domingo, 2 de janeiro de 2022

Lembrar Florbela

 

Para justificar, tantas vezes, a vida:

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui... além...

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…

Amar! Amar! E não amar ninguém!


Recordar? Esquecer? Indiferente!...

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

 

Há uma Primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

 

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder... pra me encontrar...

O que não morre nunca é o amor pelos filhos, acho eu. E esses, sim, têm o direito de saber quem é o seu pai e a sua mãe. Os que escondem isso não são gente digna. Mas a sociedade encaminha-se também no sentido desse aniquilamento pessoal, com a doação de espermatozoides, as barrigas de aluguer, etc, e lamento os seres assim gerados, que não sabem donde provêm… Estou, é certo, fugindo à questão posta pelo P. Portocarrero. Os comentadores deram os seus pareceres criteriosos. Penso que o respeito é muito necessário na vida. Próprio e alheio. Está na base da ordem, neste mundo caótico…

Bom Ano Novo da família!

As tentativas pós-modernas de redefinição da família são, na realidade, formas de promover a sua extinção: se tudo é família, a família não é coisa nenhuma.

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA

OBSERVADOR, 01 jan 2022

Os últimos dias de Dezembro são, por regra, aproveitados pelos meios de comunicação social para fazer a retrospectiva do ano velho. Por sua vez, os primeiros dias de Janeiro são propícios à formulação de esperançosos votos para o novo ano.

2022 é o Ano da Família Amoris laetitia. Iniciado pelo Papa Francisco, no passado 19 de Março, terminará com o Encontro Mundial das Famílias, que tem por lema “Amor em família: vocação e caminho de santidade”, e que se realizará em Roma, de 22 a 26 de Junho.

Este tempo dedicado à família propõe-se recordar a Exortação Apostólica pós-sinodal Amoris laetitia e recentrar a acção pastoral da Igreja na defesa da família, talvez a instituição natural mais ameaçada no Ocidente. A emergência das chamadas ‘novas famílias’, bem como a ideologia de género, embora sob a aparência de um louvável propósito de igualdade de todas as pessoas, qualquer que seja o seu ‘género’, na realidade perverte a ordem natural, em benefício das teses ideológicas da respectiva agenda.

As tentativas pós-modernas de redefinição da família são, na realidade, novas formas de promover a sua extinção: quando tudo é família, a família não é coisa nenhuma. Com certeza que todas as pessoas, quaisquer que sejam as suas opções de vida, devem ser respeitadas, mas a família não pode ser uma qualquer união fortuita de sujeitos.

Como instituição natural – independente, portanto, de qualquer religião, cultura ou ideologia política – a família é, por definição, fruto da união estável de duas pessoas de diferente sexo: esta diversidade e complementaridade é necessária para que a união possa ser enriquecedora para o casal e fecunda, ou seja, princípio da vida. Há, com certeza, outras formas de amizade muito louváveis e, até, de grande mérito espiritual – pense-se, por exemplo, nas comunidades religiosas, consagradas ao serviço de Deus e do próximo – que devem ser respeitadas em nome da excelência da caridade e da liberdade, mas não são famílias naturais, cujo fundamento está na natureza humana.

Com certeza que sempre houve e haverá reprodução à margem da família, mas uma criança precisa de dois progenitores, feminino e masculino, para a sua concepção. Para a sua educação, também carece de um pai e de uma mãe, naturais ou adoptivos. Por isso, o ordenamento jurídico, pela adopção, procura reconstruir o modelo da família natural, dando a um casal a possibilidade de ter, como filho, um menor sem pais.

Uma crescente ameaça para a família decorre da instabilidade do vínculo matrimonial. O Estado não protege a estabilidade das famílias, de que depende a sobrevivência nacional. De facto, a legislação divorcista em vigor não apenas facilita a dissolução do vínculo conjugal, como a promove.

A Igreja católica recebeu, do seu divino fundador, a missão de defender a união matrimonial. Não pode ceder à tentação de, por via do abuso da declaração de nulidade matrimonial, estabelecer, de facto, uma espécie de divórcio eclesial. Também a abusiva interpretação da Amoris laetitia poderia favorecer, na prática, a infidelidade conjugal se, por regra, todos os ‘divorciados recasados’ pudessem comungar, ficando assim equiparados aos crentes que permaneceram fiéis ao seu compromisso matrimonial.

Com certeza que, desde sempre, houve na Igreja a possibilidade, justa e necessária, de recorrer aos tribunais eclesiásticos para a declaração da nulidade do vínculo conjugal, quando o mesmo não foi validamente contraído. Mas a Igreja não anula casamentos: declara a nulidade de matrimónios que, embora parecessem válidos, nunca o foram.

O abuso deste procedimento judicial converteria as declarações de nulidade numa espécie de divórcio encapotado. Assim seria se os tribunais eclesiásticos, em vez de defenderem o vínculo e as obrigações morais decorrentes, declarassem nulos casamentos válidos, de facto substituídos por uma nova união, originária de uma outra família. Os filhos havidos fora do matrimónio não podem ser prejudicados por razão de uma circunstância de que são inocentes, mas não assim os seus progenitores, se não foram fiéis ao compromisso de fidelidade conjugal a que, diante de Deus e da Igreja, livremente se obrigaram. A autoridade eclesial não pode ser cúmplice destes atentados à indissolubilidade matrimonial, nem pode legitimar as uniões estabelecidas em flagrante desrespeito da ordem divina: “não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19, 6).

Outra ameaça à família procede da incorrecta aplicação da Exortação pós-sinodal Amoris laetitia. Este documento do magistério pontifício admite a hipótese de que uma união materialmente irregular o não seja formalmente, em cujo caso os unidos por esta via estariam habilitados para a vida sacramental, de que estão necessariamente excluídos os que vivem em adultério, ou numa relação extramatrimonial. Esta excepção é, desde sempre, da doutrina e praxe da Igreja e, se os que, não sendo canonicamente casados entre si, viverem como irmãos, podem frequentar os sacramentos. Francisco não autorizou a comunhão dos ‘divorciados recasados’, mas permitiu que, em certos casos extraordinários, depois de um exaustivo discernimento, alguns fiéis, que vivem maritalmente com uma pessoa com quem não estão canonicamente casados, possam ter acesso aos sacramentos. A regra continua a ser a de sempre: enquanto constar como válido o casamento canónico, qualquer união com outra pessoa é, em princípio, impeditiva do acesso à Eucaristia e aos demais sacramentos que exijam o estado de graça.

Recentemente atendi um fiel que, casado canonicamente, vive maritalmente com outra pessoa. Como tinha ouvido dizer que o Papa Francisco autorizara a Eucaristia aos ‘recasados’, queria saber se podia comungar. Expliquei-lhe que a Amoris laetitia não afirma isso, nem o papa, nenhum bispo ou sacerdote pode dar, com carácter geral, uma tal autorização, mas que ia estudar o seu caso. Depois de o ter feito, concluí que esse fiel não estava em condições de regressar à prática sacramental e assim lhe disse. Surpreendeu-me a sua rectidão de consciência, porque me respondeu que essa era também a sua convicção! Entendi esta sintonia como expressão do que o Espírito Santo diz à Igreja: a melhor pastoral não é a do facilitismo e da cedência às modas, mas a que propõe, como o Papa Francisco no próximo Encontro Mundial das Famílias, o “Amor em família” como “vocação e caminho de santidade”.

Bom Ano Novo da Família Amoris laetitia!

