Visão pessimista do mundo, nestes tempos de agitações de vária ordem.
A questão
alemã
Se Berlim vacilar ao mesmo tempo que Paris atravessa a
sua própria paralisia política, a União Europeia fica sem os dois pilares que a
sustentaram durante décadas.
JORGE FERNANDES - Doutorado em Ciência Política
pelo Instituto Universitário Europeu, Florença, Investigador Ramón y Cajal no
Conselho Superior de Investigação Científica, Madrid
OBSERVADOR,
23 set. 2026, 00:22
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A Alemanha vive o momento mais complexo desde o
final da Guerra, incluindo os momentos de ajuste de contas nacionais como os julgamentos de Frankfurt, a fúria
terrorista dos anos 70 e a reunificação. Neste momento o país enfrenta uma
tempestade perfeita que põe em causa o seu modelo económico e social.
O interesse para
Portugal é óbvio: uma crise existencial na Alemanha tornar-se-á rapidamente uma
crise da própria União Europeia, especialmente num momento em que o destino
político de França é altamente imprevisível.
Em primeiro lugar, a Alemanha está neste momento a viver o seu choque
chinês. Em 2001, quando a China entrou para a Organização
Mundial do Comércio, a já de si pequena base industrial da periferia da Europa
foi dizimada. A indústria alemã, pelo contrário, floresceu, uma vez que era
um complemento quase perfeito ao mercado chinês, vendendo químicos, máquinas
sofisticadas e carros. Hoje, passados 25 anos, a China está a dizimar a indústria
alemã. Nos automóveis, por exemplo, a indústria alemã ainda consegue ser
competitiva graças às tarifas – sim, tarifas, a Europa também sabe jogar sujo
quando está desesperada – impostas aos carros chineses.
Em segundo lugar, a invasão da Ucrânia pôs em causa a ligação histórica que
as
elites alemãs tinham à Rússia, assim como a estratégia que
desenvolveram durante décadas de controlar o gigante do leste através
da integração económica. A consequência mais imediata foi o fim do gás barato,
o que agudizou
ainda mais as dificuldades económicas trazidas pelo choque chinês. A invasão russa aconteceu em cima de
um verdadeiro tiro no pé que Merkel deu de forma completamente
irracional e sem pesar as consequências de longo prazo: o fim da energia nuclear. Em 2011, quando o tremor de terra
abalou Fukushima, Merkel decidiu, quase do dia para a noite, acabar com o
nuclear na Alemanha, matando, assim, a fonte de energia mais eficiente e que,
neste momento, poderia ser bastante útil. Para piorar tudo isto, depois do fim
do nuclear por iniciativa própria e da guerra da Ucrânia, a Europa virou-se para o golfo, especialmente para o gás liquefeito importado do Qatar como substituto
barato da energia russa. Em Março passado, a guerra que Trump estupidamente
começou com o Irão fragilizou também esta componente.
Em terceiro lugar, a Alemanha está perante um problema
de declínio demográfico e um potencial problema no sistema de pensões.
Em tempos, este
problema poderia ser resolvido com mais imigração. Todavia, hoje, o consenso político no
país é claro: o eleitor médio – incluindo à esquerda – quer uma política de
imigração muito mais restritiva. A opinião pública é inequívoca também
sobre a decisão de 2015 de abrir as fronteiras: foi um erro colossal. A
isto soma-se o
crescimento de sentimentos de chauvinismo do Estado-providência, isto é,
da ideia de que os benefícios sociais devem ser reservados aos nativos,
excluindo os imigrantes. Independentemente daquilo que pensemos sobre
imigração, e a minha posição é certamente bastante liberal, esta
é a posição do eleitor médio e, numa democracia, essa posição deve ser
respeitada.
Em quarto lugar, para embalar tudo isto, a Alemanha perdeu o seu referente na
política internacional. Desde 1949 que a aliança entre Bona, primeiro, e, depois,
Berlim, e Washington
foi o eixo central da política alemã, muito para lá da relação com Paris.
O fim do consenso atlântico e a total
incerteza existente sobre o futuro da NATO colocam a elite atlantista alemã à
beira de uma crise existencial. Sem a garantia de segurança americana,
a Alemanha enfrenta
agora a perspectiva de ter de financiar sozinha, ou quase, a defesa europeia
— um fardo
orçamental e político para o qual não está preparada, nem tem consenso interno
para assumir.
O corolário de tudo isto é o crescimento explosivo da
extrema-direita no país da Europa cujos fantasmas do passado tornam a
existência de movimentos como a AfD mais difíceis de gerir do ponto de vista
político e até emocional. A AfD nasceu no meio da crise do Euro,
alimentada por um grupo de académicos que estavam contra o resgate à Grécia.
