Dois artigos de opiniões opostas transcrevo do
Público de 26/3, sobre o caso Dilma/Lula, que tem pintalgado as páginas dos
jornais, deixando boquiaberto de estupefacção quem ainda se deixe influenciar por inúteis
pruridos de natural vergonha. E lembramos o Carnaval brasileiro, de pujante e
colorido bambolear de corpos nas ruas de Copacabana, admirando a beleza dos
trajes, e a firmeza e denguice das pernas, prometendo vitalidade e continuidade
de um povo amante de diversão e vivendo-a com tanta garra. Entretanto, no
segredo dos deuses e no meio da sua selva, os homens do governo aplicam-se a
recriar os seus próprios bailados enredados em ambições lucrativas. De igual
pujança, desprezando o povo, em proveito próprio. Mas o povo habituado ao sambódromo
aí está participando, em espalhafato, manipulado por estes ou aqueles,
divertindo-se em carnaval constante, que os da rede ambiciosa fazem mover a seu
gosto. E no seu próprio interesse, é claro.
Corrupção
é corrupção. Ponto final. Parágrafo
26/03/2016 - 00:25
É bonito! É até querido! É mesmo comovente constatar tanta
camaradagem, tanta solidariedade para com correligionários e camaradas. Mas há
momentos em que o excesso de ingenuidade em política parece mais compadrio mal
disfarçado de cegueira política. E quando isso acontece, o que resta é apenas
indignação com tanto despudor.
E
é de indignação o único sentimento que é possível sentir quando se observa a
reacção que o PCP, a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, e o ex-líder
Francisco Louçã tiveram perante a decisão da Presidente do Brasil, Dilma
Rousseff, de empossar o seu antecessor, Lula da Silva, como seu ministro, para
que este ganhasse direito a ser apenas julgado pelo Supremo Tribunal Federal do
Brasil — o equivalente ao Tribunal Constitucional português — e assim evitar a
possibilidade da sua iminente prisão preventiva no âmbito da operação Lava-Jato.
Não
interessa sequer discutir se as acusações criminais a Lula da Silva são ou não
verdadeiras. Cabe à Justiça brasileira investigar, provar e punir. O que é
facto é que há uma vasta quantidade de políticos brasileiros, dirigentes de
vários partidos, governantes, deputados, senadores que foram ou estão a ser
investigados por práticas de corrupção. Os casos são vários e vão do Mensalão
ao Lava-Jato. Há várias investigações autónomas em curso, sendo que Lula da
Silva é referido ou investigado em quatro. É um facto que o juiz Sérgio Moro
extrapolou os limites do cargo ao divulgar escutas que devem ficar em sigilo.
Mas isso em nada invalida que ele seja uma figura determinante pela coragem que
tem demonstrado na investigação Lava-Jato. E por outro lado é bom salientar que
ele não é o único juiz que investiga a corrupção na política brasileira.
É
também uma evidência que é uma habilidade política de quem se acha impune e
acima do Estado de direito democrático optar, como a Presidente Dilma Rousseff
fez, por dar posse ao seu antecessor, como ministro do seu Governo, com o
objectivo evidente de que este ganhasse o privilégio de só poder ser
investigado pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro. É uma forma de abuso do
poder em que Dilma Rousseff pôs em causa o respeito que os ocupantes dos órgãos
de soberania democráticos devem uns aos outros.
É
bom recordar que, no Estado de direito democrático, os órgãos de soberania são
os órgãos de poder político — os presidentes, os parlamentos e os governos —,
mas são-no também os tribunais. E que é do equilíbrio de poderes entre estes
três órgãos que vive a democracia. Como é bom referir que, no Estado de direito
democrático, a Justiça tem de ser autónoma e operante, sem medo do poder
político e independente deste. Mais: uma das diferenças entre democracia e
ditadura é precisamente a existência nesta última de uma Justiça discricionária
exercida por um poder político que não reconhece autonomia aos tribunais. Assim
como tem de ser dito que numa democracia é essencial a existência de liberdade
de imprensa e de um jornalismo livre que exerça a sua função de escrutinar o
poder político.
Isto
tudo vem a propósito da indignação de ver parte da esquerda portuguesa a
relativizar o que se passa no Brasil e a fazer de Dilma Rousseff e de Lula da
Silva vítimas de tenebrosas conspirações de juízes e jornalistas.