CRISTIANISMO   RELIGIÃO   SOCIEDADE   FAMÍLIA   LIFESTYLE

COMENTÁRIOS:

Manuel Martins: Todo o sistema de sociedade se baseia na família nuclear,  que parte da procriação entre homem e mulher.  Obviamente que todos têm o direito de ser felizes,  mas importa não desprezar uma das bases das sociedades          Alexandre Barreira: ...e Deus chamou o Adão....e disse........"olha.....toma lá isto...e agora atura-a tu".....!!!!           Alexandre Barreira: ....como diria o "outro"........."não vais à missa....não és pai de boa família"....!!!          João Mourinho: A família natural foi e é um elemento base de todas as civilizações ao longo da história. Destruam a família, e verão quanto tempo dura esta civilização. O que está a acontecer não é nada de novo, e os cristãos estão habituados a ser perseguidos ao longo dos tempos. O medo é coisa que não assiste a um cristão. Quando o império Romano caiu de podre (como está a acontecer ao ocidente agora), havia um santo que dizia "o mundo romano está a cair, contudo, as nossas cabeças não se vergam". Façam as "famílias" que quiserem, com três pais e dois cães, os cristãos continuarão tranquilamente o seu caminho pela história. Bom ano a todos!          josé maria > João Mourinho: A família natural foi e é um elemento base de todas as civilizações ao longo da história. Tão natural como aquela em que, alegadamente, uma virgem foi inseminada pelo Espírito Santo, sem consentimento dela e do marido ? Teria sido uma violação divina contra o superior valor ético da família natural?             Alexandre Barreira > josé maria: ...mas olha que o marido....ficou com a "testa benzida"....!!!           João Mourinho > josé maria: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Parece-lhe que isto é sem consentimento? De resto, a família de Jesus era uma família normal: mãe, pai, tias, parentes, primos, etc, aliás sobejamente referidos na Bíblia. Quanto à origem de Jesus (o mistério da Encarnação), como eu sei que você aprecia muito o evangelho de S. João, sugiro que o estude e tente compreender à luz da fé e da razão - de ambas, não apenas de uma!             josé maria > João Mourinho: Sabe que mais ? Não desconverse, não use aquela estafada táctica de alguns católicos de dizerem o mesmo e o seu contrário com uma inexcedível leviandade...        josé maria: Vamos supor uma pergunta evidentemente provocatória: Na próxima eleição de 30/1/2022, em que partido votariam Jesus e os apóstolos? Tem ideia, padre Gonçalo? Acha que eles pediriam inscrição no Opus Dei e votariam no seu Chega ou no segregacionista racial do AV ? Eu penso que eles votariam no partido que estivesse mais próximo do princípio  "de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades", mais na linha do ecologista Francisco de Assis ou do progressista Ambrósio de Milão, do que do torturador Torquemada ou do reacionário.Tomás de Aquino. Concorda padre Gonçalo ?        João Ramos > josé maria: Para quê meter o Chega no meio de um problema de consciência e de fé, se quiser fazer essa pergunta então tem de incluir todos os partidos, e nesse caso era capaz de ter uma surpresa que não esperava…          josé maria > João Ramos: Não é o Chega que mete Deus no seu lema político, fariseu ?           João Mourinho > josé maria: Não politize Jesus. Já muitos o tentaram (Hugo Chaves dizia que Jesus era socialista e revolucionário, Franco dizia o contrário) e a verdade é que Jesus não veio trazer nem lutar por nenhum projecto político. Deixe lá a opus dei, o chega e coisas que não têm mistura possível.          PEDRO AIRES PEREIRA > josé maria: Tantas afirmações tendenciosas e sem sentido, sr. José Maria. Torquemada Tomás de Aquino nada têm a ver um com o outro. Querer anular os princípios morais porque houve e sempre haverá pecadores na Igreja não é sério. É que os pecadores da Igreja ainda pedem desculpa mas os outros nunca pedem desculpa dos seus muitos desmandos.       Alberto Rei: Continua a existir uma grande diferença entre as palavras de Jesus e a prática da  Não é por uma pessoa casada viver maritalmente com outra que deixa de ser um bom cristão, ou um seguidor do cristianismo. mas, assim, não segue a Igreja Católica. O Sr. Padre, pode dizer, V. Exa  é livre, se não quiser desfazer essa ligação amorosa, para todos os efeitos familiar, paciência! através de regras duras, estão a abandonar Cristo como muitos fizeram, até os discípulos. Não ao facilitismo não é? ok, está bem. Porque é que se precisa da Igreja então? para nada, se ela está para excluir (e punir, neste caso impedir), com regras como a lei antiga ... julgo que não é assim que se ganham discípulos e fiéis.            José Miranda > Alberto Rei: A Igreja não quer ganhar discípulos e fiéis com facilitismos que contradigam a doutrina de Cristo. A Igreja não se rege pelos critérios do mundo.           PEDRO AIRES PEREIRA > Alberto Rei: O julgamento definitivo só Deus o pode fazer. Contudo, essa pessoa casada que vive maritalmente com outra pessoa está numa situação irregular, embora possa ser em todos os demais aspectos uma boa pessoa e nunca deixa de ser cristã.  Todos os cristãos são pecadores (se quisessem uma Igreja sem pecadores provavelmente não havia ninguém) de uma maneira ou outra,  agora o que se quer é achar que não existe pecado nem princípios morais cristãos e isso está errado. Pensar-se que como houve Inquisição deixou de haver moral é um raciocínio rebuscado e sem sentido.         João Paulo Reis: Ano Novo, Luta Nova (cfr. S. Josemaria 1972 biografia Andrés Vasquez de Prada) é o que Deus nos pede todos os dias sem exceção, mas que o início de um novo ano nos alente a continuar a divulgar o Senhor e a Sua Palavra, e lutarmos para sermos melhores filho Seus e mais fiéis         Paulo acp > João Paulo Reis: Já tomou a medicação? Ainda acredita no pai natal?       FME: Mais futuro menos futuro e a família tornar-se-á um conceito ultrapassado. Já estamos a viver um período de transição quanto ao conceito de família no mundo supostamente mais desenvolvido. Nos continentes "sub-desenvolvidos" como por exemplo em África, o conceito de família ainda está muito presente, e é uma experiência gratificante interagir num dia de festa com uma grande família africana. No mundo desenvolvido a maioria das famílias são núcleos muito pequenos que criam uma espécie de sub-pastas autónomas e individuais, como acontece na estrutura de uma árvore genealógica. Além disso, a normalização de casamentos entre indivíduos do mesmo género rompe com o paradigma da Madona do mundo antigo com o seu filho ao colo. A formação de famílias nestas comunidades obriga a um desvio na concepção dos bebés. É precisamente este desvio que irá futuramente dominar o que entendemos hoje como a formação de uma família. Não andamos longe, Ronaldo, com dinheiro e acesso aos novos conhecimentos já pode optar por bebés sem mãe. Um dia, todos poderemos fazer estas escolhas. Só por curiosidade; um dia quando fizerem as partilhas, os filhos sem mãe de Ronaldo terão uma cota parte diferente dos filhos com Georgina?  Obviamente que a nova evolução de família continuará, e os filhos por encomenda em incubadoras artificiais serão uma realidade mais do que certa, e a mulher futurista, finalmente atingirá a sua verdadeira emancipação feminina.  Vivemos um tempo de transição caro Padre, felizmente que as grandes mudanças que se avizinham já não serão no nosso tempo, caso já tenha vivido mais do que meio século. Bom Ano Novo 2022 Ahmed Gany > FME: A esse "novo período" imparável acresce-se a eutanásia e o crematório.       Anarco Léptico: Parabéns sr. padre gonçalo, bela ode à intolerância e ao separatismo. Bom ano de 2022!        Pedro Augusto > Anarco Léptico: que comentário tão intolerante a uma ideia diferente da sua...         Paulo acp > Pedro Augusto: Católicos a falar de tolerância?         Pedro Augusto > Paulo acp: nem sou católico... Jorge Oliveira: Pois mas se os católicos ocidentais são cada vez mais um bando de divorciados o que tem fazer a Igreja é aceitá-los…ou então fechar os olhos como faz com o PR.          Américo Silva: Bom ano. Judaísmo e cristianismo são incompatíveis, honrar pai e mãe, dizem os cristãos que um deus encarnou, ora encarnar numa virgem é negar todas as mães, e se esse deus forneceu o espermatozoide, é ainda mais negar todos os pais, e abrir caminho a aberrações e à autodestruição do ocidente, apesar do muito de positivo que a igreja levou a cabo.          Coronavirus corona: Quem tiver oportunidade, assista à homilia do padre Paulo Ricardo de 26 de dezembro. No YouTube com o título "família, escola, tempo, dinheiro e Fátima".  Muitos parabéns pela crónica. Um bom ano de 2022 para si e para todos os leitores.           José Miranda > Coronavirus corona: Eu assisti. Aliás assisto diariamente às suas notáveis homílias.            João Floriano: A família qualquer que ela seja, pode ser um porto de abrigo ou pode ser um local extremamente castrador. Não concordo praticamente em nada com a presente crónica. Não é de todo verdade que uma família tradicional, pai mãe, filhos, cão e papagaio com a avó no banco de trás, seja o ideal para o desenvolvimento feliz dos indivíduos. E todos sabemos os casos horripilantes que têm vindo  a público no seio de famílias aparentemente normais. E todos nós, mais velhos, conhecedores de uma realidade antes do 25 de Abril, sabemos de várias famílias que pura e simplesmente não o eram: mantinham as aparências. Quanto à adopção por parte de casais homossexuais, tanto gays como lésbicas, torno a repetir o que a experiência de quase 40 anos numa escola da periferia me ensinou: não noto diferenças entre crianças criadas por heterosexuais e por homosexuais. Como se justifica então que um casal hetero tenha um filho homosexual? Concordo que o maldito wokismo tem na agenda a destruição do núcleo familiar mas há que separar o trigo do joio. A igreja julga demasiado e arvora-se como conhecedora da palavra de Deus (se é que Deus existe). A Igreja católica devia julgar muito menos e amar mais.           