terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

PPF




Um artigo de Henrique Monteiro, do Expresso de 30/1, já obsoleto, mas que guardo, como mais um elemento de síntese histórica importante destes tempos, na sua análise de um homem e de um país que o aceita, colaborando na falcatrua. Quanto à questão sobre a vitória de Marcelo favorecedora de Costa, eu não tenho dúvidas disso. Com Passos Coelho, ambos andariam às turras, Marcelo, pródigo em cordialidade e rodopio cumprimentador, Passos mais reservado nos afectos, no seu propósito de recauchutagem primeira, em função de uma honestidade inexplicavelmente rebatida pelos arautos do arrecada e segue, à custa do alheio. Com Costa, não me custa a crer nas cedências de Marcelo a esse e aos seus e suas compinchas, já que todos esses, ao usurparem um lugar que lhes não pertencia, alinham no mesmo princípio do sem escrúpulo no pagamento das dívidas do país, coisa de somenos. A verdade é que o partido socialista ajudou a empurrar Costa para o lugar onde está, e com esse, outros do grupo. João Soares, por exemplo, que não deixa os créditos paternos por mãos alheias, aí está a eleger um filho seu para um cargo bom, como ele próprio também se reservou para si, com a elevação de Costa. Que ele, João, tão bem defende, tal como o sr. Joãozinho das Perdizes lutava pelo seu, nos tempos de Madalena, a Morgadinha dos Canaviais. Ou mesmo os Gouvarinhos das tiradas convencionais esclarecedoras e roupa interior lavada e de bom preço.
Sampaio da Nóvoa já foi, e ainda bem, que razoável Gouvarinho também deveria vir a ser, no caso de ter  sido. Eleito, quero dizer. Mas já habemus papam. Um dia, Tino de Rans também terá oportunidade, que todos trabalhamos para o estilo Palma Cavalão, da sua especialidade.
PPF. Passado, Presente, Futuro. Ou Perdeu Por Faltas,  tanto faz, que as nossas siglas são inexpressivas. E ambíguas.

Há três derrotas a vencer                                                                      
Henrique Monteiro
Expresso, 30/1/16
Já é preciso um certo esforço de memória para nos lembrarmos de que António Costa se candidatou a líder do PS por entender que as "vitórias" da anterior liderança eram 'poucochinho'. Mais lembrança é ainda necessária para recordar que, desde que chegou a líder, o PS averbou três derrotas: Madeira, Legislativas e Presidenciais.
 Foi deste modo que, tendo perdido as eleições para o Parlamento que, em princípio estavam ao seu alcance, arranjou forma de ser primeiro ministro.
Por cá, estar no poder é sempre uma vantagem. Contribuem muitas coisas para isso, incluindo nós, jornalistas, e a comunicação social. Assim sendo, é normal que tenham surgido as inteligentes teses de que a vitória de Marcelo  nas presidenciais foi, igualmente, uma vitória de Costa. Não nego, pelo contrário, escrevi-o, que Sampaio da Nóvoa seria o pior Presidente que o primeiro-ministro poderia ter (a menos que ele esteja mesmo convicto de que o caminho certo é o que leva). Mas daí a ver na vitória do adversário, com o consequente definhamento do seu próprio partido (nas presidenciais andou pelos 28%) uma vitória, vai um passo gigantesco.
As trapalhadas em que se mete para reverter as medidas em que o PS, por si só, jamais mexeria, estão a dar as previsíveis complicações. “Falar grosso” à Europa sabe-se que não passa de propaganda.
Mas, atenção, a propaganda é da melhor. Não tenho memória de um líder com três derrotas consecutivas continuar como líder, e ainda para mais primeiro ministro.
Se a minha crença desse para tanto, diria que é um desígnio de Deus.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Ridendo purgat mores



O meu filho Ricardo, já o tenho dito, de vez em quando envia-me emails que deve receber de pessoas como ele – “desconstrutivas” – que, preferindo não levar a vida muito a sério, se divertem inventando graças, por vezes sobre os raciocínios disparatados ou malandros de uma população finória, caso do texto seguinte,  que li a rir, e guardo para outras horas de descompressão:

CARTA DE UMA MÃE ALENTEJANA

Mê querido filho,
Ponho-te estas poucas linhas que é para saberes que tôu viva.
Escrevo devagar porque sei que não gostas de ler depressa. 
Se receberes esta carta, é porque chegou. 
Se ela não chegar, avisa-me que eu mando outra.

O tê pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorrem a 1 km de casa. Por isso, mudámo-nos pra mais longe.

Sobre o casaco que querias, o tê tio disse que seria muito caro mandar-te pelo correio por causa dos botões de ferro que pesam muito. Assim, arranquei os botões e meti-os no bolso. Quando chegar aí prega-os de novo.