Seria ridículo se não fosse grave ler o comunicado do PCP em que é dito que "os
recentes desenvolvimentos no Brasil não podem ser desligados do aprofundamento
da crise do capitalismo", que no Brasil "os seus sectores mais
retrógrados e antidemocráticos promovem uma intensa operação de
desestabilização e de cariz golpista", que agem "por via da
instrumentalização do poder judicial e da acção de órgãos de comunicação
social", para uma "acção de desestabilização indissociável do
conjunto de manobras de ingerência promovidas pelos Estados Unidos".
Mas
igualmente grave é a declaração feita por Catarina Martins de que a
acção da Justiça brasileira é um "golpe de Estado do século XXI",
acusando "um poder judicial, com órgãos de comunicação social, que está a
agir fora do Estado de direito". Ou a relativização feita por Louçã na
SIC, em que tentou reduzir ao ridículo as investigações.
Será
que Louçã quer fazer de conta que acha que todos nós acreditamos que ele
acredita que os indícios conhecidos sobre Lula são tão-só a ida uma vez a uma
casa que pensou comprar e não comprou? Considera Louçã que nós acreditamos que
ele acredita que é apenas por causa de um juiz que é teimoso e persegue Lula
que este está a ser investigado? Será que Jerónimo de Sousa e a restante
direcção do PCP acreditam mesmo que nós acreditamos que eles acreditam que o
que está em causa é um ataque do capitalismo e dos Estados Unidos a um líder de
esquerda?
Minhas
senhoras e meus senhores, corrupção é corrupção. Ponto final. Parágrafo.
Leiamos
então o ponto de vista de um dos representantes dessa esquerda unida pelos nossos
nobres ideais de Abril:
Brasil: um golpe de Estado em transmissão directa
Francisco Louçã
Público, 22/3/2016
Assistimos no Brasil a
um golpe de Estado em transmissão directa, por vezes em câmara lenta, outras em
aceleração frenética. É assim que se procede no século XXI: em vez de tanques
nas ruas, tudo começa com um juiz que quer derrubar um governo, declarando
guerra ao princípio da soberania democrática. É golpe curto, bem sei, prender
para eliminar politicamente e depois deixar as coisas seguirem o seu destino.
O juiz é um poder, certamente
um poder especial pois ignora a proclamada separação de poderes e actua fora da
lei, mas é um poder que pode tudo, pois não será corrigido em tempo útil, se é
que alguma vez o será. O mal está feito, a desconfiança semeada, o pânico nas
ruas, só não sabemos como vai prosseguir a saga.
Começou com a primeira
detenção de Lula que era ilegal, e era mesmo. Depois, a escuta será ilegal, e
é, a sua divulgação um crime, e é, a escuta abrangia todos os advogados de um
escritório, e isso é delirantemente ilegal, o juiz é suspeito de intuito
partidário, e não o esconde, a própria perseguição e o pedido de prisão
preventiva não têm fundamento legal, e não têm mesmo, mas o juiz é um poder
inexpugnável e por isso pode desencadear uma tempestade. Segundo Marco Aurélio
Mello, Juiz do Supremo Tribunal Federal, referindo-se a Sérgio Moro, o
magistrado que desencadeou as primeiras salvas do golpe, “ele simplesmente
deixou de lado a Lei”.
Precipitado pelos
magistrados golpistas, a manobra decide-se por estes dias no balanceamento dos
movimentos da opinião pública, na ocupação da rua, nos ajustes de contas
partidários e sobretudo na corrida contra o tempo. O que é certo é que nunca
tínhamos visto um golpe de Estado assim: no Brasil, em 1964, no Chile, em 1973,
na Argentina, em 1976, foi com baionetas que a ditadura avançou e não com
sentenças ou acusações judiciais. Este novo tipo de golpe é mais eficaz,
mobiliza a dúvida e espalha os ódios, disputa a aceitação e mesmo a
participação de parte da população, ocupa o terreno do simbólico, que é a sede
da política. Esta técnica de golpe de Estado neutraliza a argumentação e assim
exclui a razão, porque se baseia na hegemonia afirmada de um poder supremo e
imune à democracia. O César é o juiz, que se apresenta como um pai
moralizador ou como o braço da vingança divina. Ele é o poder que pode tudo e
por isso dispensa uma ditadura, se o choque e pavor tiverem como consequência a
destruição eleitoral dos seus adversários, e neste caso a decapitação política
de Lula, o mais temido candidato a re-presidente. O golpe tem este
objectivo preciso: prender Lula, seja com que pretexto for.
