sábado, 21 de fevereiro de 2015

Comédia humana no Século XXI




Três artigos de Vasco Pulido Valente – Público de 6, 7 e 13/2/15 –e ainda um de Jorge Almeida Fernandes – “A bem da Nação, 20/2/15. Sobre o tema do dia, Syriza e Companhia. Os três primeiros manobrando conhecimento histórico, saber humano, sentido caricatural, conhecimento social. Do quarto – “PARA ONDE VAI A GRÉCIA DE TSIPRAS?» - direi que forma excelente síntese da história da Grécia moderna, nos solavancos que atravessou, após o domínio otomano, numa prática de clientelismo e fuga ao fisco que redundou , naturalmente, no recurso ao crédito estrangeiro - «ontem para a Europa e os Estados Unidos, hoje para a Rússia e a China", anota Prevelakis. As elites gregas aprenderam a explorar os sentimentos de simpatia para com a Grécia, assim como a situação geoestratégica do país para obter financiamento estrangeiro.»
“A srª não está em casa” foca as “rapaziadas” cometidas pelos representantes do Syriza dando chocalheiro espectáculo de atrevimento e humilhação perante os ora circunspectos ora paternalistas dirigentes europeus esgueirando-se em sorrisos forçados, cientes dos custos da aquisição de fundos, custos que não parecem pesar no espírito syrízico.
“É estranho? Não é” continua a deslizar pela irracionalidade do comportamento grego, que espanta alguns, demonstrando o historiador que o não espanta o comportamento inconsciente desses poucos, citando exemplos de outros casos de arrogância falhada: «É isto estranho? Não é. Os fanáticos vêem o mundo por uma fresta e ganham pela demagogia e pela intimidação. Na história política contemporânea, há centenas de casos parecidos. Dos maiores, como Hitler, aos mais pequenos, como o PRD de Eanes. …»
«Metamorfose» aponta estratégias aparentemente intimidantes (que mais parecem grosseiramente provocatórias), no desprendimento protocolar da rejeição da gravata, mas sobretudo no uso do couro como enfeite das figuras, lembrando anteriores couros mais assustadores), e ironiza sobre a participação da nossa esquerda, que ganhou novo impulso atacante: «O manifesto obrigatório da “inteligência”, assinado pelas luminárias do costume, é dirigido ao pobre dr. Passos Coelho, que certamente ficou atarantado com a sua súbita importância histórica.», embora a mim me pareça que o nosso PM se mantém tranquilo no seu posto, sem se sentir minimamente perturbado ou desgostoso – o que perturba a nossa esquerda, muito assanhada, muito repetitiva….

Eis os textos excelentes:

1º: «A sra. não está em casa»
Vasco Pulido Valente
06/02/2015 - 06:57
O Syriza segue desbotadamente a tradição da esquerda revolucionária. Como os jacobinos da revolução francesa (excepto Robespierre), rejeita as convenções de vestuário da antiga classe dirigente, embora se tenha ficado por largar a gravata e pelo casacão de couro do alegado “libertário” Varoufakis, que deve querer impressionar a Europa como o de Trotsky impressionou os diplomatas da Alemanha e da Áustria em Brest-Litovsk.
Em tudo o que Varoufakis e Tsipras dizem e fazem há também a convicção escondida, mas próxima de Lenine e dos bolcheviques em 1918-19, de que o Syriza não se aguentará contra a ordem estabelecida sem o apoio da França, da Itália e da Espanha; ou só se aguentará à custa de uma indizível miséria, como aconteceu na Rússia.
Daí a tournée pelas cortes da Europa destes dois tristes símbolos da insurreição grega. Verdade que vêm hesitantes, com uma atitude que oscila entre a arrogância do seu imaginário poder e suposta razão e a humildade do pedinte inseguro e fraco. Acham que sim, acham que não, acham que talvez; proclamam a sua fé num acordo final e reafirmam intermitentemente uma posição inaceitável. Pelo meio, distribuem propostas; e o BCE, o Eurogrupo e o FMI apertam as regras, exigem contrapartidas, sugerem outros caminhos, mas não cedem. O resultado da embaixada do Syriza ao mundo exterior foi, como não podia deixar de ser, a confusão geral. Jean-Claude Juncker, enternecido, deu um beijinho a Tsipras e, para o acalmar, lá o levou, de mão dada, para o seu escritório. Quem falou aqui em “crianças”?
Um tropo obrigatório desta esquerda neo-romântica é o pagamento da dívida de guerra da Alemanha, que a Inglaterra e a América indexaram ao aumento de exportações da República Federal. O exemplo não serve. Em primeiro lugar, o exército americano e o exército inglês ocupavam a Alemanha e queriam o apoio dela para resistir à expansão soviética que, naquele tempo, parecia ameaçar a Europa. Em segundo lugar, a Alemanha estava fisicamente arrasada pelos bombardeamentos de 1943-45 e o Ocidente não tinha dinheiro para a reconstruir e a alimentar: esquecer a dívida de guerra era do seu interesse (e, ao mesmo tempo, um bom passo político). Já a América não perdoou um tostão da dívida da Inglaterra, que pontualmente a pagou. As pessoas crescidas sabem disto. E a sra. Merkel também. Por isso avisou que não receberia Tsipras (para não aturar a mistura de chantagem e choradeiras com que ele anda por aí a maçar o mundo) e mandou o ministro das Finanças comunicar ao jovem que, para ele, não estava em casa.