Coronavirus corona > João Floriano: "seja o ideal para o desenvolvimento feliz dos indivíduos" O problema começa logo aqui: achar que a família é apenas um mecanismo para alcançar felicidade.  A Igreja não julga. Mas era o que mais faltava a Igreja (leia-se, os sacerdotes) não poder explicar a doutrina de Cristo. Se não estiver de acordo com a doutrina não é a doutrina que se deve adaptar a si. É você que deve ter a humildade de perceber que não está a agir de acordo com a doutrina. Eu peco muitas vezes. Mas Deus me defenda de alguma vez ser arrogante ao ponto de aliviar a minha consciência invertendo ou relativizando os preceitos morais.             João Floriano > Coronavirus corona: Bom Ano, Corona. Se o indivíduo não conseguir ser feliz no seio familiar, então estamos muito mal. E aqui provavelmente termos ideias diferentes sobre o que é felicidade ou infelicidade. Para mim. felicidade é achar que há um sentido para a minha vida, que a minha passagem por aqui não foi irrelevante, que nalguma coisa fiz a diferença. Não sou religioso, para mim, Jesus Cristo é um profeta, não acredito na bíblia como a palavra de Deus e nem sequer discuto se Deus existe ou não. Os preceitos morais não são exclusivos dos crentes na divindade. E à semelhança do Corona também eu digo que a igreja também é extremamente arrogante quando  separa as ovelhas do rebanho entre as cumpridoras e as ranhosas. Jesus não fez isso em relação a Maria Madalena, a parábola do filho pródigo não exclui. Não conheço a Bíblia como certamente o /a Corona deve conhecer, mas sei que a pregação de Jesus está cheia tolerância e que de arrogante Jesus nada teve. Coronavirus corona > João Floriano: Só duas notas. Em primeiro não discuti o que é ou não é a felicidade. Obviamente que a felicidade deve ser procurada. Mas não é o único propósito de uma família. Em segundo, o padre tem uma crónica neste espaço em que diz ser pecador. Todos somos pecadores. Não é essa a questão. A questão é ao invés de assumirmos os pecados, pretendermos aliviar a consciência dizendo que o pecado não é pecado e que a Igreja é arrogante ao dizer que é pecado.  Ontem estava a ver um programa em que uma especialista qualquer dizia que para se resolver o problema do alcoolismo o primeiro passo é reconhecer o problema. Idem para os pecados: quando não reconhecemos o problema nunca resolveremos esse mal.  A igreja tem muitos santos que eram tremendos pecadores. Desde Santo Agostinho a Santa Olga de Kiev, há assassinos, ladrões, adúlteras, etc. E porque foram santos? Porque em primeiro lugar reconheceram os seus pecados, em segundo arrependeram-se deles e em terceiro tiveram posteriormente uma vida virtuosa. Se diz que Jesus foi um profeta obviamente que não é cristão. E não tem de o ser por lei. É que para todos os cristãos (excepto uma seita que nega esse dogma), desde católicos a luteranos, desde ortodoxos a anglicanos, Jesus é Deus. É Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Jesus Cristo é a encarnação do Verbo. É o Criador de todas as coisas que se fez homem e viveu no meio de nós.            João Floriano > Coronavirus corona: Tem razão: não sou cristão porque não acredito em Jesus do modo como o/a Corona a Ele se refere. Todos nós erramos e muito, prefiro esta frase em vez de pecadores. E só posso concordar consigo quando diz que é preciso admitir o problema para o conseguir resolver. Em relação aos santos, eles sempre cumpriram um objectivo pedagógico na doutrina da igreja.          antonio rodrigues > João Floriano: Não há felicidade como não há igualdade pode ser  uma busca um caminho uma luta para tentar ser melhor viver melhor respeitar mais os outros.         João Floriano > antonio rodrigues: Bom ano António ........ e aceitar o que não pudemos mesmo mudar.           Edmund Burke: É lógico que 2 invertidos não podem ser um casal! São uma aberração da natureza, um erro infértil e uma tentativa de usurpação da verdadeira família.         João Floriano > Edmund Burke: Infértil? O sexo serve apenas para conceber? E o prazer, a alegria, o bem-estar, onde ficam? Nunca usei ou usarei a palavra invertido e não acho que os homossexuais sejam um erro da natureza. Estamos cheios de exemplos da verdadeira família: pais que matam filhos, filhos que assassinam pais, cônjuges às facadas, à machadada a tiros de caçadeira. E isto é  a ponta do iceberg.           Coronavirus corona > João Floriano: Não, não serve apenas para conceber. O catecismo da Igreja diz expressamente que o sexo também é fonte de prazer (2322). É preciso é estudá-lo em vez de apadrinhar frases-feitas       Coronavirus corona > João Floriano: A homossexualidade não é crime nem deve ser. Mas de acordo com a doutrina da Igreja católica a relação sexual homossexual é pecado. Não é a homossexualidade em si que é pecado. É a relação sexual homossexual. Tal como a sodomia. Isso significa que quem tiver uma relação sexual homossexual não pode ser católico? Nem pouco mais ou menos. Obviamente que pode ser católico. Existe Igreja porque somos pecadores. Como escreveu o cronista há uns anos, a igreja não é um condomínio fechado de almas selectas. É um hospital de campanha para pecadores          José Miranda > Coronavirus corona: Magnífica resposta!            João Florian > Coronavirus corona: Já reparou bem até que ponto a visão da igreja sobre homosexualidade é frustrante? O indivíduo pode ser homossexual, só não pode é concretizar através de uma relação. Como se Deus tivesse dado asas a um pássaro mas este  não as devesse usar. Então e a sodomia em  casais hetero?       Edmund Burke > João Floriano: Segundo a etologia (Konrad Lorenz) a agressividade é natural no ser humano. Não devemos fazer um esforço para domesticar o lado negro do ser humano? E isto aplica-se mutatis mutandis  a todas as fraquezas que impedem o Homem de se emancipar em relação aos animais não humanos.       Ana Macieira: Ter que vir assim pôr em escrito o que para todos deveria ser o mais simples e óbvio de tudo, ao alcance de todas as pessoas racionais, atesta bem o lugar de podridão, sujidade e imoralidade escabrosa, a que os terroristas ideológicos da imundice repugnante conduziram a nossa sociedade. São seres que tarde ou cedo acabarão julgados, também aqui, na no mundo terreno, pelos atentados e os maus tratos que infligem nomeadamente a crianças puras e inocentes e pela imundice contra-natura que encerra a sua existência.      bento guerra: Ardil de pulpito. Jogar com  as palavras           josé maria: As tentativas pós-modernas de redefinição da família são, na realidade, formas de promover a sua extinção. Quanta intolerância, insensibilidade e maldade vai nessa frase tão mesquinha...        Meio Vazio > josé maria: Quanta argúcia, amigo Zé! Não lhe escapa uma... Tenha um bom ano.      João Floriano > josé maria: Bom dia, José Maria. O texto é todo ele muito falacioso. O autor coloca tudo dentro do mesmo saco e quase que acende uma fogueira inquisitorial. Há que separar o oportunismo dos lobbies gay e do wokismo das pessoas que têm todo o direito de ser felizes com quem quiserem. Desta vez concordo consigo: intolerante, arrogante, insensível.        José Miranda > josé maria: Zezinho, tu é que és um pequeno intolerante, mesquinho, sem ter a mínima capacidade racional para entender o óbvio. Zezinho, estiveste à espera que fosse publicado o texto para o criticares. Além de te terem que pagar horas extra, tens que passar a receber subsídio de turno. Que triste figurinha!       João Correia > João Floriano: O José Floriano cai no erro inicial, que lhe influencia todo o pensamento posterior, de considerar que o cristianismo (ou a Palavra de Deus) é a resposta a uma busca da felicidade ou bem-estar; está equivocado porque isso são objectivos no budismo ou nas filosofias new age. De resto, não compreende o texto porque não quer, porque já tem um preconceito contra a Igreja e aquilo que a sua doutrina ensina.  De qualquer modo, religião aparte, só não vê quem não quer que a família está a ser sociológica e politicamente destruída. Não é por se passar a chamar uma cadeira de mesa que esta passa a ser uma cadeira e a sua função, ainda que momentaneamente seja idêntica, não nunca será preenchida correctamente.       João Floriano > João Correia: Bom Ano, João Correia Penso que associei família com felicidade, sendo que se eu me sentir equilibrado, motivado e capaz de ver um sentido na minha vida, isso para mim já é ser feliz. Aceito ter um certo preconceito em relação não só à igreja católica como a qualquer outra igreja. Não sou particularmente dogmático nem sou movido pela fé. Concordo que a família tradicional está  a ser alvo de ataques e de destruição, tanto a partir do exterior como do interior da própria família. De quem é  a culpa? daria para horas e horas de discussão. O que eu não posso concordar é que as uniões homossexuais sejam aqui apresentadas como pecadoras, corruptoras e causadoras do declínio familiar. 

