiro
poder, que devia ser o garante e o árbitro dos outros dois, só a ingerência de
Mendonça num processo em investigação.
Receba um alerta sempre que
Jaime Nogueira Pinto publique um novo artigo.
Brasil Mundo
COMENTÁRIOS
Graça
Dias:
Caríssimo Jaime Nogueira Pinto
Um artigo magnífico, a começar pela bem escolhida
metáfora para o título desta brilhante e funesta crónica " O
mefistófeles tropical" . Eu que tenho acompanhado em
"diagonal" o exotismo peculiar do que tem sido a exibição de
decadência do Supremo Tribunal Federal, no imediato lembrei o livro
rocambolesco de Franz Kafka - O Processo. Mas, o que esperar como
resultado de uma governação em style maquiavélico do Mr. Lulinha, manipulador,
exímio em promessas e fanfarronice ideológica, e onde a corrupção me remete
para o fascinante livro de George Orwell - 1984.
Parabéns e o meu obrigada a JNP por este texto tão
"didáctico ", e onde fiquei bem informada sobre o "clima
cultural" vigente no Brasil de hoje.
Bernardo
Gonçalves
Fantástico resumo da podridão que parece não ter fim
no estado falhado que é o Brasil...
Quando o Luladrão e quejandos do "Sul
Global" vão à AG da ONU falar em reformar aquilo, está-se mesmo a ver o
que querem...
Há muito que deixei de ver noticiários, a falta de
isenção é escandalosa. Basta ler uns artigos como este e fica-se a entender
muito mais que horas de tv.
Henrique
Mota
O que o povo gosta é de malhar no Trump - alguém disse
malhar na direita. No Lula ou no Sanchez as notícias são raras. A esquerda
desonesta sabe defender se. (Nota - também existe esquerda honesta )
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