domingo, 4 de julho de 2010

Encomium Moriae (13) – “A mula da cooperativa”

A minha amiga, que não é para graças, sobretudo quando se sente atingida nos seus pruridos de grande dama, de rectidão, pontualidade, respeito pelas passadeiras, em que eu sou muito mais flexível, para não ter que dar uma volta maior quando posso encurtá-la, atravessando fora da passadeira, às vezes tendo mesmo que alargar o passo ou até dar uma corrida, por conta dos automobilistas céleres a marcar posição nos seus espadas, assustando de propósito os infractores peões do código rodoviário, embora eu possa inferir, dado o gosto do atropelo permitido na lei portuguesa, que não se importem tanto com outras infracções mais obscuras e mais rentáveis, muito comuns entre nós, em que eles próprios poderão estar implicados mais a coberto - é o que eu penso, porque o pensamento é livre, penso - a minha amiga, dizia eu, enxofrou-se com as afirmações que leu ontem do Erasmo, cheirando a ranço machista, sobre as velhas mulheres desocupadas e coquettes.
- “Esse seu Erasmo ainda estava muito cru quando escreveu isso, ele pouco percebia de mulheres” – abespinhou-se ela, e eu confirmei que tinha pouco mais de quarenta anos, tendo nascido não se sabe bem se em 1466 ou 67, e que redigira o vasto retrato social “Elogio da Loucura” em uma semana de Agosto de 1508, em casa do seu amigo Thomas Morus, tendo-o, é certo, concebido umas semanas antes enquanto cavalgava na sua mula.
- “Então deve ter-se inspirado na mula” continuou, ressabiada, e eu lembrei, a propósito - quando a minha amiga se escama eu apresso-me a dizer amen com ela – lembrei a “mula da cooperativa” do nosso doce Max, aquela que deu dois coices no telhado só por causa do Zé da Adega não saber cantar o fado, considerando que, como a mente humanista de Erasmo colheu proveito em muitas fontes, podia ser que a sua mula lhe tivesse servido também de inspiração.
Mas são águas passadas, que o que temos, de facto notado, é a sua capacidade gritante de coligir, nas suas experiências e nas suas leituras, tantas reflexões, ora sérias ora mais jocosas, sobre a natureza humana, recheadas de exemplos clássicos vastíssimos.

Vejamos o capítulo XXXII, sobre o facto de os filósofos reclamarem da desgraça que é esse domínio da Loucura na manutenção “da ilusão, do erro e da ignorância” humanos. Responde esta:

XXXII: “Mas não, é ser-se homem, muito simplesmente. Não vejo porque eles chamam desgraça ter nascido assim, ser-se educado e formado segundo a comum condição. Não é desgraça nenhuma ser-se o que se é, a menos que um homem ache lamentável não poder voar como os pássaros, caminhar a quatro patas como o resto dos animais, ou ter cornos como o touro. Considerar-se-ia infeliz um belo cavalo, porque não sabe a gramática e não come bolos, ou um touro porque não pode fazer ginástica? Da mesma forma que a sua ignorância gramatical não poderia tornar infeliz o cavalo, a Loucura não faz a desgraça do homem, porque é conforme à sua natureza.»

Contra a observação dos filósofos de que o conhecimento das Ciências resulta de uma compensação da inteligência relativamente a uma natureza humana escassa, contrapõe a Loucura com uma afirmação de recusa dessa tolice, vista a generosidade da mesma natureza com os mosquitos e as plantas, incompatível com a “sonolência” em relação ao género humano, impondo-lhe o recurso às Ciências, inventadas em seu prejuízo:
“As Ciências irromperam na humanidade com o resto dos seus flagelos” .
“ De nenhuma ciência estava provida a idade de ouro. Só a guiava o instinto da Natureza.”
“Que necessidade tinham de gramática, visto que a língua então era a mesma para todos e a palavra servia apenas para se fazerem entender? Que necessidade havia da dialéctica, já que nenhum combate se travava entre opiniões rivais? Que fazer da retórica, se não existiam processos? Para quê a jurisprudência, quando não haviam começado os maus costumes, donde nasceram sem dúvida as boas leis?
(“Leges bonae ex malis moribus procreantur” – in “Saturnales” de Macrobius). Os homens eram demasiado religiosos para ousarem mostrar uma curiosidade ímpia aos mistérios da Natureza, medir os astros, os seus movimentos, as suas influências, perscrutar o secreto mecanismo do mundo. Eles achavam criminoso que se procurasse saber mais do que um simples mortal. Era demência olhar para além do céu e esse pensamento não acudia a ninguém. Mas à medida que diminuiu esta pureza da idade de ouro, os maus génios inventaram as Ciências. Elas foram primeiro pouco numerosas com poucos iniciados. Mais tarde, a superstição dos Caldeus e a vã frivolidade dos Gregos sobrecarregou-as de torturas inumeráveis para a inteligência, a tal ponto que só a gramática pode fazer o suplício de uma vida inteira.”