 

sábado, 1 de janeiro de 2022

Com o relevo apropriado


Retratos incisivos das realidades figurativas que foram e continuam pisando o palco carcomido das nossas tragicomédias. Sem esperança de alteração, salvo na continuidade e no avolumar do descaminho. Ao menos, serve isso para realçar as mentes brilhantes do nosso país. Entre elas, a de Alberto Gonçalves, que Deus proteja.

As figurinhas do ano

Não é impossível que o dr. Rio ganhe as eleições. Pelos vistos, uma quantidade razoável de portugueses acha-o diferente do dr. Costa e preferível a este. O dr. Rio nega.

ALBERTO GONÇALVES

OBSERVADOR, 01 jan 2022

António Costa. Como em 2020, fez o que quis: fechou e “libertou” [sic] os cidadãos quando lhe apeteceu, decidiu qual era a “ciência” em que devíamos “acreditar”, arruinou uma minoria de cidadãos mediante restrições e empobreceu a maioria através de impostos, aproximou o país dos padrões romenos de vida e excelência, prosseguiu o projecto de conquista da sociedade pelo Estado e de conquista do Estado pelo PS. Em suma, continuou a abençoar-nos com lucidez. E sem sombra de escrutínio, já que ninguém ousa arriscar o consenso patriótico ou o emprego. Pelo seu lado, o renomado democrata não aprecia prestar contas. Também por essa inclinação de carácter, o dr. Costa cansou-se dos dois partidos comunistas e, dado que o eleitorado aprecia trela e miséria, achou-se glorificado pelas massas a ponto de forçar eleições antecipadas. Daqui a um mês, será julgado nas urnas – o que nesta terra não mudará muito. Merecia ser julgado em tribunal – o que nesta terra não mudaria nada.

Eduardo Cabrita. É plausível que o dr. Cabrita integre uma experiência de psicologia social: apurar até que que grau de iniquidade um povo sem grandes tradições democráticas tolera um governante. A coisa foi sempre a crescer. Em 2019, houve a divertida corrupção das golas anti-fumo. Em 2020, o SEF torturou até à morte um desgraçado. Em 2021, o dr. Cabrita subiu a parada e seguiu ele próprio no carro que atropelou um trabalhador das auto-estradas, proeza embelezada por calúnias, manipulações, ocultações e outras sujidades subsequentes. Em Dezembro, o espécime lá se demitiu. Demorou seis meses.

Gouveia e Melo. O vice-almirante, entretanto sem prefixo. Começou o ano numa obscuridade submarina. Convocado a substituir uma sumidade marxista na vacinação, vestiu camuflado e, tendo dado conta da tarefa, excitou milhões de pasmados. No fim do Verão, a tarefa acabara. O vice-almirante não. Obstinadamente avesso à política e à exposição, o homem apresentou múltiplas ameaças de candidaturas, de ministro a presidente, e não voltou a sair da frente das câmaras. A ver se sai, recentemente empurraram-no à bruta na hierarquia. Além das fardas, o ex-vice-almirante é sobretudo celebrado pela coerência. Proclamou a vitória sobre um vírus que continua aí. Recusou a vacinação de crianças que a seguir promoveu. Insultou os “negacionistas” que não “seguem a ciência” e, consta, mantém relações próximas com a “reflexoterapia” e a “aromoterapia”. É de exemplos assim que o país carece.

Graça Freitas. Nos cargos de nomeação da administração pública, o Princípio de Peter não costuma precisar de promoções para ser aplicado. Quando, conforme acontece na maioria das vezes, a nomeação provém do PS, é razoável esperar que o sujeito já seja incompetente ainda antes de começar a carreira. As organizações estatais estão repletas de criaturas radicalmente ineptas para a função que desempenham (e, aposte-se, qualquer função). Em geral, não notamos a respectiva existência, embora a paguemos do nosso bolso. A dra. Graça Freitas viu-se na extraordinária situação de ser exposta por circunstâncias extraordinárias: de repente, o desempenho dela ficou à vista, e tornou-se um espectáculo que dura vai para dois anos. De início, espantava. A certa altura, passou a irritar. Agora aquilo só provoca pena, pena sincera.

Marcelo Rebelo de Sousa. Não sei se alguém se lembra dele. Sorria para “selfies”. Mostrava-se regularmente em cuecas e a banhos. Permitia que o governo trucidasse habitualmente a legalidade e a decência a pretexto da Covid e do que calhava. Dizem que é presidente da República. Não? Não ocorre nada? Bem, o prof. Marcelo foi reeleito no início do ano e dizia-se que a “liberdade” do segundo mandato inspiraria enfim uma atitude responsável. Naturalmente, chega ao final de 2021 com a autoridade e a presença de um ectoplasma. De tanto legitimar o dr. Costa em tudo, o prof. Marcelo acabou por legitimar o dr. Costa a dispensá-lo definitivamente. A dissolução do parlamento e o funeral da “estabilidade” enterraram uma carreira simpática. Da última vez que o vi, tentava soprar um fósforo através da máscara. Isto deve conter uma espécie de analogia.

Pedro Nuno Santos. Ao que consta, é a esperança do PS. Calma, que não terminei: o “Pedro” é a esperança do PS em ter como chefe um sócio espiritual, e talvez não só, do Bloco de Esquerda. Se este portento consumar a subida ao poder, a “bolivarização” do país deixa de ser um efeito secundário da governação socialista para se transformar num objectivo assumido. Ganha-se em clareza o que se perde em meios de subsistência.

Rui Rio. Passou anos a redefinir o papel de líder de oposição: doravante um sujeito que não se opõe. Ao que tudo indica, prepara-se para redefinir o papel de candidato a primeiro-ministro: um sujeito que não se opõe e dedica a campanha a tentar seduzir, em vão, o adversário directo. Apesar de, ou graças a, tamanhas originalidades, não é impossível que o dr. Rio ganhe as eleições. Pelos vistos, uma quantidade razoável de portugueses acha-o diferente do dr. Costa e preferível a este. O dr. Rio nega.

