São indispensáveis no percurso governativo – seja ao nível
pessoal, seja ao nível nacional, mas isso requer, naturalmente, muita prática.
Centeno critica o PS, lança livro e acumula perfil
alternativo. Direcção socialista vê apenas um "livre pensador"
Rita Tavares: TEXTO
OBSERVADOR, 22/ Set. / 26
Entre um livro, comentário televisivo e críticas a medidas do
PS, Centeno reforça presença pública. Direcção socialista desdramatiza e
enquadra-o como um contribuinte para propostas do partido.
É, todavia, uma norma muito necessária, para que resulte um
governo
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Se Mário Centeno já era visto,
no PS, como um político “na fila”, os últimos dias vieram reforçar essa percepção.
O antigo ministro das Finanças juntou o lançamento de um livro à caminhada e
também críticas às propostas de José Luís Carneiro para responder à crise. A direcção do PS desvaloriza uma
eventual investida, garante que Centeno faz parte do projecto e que age apenas
como “um livre pensador”.
Ao Observador, o secretário
nacional Luís Testa
diz, não interpretar como “críticas”, as palavras de Centeno sobre o caminho
escolhido por José
Luís Carneiro. E, em defesa das propostas do PS, sustenta que “o país exige medidas circunstanciais
e extraordinárias para um momento circunstancial e extraordinário”.
A direcção socialista tenta pô-lo dentro de casa (tal como outros potenciais
desafiadores), chama-o para Jornadas Parlamentares e outras frentes.
Ainda esta segunda-feira, na apresentação da agenda para o dia seguinte,
Carneiro colocou um
encontro com jovens, enquadrando-o na “plataforma ‘Solução para um Futuro Melhor’”,
lembrando especificamente “que conta com o compromisso de mais de duas dezenas de
economistas, académicos e especialistas em política económica, entre os quais Mário Centeno, Fernando Medina e
Pedro Siza
Vieira”.
Para a direcção socialista, Centeno deve ser entendido como “um livre pensador que tem de ser considerado como um
contribuinte líquido de futuras propostas para o país”.
A expressão tem
precedente recente no partido. Foi usada por Pedro Nuno Santos quando,
depois de sair do Governo, teve um espaço de comentário televisivo onde
procurava demarcar-se mas sem entrar numa rota de confronto com o Executivo.
Criou, então, uma espécie de espaço de não-agressão ao Governo de António Costa, o
dos “comentadores livres
pensadores”. O “livre
pensador” Pedro
Nuno acabaria por chegar à liderança do PS meses depois, na sequência da
saída abrupta de Costa.
No PS não parece haver, porém, caminho aberto para uma
alternativa nesta altura — e Centeno nem é filiado no partido. Mesmo
entre os socialistas críticos de Carneiro parece prevalecer a convicção de que
será ele a
conduzir o partido nas próximas legislativas e a ir a votos. “Centeno não estará para José Luís
Carneiro como Passos Coelho está para Montenegro”, resume um
socialista ao Observador. A explicação está
também no contexto político: as sondagens dos últimos meses mostram o PS a recuperar
terreno depois do desaire eleitoral de há um ano, ajudando a conter a
contestação interna.
Ainda assim, há duas semanas,
no seu espaço de comentário na CNN Portugal, o próprio Mário Centeno entendeu
destacar “dois
resultados preocupantes” para o PS na tracking poll dessa
semana. Foi ao detalhe
dos números apurados por distrito, relativos a intenções para
legislativas, para apontar o desempenho “em Setúbal e no Sul do país”, em que o
PS tinha 19% e o Chega 23% e repetiu: “O PS nunca ganhará eleições sem Setúbal
e o Sul.”
O segundo alerta de Centeno incidia
sobre a rejeição dos líderes políticos. O ex-governador do Banco de Portugal
considerou “extraordinário” que “estes líderes” tenham “taxas de rejeição
superiores às de Trump nos EUA”. Acabaria, contudo, por
destacar Luís
Montenegro, ao sustentar que o primeiro-ministro tem uma rejeição
maior entre os eleitores da AD do que Trump entre os republicanos.