2º: «É estranho? Não é»
Vasco Pulido Valente
07/02/2015
Vital Moreira disse que a estratégia de financiamento do Syriza era “puramente ficcional”. António Costa, rejeitando essa mesma estratégia, disse que não era um “aventureiro” e que não achava a “renegociação da dívida” a “única e necessária” saída da crise; e Álvaro Beleza concordou que ele, de facto, não devia “vender ilusões”.
O PS, ou, pelo menos, parte do PS, não se deixou levar pelo melodrama que Tsipras e Varoufakis decidiram representar para deleite do radicalismo e grande embaraço da “Europa”. Não ganharam nada com isso e voltaram para casa com declarações tonitruantes. Tsipras declarou que a Grécia não recebia “ordens” e Varoufakis que o nazismo puro e duro lhes podia muito bem suceder. Acabou assim o primeiro acto da peça. O segundo não vai ser tão fácil.
Perante as fúrias mediterrânicas do Syriza, o ministro das Finanças da sra. Merkel, Wolfgang Schäuble, explicou com muita paciência que a vontade do eleitorado grego valia tanto como a de qualquer outro, nomeadamente o da Alemanha; e que as medidas do Syriza não iam na direcção certa. Até o sr. Draghi, para não alimentar fantasias, informou o inefável Varoufakis que o crédito fácil tinha definitivamente acabado. O que foi considerado um acto de “chantagem” pelas luminárias de Atenas. Quem assiste a este triste espectáculo, quase que não acredita. Então aqueles terríveis “revolucionários” não sabiam, nem mandaram perguntar, qual seria a atitude da Itália (onde Renzi, ironicamente, ofereceu uma gravata a Tsipras), ou da França, ou da Inglaterra e, sobretudo, da Alemanha? Não, não sabiam, e, se soubessem, não seriam quem são.
É isto estranho? Não é. Os fanáticos vêem o mundo por uma fresta e ganham pela demagogia e pela intimidação. Na história política contemporânea, há centenas de casos parecidos. Dos maiores, como Hitler, aos mais pequenos, como o PRD de Eanes. Hitler declarou guerra ao Império Britânico, à URSS e à América: toda a gente percebeu que o desastre era inevitável, mas só ao fim de 55 milhões de mortos, com os russos a 100 metros da porta, ele percebeu. Eanes imaginou que se criava um partido com meia dúzia de militares e dúzia e meia de tresmalhados ou desiludidos, sem uma tradição e uma função social evidente e durável, mas bastou Mário Soares dissolver a Assembleia para se ver o vácuo daquela traquitana. O Syriza esperneia e faz barulho, mas passará depressa.   

3º «Metamorfose»
Vasco Pulido Valente
13/02/2015
As coisas não estão a correr como de costume. A revolução dantes tinha as suas cerimónias, mas parece que hoje o Syriza ou o mundo já não se lembram ou as querem mudar, coisa que desde Robespierre ninguém se atreveu a fazer.
E a revolução não é simplesmente uma revolução de Paris, de São Petersburgo ou de Madrid ou mesmo de Lisboa. É uma revolução da Europa, com outro alcance e uma audiência muitíssimo maior. Claro que nós, no nosso doce e sossegado cantinho, quase sempre vivíamos vicariamente as mudanças da história e o homem novo nascia quase sempre muito longe num sítio desconhecido e obscuro, como compete à aurora. Excepto quando nos calhou a nós. De qualquer maneira, até 1975, anteontem para dizer a verdade, sabíamos muito bem o nosso papel.
Agora foi a surpresa, os trabalhadores não apareceram na rua de punho ao alto para esmagar a reacção. As 200 famílias, quando não estão em tribunal por qualquer vigarice comum, continuam em casa. A doença infantil do esquerdismo acabou por se instalar no Governo da Grécia e viaja por aí freneticamente de avião. E a grande força do progresso passou agora a ser o imenso proletariado do funcionalismo e dos subsídios do Estado. O manifesto obrigatório da “inteligência”, assinado pelas luminárias do costume, é dirigido ao pobre dr. Passos Coelho, que certamente ficou atarantado com a sua súbita importância histórica. De resto, por razões que se compreendem, nem Sartre, nem Beauvoir se deram ao trabalho de ir deixar uma frase em Atenas, coisa que não nos faltou em Lisboa.
Não interessa. Nada disto diminui o Syriza, porque o Syriza encenou a sua erupção na consciência das massas para o tempo da televisão e da Internet; e aí foi, reconheçamos, magistral. A ideia de não pôr gravata não ocorreria a Lenine. O nacionalismo e o justo ódio aos mercados do capital oligárquico e especulativo não se vêem e não ganham com a alta definição o Facebook ou o Twitter. Em contrapartida, o couro preto não engana ninguém e não há ninguém que não conheça a sua ilustre linhagem: os comissários do Exército Vermelho, os generais do Führer, os super-homens da SS. O couro preto e o pormenor moderno da fralda de fora indicam agressivamente o macho Alfa, a sua virilidade e a sua vontade de domínio. Características que, se não comovem a sra. Merkel, intimidam os burocratas da economia e arrasam as feministas de serviço. A velha Europa precisava desta metamorfose da revolução.