POLÍTICA   ELEIÇÕES

COMENTÁRIOS:

COMENTÁRIOS:

klaus muller: Gouveia e Melo é como os prédios altos em que os andares superiores são sempre aqueles por onde o vento passa com mais facilidade.         Liberal Assinante do Local: Eis uma apetitosa sobremesa de Marcelo na Brasa à Matosinhense, bem passado e tostadinho, para iniciar 2022. Magnífico! Um bom ano kamaradas comentadeiros! Da última vez que o vi, tentava soprar um fósforo através da máscara. Isto deve conter uma espécie de analogia.           J Ferreira: Não creio que o Rio ganhe as eleições apesar da tentativa do "voto útil" por parte dos "agentes" interventivos da formatação da sociedade (CS, comentadores, opinadores, empresas de sondagens, etc ). costa vai ganhar, resta saber se terá esquerdalha suficiente na assembleia para produzir a geringonça 2.0 Se não conseguir a geringonça 2.0, talvez exista o tal acordo de bastidores com o PSDois que o autorize a governar em minoria.             Apontador dos FRO€$: “Aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra” – Voltaire. Hannah Arendt no seu livro “As Origens do Totalitarismo” discute a transformação de classes em massas, o papel da propaganda no trato com o mundo não totalitário e o uso do terror, essencial a essa forma de governo. Segundo ela, os movimentos totalitários são fundamentalmente diferentes dos regimes autocráticos, na medida em que estes procuram apenas ganhar poder político absoluto e proibir a oposição, enquanto os regimes totalitários procuram dominar todos os aspectos da nossa vida. O que viria a distinguir o totalitarismo dos tiranos menores do passado era precisamente essa exigência de submissão absoluta. Portanto, qualquer semelhança disto com a nossa realidade é pura… coincidência! Se continuarmos a tolerar isto, haverá um momento que nos iremos deitar em Democracia e acordaremos em Ditadura.           João Ramos: Crónica sublime.          Carlos Vito: Parabéns pela sua crónica. Para mim, o último ainda é o primeiro. O único, supostamente oposição que insistiu e continua a insistir num acordo que o Costa recusou, desvalorizou e continua a recusar e a desvalorizar. O homem tem tendências autoflagelantes, não há dúvida. Ainda assim, arrisca-se a ter mais votos. Porque o bom povo reconhece a sua capacidade de líder e a bondade da sua (inexistente) política, como defenderão (defenderiam) os seus apoiantes? Não, apenas porque o desespero de encontrar uma alternativa simbólica à troupe governativa, pode levar portugueses a votarem em alguém que não o famigerado Costa. Fosse o partido dirigido pelo Mickey ou até pelo Pateta, as expetativas de uma vitória seriam idênticas e o objectivo também!          Manuel Martins: Caro AG, embora no geral partilhe das suas indignações,  não concordo com o selo de incompetência generalizado que se coloca aos políticos. A verdade é que os nossos pruridos e a nossa inveja centenária nos impedem de pagar melhor a um ministro ou primeiro-ministro (temos centenas de funcionários públicos que têm ordenados muito superiores ao do próprio PM),  e tal afasta os melhores em detrimento dos que procuram o poder e ganhos a longo prazo, o que obviamente lhe tolda as decisões em nome do interesse público.  O nosso sistema político,  herdado do 25abril,  está minado, e impede medidas de longo prazo ou medidas sem efeitos na legislatura,  pois sacrifícios presentes com ganhos futuros não ganham eleições.           Anarco Léptico: Mais uma excelente crónica do magnífico, extraordinário alberto gonçalves. Aponto somente uma imprecisão: os "padrões romenos de vida e excelência" foram conseguidos anteriormente, e diga-se que com imenso sucesso, pelo grande estadista pedro. De resto, só tenho que parabenizar o cronista por ser tão fantástico, belo e garboso. Bom ano de 2022!         Amando Marques > Anarco Léptico: Temos Portugueses a emigrar para a Hungria e Polónia, esses países “fascistas” em busca de uma vida melhor, daqui a um ano ou dois junta-se a Roménia, estamos a caminhar para la.           Amigo do Camolas: Depois de quase dois anos seguidos de terror e com a receita fiscal nos máximos históricos a já não chegar para as despesas correntes no estado, a figura do ano só pode ser a figurinha que o Costa tem feito para fugir... apesar de ter convencido os seus seguidores de que não tem mais do que fugir. Mas a verdade é que ele desde que chegou a  pandemia nunca parou de correr.           Amando Marques: Faltou o melhor SNS do mundo com os médicos mais resilientes de que há memória!         luis santos: Parabéns por mais um texto inteligente e incisivo. Além do mais, muito bem escrito, com humor, como habitual na boa tradição de Eça. Trata-se de um riso que peleja. É muito refrescante ouvir uma voz dissidente no meio da sinistra unificação em que vivemos!

Tiddly Winks: Figurinhas mesmo - figurinhas da iniquidade que arrastam o país para os últimos lugares da Europa e governam em proveito próprio. Mas este povo só tem o que merece. Excelente artigo AG e Bom Ano (na medida do possível).          Maria Tubucci: Bom Ano 2022 para todos. Especialmente para aqueles que tiveram coragem para aturar e enfrentar todo o pechisbeque governamental e afins, que com os seus serviçais pseudocientíficos e uma CS comprada e açaimada, tentarem sabotar a economia e fazer a lavagem ao cérebro dos Portugueses. Está na hora de acordar, cortar as amarras do socialismo, e seguir em frente, hoje o nascer do Sol estava espetacular. Bom Ano!      Maria Nunes: AG deliciei-me durante todo o ano com as suas crónicas. Continue a escrever com Independência e coragem, pois o país bem necessita de pessoas sem medo. Um bom ano para si, assim como para todos os comentadores.            Andrade QB: Alberto Gonçalves está a começar bem o ano, esperemos que também liberto do afunilamento covidiano. Como se conclui por esta sua boa classificação de figurinhas, sua acção e ambiente em que prosperam, o COVID é só um pormenor.

Carlos Quartel: Fácil e barato apanhar as ramas , mas deixar as raízes para os outros.

Isto vem a propósito da sistemática  crucificação de alguns, esquecendo que todos eles estão onde estão em resultado de um voto livre e secreto. Toda a galeria de incompetentes e corruptos foram lá postos pelo povo, que gosta deles e que, ao que parece, se prepara para renovar-lhes o mandato. Claro que é legítimo chamar-lhes nomes feios, mas é para o lado que eles dormem melhor. Sabem bem ao que vão e os Mercedes, os BMW e as casas com piscina crescem como cogumelos. Tudo vai bem quando as TV's (cinco, nem menos) interrompem tudo para dar mesas redondas com treinadores de bancada e não há milhão de testes que possam interferir com as declarações de Jesus ou de Sérgio, fundamentais para a felicidade da nação.  Se o problema fossem só as figurinhas citadas a coisa era fácil. São meia dúzia de gatos, facilmente substituídos. Infelizmente o caso é bem mais grave e substituir 10 milhões de abúlicos imbecis não é tarefa fácil ....       bento guerra:  Rio não pode ganhar ,entre outras coisas, porque os "rangelistas" corroeram a relação do partido com a sociedade e deixaram já muitos derrotados           FME: Votos que neste novo ano o Covid se torne verdadeiramente endémico permitindo a liberdade no verão e deixando as restrições para o inverno, e que não haja sanções para quem saltar um ou dois booster de vacinas.  Bom Ano 2022!           Tiddly Winks > FME: Não se preocupe, dentro em breve arranjarão outra “variante” terrível, ou uma emergência climática para nos provarem de tudo novamente.  Provaram o poder absoluto e observaram a reacção de um povo estupidificado e carneiro.  Se julga que vão largar o osso….           FME FME: O meu comentário pretende ser sarcástico e vai precisamente nesse sentido.