A volatilidade destes barómetros
— que servem sobretudo para mostrar tendências ao longo do tempo —
retirou, entretanto,
força ao primeiro argumento de Centeno. Na última semana, a mesma
tracking poll já colocava o PS (26%) à frente do Chega (24%) em Setúbal.
Quanto ao segundo problema que levantou, tende a acertar nas actuais lideranças, onde se inclui,
naturalmente, o estilo de liderança de José Luís Carneiro — sobretudo numa área
que é cara a Centeno.
Tantas vezes colocado como o artilheiro das “contas certas”
que foram apregoadas pelo Governo Costa, o antigo ministro das
Finanças e governador do Banco de Portugal também trouxe, nesta última
semana, uma apreciação negativa à via escolhida pelo PS para responder à crise.
Numa entrevista a publicar pelo semanário Expresso, Centeno diz que a
descida do IVA dos combustíveis e o IVA zero no cabaz alimentar “não é o caminho que privilegiaria”.
E desafiou a oposição a “ter uma posição crítica face ao Governo”, mostrando
insatisfação com a oposição que foi feita à descida do IRS apresentada pelo
Governo: “A luta
partidária deveria ter sido acesa e não foi.”
Na noite de segunda-feira, na CNN Portugal, Centeno não retomou directamente
as críticas ao PS, mas voltou a defender uma alternativa às medidas
anunciadas. “Preferia medidas do lado da despesa, que fossem mais fáceis de eliminar”,
afirmou. “Não acho
que a fiscalidade seja o sítio ideal para definir medidas para uma crise desta
natureza. É sempre muito difícil porque, se tivermos de as reverter, é muito
difícil subir impostos”, argumentou.
Reconhece “coerência” no PS, lembrando que em 2022, quando já
não era ministro, optou por ter uma “fiscalidade mais baixa nos combustíveis”
— mais baixa do
que a que existe hoje, apontou. Mas discorda da linha e defende até que se
aposte em medidas “de apoio directo às famílias mais carenciadas”, por exemplo, “através do abono de família”.
Quanto à opção do Governo, considera que é errada no
momento em que surge, por ser apresentada fora do Orçamento do Estado,
e que
continua a ser errada na substância. “O IRS é um imposto progressivo. 2,8
milhões de agregados fiscais, 45% das famílias, não pagam IRS. São os agregados mais pobres e os que
mais sofrem com a inflação que temos de enfrentar”, afirma. E
justifica: são
também os que dedicam uma parcela maior da despesa a alimentação e energia
— precisamente as
rubricas em que os preços mais subiram.
É um argumento que o PS tem usado e que José Luís
Carneiro repetiu na última semana, incluindo no debate de urgência no
Parlamento. Mas não convence Centeno. No seu espaço de comentário
televisivo, o antigo ministro foi mais contundente na crítica ao Governo:
“Não sei se isto é
maldade ou ignorância. Entre as duas gosto mais da ignorância.” Admitiu, ainda assim, que a discussão
também pode ser colocada no plano “doutrinário”.
Quanto à via do PS, que também passa
pelos impostos,
Centeno já a tinha criticado no passado recente. Quando foi
convidado para as jornadas parlamentares do PS, em junho passado,
o antigo
ministro discordou frontalmente do IVA zero aplicado ao cabaz de produtos alimentares
essenciais. A resolução vai a votos esta semana, com o PS a
insistir nisso e também na redução do IVA dos combustíveis (que
defende que seja feita via ISP, para contornar o travão de Bruxelas).
A propósito da medida,
Centeno lembra que quando ela foi aplicada, no início de 2023, enviava
“fotografias de queijo pecorino com trufa com IVA zero” a membros do Governo de
então, comentando que se tratava de “uma benesse verdadeiramente inexplicável”.
De uma maneira geral e mais focado no ataque ao Governo, Centeno prevê “problemas
significativos de sustentabilidade” das contas públicas. “A política orçamental é sobre despesa
e não sobre receita, porque a receita é economia e ela tem ciclos. A despesa
não tem esses ciclos”, advertiu. E isto para fazer o paralelismo
com os tempos de Sócrates — aproveitando as críticas de Montenegro ao PS — e
avisar que a despesa pública tem estado a crescer a um ritmo superior a essa
altura.