4º «PARA ONDE VAI A GRÉCIA DE TSIPRAS?»
  Jorge Almeida Fernandes
O problema grego é político. Não é a dívida. É a reforma do Estado e da economia.
A Grécia apanhou a Europa de surpresa em 2009 e continua a surpreendê-la. Historiadores, economistas e politólogos gregos sempre aconselharam os responsáveis europeus a conhecer um pouco melhor a História grega contemporânea. A questão da dívida ocupa quase toda a cena.
Mas a dívida é uma manifestação, não a raiz do problema. Para os historiadores, o "problema grego" não é económico mas político — diz respeito ao funcionamento do Estado. A questão não está nos gregos mas nas instituições. A reforma do Estado e da economia é o nó do problema.
O "sistema grego 
O "sistema grego" remonta ao século XIX. A Grécia emancipou-se do Império Otomano em 1829 e o novo Estado começou a ser criado por altos funcionários alemães que acompanhavam o primeiro rei, o príncipe Otão da Baviera. Foi imposto um modelo centralizador contra as resistências de uma sociedade que vivia num quadro político, institucional e cultural otomano.
"A construção prosseguiu dificilmente ao longo dos séculos XIX e XX, com avanços e recuos", resume George Prevelakis, especialista da geopolítica balcânica e embaixador na OCDE. "Para obter a aceitação das populações rurais e reprimir a sua recusa da modernidade política importada, o poder serviu-se do aparelho de Estado não apenas como instrumento de repressão mas como sistema de distribuição de uma espécie de renda ou tributo. A principal moeda de troca foi o emprego pelo Estado. Um lugar na administração traduzia-se num primeiro tempo pela submissão e, a seguir, em votos."
Este é o "pacto fundador" que, em grande parte, determinou os estigmas políticos e sociais da Grécia. A fuga ao fisco tornou-se em muitos casos numa prática "legal": a Igreja Ortodoxa, o maior proprietário do país, ou os grandes armadores estão constitucionalmente isentos. As profissões liberais estavam tacitamente isentas e passaram a protestar contra a "perseguição fiscal" imposta pela troika. "Se a Grécia tivesse um efectivo sistema fiscal, nos padrões da zona euro, a receita duplicaria", concluía em 2012 o economista Kostas Vergopoulos.
Para poder distribuir uma renda a um grande número de clientes, a elite política tinha de encontrar fontes de financiamento. Para manter um Estado pletórico era necessário sobrecarregar fiscalmente a economia que, em troca, desenvolveu uma cultura de fraude fiscal.
"Nunca sendo suficientes as receitas, foi necessário olhar para o estrangeiro, ontem para a Europa e os Estados Unidos, hoje para a Rússia e a China", anota Prevelakis. "As elites gregas aprenderam a explorar os sentimentos de simpatia para com a Grécia, assim como a situação geoestratégica do país para obter financiamento estrangeiro."
Nos últimos 40 anos, os dois grandes partidos, o Pasok, do clã Papandreou, e os conservadores da Nova Democracia reorganizaram em larga escala as redes de patrocínio. Andreas Papandreou, no poder após 1981, construiu um "socialismo a crédito", escreve o historiador Nicolas Bloudanis. Impôs-se politicamente pela capacidade de arrancar fundos europeus para alargar a sua base clientelar. "Mas não é o único responsável: a direita é tão estatista como o Pasok. A classe política grega sempre confundiu dramaticamente rendimento e empréstimos."
Ao clientelismo somam-se os privilégios corporativos de centenas de grupos sociais e económicos fechados — dos advogados aos camionistas — tal como uma miríade de taxas e isenções em benefício de grupos particulares. É uma "cadeia de direitos adquiridos" que modela e atravessa a sociedade.
Além da austeridade, a Grécia comprometeu-se a fazer uma reforma integral da sua máquina administrativa e da economia. Mas a maioria das medidas foram bloqueadas por poderosos grupos de interesses.
Leszek Balcerowitz, que dirigiu as reformas da transição na Polónia nos anos 1990, fez um apelo à UE sobre a crise grega: "Ser flexível na dívida mas intransigente nas reformas". Não o "perdão" da dívida que Tsipras pede mas uma maior flexibilidade na reestruturação. A mensagem seria "premiar as reformas não o populismo económico" e incentivar o crescimento — não pensando apenas na Grécia mas em países como Portugal, Espanha, Itália ou França. A confusão entre reformas e austeridade é perversa. As reformas não sacrificam a generalidade da população, apenas os interesses instalados.
Tsipras e o nacionalismo
A vitória do Syriza significou o desmoronamento do velho sistema bipartidário. Para onde vai a Grécia de Tsipras?
Logo a seguir à vitória do Syriza, observou o historiador Sthatis Kalyvas: "Dado que o Syriza se opõe a muitas das reformas estruturais que são necessárias, (...) a aplicação do seu programa exige nada menos do que um compromisso da UE em financiar permanentemente os crescentes défices. Isto não é realista."
Tsipras estaria perante um desafio: "Se se mostrar capaz de reformar a disfuncional máquina administrativa, reformar o sistema de pensões, cortar a corrupção e a evasão fiscal, será celebrado como um grande reformador e dominará a política grega por uma década." Mas a probabilidade deste cenário seria muito baixa — o que as duas semanas seguintes confirmaram.
Tsipras escolheu o terreno da dívida para uma estratégia de confronto com Berlim. Sobre reformas pouco ou nada disse. Yanis Varoufakis prometeu acabar com a "cleptocracia grega".
A chave da política de Tsipras é o nacionalismo e, em particular, a germanofobia. Por isso reabriu a questão das "reparações de guerra". Uma vez mais é bom lembrar os acessos de febre nacionalista que regularmente percorrem a Grécia. O retrato que a Grécia moderna traça de si mesma é o de vítima: dos otomanos e depois da Turquia, da Grã-Bretanha, da Itália fascista, da Alemanha nazi, dos americanos durante a ditadura dos coronéis, agora da UE e, uma vez mais, dos alemães. Andreas Papandreou e o ex-primeiro-ministro Antonis Samaras foram mestres na manipulação dessas febres. É uma receita segura para apelar à coesão nacional e esconder os erros.
Tsipras optou pela aliança com o partido ANEL (extrema-direita), em detrimento do To Potami (centro-esquerda). O economista Pavlos Eleftheriadis, membro do To Potami, faz uma virulenta denúncia da sua deriva nacionalista e anti-europeia. "Mais do que criticar a austeridade como um erro político, ele condena-a como um ataque à Grécia e como uma imposição neo-colonial."
Que se segue? Escrevia na sexta-feira o diário Ekathimerini: "O Syriza ganhou as eleições com um misto de promessas e fanfarronadas. Agora, para ter sucesso no governo, tem de pôr termo ao choque com os nossos credores, unificar o partido, unir os gregos e enfrentar os problemas que estão por resolver há longos anos. O partido de Tsipras tem do seu lado as esperanças da maioria dos gregos. É a sua força. Se o Syriza desperdiça este vento favorável, a esperança perdida transformar-se-á em desilusão e fúria."
Tsipras recusa-se a fazer o diagnóstico do "problema grego". Ou melhor, substituiu-o por um passe de magia: "a libertação nacional do jugo estrangeiro".
15/02/2015