No outro dia, houve uma explosão na botija de gás aqui na cozinha. O pai e eu fomos atirados pelo ar e caímos fora de casa. Que emoção: foi a primeira vez, em muitos anos que o tê pai e eu saímos juntos.

Sobre o nosso cão, o Joli, anteontem foi atropelado e tiveram de lhe cortar o rabo, por isso toma cuidado quando atravessares a rua.

Na semana passada, o médico veio visitar-me e colocou na minha boca um tubo de vidro. Disse para ficar com ele por duas horas sem falar. O tê Pai ofereceu-se para comprar o tubo.

A tua irmã Maria vai ser mãe, mas ainda não sabemos se é menino ou menina.
Portanto, nã sei se vais ser tio ou tia.

O tê mano Antóino deu-me hoje muito trabalho. Fechou o carro e deixou as chaves lá dentro. Tive de ir a casa, pegar a suplente para a abrir. Por sorte, cheguei antes de começar a chuva, pois a capota estava aberta.

Se vires o Sr. Adelino, diz-lhe que mando lembranças. Se nã o vires, nã lhe digas nada.

Tua Mãe Mariana

PS: Era para te mandar os 100 euros que me pediste, mas quando me lembrei já tinha fechado o envelope.
DESCULPA a minha lêtra, mas eu tenho andado muito rouca.

Volteios, tortuosidades



Dois artigos de Vasco Pulido Valente - sobre a crise na governação, o primeiro, o segundo, sobre Passos Coelho. O primeiro, no festival de troça que agora virou de direcção, mais incisiva sobre o governo da autodesignada legitimidade, é corroborado, na mesma última página, por uma asserção de O INIMIGO PÚBLICO sobre uma confusão da Comissão Europeia a respeito de Centeno – de expressivo retrato figurando em interior de moeda: «Comissão Europeia pensava que Centeno era uma unidade em português», e daí que também o “Escrito na Pedra” da mesma página lhe assente que nem luva, o que não é de estranhar, pois se trata de um pensamento do físico genial Albert Einstein (1879/1955): «A descoberta não é afectada pelo raciocínio lógico, apesar de o produto final estar associado a uma forma lógica».
Assim, tanto o pensamento irreverente do «Escrito na Pedra» sobre o ministro das Finanças de António Costa, como a dedução sobre a lógica da conclusão, mesmo sem grande pretensão de verdade argumentativa, justificam o pessimismo do primeiro escrito de Pulido Valente a respeito da “trapalhada financeira portuguesa”, com antecedentes de séculos passados já descritos por exímios manobradores da língua portuguesa, que será o que nos pode restar, numa conjectura sem expectativa de melhoria, em que os que pretendem remendar parecem fazê-lo, no meio da agonia geral, sobretudo em desesperada tentativa de sobrevivência pessoal. Daí a proposta de Pulido Valente, de rotativismo na alternância do poder, como já acontecera no século XIX, dos dois partidos principais de então – Regeneradores e Progressistas. Os de hoje, PS e PSD, bem os podem imitar, (os da esquerda acomodados às suas câmaras) – para tudo seguir mais tranquilamente, pois no “mistério” da nossa história desde longa data, o povo se acomoda a cada novo governo, como já informava João de Deus no seu epigrama “Eleições”:
Há entre el-rei e o povo
Por certo um acordo eterno:
Forma el-rei governo novo,
Logo o povo é do governo
Por aquele acordo eterno
Que há entre el-rei e o povo.
Graças a esta harmonia,
Que é realmente um mistério,
Havendo tantas facções,
O governo, o ministério
Ganha sempre as eleições
Por enorme maioria!
Havendo tantas facções,
É realmente um mistério!
Mas de facto, não será assim hoje. A conclusão de Pulido Valente - «Se o PS e o PSD alternassem pacificamente no poder, a pobreza da Pátria não os deixaria fazer muito mal, nem muito bem. E o PCP que lá se divertisse com as suas Câmaras do Alentejo e os seus sindicatos, na paz que se deve à velhice.» - nem de longe parece ser passível de execução, o povo que o PCP manipula – não direi mais politizado, mas mais “livre” - há muito que deixou de respeitar os sucessivos governos. Ao PCP não interessa a estabilidade pátria, ele não se diverte apenas nas suas Câmaras, e sem estabilidade, na contínua recreação das greves, nenhum governo pode governar bem, a miséria aumentando, que a instabilidade contribui para acentuar.
Quanto ao artigo sobre Passos Coelho, eu continuo a acreditar nos seus princípios patrióticos como base da sua participação. E espero nele, após a cambalhota… que desejo que se não dê.