“Tem crescido em média 7,7% por ano e
a economia 5,4%. A despesa cresce mais do que a economia. Nos anos de Sócrates, a despesa
pública cresceu em média 4,4% e a economia crescia 2,6%”,
detalhou para concluir: “A política orçamental do lado da despesa tem criado, face ao crescimento
económico, um buraco de 2,6 pontos percentuais por ano. José Sócrates fez o mesmo: “criou
um buraco, mas muito inferior, 1,8 pontos.” O problema foi
que “a receita
desapareceu”, argumentou, aconselhando medidas do lado da despesa.
“As políticas
devem ser temporárias e focadas e preservar os fundos públicos”, afirmou.
A defesa das “contas certas” é uma frente
que tem explorado, como antigo ministro das Finanças dos governos Costa, e a
isso juntou
ainda outra memória, nos últimos dias. Na
participação na conferência inaugural do think tank da esquerda, Instituto
Progresso, Mário
Centeno disse que não conseguia “entender como é que se dá posse a governos que
não têm apoio parlamentar.” Atirava directamente a Marcelo Rebelo de Sousa, o
mesmo que em 2023, perante a proposta de Costa de deixar Centeno no cargo
de primeiro-ministro, após a sua demissão por causa da operação Influencer, acabou por
preferir convocar eleições antecipadas. A dissolução da maioria absoluta
socialista continua a ser vista com ressentimento no PS e Centeno foi, nesse
momento, o nome apontado por Costa para assegurar a continuidade do Executivo e
estabilidade política.
“Hoje estamos confrontados com as
mesmas debilidades, porque temos um coro a pedir reformas e incapacidade de as
fazer”, acrescentou esta segunda-feira na CNN Portugal,
defendendo um “acordo
escrito” para garantir condições de governabilidade aos governos
— tal como o que Cavaco
Silva exigiu à “geringonça” em 2015.
E a este desfiar de
memórias a tentar trazer ao de cima as vantagens do seu perfil no quadro
político, junta-se a apresentação, esta sexta-feira, do livro “Contas Certas”. Já se sabe
que lá constará a revelação do dia em que pediu a Costa para sair das Finanças
e reformar a Saúde. Na edição desta segunda-feira, o jornal Público
antecipa alguns capítulos do livro onde conta que essa sugestão foi feita entre
a vitória do PS nas legislativas de 2019 e a apresentação da nova composição do
novo Governo. Centeno diz que o objectivo era “olhar especificamente
para as contas e gestão da Saúde, uma das áreas de políticas públicas cujos
números conhecia melhor e na qual via um serviço público essencial, mas consumidor de cada vez mais
recursos, que nem sempre correspondiam a um aumento de produtividade”.
Costa não seguiu a sugestão
nem terá dado qualquer resposta, segundo o relato de Centeno. A divulgação do
episódio, num momento em que as insuficiências do SNS continuam no centro do
debate público, volta a colocar o antigo ministro das Finanças num terreno que
tenta combinar a sua marca política — o controlo das contas — com uma das
áreas mais sensíveis da governação.
PS Política Mário Centeno País Sociedade
COMENTÁRIOS
Eduardo Lourenço
Já chega de xuxas pelo
menos por uma década. Haja alguma
sanidade mental.
Joaquim Rodrigues
A resposta a este “artista”
já foi cabalmente dada, em tempo, num artigo de opinião apresentado no
Observador por Alexandre
Patrício Gouveia.
Está lá explicada por A+B a
grande mentira das políticas do Centeno enquanto Ministro das finanças.
Entretanto no tempo do
Centeno fomos ultrapassados por mais três Repúblicas da ex-União Soviética e,
com o lastro que Centeno deixou, já fomos ultrapassados por mais três ou quatro
dessas Repúblicas que aderiram à União Europeia e tinham saído do “socialismo”
na mais pura e absoluta miséria.
Com mais alguns anos de
Governação CENTENO, ele ficaria na história como a “luminária” que conseguiu
pôr Portugal no último lugar da Europa a 28.
Com Centeno é: todos
pedintes, mas com contas certas.
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