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

«O Sol é grande»



A questão da velhice como algo irrecuperável no Homem, ao contrário da natureza que rejuvenesce em cada ano, já muitos o apontaram na desolação do sentimento do efémero, mas Vasco Pulido Valente justifica-o numa reflexão de impaciência e azedume contra uma sociedade de hipocrisia e demérito de actuação, no calor das suas efusões e contrassensos que não correspondem ao equilíbrio e racionalidade em que aparentemente viveu antes.
Direi que isso que ele sente, o sentem muitos, novos e velhos, pela desmesura mentecapta e  sensacionalista, perfidamente intriguista e manipuladora de opiniões de que a televisão portuguesa faz gala, quer nas explosões televisivas de certos acontecimentos, quer na exploração frequente das sensibilidades populares, quer no excesso encomiástico do herói nacional, quer na referência prolongada aos casos melodramáticos do quotidiano, quer na exposição abrutalhada de comezainas ou músicas ou danças populares, paradigmas da uma cultura de espalhafato e penúria mental. Pulido Valente o resume magistralmente, quer seja por motivos de envelhecimento, quer de enriquecimento racional imparável, quer, enfim, de distanciamento caprichoso e certeiro ao “indígena”. «Envelhecer» é o título do seu artigo do “Público”, de 8/2/15, onde sintetiza os sete primeiros casos do seu exaspero. Do seu desespero:

«Envelhecer»
«Crescentemente, quando vejo televisão (sobretudo os noticiários), este Portugal onde nasci e, mal ou bem, vivi setenta anos, me parece um sítio desconhecido e hostil, em que não posso continuar. Os velhos são assim e já Chateaubriand dizia: é muito duro envelhecer, mesmo se o mundo à nossa volta não muda ou muda pouco, mas muito mais duro é envelhecer num mundo que mudou. Precisava de um livro para explicar o que me irrita neste país novo da crise e da miséria e, como não tenho força e paciência para começar um livro, resolvi ir escrevendo sobre as coisas que me exasperam mais. Por exemplo:
1. A desvergonha com que a esquerda usa a desgraça dos portugueses como argumento político. Desemprego, impostos, salários ou, no dia-a-dia, urgências que não funcionam, o remédio para a hepatite C que não há, outro desconto ou proibição – tudo serve, não se percebe como, para demonstrar a enorme virtude do PS e a imensa maldade do governo. Nós bem fugimos desta ladainha. Só que ela nunca pára e não nos larga.
2. A multidão de salvadores da Pátria, que prometem o céu e que entretanto se juntam e separam, avançam e recuam, como se andassem num jogo de possessos sem sentido e sem fim. E que berram e se esgadanham por esses debates, despejando lugares-comuns com uma estranha importância e uma grande satisfação.
3. A maneira como o jornalismo gira à volta do desastre, do crime e da pequena história de “interesse humano”, numa altura em que Portugal e a Europa se desfazem.
4. A obsessão incrível e paradoxal com restaurantes, que abrem às centenas (apesar do IVA) e que se pretendem sempre pioneiros de uma especial cozinha ou de uma extraordinária ideia; e que têm na cave vinhos sem igual. Quem lá vai? A classe média que se destruiu, os banqueiros que faliram, os corruptos mascarados que esperam a sua hora?
5. A obsessão geral com o espectáculo; com qualquer sítio onde se juntam milhares de bípedes, saltando e pulando e muitas vezes guinchando, para seu contentamento e nossa aflição. Os “festivais” da carne, da fruta, do queijo, do enchido, do mexilhão, do doce regional ou nacional, da primeira coisa que dê para armar a tenda e ganhar uns tostões.
6. A futilidade da conversa sobre a economia, como se por aqui ainda não se percebesse que a economia não é uma ciência, é um capítulo da política.
7. A inferioridade que revela o culto de Ronaldo – nome obrigatoriamente precedido por o “melhor do mundo” – e o de uma dúzia de personagens menores que se tornaram “os melhores” de qualquer coisa ínfima ou gratuita.

Pedro Abrunhosa, por outros motivos, explodiria num “Não posso mais viver assim” de sensualidade primária embrulhada em expressivo ritmo e interpretação modernos. Vasco Pulido Valente merece-me, como homenagem de paralelo, no pessimismo e agudeza de engenho, o extraordinário soneto de Sá de Miranda:

O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas “mudaves”,
qual é tal coração que em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mistura,
também mudando-me eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O biberão



Tenho presentes três artigos sobre o braço de ferro entre o governo grego e aqueles a quem deve e pretende continuar a dever, criança mimada e permanentemente na infância, que só tem direito a receber. E os que lhe seguem a linha do atropelo, que eles acham heróica, de truques para não pagar, enfiam-se no mesmo princípio de mamada sôfrega da teta europeia, num balido que acham enternecedor.
São textos extensos, sobretudo o de José Manuel Fernandes, que acabei por transcrever na íntegra excepto o de António da Cunha Duarte Justo – publicado no “A Bem da Nação”, tem por título e subtítulo - «O UIVAR DOS LOBOS EM TORNO DA ACRÓPOLE- Em vão na Esperança do Zé do Telhado» e dele extraio os passos seguintes, o primeiro de crítica, o segundo de hipótese de solução:

…«Enquanto uma opinião pública coitadinha reagir como reage, as personalidades representantes das instituições continuarão a justificar a política de cúpulas de Bruxelas e a justificar grupos marginais que apostam em políticas de “Zé do Telhado”. Actualmente não é possível uma discussão objectiva porque cada pessoa investe demasiado capital na sua opinião. O aspecto positivo de que a Grécia se pode gloriar é ter chamado a atenção para a política unilateral da troika, uma política contra o povo e a favor das instituições.
Quanto à Grécia, a Alemanha tem de aceitar um compromisso podre porque se a Grécia saísse do Euro a Alemanha perderia os 60 mil milhões de Euros que lhe emprestou. Portugal emprestou 1,1 mil milhões de euros. De recordar que o perdão de metade da dívida grega em 2012 (de 100 mil milhões de euros), então nas mãos de privados, prejudicou bancos portugueses: o BCP e o BPI perderam então 590 milhões de euros. Por outro lado, os problemas das instituições bancárias são saldados com o dinheiro do contribuinte.
O problema do Euro vem das diferentes economias e diferente produtividade entre os diferentes países e regiões e da diferente distribuição das empresas produtivas. Um mesmo euro forte para todas as economias discrimina as economias mais fracas. Por isso, como alguns ecónomos defendem, os países com pouca competitividade deveriam ter ao mesmo tempo o euro e a moeda nacional (euro, dracma, etc.); deste modo, estes poderiam dar resposta às diferentes economias e concorrer com os países fortes porque teriam a moeda interna com que regulariam o mercado interno de maneira aferida ao país; deste modo quem quisesse consumir produtos importados teria de pagar muito mais e os países mais fortes teriam mais dificuldade em exportar porque os seus produtos seriam mais caros.»…

Do mesmo blog “A Bem da Nação”, o artigo de José Manuel Fernandes

ESTOU FARTO DO CHORADINHO DOS DESGRAÇADINHOS DOS GREGOS
Por José Manuel Fernandes - 14/2/2015

«Os problemas da Grécia não começam agora no Syriza nem acabarão com o Syriza. São problemas antigos, entranhados, que fazem do país um corpo cada vez mais estranho numa união monetária como o euro.
Escolho algumas frases quase ao acaso. Frases de uma espécie de “discurso único” sobre a Grécia em que esta é sempre apresentada como vítima. Vive-se “uma grave crise humana”, escreve-se na carta que 32 personalidades enviaram ao primeiro-ministro. E, claro, não há razão para qualquer “discurso punitivo”, a Grécia não tem culpa de nada. A chanceler Merkel, como sentenciou Mário Soares, é que a “responsável principal pela desgraça da Grécia “. Tudo por causa de “uma política destruidora”, explicou de seguida o professor Louçã, como agora é apresentado. E, também, por causa do “delírio especulativo” que criou “uma pilha de dívida”, algo que se aplica certamente a um país onde 80% da dívida é hoje detida pelos seus parceiros europeus, país que também paga as menores taxas de juro e até beneficia de um período de carência. Claro que tudo isto coincide e reforça o que Alexis Tsipras diz que sempre que tem um microfone pela frente: “devastaram o Estado” e “criaram uma enorme crise humanitária”. Quem o ouve diria que fala do Darfour.
Este discurso é cansativo e unilateral. Pode parecer muito piedoso, mas acabará por não ajudar a Grécia no longo prazo. E obscurece o tema que devíamos estar a debater: pode uma zona monetária com uma moeda como o euro fazer conviver no seu interior, sem constantes sobressaltos, crises e tensões, países tão diferentes como a Grécia e a Holanda, ou Portugal e a Finlândia?
É por isso que é importante contrariar este “discurso único” e, sobretudo, desmontar muitos dos mitos que o alimentam.