Foi neste ponto que acordámos para a compreensão da nossa realidade de simplificação da escrita e mesmo do significado do “Projecto Erasmus”, feito de intercomunicação comunitária e de redução teórica em abono do conhecimento prático, como pontos educativos charneira das políticas do nosso PM.
Além de outras realidades que pretendem fazer-nos retornar à Idade de Ouro erasmiana, prova de que eu tinha bué de razão, quando resolvi traduzir ou sintetizar paulatinamente o seu livro “Encomium Moriae” segundo etimologia grega ou “Laus Stultitiae”, na versão latina.
Que a “mula da cooperativa” do nosso doce Max é uma fonte de inspiração para nós, que vamos cada vez mais escouceando. E relinchando.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Encomium Moriae (12) – Fobia da morte, pedradas da vida

Entre um sábio, guiado pela razão, como os Estóicos, fechado aos sentimentos naturais, como uma estátua de pedra, e um louco guiado pelas paixões, o povo elegerá como chefe não a espécie de demiurgo mas “um homem a quem nada fosse estranho”, nem mesmo os prazeres da vida, que o aproximam do vulgo. Tal é a matéria do capítulo XXX do “Elogio da Loucura”.
O problema do Mal surge no capítulo XXXI, complementado com o estranho apego à vida do homem, criando, para se atordoar, entretenimentos que lhe disfarçam a angústia das suas contingências existenciais:

XXXI – “Suponho que alguém olha do alto a vida do homem, como o Júpiter dos poetas o faz por vezes, e observa a quantidade de males que pendem sobre ele, o seu nascimento humilhado, a sua educação difícil, os perigos em torno da sua infância, os duros trabalhos impostos à sua juventude, a sua velhice penosa e a dura necessidade da morte, após tantas doenças, incomodidades que o assaltam de todos os lados, que envenenam toda a sua existência. Não falemos do mal que o homem faz ao homem: arruína-o, aprisiona-o, desonra-o, tortura-o, estende-lhe armadilhas, trai-o; enumerá-los todos, com os ultrages, os processos, as escroquerias, seria contar grãos de areia.”

As extraordinárias manigâncias hoje em dia perpetradas pelos homens contra os homens são prova de uma evolução cada vez mais ampla no significado da expressão “o homem lobo do homem” que tantos monstros a actualidade revelou, e que foram sublinhados em obras ficcionais de um simbolismo aterrador, caso de “O Processo” de Kafka, “O Estrangeiro” de Camus, “1984” de Georges Orwell, este último criador de uma sinistra figura de “Big Brother” controlador do próprio pensamento humano, num absurdo totalitarismo sem saída.

Aponta a Loucura alguns dos sábios que por desgosto de viver se suicidaram. E prossegue, elogiando os seus próprios méritos:

“Vós sentis bem, julgo, o que sucederia, se todos os homens fossem sensatos; seria necessário que um outro Prometeu moldasse outros com um novo barro. Eu, pelo contrário, ajudada pela Ignorância tanto como pela Irreflexão, ao fazer-lhes esquecer as suas misérias, esperar a felicidade, saborear por vezes o mel dos prazeres, consolo-os dos seus males de tal forma que eles deixam a vida com pena, ainda que a Parca tenha fiado toda a sua trama e que a vida os abandone.”