Entretanto, transmutou-se
num partido que mistura neoliberais, libertários e neo-nazis.
A sua estratégia de acção recupera, de forma expectável, muitos dos
movimentos orgânicos do século XX através da activação de redes de sociedade
civil, que se mobilizam constantemente – e não apenas em momentos eleitorais
– em manifestações
contra a Islamização da Europa, as políticas de resposta à Covid-19 ou a
própria globalização. Algum do seu argumentário sai directamente de grupos de
inspiração declaradamente nacional-socialista. Por exemplo, o líder do partido na
Turíngia, Björn Höcke, já afirmou abertamente que a Alemanha tem de “fazer
escolhas difíceis” quanto à expulsão de cerca de dez a vinte milhões de pessoas
que não pertencem ao Volk.
De forma curiosa, muita gente parece ainda alimentar a
secreta esperança de que o voto na AfD é meramente económico e feito por
descamisados que, infelizmente, ficaram para trás na globalização. Num paper ainda não
publicado, o cientista político alemão Hanno Hilbig utiliza dados das eleições
regionais de 2026 para mostrar, através de métodos estatísticos sofisticados
que comparam a região da Saxónia-Anhalte com a mesma região numa versão
sintética e hipotética — isto é, um cenário contrafactual construído a partir
de 178 municípios sem investimento —, qual teria sido o resultado eleitoral da AfD na
ausência de investimento. Hilbig analisa 86 projectos de
investimento anunciados em 40 municípios entre as eleições de 2021 e de 2026,
desde a fábrica de
gelados da Florida Eis, em Schönebeck, ao centro logístico de 500 milhões de
euros da Daimler Truck, em Halberstadt. Os resultados são muito interessantes. Nos municípios que receberam
investimento, a subida da AfD foi entre 2 e 3.5 pontos percentuais inferior à do
grupo de comparação sintético, consoante a definição utilizada. Mesmo nos dois municípios com
investimentos individuais superiores a 500 milhões de euros, o travão ao avanço
da AfD não ultrapassou os 3.5 pontos percentuais. Tendo em conta que o partido cresceu
cerca de 23 pontos percentuais em toda a Saxónia-Anhalte nestas eleições, o
efeito do investimento equivale, na melhor das hipóteses, a pouco mais de um
décimo do avanço total da AfD. Por outras palavras: o
crescimento económico visível até ajuda a travar a extrema-direita a nível
local, mas o seu efeito é modesto demais para explicar, sozinho, o fenómeno —
o que sugere que a secreta esperança de muitos, a de que bastaria mais investimento
para resolver o problema, não encontra grande apoio empírico nos
dados.
Esta crise não é apenas alemã. Se Berlim vacilar ao
mesmo tempo que Paris atravessa a sua própria paralisia política, a União
Europeia fica sem os dois pilares que a sustentaram durante décadas.
E, para Portugal,
os sinais dessa
fragilidade vão na próxima negociação do quadro financeiro plurianual, quando
ficar claro que um envelope de coesão mais magro é o preço concreto de uma
Alemanha que deixou de ter a força — e talvez a vontade — de continuar a pagar,
como fez durante décadas, a factura da integração europeia.
Alemanha Europa Mundo
COMENTÁRIOS
Observador
As dificuldades da Alemanha que refere são reais e
estão bem argumentadas. Mas, para mim, há um factor que pesa mais do que os
restantes: a ascensão da China. A guerra na Ucrânia, as decisões de
Trump, o abandono da energia nuclear e as dificuldades de integração de milhões
de refugiados agravaram a situação. Sem dúvida. Ainda assim, julgo que o desafio seria muito
diferente se a Alemanha não enfrentasse hoje uma potência capaz de competir com
a sua indústria nos mercados onde antes dominava. É por isso que vejo na ascensão chinesa uma das raízes mais profundas das
dificuldades da Alemanha e, em geral, do Ocidente. É uma
opinião, naturalmente. Entretanto, continuemos a comprar produtos chineses como se nada disto tivesse
consequências.
David
Pinheiro
A esquerda (e a "direita fofinha"), com
o seu enorme
estado social, o seu negacionismo da biologia, rejeição da família clássica, a
sua abertura de fronteiras, quer a humanos quer a produtos e serviços oriundos
de ditaduras, é a grande responsável pelo estado da Alemanha, da França e da Europa.
Agora é tarde demais.
Que venham outras caras.
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