Vasco Pulido Valente

O dr. Centeno (e com ele o governo de Costa) parece um maníaco daqueles que mudam o dinheiro de bolso na esperança de que ele cresça. Ainda se houvesse dinheiro suficiente para ficar algum nos bolsos menos fundos, o exercício podia ter um mérito. Mas não há e, no fim do dia, acaba tudo na miséria do costume. Quem conhece a história do Portugal da “Regeneração”, o regime mais comparável ao deste de agora, sabe que a dívida e a trapalhada financeira sempre foram uma das mais nobres características da raça. E quem se quiser rir com as nossas mentiras públicas que leia Ramalho e um bocadinho de Eça. São os dois mais pertinentes do que a retórica por aí anda em curso, tanto a dos cavalheiros que fazem contas, como a dos que não fazem. De resto, no tempo deles, de quando em quando, ainda se escrevia português.
De qualquer maneira, a aventura de Costa e dos seus sócios serviu para revelar uma verdade básica: a III República deixou de ter partidos. Tem uns bandos que andam à procura de um emprego ou de popularidade; e tem um museu de Arte Antiga que se chama Partido Comunista Português. As diferenças não passam do seguinte: a esquerda quer aliviar os pobres, por meio de um aumento ridículo do respectivo rendimento; a direita quer tirar aos pobres meia dúzia de tostões mais, para “consolidar as finanças” e contentar os ricos. Infelizmente, nem à esquerda, nem à direita se vêem os meios das políticas que prometeram. E, pior do que isso, Portugal por um lado e a “Europa” por outro não permitem que elas sejam levadas muito a sério ou muito longe. Em substância, sobra odium theologicum, que esse, pelo menos, não falta.
O PS vive hoje na incompreensível ilusão de que é, ou se prepara para ser, um partido radical. O PSD, segundo Passos Coelho, é um partido social-democrata, apenas desviado provisoriamente do seu caminho pela maldade do mundo. Suponhamos que existia um método qualquer, com certeza esotérico, para separar estas magníficas visões da humanidade, a oposição entre elas não justificava com certeza as questiúnculas com que a televisão e a imprensa nos moem o juízo. E a prova está em que acabou por ser preciso arranjar umas tantas querelas dúbias como a TAP ou a eutanásia, para tapar os buracos que a política começava a abrir. Se o PS e o PSD alternassem pacificamente no poder, a pobreza da Pátria não os deixaria fazer muito mal, nem muito bem. E o PCP que lá se divertisse com as suas Câmaras do Alentejo e os seus sindicatos, na paz que se deve à velhice.

Pedro Passos Coelho
Vasco Pulido Valente
Público, 21/2/16

Quando Pedro Passos Coelho se declarou um social-democrata de “sempre” e para “sempre” apagou a obstinação, a coragem e a clarividência com que governou durante quatro anos. Nada o desculpa. Principalmente não o desculpa que este estranhíssimo regresso ao passado tenha sido provocado pela necessidade táctica de conciliar ou, pelo menos, de calar a “esquerda” do partido, que desde 2011 se juntou à oposição e lhe fez todo o mal que pôde. Esta reviravolta de Passos Coelho é tanto mais desgraçada quanto a social-democracia deixou de fazer sentido e que hoje se limita à defesa da democracia e do Estado Social, duas coisas que em Portugal não estão ou estarão em risco num futuro previsível e que ao fim de 40 anos já não entusiasmam seja quem for.
Não se percebe o que pretende Passos Coelho. Aumentar os serviços que o Estado hoje presta aos cidadãos? Aumentar a área da sociedade que depende do Estado ou que o Estado regula? Afogar o que ainda resta de autonomia e de iniciativa num país mendigo e miserável? Porque se é isto que esconde a palavra “social-democracia”, há uma pequena coisa a dizer: o dr. António Costa e a extrema-esquerda são sem dúvida muito mais competentes para essa empreitada. Basta ouvir Catarina Martins ou Jerónimo da Sousa, que não abrem a boca sem sugerir que se gastem milhões sobre de euros, para promover a boa moral e a felicidade do povo. Para que se vai meter o PSD (e, por arrasto, o CDS) na feira demagógica para onde o PS nos conseguiu empurrar? Para chegar aonde?
Claro que a política portuguesa vive na iminência de eleições antecipadas. O Bloco, por exemplo, fala em 2017; e o PC, mais sombrio, até em 2016. Não me custa a acreditar que Passos Coelho acabasse por sofrer a influência da ralé partidária, que só pensa em ir para o “governo” o mais rapidamente possível e de qualquer maneira. E também, porque a conheço desde 1978, não me custa a acreditar que a dita ralé pense que leva a sua avante com um pouco de populismo, sob o nome absurdo de “social-democracia”. Cabe a Passos Coelho resistir a estas fantasias (para não lhes dar o nome que merecem) e preparar um plano para a direita ou, por outras palavras, para todo a gente à direita do PS. Se se confundir com a turva onda em que se tornou a antiga coligação CDS-PSD será mau para ele. E para nós.