Bom Ano!            Fernando Francisco: Parabéns pela crónica. Os trolls responderam de forma irritada, significa isso que o texto cumpriu o objectivo. Bom Ano.             Advoga diabo: Houve figuras, PR, Costa, GeM, SNS; figurinhas, BE, PC, Ventura; e quem fez(az) figuras tristes, AG e toda a escória negacionista!          Francisco Bandeira > advoga diabo; Quais negacionistas? Os da imunidade de grupo com 70% de vacinados ou os que diziam que só com 80 e tal?            Rui Marques > advoga diabo: Os negacionistas que acreditam que se safam com as máscaras? Os negacionistas que acreditaram na balela dos “95% de eficácia”? Os negacionistas que continuam a negar as tromboses, os coágulos, as miocardites provocadas pelas vacinas?  Os negacionistas que tomaram 2/3 doses das vacinas e andam a fazer testes feitos loucos?  Não diga mal dessa gente. São só pobres coitados.            Manuel Joao Borges: muito bom          AL MA: Excelente crónica, esperando que na próxima continue a elencar outros personagens, sugiro: Ferro Rodrigues; Marta Temido; Galamba; Van Dunen e Matos Ferrnandes.       H Esteves: Bom artigo!         Maria Ribeiro: Há pessoas que pensam que um governo Santos com apoio da geringonça é igual a um Governo Rio com apoio ao centro.  Ameaçar aumentar a dívida e "pôr os joelhos a tremer aos banqueiros alemães" é igual a apoiar as empresas privadas. Libertar o país da inércia do Estado. Felizmente muitos portugueses acham que há diferenças entre dois projectos claros. Rio, com a minúcia e a competência reconhecida em toda a sua longa carreira, tem há 4 anos, diversos Think team sectoriais a trabalhar, tudo menos improvisação, mas há eventuais negociações com um núcleo fixo e um espectro negociável.  Santos e Rio são iguais? São parecidos? Não vale a pena escolher? É  melhor votar num pequeno partido que terá um ou outro deputado a um preço de votos enorme?           António Lamas: Obrigado ao AG pelo "quadro de honra" Votos de um ano novo que comece a 30 de Janeiro e que retire a AG mais motivos de cronicas. Venham outras crónicas e outras personagens.          José Ramos: Foram umas boas entradas, AG (com excepção do Contra-Almirante; que diabo, o homem demonstrou competência!). Quanto ao resto, assino por baixo e "negaciono" consigo. Apesar do estado a que isto chegou, um bom ano para si.          Jorge Tavares: Sabem o que é um troll ideológico? É um provocador que se especializa em atacar grupos com convicções fortes e atacar nos pontos de irritação desse grupo. Por exemplo, pode escrever provocações num grupo de vegetarianos, perguntando sobre a moralidade de assassinar plantas, pode escrever provocações em grupos religiosos, dedicando-se a contestar dogmas de maneira racionalista (e o inverso: achar grupos agnósticos ou ateus e dedicar-se a apontar como as explicações científicas são falhas e a resposta é a religião). E por aí fora. Qualquer ponto ideológico que cause grande emoção dos membros é presa preferencial desse tipo de troll. A única maneira eficicaz de neutralizar a presença do troll é negar-lhe o seu alimento. Não lhe dê atenção. Não importa o que acontecer, não alimente os troll's! Ignore-os. Extirpe a sua presença da sua mente e NUNCA responda. Nunca lhes dê de comer. Não reconheça sua presença, pois é tudo o que ele quer.         josé maria: A figurinha do ano chama-se Alberto Gonçalves, ninguém consegue ser mais pequeno do que ele...        Manuel Lourenço > josé maria: Não Zé , essa figurinha és tu...          Alberico Lopes > josé maria: Maria jose a figurinha mais ridícula de todos os avençados do habilidoso           Hoyo de Monterrey > josé maria: Não sei se ele é pequeno porque não sei a altura dele, mas relata muitas verdades-


A pureza do horror


Outros mais houve, é certo (falo de horrores) - mas a vastidão espacial da Rússia parece justificável tendo em conta a vastidão criminosa dos seus vários representantes, conquistadores empedernidos, ao longo dos séculos, por conta de tantos que os chefes sacrificaram lá pelas sibérias e países em redor da URSS – excepção, na questão da ausência de humanidade e de escrúpulos, do sempre amado Gorbachev – e, naturalmente, outros um pouco mais cordatos, e menos rigorosos na ambição e na crueldade, de que se ouvia falar à distância, e que o historiador Jaime Nogueira Pinto, extraordinário em saber e arrojo, aqui descreve, com pormenor que bem gostaríamos de fixar - como fixávamos outrora os nossos feitos históricos, os nossos montes e rios e distritos, a nossa gramática e a tabuada das bases… Não fixaremos. Nem, de resto, vale a pena, tal a repulsa que nos causam tais explicitações históricas sobre um povo de quem se ouvia dizer (em jeito de ironia, pelos seus defensores), que comiam criancinhas ao pequeno-almoço, tais como os ogres das histórias dos Perraults, tipo a do Pequeno Polegar dos tempos receosos da nossa infância encantada…

Há trinta anos

Na antiga União Soviética, o medo era de tal maneira forte e entranhado que as leis podiam dar-se ao luxo de ser tão democráticas e benévolas como agora as proclamações do Secretário-Geral da ONU.

JAIME NOGUEIRA PINTO, COLUNISTA DO OBSERVADOR              OBSERVADOR, 31 dez 2021

O fim da utopia

Há trinta anos, no dia de Natal de 1991, às 19h32, hora de Moscovo, a bandeira vermelha descia na frontaria do Kremlin e era substituída pela bandeira tricolor da Rússia.

Gorbachev anunciava publicamente que abandonava a liderança da União Soviética e que cedia os seus poderes, na Federação Russa, a Boris Yeltsin. Melancolicamente, lembrava os seus esforços reformistas e pacificadores que, entretanto, tinham levado ao fim do Regime. No dia seguinte, a Câmara Alta da URSS, o Soviete Supremo, reconhecia e referendava esses factos.

Em 69 anos, e com muita culpa expiada e por expiar pelo caminho, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ficava muito aquém da prometida nova sociedade de eternos “amanhãs que cantam.”

Uma revolução contra a teoria

A encarnação da alma da utopia comunista no corpo da velha Rússia começara por ser um desafio à própria ciência marxista da História.

O líder da revolução de Outubro não ficara à espera das condições objectivas que George Plekhanov, o pensador do marxismo russo, indicara como condições necessárias para uma revolução marxista: seguira a linha de aventureiros, como Sergei Nechaev e Peter Tkachev, que sustentavam que um pequeno grupo de revolucionários decididos podia assaltar e tomar o poder na Rússia, sem esperar pelo amadurecimento do capitalismo.

Plekhanov negava tal possibilidade. Ou melhor, admitia que, se tal sucedesse, o resultado não seria uma harmoniosa sociedade socialista, mas o advento de uma “casta socialista” que substituiria as elites czaristas, numa sociedade de “comunismo patriarcal e autoritário”. Mudava a casta, mas mantinham-se o jugo e a opressão. Lenine era, para ele, da “raça dos Robespierre”: se os bolcheviques tomassem o poder, iriam impor uma ditadura comunista. Plekhanov morreria de tuberculose em 1918, certo de que assim seria – e só vira o princípio do filme.

Terror e reféns

No Verão-Outono de 1918 começava o Terror Vermelho, com a liquidação de reféns “burgueses”, como represália pelos atentados contra personalidades bolcheviques. Depois do atentado contra Lenine, em Moscovo, e contra Moisés Uritsky, chefe da Cheka de Petrogrado, 1300 reféns “burgueses”, “inimigos de classe” detidos em campos de concentração, eram executados. Em Setembro-Outubro, mais de 10 mil desses reféns eram mortos pela Cheka, a polícia política bolchevique. Em poucos meses, o novo regime comunista tinha executado mais presos políticos do que o czarismo entre 1825 e 1917.

O terror sistemático marcou a natureza do partido e do regime que salvou. A globalização do comunismo e o receio, na Europa, de que se repetisse a história da Rússia, levaria a uma reacção autoritária preventiva e a uma progressiva militarização da política em Outubro de 1922, com a chegada ao poder, em Itália, do movimento fascista de Mussolini – que depois inspiraria, em versão apocalíptica, o “Reich milenar” de doze anos de Adolf Hitler.

A morte e o processo de sucessão de Lenine saldaram-se com o triunfo de Estaline, que manteve e reforçou o Grande Terror, nos anos 30, a partir do assassinato de Kirov. No pós-estalinismo, os comunistas da Rússia e de todo o mundo, incomodados com as acusações de violação dos direitos humanos, procuraram responsabilizar Estaline – um “homem mau”, um tirano perverso – pela corrupção e degeneração da utopia. O comunismo era bom, mas havia comunistas maus, ou comunistas que não eram bem comunistas ou que não eram comunistas convictos. Só que Estaline era um comunista convicto, como recentemente o vem comprovar o historiador britânico Geoffrey Roberts, em Stalin’s Library – A Dictator and his Books (com publicação prevista para Fevereiro de 2022, pela Yale University Press).

A profecia de Plekhanov realizou-se plenamente: estabeleceu-se uma tirania comunista imposta pelo terror e assistiu-se à substituição de uma elite privilegiada, a aristocracia czarista, pela classe dirigente ou “velha-guarda” do Partido – os privilegiados, cuja existência Yuri Slezkine descreve em The House of Government: A Saga of the Russian Revolution (Princeton University Press, 2017). Mas o novo privilégio instaurado era também ele temeroso da mão pesada de uma qualquer inquisição que, em nome da pureza revolucionária, lhe pudesse cair em cima. Como cairia, a partir de 1936 e dos processos de Moscovo, transformando o privilégio de alguns num calvário de humilhação, sofrimento, confissão e expiação.

