segunda-feira, 28 de setembro de 2015

«A febre de sábado à noite», em metáfora



Dois artigos a não perder – de Vasco Pulido Valente e de Alberto Gonçalves – que procuram servir de alerta  às consciências de um país que se digladia em ira contra o Governo, em falso entusiasmo por um ridículo PS, a socorrer-se de truques e de apoio nos anciãos que procuram vir à baila da notoriedade, mais pelo seu passado “democrático” do que no desejo de salvar o presente de que muitos desses “passados” são responsáveis, que todos comeram na gamela do aproveitamento pessoal. Um país que passeia  a sua má criação acentuada através também das moças do estilo Louçã, quer a soturna Mortágua quer a maternal Martins, senhoras do seu ódio, da sua demagogia, merecedores do culto paroleiro ou simplesmente juvenil nacional, porque jovens ainda, podendo seduzir com os seus discursos de serenidade e bonomia aparentes, sem tanto espumar viperino do estilo do seu antecessor, mas certeiro na penúria da argumentação assestada para o bota-abaixo do radicalismo unilateral, que se me desculpe a redundância:

Há milagres?
Público, 27/09/2015
O espectáculo da campanha já não se aguenta. Não deve haver ninguém em Portugal inteiro que não esteja farto de abraços, de frases, de jantares e dessa inovação que se destina a caçar à má-fé o cidadão desprevenido e que se chama “arruada”. Nenhum dos políticos que por aí se mostram diz nada que possa remotamente interessar ao país. Só varia o tom.
Passos Coelho exibe a sua voz doce com uma inacreditável paciência. Costa passou do estilo Messias para uma agressividade crescente e crescentemente disparatada. Esta semana foi buscar o BPN e o negócio dos submarinos (que tem 20 anos). Por que não os crimes de Calígula ou os pecados de Salazar? Ele grita, ele ameaça, ele promete e até dá pulinhos de entusiasmo como um índio para convocar o espírito da guerra.
Entretanto, caso muito estranho, as conferências de peritos na televisão discutem ardorosamente as razões por que ele vai perder. Estão a pôr as barbas de molho? Acreditam mesmo que percebem Costa e o seu bando? O próprio Costa acredita ou dá a impressão de acreditar. Um dia declara que não tenciona aprovar o orçamento da coligação (que ele, de resto, não conhece). No dia seguinte, anuncia que impedirá um eventual governo da direita, porque ele é o único homem capaz de criar um consenso nacional e garantir a estabilidade. Não se sabe se trouxe estas manias da Câmara de Lisboa ou se o ataque de nervos foi recente. Mas muita gente abre a boca de espanto com estas novas pretensões do homem que dividiu o PS e laboriosamente se afastou da esquerda radical com um grosso programa, que dez sábios lhe fabricaram por amor.
Seja como for, os seus fiéis lamentam que ele, a última esperança antes do desastre, ande tão sozinho. Os novos “barões” do partido (que o país nunca viu) aparecem pouco e não se recomendam. Os velhos ficam em casa. E foi preciso ir buscar ao fundo do saco antiguidades como Basílio Horta, que dois terços dos portugueses julgam que viveu na 1ª dinastia. E, no entanto, o PS persiste em transportar de autocarro a grande “base” do partido, para eleger o taumaturgo que irá resolver os problemas da Pátria com a facilidade com que o CSI descobre o assassino. É facto que ele não explica como e que não se vê no PS nenhuma tendência para o salvar das feras. Mas, de quando em quando, há milagres.