O primeiro mito é que a Grécia de hoje é a herdeira da Grécia da Antiguidade, a Grécia que devemos a nossa civilização e que inspirou a nossa democracia.
Esta ideia só muito parcialmente é verdadeira. A cultura grega clássica nasceu e cresceu numa região muito mais vasta do que a da Grécia actual. Basta pensar que, se de facto Sócrates, Platão ou Tucídides eram atenienses, Heródoto, o primeiro dos historiadores, era de Halicarnasso (hoje Bodrum, na Turquia); Arquimedes, o matemático, era de Siracusa, na Sícilia; Tales de Mileto, o primeiro filósofo ocidental de que se tem notícia, era de Mileto, hoje na Turquia; Heráclito, o “pai da dialéctica, era de Éfeso, igualmente na Turquia; Aristóteles era de Estagira, que fica hoje na Grécia mas que na época pertencia à Macedónia; Euclides, o “pai da geometria”, era de Alexandria, no Egipto; Pitágoras, o do célebre teorema, se nasceu na ilha grega de Samos, desenvolveu a sua escola em Crotona, uma povoação no sul de Itália; e por aí adiante.
Por outro lado, se pensarmos nas famosas sete maravilhas do mundo antigo, cinco deles pertencem indiscutivelmente ao mundo grego, mas dessas só duas, a Estátua de Zeus em Olimpo e o Colosso de Rodes, ficavam no que é a actual Grécia. Duas estavam no que é hoje a Turquia – o Templo de Ártemis em Éfeso e o Mausoléu de Halicarnasso – e a última no Egipto, o Farol de Alexandria.
A Grécia moderna tem menos de dois séculos, pois antes o seu território estava sob domínio otomano. Quando o país foi criado, havia uma tão radical ausência de ligação ao passado que foi preciso inventar uma família real. O nosso D. Pedro IV chegou a ser convidado para ser o primeiro rei da nova Grécia independente, mas como recusou o trono acabou por ser entregue a Otão da Baviera, filho de Luís I. Estávamos em 1832 e ele tinha apenas 18 anos.
A Grécia que hoje conhecemos nasceu assim por vontade das grandes potências europeias – Reino Unido, França e Rússia –, que a criaram na Conferência de Londres. Tudo para, algumas décadas passadas, voltar a perder a soberania, já que o país declarou bancarrota em 1983 (três anos depois de Portugal) e foi obrigado a ficar sob a tutela dos credores. Uma Comissão Financeira Internacional instalou-se em Atenas e passou a controlar directamente o orçamento de Estado. Era a troika desses tempos, mas com menos cerimónia e menos piedade: 10% da população acabou por emigrar.
A história lá prosseguiu, com momentos de glória e de tragédia, mais uma bancarrota em 1932, mas sempre com um traço distintivo, bem definido pelo historiador grego Nicolas Bloudanis: “na Grécia o Estado só funciona de forma intermitente”. Pior: “de cada vez que o Estado funcionou menos mal, tratava-se de um Estado autoritário onde as liberdades políticas e civis estavam limitadas. (…) Na memória colectiva grega o Estado é um Estado autoritário de que convém desconfiar”.
Foi este país que em 1974 saiu, tal como nós, de uma ditadura, mas que, ao contrário de nós, beneficiou desde o primeiro momento de uma espécie de “via rápida” para a adesão à então CEE. Alguns líderes dessa época, como o presidente francês Giscard d’Estaing, achavam que a Europa não seria Europa sem uma Grécia que viam como genuína herdeira da Grécia da Antiguidade Clássica. Foi ilusão que durou pouco tempo: fazendo jus à sua real natureza de país entre o balcânico e o levantino, a Grécia logo tratou de se opor à entrada de Portugal e Espanha, ameaçando com um veto que só foi ultrapassado quando Bruxelas enviou ainda mais dinheiro para Atenas. Um país solidário, portanto.

Não concordo, todavia, com o que afirma José Manuel Fernandes sobre o a herança grega como mito, apoiado na tese da vastidão dos espaços onde nasceram tantos ilustres, o que minimiza a importância da Grécia antiga. Parece-me sacrilégio, caso para se retomar Pessoa:

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.
Fernando Pessoa
 (Mensagem, 1934)

Discordo da tese, lembrando,« os olhos gregos», que foi neles que o Ocidente se espelhou, renascendo, como Fénix, em outras civilizações, a latina mais recuada, as ocidentais mais recentes, a própria “Pedra da Roseta”, contribuindo, nas alturas napoleónicas, para decifrar a escrita egípcia mais antiga, por aquela conter a tradução em grego do trecho escrito em demótico e em escrita hieroglífica, o que prova o vasto e antigo domínio da língua grega.
Esse facto deve estar na origem do proteccionismo europeu sobre a Grécia actual, mas não é justo nem honroso para a Grécia a trapalhada que criou e que os ocidentais sedentos absorvem, sem respeito por valores de honra ou brio.