Para vencer a invasão alemã, Estaline ressuscitou o patriotismo do povo russo e deu tréguas à Igreja Ortodoxa. No fim da guerra, pela força das armas, estendia o comunismo – misturado com a hegemonia russa – aos países de Leste, do Pacto de Varsóvia. E, em 1949, Mao ganhava a guerra civil e o poder na China.

O comunismo parecia imparável e o socialismo real aparecia como a utopia igualitária das versões da propaganda. Mas não. Era, afinal, uma autocracia, com uma classe política dominante, com o monopólio do poder, da informação, dos privilégios e uma polícia política que vigiava e punia a dissidência de pensamentos, palavras, actos e omissões. E na ausência de economia privada e de sociedade civil, como poderes independentes, era o poder político do Partido Comunista que tudo controlava. E, no entanto, a Constituição de 1936, a Constituição de Estaline, era generosa nas concessões de direitos humanos e poética na linguagem.

Gorbachev e o medo

O medo era tão forte e entranhado na população, o medo geral dos dirigentes e dos dirigidos, dos de cima e dos de baixo, que as leis podiam então dar-se ao luxo de ser tão democráticas e benévolas como agora as proclamações do Secretário-Geral das Nações Unidas.

Com a morte de Estaline, após uma luta de oligarcas, o poder passou para Kruschev, responsável pela repressão do levantamento popular húngaro. Kruschev foi depois substituído por Brejnev, que governou quase 20 anos. Seguiram-se, em breves intervalos, Andropov e Chernenko. Em Março de 1985 chegou Gorbachev que, ao retirar o medo da equação num regime fundado no medo, levou ao colapso do comunismo e da URSS.

Primeiro, foi a sua doutrina de não-intervenção nos países satélites: ao contrário do que acontecera em Berlim, em 1953, em Budapeste, em 1956, e em Praga, em 1968, Gorbachev retirou aos líderes comunistas do Pacto de Varsóvia o apoio soviético para a repressão dos movimentos populares internos. Assim, as resistências da Polónia, com o Solidariedade, e da Hungria, ao abrirem as fronteiras no Verão de 1989, quebraram o tabu do terror. Depois, foi a separação de algumas repúblicas soviéticas. E finalmente, no contragolpe ao golpe dos ortodoxos do Verão de 1991, o poder na Rússia caiu.

Depois da queda, não faltaram sábios a proclamar a inevitabilidade do acontecido. Mas a verdade é que foram muito poucos os futurólogos que não eternizaram a URSS nas suas previsões. Emmanuel Todd que, em 1976, publicara em França La Chute Finale – Essai sur la décomposition de la sphère soviétique, foi a excepção. O livro de Todd constatava o fracasso da economia soviética e analisava as estatísticas oficiais que, mesmo que falseadas, não deixavam de revelar uma sociedade doente, com altos índices de suicídio, de mortalidade infantil, de alcoolismo.

Culpa, autocrítica, confissão de incorrecção, expiação

Além dos fracassos políticos, institucionais e económicos, a grande vulnerabilidade da utopia era ser, precisamente, uma utopia aplicada: um projecto de mudar pela força a natureza humana através de um sistema político. O projecto foi denunciado desde o início por grandes escritores: de Zamiatin, em Nós, a Bulgakov, em Margarida e o Mestre. Não havia eu, havia nós; tudo o que não era ideologia, pensamento correcto, linha do Partido, linha geral, não existia. A censura operava por fora – os bolcheviques tinham começado logo por tomar conta das tipografias e dos stocks e fábricas de papel e por controlar jornais e editores – mas operava também, ou sobretudo, por dentro, inculcando o medo, o sentimento de culpa, a interiorização da culpa, a autocensura, o ímpeto inquisitório ou de denúncia cruzada de quem saísse da linha correcta, da linha do Partido.

Para Nikolai Berdyaev, em As Origens e o sentido do comunismo russo (1937), as raízes da famosa autocrítica estalinista estavam na consciência do homo sovieticus e na tradição do arrependimento penitencial cristão: “Nenhum povo do Ocidente viveu com tanta força as questões da penitência. Foi na Rússia, precisamente entre as classes ditas privilegiadas, que nasceu o tipo tão especial do ‘gentilhomme repentant’. Arrependido, não de uma falta cometida pessoalmente, mas da falta geral, do pecado social.”

Há exemplos famosos na história da literatura russa do século XIX: Nicolau Gogol queimou o segundo volume de Almas Mortas por ordem do padre Matvei Konstantinovsky, seu confessor; e Tolstoi, no final da vida, exprimia uma espécie de complexo de culpa de classe, de culpa social, perante os camponeses.

Com a ortodoxia do socialismo e os seus inquisidores a manipularem a burocracia das consciências no “paraíso na terra” em nome do proletariado, os intelectuais e os dirigentes comunistas acusados de desviacionismos exacerbaram esses sentimentos. Alguns, como os condenados dos processos de Moscovo, fizeram-no sob tortura e para tentar salvar as famílias; mas outros, muitos, interiorizaram o escrúpulo de correção, pedindo perdão pela sua condição pequeno-burguesa. Outros ainda, como o famoso Isaac Bábel, foram ao ponto de renegar expressamente as suas obras principais.

Nos tempos finais da URSS, em plena Perestroika, Vitali Chentalinski, escritor e jornalista, conseguiu ter acesso aos processos dos intelectuais e escritores nos arquivos da Lubianka e publicou um livro sobre o tema, em França, em 1993. O livro, Les Esclaves de la Liberté – Dans les Archives Litterairers du KGB, conta a saga dos escritores presos e dos romances, diários íntimos e correspondência apreendidos e destruídos. A autocrítica de Isaak Bábel, o romancista do regime conhecido pelos seus clássicos Cavalaria Vermelha e Contos de Odessa, é particularmente eloquente: “Cavalaria Vermelha serviu de pretexto para exprimir o meu péssimo humor, que não tinha nada que ver com o que se passava na URSS. Daí as descrições forçadas da crueldade e do absurdo da guerra civil, a introdução artificial de elementos eróticos, uma sucessão de episódios turbulentos e chocantes; bem como o total encobrimento do papel do Partido na organização da grande Unidade do Exército Vermelho que foi o Primeiro Exército de Cavalaria, formado por cossacos que não estavam ainda eivados da consciência proletária (…) Quanto aos meus Contos de Odessa, reflectiam o meu desejo de me afastar da realidade soviética, de opor ao trabalho da sua construção quotidiana o mundo semi-mítico e pitoresco dos bandidos de Odessa, cuja descrição romântica levaria, involuntariamente, a Juventude Soviética a imitá-los.”

Em Abril de 1939, preso e em busca de expiação, de purificação e de perdão, Bábel, o “engenheiro de almas” socialista, fazia um derradeiro apelo epistolar ao chefe da NKVD, o terrível Laurenti Béria:

“Cidadão Comissário do Povo, durante a instrução, sem me poupar, movido unicamente pelo desejo de purificação, contei os meus crimes (…) Peço-lhe também que me autorize a esboçar o plano de um romance relatando o itinerário (…) que me levou à perdição e aos crimes contra a pátria socialista. Este livro surge no meu cérebro com um rasgo penoso e impiedoso. Sinto que a dor da inspiração e das forças me voltam. E queima-me a sede de trabalho, a sede de expiar, a sede de estigmatizar esta vida que passei de maneira incorreta!”

Não lhe valeu de muito. Depois de 72 horas de interrogatório, sob tortura, acabaria por confessar-se membro da organização Trotsky e recrutado por André Malraux para espiar para o governo francês.

Guardaram-no no Segredo durante meses, reservando-o, talvez, para um qualquer auto-de-fé do socialismo proletário, um processo de intelectuais dissidentes, igual ao dos políticos e dos militares. Mas, a 26 de Janeiro de 1940, foi subitamente julgado, condenado à morte e executado na madrugada seguinte.

A sua morte foi mantida em segredo durante anos e a sua obra só seria reeditada na URSSS depois do Degelo kruscheviano.