Esta farsa grotesca,
este golpe, havemos de convir que foi preparado ao longo de muito tempo. Havia
esse ódio de classe contra Lula, um torneiro mecânico feito grande do país,
havia o medo social das elites urbanas contra a massa popular em cidades de
quinze milhões de habitantes, havia a raiva de latifundiários contra os
sem-terra, havia as listas de sindicalistas a assassinar, tudo se foi
conjugando para estes dias de chumbo.
Mas, ainda assim, mesmo
com tanto ódio, nada fazia prever a cavalgada dos juízes e dos seus partidários.
De facto, Lula governou sem beliscar os interesses dos que temem pela
propriedade e pelo estatuto, o seu partido foi-se habituando aos salões e
cultivando a intriga. Nem a terra foi distribuída nem a indústria e a
finança foram ameaçadas ou entregues ao povo, que recebeu uns reais para que a
pobreza ficasse menos pobre, umas escolas e universidades para os seus filhos e
muita paciência para todos porque o Brasil ainda há-de ser um imenso Portugal.
O pouco que mudou, mudou alguma coisa para muita gente dos de baixo mas nada
para os de cima. E o Brasil viveu tranquilamente o encabulamento da Copa do
Mundo e depois voltou à sua vida de todos os dias. Nada fazia prever o golpe,
portanto.
Dilma remou na mesma
maré. Inaugurou o segundo mandato cedendo tudo à direita, nomeando para postos
chaves do governo o homem que seria o ministro das finanças do seu adversário e
uma representante de terratenentes para a agricultura. Porque deu tudo aos
adversários, o golpe parecia coisa de ficção ou de jogo de computador.
Até que chegou o Caso
Petrobrás, ou Lavajato. E ele tocou no ponto frágil de toda esta construção, os
partidos, tanto do governo como da oposição. O principal partido de direita que
faz parte do acordo governista, o PMDB, distinguiu-se entre os que, com o
presidente do Parlamento Federal, Eduardo Cunha, correm contra o tempo da
acusação judicial e da prisão, depois de as suas contas no estrangeiro serem
identificadas e ser exibida a mão que lhe pagou. Outra parte do PMDB, com o
vice-presidente Temer, perfila-o como sucessor de Dilma se conseguir a sua
impugnação. No PSDB, o principal partido de oposição, luta-se entre os que
querem demitir Dilma agora (com alguma acusação derivada do Lavajato), para
provocar uma eleição a curto prazo, ou os que querem demiti-la depois (com o
processo rocambolesco sobre o financiamento da campanha eleitoral), conforme as
conveniências de cada um, seja Serra, Alckmin ou Aécio Neves, colegas e
inimigos. Todos correm contra o tempo e isso cria uma irracionalidade colectiva:
os chefes partidários, apanhados na teia da corrupção e irmanados na desgraça,
escolheram todos o quanto pior melhor. Quanto mais depressa incendiarem o
Brasil, mais depressa esperam sentir-se aliviados da pressão sobre cada um
deles.
É preciso reconhecer
que o PT alimentou esta monstruosidade. Os seus dirigentes acreditaram que a
composição da aliança governista criaria uma distribuição de benesses e um
espírito situacionista que cimentaria esta multidão de partidos e de interesses
graúdos. Chegou-se ao ponto, quanto as primeiras frestas estalaram, de agenciar
a compra e venda de votos de deputados com o Mensalão, para manter o governo a
flutuar entre as suas próprias piranhas.
O Brasil tornou-se
assim um pavor de ameaças neste golpe em câmara lenta onde só vejo desperdício
de esperança, tanta tristeza, tanta gente extraordinária que está a ser
sacrificada, tanta ameaça contra a liberdade, tanta pesporrência golpista,
tanta violência evocativa da ditadura militar, tanta asquerosa condenação dos
mais fracos: nesse mundo eles não têm direito. Não precisávamos desta farsa de
golpe para nos lembrarmos que a história é parteira de tragédias.
Nenhum comentário:
Postar um comentário