 Leiamos a análise seguinte de José Manuel Fernandes:
«O segundo mito é que, se é verdade que os gregos cometeram erros e falsificaram as contas, toda a culpa da situação actual é dos alemães e das suas “políticas punitivas”
Não, não e não. Os gregos não cometeram apenas alguns erros que, com paciência e pedagogia, certamente ultrapassariam. Os gregos sempre actuaram de acordo com uma cultura política que pouco ou nada tem a ver com a da Europa Ocidental e, se algum erro maior fez a Europa, esse erro foi permitir a sua adesão à moeda única, fechando os olhos a todas as evidências e ao mais elementar bom-senso.
De facto não deve haver em nenhum outro país do euro hábitos políticos tão clientelares e nepotistas como os da Grécia. Durante décadas os dois principais partidos, o PASOK e Nova Democracia – que são também os dois principais responsáveis pela situação a que o país chegou –, como que pertenciam a duas famílias, os Caramanlis e os Papandreou. Mas não eram apenas os partidos que se estruturavam em torno de grandes famílias, o país também os seguia de acordo com o mesmo tipo de tradição. Como descrevia na época o mesmo Nicolas Bloudanis, na Grécia “não se votava por ideologia” – até porque verdadeiramente esses dois partidos pouco se diferenciam ideologicamente –, votava-se em função dos benefícios materiais (e dos empregos) que podiam ser distribuídos. O que nem sequer é demasiado estranho, pois se apesar de tudo os gregos não foram totalmente absorvidos pelos otomanos isso deveu-se à sua fidelidade a duas velhas tradições culturais: a rouspheti, ou dispensa recíproca de favores e de protecções, e a mesa, ou rede de contactos e conhecimentos. O terreno era pois propício ao suborno e à cunha.
A vitória do Syriza pode ter a virtude de quebrar, pelo menos em parte, estas lógicas ancestrais, lógicas que se entrelaçam com a corrupção e a fuga aos impostos. Mas, em contrapartida pode fazer regredir o pouco que, apesar de tudo, tinha evoluído na abertura da economia. Basta recordar que, antes do resgate, a Grécia mantinha centenas de empresas nacionalizadas na década de 1980, quando na Europa já se privatizava, o que fazia com que o Estado empregasse directamente 45% da população activa. O poder dos políticos gregos sempre se baseou muito na distribuição de sinecuras e convivia bem com sindicatos poderosos que tinham garantido que, nalgumas empresas do Estado, se chegassem a pagar-se 18, 20 ou mesmo 22 ordenados por ano. O número de funcionários públicos também era imenso: o dobro da média europeia em proporção da população. Para além disso, eram pagos acima da média: um relatório da OCDE anterior ao resgate indica-nos que um terço do total do dinheiro pago em salários em toda a economia grega era só para pagar aos funcionários públicos.
Se este era o quadro geral, todos nos recordamos da história dos 45 jardineiros que tratavam dos quatro arbustos de um dos hospitais públicos de Atenas. Ou do Instituto para a Protecção do Lago Kopais, um lago que está seco desde 1930. Ou de as filhas dos funcionários públicos falecidos enquanto estas ainda eram menores receberem uma pensão vitalícia.
E se o Estado gastava desta forma, e tinha mais funcionários do que qualquer outro, não foi preciso chegar a austeridade para não funcionar minimamente. Ainda hoje, por exemplo, entidades como a Transparency Internacional combatem situações como as que eram prática corrente nos hospitais, onde só com subornos se conseguia uma consulta a tempo e horas, e só com subornos muito maiores se chegava à mesa de operações. Era esse o sistema instituído e todos sabiam como ele funcionava.
Enquanto isto, não se pagavam impostos. Mais uma vez é famosa a história de os serviços tributários utilizarem helicópteros para localizarem as casas com piscinas para poderem cobrar a respectiva contribuição, mas é menos conhecido o facto de não existir na Grécia um registo cadastral minimamente funcional que permitisse, por exemplo, calcular um imposto equivalente ao IMI. Foi para tornear esse problema que esse imposto começou a ser cobrado com a conta da electricidade, uma decisão tomada no tempo da troika e que levou ao incumprimento e ao corte da luz a centenas de milhares de gregos.
Um Estado clientelar e gigante, uma economia dependente e corporativa, um sistema político nepotista e uma sociedade civil habituada á corrupção e à dependência: não é possível imaginar terreno mais fértil para, quando o dinheiro barato da moeda única começou a chegar, se terem cometido todos os excessos. Todos os nossos problemas, que eram e são muitos, são uma brincadeira de crianças ao lado dos gregos.
O terceiro mito é que foi o resgate que estrangulou a Grécia, fez crescer a sua dívida, uma dívida que agora é impagável.
Não há dúvida que quando a troika chegou a Atenas cometeu muitos erros de abordagem, alguns dos quais até corrigiria depois na Irlanda e em Portugal. Houve medidas de uma imensa brutalidade – basta recordar que enquanto em Portugal se preservou e até se actualizaram as pensões mais baixas, na Grécia nem prestações na casa dos 300 euros escaparam.
Mas essa é só uma parte da história. A outra é que nunca, desde a primeira hora, o governo grego, os políticos gregos, fizeram um real esforço para reformarem o seu país. Começavam sempre por dizer que “não é possível”, “não vai funcionar”, acabavam por ceder depois de culparem a Alemanha, e a seguir arrastavam os pés. No princípio chegou a acontecer ter havido um acordo para reduzir os salários dos funcionários públicos, uma condição imposta para a Grécia conseguir os primeiros empréstimos, a lei ter saído e depois, nas costas do ministro das Finanças, vários membros do Governo terem criado criaram novos suplementos remuneratórios que repunham os vencimentos anteriores. Muitas leis exigidas nos acordos também foram rapidamente aprovadas no parlamento para depois ficarem meses ou anos à espera dos decretos regulamentares. Para ver a ineficiência com que o programa foi aplicado basta lembrar que com dois resgates, mais quase dois anos de troika do que nós e um sector público muito maior do que o nosso, as receitas das privatizações gregas nem chegam a ser metade das conseguidas no nosso país.
Não surpreende assim que a espiral recessiva que tantos previram para o nosso país e que não se materializou, tenha na Grécia provocado uma queda de 25% do PIB. Mesmo assim é necessário colocar de novo as coisas em perspectiva: apesar dessa queda, o PIB per capita, em paridade de poder de compra, dos gregos é neste momento sensivelmente igual ao dos portugueses. O nosso salário mínimo também é menor do que o grego, e muito menor ficará se o Syriza levar por diante as suas intenções.
Tudo isto mostra que, se por lá a “catástrofe” é assim tão grande, não é por falta de riqueza, é pela conjugação de muitas destes factores de que tenho vindo a falar e que convenientemente são sempre esquecidos. Mais: na última reunião do Eurogrupo os ministros das Finanças da Eslováquia, da Eslovénia ou de Malta lembraram que mesmo sendo nos seus países, na altura, menor o PIB per capita, eles mesmo assim emprestaram dinheiro aos gregos. Já alguns ministros de antigos países do Leste recordaram a Varoufakis que aquilo que tinham emprestado correspondia ao que gastavam em subsídios de desemprego. 
Resta o argumento final: a dívida não é sustentável, pelo que a Grécia precisa ainda de mais ajuda (mais dinheiro) da Europa. Mais uma vez estamos perante uma “verdade mediática” que lida mal com a realidade dos factos. Primeiro, porque nenhum outro país do grupo dos que foram resgatados beneficiou até hoje de um perdão de dívida como a Grécia já teve. Foi em 2012, representou cerca de metade da dívida que estava então em mãos de privados e tirou do deve e haver da Grécia 100 mil milhões de euros, uma quantia que, se fossemos nós os beneficiados, nos aliviaria de muitas das nossas aflições. Nessa operação dois bancos portugueses, o BCP e o BPI, perderam 590 milhões de euros, dinheiro que fez muita falta ao financiamento da nossa economia.
Mas o ponto principal nem sequer é esse. A Grécia já tem condições muito melhores do que Portugal ou a Irlanda – prazos mais dilatados, melhores juros, carência no pagamento desses juros. O resultado é que enquanto nós, com uma dívida proporcionalmente muito mais baixa (127% do PIB contra 180%), pagamos o equivalente a 5% do PIB em juros, a Grécia pagará entre 2,5% e 3,6%. Ou seja, a dívida grega é maior mas pesa-lhes menos. E isso é que conta. Mais: não somos só nós que, proporcionalmente, suportamos uma carga de juros superior à dos gregos, os italianos e os irlandeses também estão na mesma situação.
O quarto e último mito é que, liberta (de novo) de parte da dívida, a Grécia voltaria a crescer, a ser próspera e, por isso, pagaria mais facilmente o remanescente dos empréstimos.
Não há nenhum político que não goste de ter dinheiro para gastar e distribuir. Não é preciso ter “consciência social”, basta querer ser reeleito. Por isso a simples ideia de que haveria mais dinheiro no orçamento porque passaria a haver menos dinheiro para pagar juros é muito tentadora. Já é muito menos evidente que isso induzisse um crescimento económico sustentável e é fácil ver porquê. Primeiro, temos a experiência do passado: dinheiro barato e abundante foi o que a Grécia teve até à crise de 2008, mas isso não deixou a sua economia mais forte e mais competitiva, bem pelo contrário. Depois, temos a evidência das reformas que ficaram pela metade, o que significa que a Grécia está muito longe de estar em condições para concorrer num mundo globalizado permanecendo, ao mesmo tempo, no colete-de-forças de uma moeda única. Finalmente, há o programa do Syriza, o possível retrocesso em algumas dessas reformas e o regresso a um passado próprio de uma economia fechada, protegida e ineficiente.
Um bom exemplo daquilo de que falamos é o que se passa no Porto do Pireu. Um terço foi privatizado e é hoje gerido por uma companhia chinesa. É eficiente, é um modelo de organização, tem cada vez mais movimento e faz cada vez mais negócio. Os outros dois terços continuam nas mãos do Estado – e dos sindicatos – e continuam a perder clientes e movimento, sendo um espaço sujo e por vezes degradado. Neste momento ninguém ainda percebeu se este pedaço do porto do Pireu vai acabar por ser privatizado, como estava previsto e parece ser vontade do ministro das Finanças, ou se tudo fica como está, como quer o ministro da Marinha.
A vitória do Syriza talvez mude alguma coisa na cultura de nepotismo que sempre dominou a política grega, pode ser que até consiga combater a corrupção com mais eficácia e até ser mais diligente no combate à evasão fiscal. Mas essa vitória não mudou a natureza da Grécia nem os seus hábitos culturais: só a perspectiva de que ia ganhar levou milhões de gregos a deixarem da pagar impostos, abrindo num só mês um buraco de 1,6 mil milhões de euros, buraco que tornou ainda mais difícil a vida ao Governo que depois elegeram.
É por estas e por outras – e por tudo o que distancia a Grécia de ser um país capaz de cumprir com as regras de uma união monetária – que não vejo forma de esta não voltar ao dracma, mais cedo ou mais tarde. Sendo que nestas coisas mais cedo costuma ser melhor do que mais tarde.»