Sob a nova ortodoxia da utopia

Hoje, trinta anos depois do anúncio do fim da União Soviética, e perante a afirmação de uma nova ortodoxia da utopia e de uma nova linha geral da correcção, o espírito e os métodos dos processos estalinistas parecem ter renascido das cinzas ou dos arquivos da Lubianka, com os restauros que o tempo e as circunstâncias impõem, para eivar dos novos dogmas o cidadão comum, transformando-o num censor, num auto-censor, num informador, num delator exemplar. Na nova burocracia da correcção, os comissários políticos globais podem ser mais fluidos, mas revelam-se igualmente hábeis na selecção dos desvios à linha geral, na identificação das incorrecções, dos incorrectos e das vidas incorrectas, na instrumentalização da culpa, da culpabilização, da censura e da autocensura, na instigação à confissão, à acusação, à delação e à condenação. E no silenciamento de tudo o que possa contradizer as declarações humanitárias e as flores de retórica do melhor dos mundos.

A História ensina-nos que é assim que se queimam memórias, escritos, livros, vidas; que é assim que se verga e mata o espírito e se seca o pensamento, sem que neutros e inclusivos amanhãs cantem. Mas o que é a História para quem parece querer voltar a fazer do passado tábua-rasa?

UNIÃO SOVIÉTICA   MUNDO   LIBERDADES   SOCIEDADE

COMENTÁRIOS:

António Pais: Feliz Ano Novo Jaime Nogueira Pinto! As suas crónicas transcendem a sua própria natureza, são verdadeiros artigos de natureza histórica que temos o prazer de ler todas as semanas! Votos de um Bom Ano!  Rui Lima: Pior que ignorantes, são preguiçosos os totalitários vermelhos. Para compreender o fascismo temos de ir a Itália e ver o que fez Mussolini . Eliminou a autonomia do capitalismo, triplica os gastos em obras públicas que ultrapassam os custos da Defesa que para a época é único, parece mais um governo de esquerda. Nenhum poderoso a sério gosta do poder dos fascistas, em Portugal o maior banqueiro Cupertino de Miranda ou o maior industrial Champalimaud não gostam de Salazar e o Salazar deles .     Meio Vazio: Sim, vale a pena ser assinante.      Pedro Ferro: Um bom ano, caro JNP! É uma delícia ler muitos dos seus artigos. Este não foge a essa regra.      José Manuel Pereira: Artigo excelente que me deu imenso gosto em ler e rever o que tem a história para nos contar e ensinar, para quem queira aprender.         Anarquista Inconformado: Mais uma elegia ao caixão vazio, do capitalismo selvagem e destruidor da humanidade. Pobres tontos, com as mãos sujas de sangue.         Maria Augusta > Anarquista Inconformado: Só mesmo de um comuna empedernido e alucinado, apreciador de totalitarismos, miséria  e genocídio desde que claro está,  o genocida seja comuna, pode sair uma bojarda desse tamanho. As tuas mãos  estão  sujas com crimes contra a humanidade!       Rui Lima: Só alguém absolutamente ignorante pode escrever que o fascismo defendia os poderosos tinha um discurso oposto, eu tenho muito medo de todas as ideologias que para sua afirmação dizem defender os pobres apenas querem uma sociedade de pobres e os comunistas nisso foram os maiores . Estas 2 ideologias são semelhantes na sua visão do papel do estado como dono e motor da sociedade só que o comunismo consegue ser mais brutal ver número de mortes e também consegue ser maior no desastre económico,  os 2 são maus mas o comunismo é a dobrar .         josé maria > Rui Lima: Só alguém absolutamente ignorante pode escrever que o fascismo defendia os poderosos  Só alguém profundamente ignorante ou intelectualmente desonesto pode escrever que o fascismo não defendia os poderosos...       Maria Augusta Rui Lima: Tem toda a razão  Caro Rui Lima.         Manuel RB > josé maria: Não foram poucas as desavenças de Salazar com os capitalistas. Salazar, como bem expressa Rui Lima, também gostava dos pobres e dignos. Não creio que Salazar tenha tido como objectivo criar miséria e consequente descontentamento. Já a esquerda, PCP/BE, é o que tentam fazer sempre que podem.  Sobretudo quando conseguem atribuir aos outros, aos "ricos" que ganham acima do salário mínimo, as culpas da miséria.             Lickety Spit: Artigo brilhante e certeiro. É de facto deprimente e triste ver o que está a acontecer debaixo dos nossos olhos com a quase totalidade das pessoas a fecharem os olhos e a negarem o que não querem ver.  A Europa, a Nova Zelândia, a Austrália e o Canadá estão já perdidos. Resta-nos alguma esperança nos Republicanos de uma America totalmente dividida.  Não tenho dúvidas que, dentro em breve, seremos todos escravos do regime Chinês.   advoga diabo: Hoje sobrevivem sonhadores da ideologia fascista na sua pureza inicial, de que JNP é ilustre representante, também do regime utópico de Marx subsistem sucedâneos. A adulteração histórica de ambas as ideologias baralhou a sua essência, acabando numa trágica convergência consubstanciada pelo absoluto desprezo pela liberdade e humanismo. Contudo persiste a diferença original, enquanto o fascismo protegia e promovia os poderosos, o comunismo almejava defender os pobres!           Maria Augusta > advoga diabo: "...o comunismo almejava defender os pobres!" ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah !!!! Não percebeste nada do texto, camarada, a iliteracia e tramada!          Maria Augusta: Excelente texto que expõe com imensa sabedoria a hipocrisia dos tiques totalitários dos "estalinistas" do politicamente correcto da indignação-profissional da xuxo-comunada nacional, no fundo o Homo Sovieticus que tristemente está entranhado na maioria da população portuguesa.        Maria Jose Amaro: Muito Bem, Jaime Nogueira Pinto. Votos de excelente 2022 e mantenha viva a  Coragem da sua mulher extraordinária Maria José Nogueira Pinto.      José Miranda: Obrigado, Jaime Nogueira Pinto, por nos dar com toda a clareza o resumo do comunismo. Sistema diabólico, que ainda hoje é uma terrível ameaça. Ao ler o trabalho sobre as FP 25, tem-se uma pequena ideia do que esses escroques são capazes.          Lickety Spit > José Miranda: FPs-25? Please, se não vê o que está a acontecer no resto do mundo supostamente democrático com a ajuda entusiástica da Big Tech e da CS comprada então desespero ainda mais da cegueira a que as pessoas se votam.          Américo Silva: Bom dia. Falta dizer que a revolução bolchevique só foi possível com o apoio maciço dos judeus, e financiamento e apoio militar ocidental, nomeadamente a defesa do transiberiano por tropas americanas. Foi um óptimo exercício de manipulação e domínio, agora replicado pelo controle da comunicação social, pelo covid, pelo aquecimento global, pelo revisionismo cancel e woke, enfim, algo se perdeu na Rússia para ressurgir em força no ocidente com outras vestes.        Acg: Como sempre, brilhante e factual, também pedagógico no que se refere a obras e autores. Razão tinha M. T. Cícero, "Historia vero testis temporum", a história é a verdadeira testemunha dos tempos, o resto é ficção de quem quer fugir à realidade dos factos, já não digo verdade porque, essa, segundo Nietzsche, não existe, apenas representações, estão aqui, naquilo que efectivamente se passou. Bom Ano.          Rui Lima: Mais um grande artigo de JMN, olho e vejo poucos a fazê-lo tão bem, além de escrever bem tem conhecimentos históricos que dão aos seus artigos e livros outra dimensão. Mas em Portugal um país de canhotos dizer mal do comunismo é um sacrilégio bem haja pela coragem. Um 2022 bom mas acima de tudo que mantenha o seu ritmo de intervenção Com livros, artigos e na rádio é bom para Portugal dar saber ao povo .      Carlos Quartel: A tragédia do século XX, sem dúvida. Uma peste que faz da covid uma brincadeira de crianças. De facto, não passa de um novo nome para uma ditadura férrea, que liquida e prende quem não compreende a mensagem. Tenho para mim que o efeito mais nefasto e permanente é a transformação  do ser humano num ente sem alma, sem personalidade própria, um zombie sem valores, dependente do estado, capaz de delatar o pai ou os filhos por um prato de lentilhas. E o mais grave é que esse estado comatoso de prolonga no tempo. Há 30 anos que os russos não conseguem articular um pensamento político, organizar um partido, com ideias novas, dando lugar ao regresso do desejado pai da pátria, que dá o pão e o chicote. Há a desculpa de se tratar de um povo que nunca conheceu a democracia nem a liberdade, do czarismo ao leninismo e, agora, ao putinamismo. Pobre povo ...