Oito pecados de campanha
por ALBERTO GONÇALVES,
DN, 27/9/15

Currículos
Dos submarinos à "roubalheira" do BPN, passando pelo "buraco gigantesco" do Novo Banco que o programa do PS "acomodará" sem dramas, as notícias das sondagens levaram o Dr. Costa a investir na sofisticação dos argumentos. Mas nenhum vence o de acusar Passos Coelho de passar por empresas "de objecto social obscuro". É justo, dado que o Dr. Costa passou a vida inteira numa empresa cujo "objecto social" é claríssimo: o PS, especializado em estrafegar as contas públicas e deixar-nos a factura. Também por isso é ridículo sugerir que o desespero das "saídas" profissionais orienta a campanha do homem. Desde que os amigos de Sócrates e os amigos de Seguro sofram de amnésia, o Dr. Costa tem o futuro garantido. E ainda há a Quadratura do Círculo.
Economia
Mais engraçado do que o esforço de certos media para esconder os sinais de (alguma, sosseguem) recuperação económica só o desgosto da oposição ao recebê-los. Antes, o aumento do desemprego, a subida da dívida, as quedas no rating e o tombo das exportações provavam o advento do Apocalipse. Agora, as tendências inversas ou não existem ou não contam ou não são credíveis. Típico: nada ofende tanto um "activista" contra a pobreza quanto um novo-rico. Ou um ex- pobre.
Empates
Por obra e graça da licenciatura que em embaraçosos tempos adquiri (com nota 19 a Estatística, lindo menino), sei o que é uma margem de erro e um intervalo de confiança. Até o teste do chi-quadrado me é familiar. Mas não é preciso um curso para estranhar que os comentários às sondagens insistam tanto na questão do "empate técnico". Claro que, tecnicamente, o tal empate é plausível: tão plausível quanto, em certos casos, a maioria absoluta da coligação, cuja possibilidade ninguém refere. É o velho tique de confundir a análise com o desejo. E o velhíssimo problema do enviesamento na amostra dos analistas, a que o jargão do ramo também chama excentricidade. É uma palavra adequada.
Governo
Por hábito e preguiça, todos se queixam do que se discute na campanha. Ninguém se preocupa com o que a campanha discute. Um governo? Não parece. À "direita", a coligação só se aguentaria com uma maioria parlamentar que hoje se mostra improvável. À esquerda, o PS só alcançará a maioria mediante posteriores acordos, alianças ou fusões com os dois partidos comunistas. Entre a balbúrdia e a demência, nada do que sair do 4 de Outubro promete ir muito além dos seis meses da lei. Por isso, é preciso calma: no fundo, as "eleições mais importantes da história da democracia" contam pouco. Em Abril ou Maio, se o que aí vem não for de fugir entretanto, cá estaremos.
Metáforas
Apesar de a CNE considerar tratar-se de uma metáfora, o PCTP removeu os cartazes que berravam "Morte aos traidores!". É pena, e mais um passo na legitimação da hipocrisia reinante. Afinal, o PCTP era o único partido comunista com a sinceridade suficiente para confessar, ainda que metaforicamente, o desejo de tantos: matar os "traidores", leia-se os lacaios do capital, a burguesia, nós todos. Serve de consolo o facto de a retirada dos cartazes não significar o fim da ambição que move aquele bando de potenciais assassinos (metáfora). Nem da carreira do respectivo chefe, um sujeito com ar de quem não toma banho desde 1973 (metáfora) que, em países exóticos, passa por advogado (metáfora).
Revelações
Numa almoçarada do Bloco, Catarina Martins afirmou, com alarme, que a escola pública nunca começou tão tarde quanto agora. Jura? Antes da adesão à CEE, e da mania de que a modernidade consiste em encarcerar fedelhos, o ano lectivo começava sem excepções em Outubro. À força de repetir mentiras assim desastradas, a Dra. Catarina subiu a "revelação da campanha". A política caseira beneficia de imensas "revelações". Por acaso, são quase sempre do Bloco de Esquerda (há meses, a revelação era a filha de Camilo Mortágua), e raramente produzem uma afirmação que sobreviva ao escrutínio da realidade. Os jornalistas e comentadores que atribuem a distinção saberão explicar o primeiro facto, embora não convenha questioná-los sobre o segundo.
Rua
É na "rua", no "contacto directo com o eleitorado", que os líderes políticos "sentem" que a sua "mensagem" está "a chegar às pessoas". Não importa se as pessoas são cinco transeuntes incomodados pela interpelação dos senhores do Livre ou uma excursão de tristes, com autocarro e merenda, paga pela junta de freguesia vizinha para abrilhantar as recepções ao Dr. Costa ou ao Dr. Passos. Os líderes ouvem gritar o seu nome e, naturalmente, fingem concluir que o povo os venera com zelo. Alguns, os chamados casos perdidos, começam a acreditar de facto.
Sócrates
Todos garantiam que, sobretudo depois de ser transladado para casa, José Sócrates influenciaria decisivamente a campanha. Até ver, surgiu sob a forma de exemplo a evitar no primeiro debate entre Passos e Costa, e, em fotografia anónima, num pastiche da Última Ceia. Não é impressionante: é o possível de alguém que, sob o aplauso de oportunistas, julgou ter a importância que nunca teve. E é, se não me engano, o estertor de um morto político. Claro que Sócrates ainda vai a tempo de aparecer, com auréola e pizza, à janela da Rua Abade de Faria ou em desabafos na imprensa. Mas já será o recurso cenográfico de um zombie.

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