Finalmente, o texto dos pontos nos ii, de Vasco Pulido Valente, «A “Europa” e os portugueses» (Público, 14/2/15), a lição de História a lembrar o falhanço da União Europeia que jamais poderia resultar, não só pelos desníveis de produtividade e de competências entre os povos que a formam, como porque, se as diferentes educações e diferente poder económico criam segregacionismos patentes até mesmo entre as camadas sociais de cada país, o que não sucederá com tais desníveis entre países de diferentes velocidades de progressão na marcha do tempo?

A “Europa” e os portugueses
Vasco Pulido Valente
«Quando se discute a Grécia, em Portugal ou na Finlândia, os gregos são tratados como se fossem uma extensão normal do “homem europeu”, que, evidentemente, nunca existiu. Nas querelas financeiras 1 é 1 e o resto não conta.
Desde sempre que, bem à francesa, a “construção” que a burocracia de Bruxelas promoveu foi abstracta e universalista. A realidade não interessava aos “pais” dessa utopia que se veio a chamar a “União”. Não distinguiam, nem queriam distinguir, entre um luterano da Turíngia e um ortodoxo de Salónica. Distribuíam direitos e deveres como se toda a gente entendesse os direitos da mesma maneira ou tomasse os deveres igualmente a sério. E o euro, além de ser um erro técnico (hoje reconhecido e lamentado), pela sua própria natureza ignora a diferença.
Ao princípio, depois das matanças de 1939-1945, não se falou do passado. Os franceses precisavam do carvão da Alemanha e a Alemanha não se importava de pagar os camponeses da França. Infelizmente, a combinação não se ficou, como propunha o livre câmbio da Inglaterra, num “mercado comum”. Pouco a pouco um entendimento de pura mercearia acabou por se transformar na utopia da Europa política, exemplo para o mundo e grande potência. A Grécia vivera desde o século XV ao século XIX no império turco; a Itália até quase ao fim do século XIX era parte do Império austríaco, parte do Papa e parte dos Bourbons- Sicília, que tranquilamente continuavam no século XIX; a Alemanha nasceu em 1870; Portugal e Espanha só saíram das ditaduras de Franco e de Salazar em 1974-1976. Mas que importavam a cultura e a história? No grande saco de Bruxelas cabia fosse quem fosse, lambuzado de uma retórica vácua e de mão estendida à caridade do próximo.
A “solidariedade” da “Europa”, que hoje se invoca, não se manifestou em mais do que alguns subsídios relutantes, em troca de uma arregimentação que ninguém pedira ou agradecia. Quando agora os portugueses discutem com exaltação se devem ou não devem apoiar a Grécia ou juram candidamente reformar a União, não se lembram, como de costume, que o seu peso é nulo e, pior ainda, que a “Europa” é irreformável. Não há nada que a una; e o caos não se regenera por si próprio. Se a Alemanha manda, manda pelo poder inequívoco do dinheiro. E se a Alemanha não mandar, nem a sombra da utopia se salva.»