Assim, os velhos:
"A vida não os aborrece de maneira nenhuma. Quanto menos motivos eles têm para se lhe apegar, mais se lhe aferram. São meus clientes, esses velhos que atingiram a idade de Nestor e perderam toda a forma humana, e que vemos balbuciar, disparatar, os dentes partidos, o cabelo branco ou ausente, ou, para melhor os descrever com as palavras de Aristófanes, sujos, curvados, enrugados, calvos e desdentados, sem queixo, encarniçar-se em prezar a vida. Por isso, eles rejuvenescem, um tingindo os cabelos, outro usando peruca, este usando falsos dentes talvez arrancados a um porco, este embeiçado por uma virgem e por ela cometendo mais loucuras do que um jovem. Um moribundo, próximo a unir-se às sombras, desposa sem dote uma jovem meiguinha, que fará o prazer dos vizinhos; o caso é frequente e, por minha fé, disso se gabam.”

Sobre a apetência da vida, também La Fontaine trataria o tema, na sua fábula “La Mort et le Bûcheron”, mas o retrato dos velhos decrépitos buscando a ilusão de mocidade, tem uma actualidade permanente em cuidados capilares e odontológicos que acompanham, felizmente, o progresso.
Mas é sobre as velhas que Erasmo lança com mais sanha o ferrão sarcástico do seu conservadorismo provinciano, na fala cruel de uma Loucura criadora da ilusão:

“Mas o mais charmoso é ver velhas, tão velhas, tão cadavéricas que as julgaríamos retornadas dos Infernos, repetir constantemente: “A vida é bela!” Elas são quentes como cadelas ou como dizem de bom grado os Gregos, cheiram a bode. Elas seduzem a preço de ouro qualquer jovem Fáon, pintam-se continuamente, têm sempre o espelho na mão, depilam-se no sítio secreto, ostentam mamas flácidas e murchas, solicitam num queixume trémulo um desejo que enlanguesce, querem beber, dançar com as raparigas, escrever cartas de amor. Todos troçam e dizem-lhes o que elas são, arquiloucas. Entretanto elas estão contentes consigo, alimentam-se de mil delícias, saboreiam todas as doçuras e, quanto a mim, são felizes.”

Só o que me parece é que as velhas assim descritas, já eram velhas quando jovens, egocêntricas, mimalhas, revendo-se no seu espelho, qual Narciso apaixonado por si próprio, que da vida não procuraram senão as delícias do seu próprio eu. Ao contrário de Erasmo, julgo-as infelizes, condenadas a uma solidão só remediada pelo seu narcisismo cego em relação ao mundo, ou pelos meios estapafúrdios tripudiados pelo escritor.
E a Loucura, vá de concluir, bonacheironamente, num falso ataque à sensatez, atribuindo-se a si o mérito da felicidade humana:

“Peço àqueles que as acham ridículas, que verifiquem se não vale mais levar a sua doce vida nesta loucura do que procurar, como se diz, a trave para se enforcar. Bem entendido, a desonra que assenta na conduta dos meus loucos não conta para estes; nem mesmo a sentem ou não lhe dão atenção. Receber uma pedrada na cabeça é um mal que existe; a vergonha, a infâmia, o opróbio, o insulto, só são palavras para quem as sente. O mal não existe quando não é sentido. O povo inteiro assobia-te; não vale nada, se tu te aplaudes, e só a Loucura te autoriza a isso.»

É certo que as palavras podem significar pedradas. Num mundo normal. Mas como disse Cristo, ninguém está tão puro assim, para poder apedrejar com tanta autoridade. Nem mesmo os sábios.
É por isso que os nossos ministros - e aderentes - seguem tranquilos na sua caravana.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Encomium moriae (11) – Intemporalidade

Às vezes, com a minha amiga, comentamos sobre a extraordinária lucidez revelada por Erasmo nos seus retratos, apoiado, é certo, na profusão de conhecimentos obtidos nos clássicos greco-latinos, e concluirmos, ante uma actualidade que não lhes é superior nos traços, nada tendo evoluído em sentimentos e suas manifestações, a não ser nas contingências do progresso, concluirmos, digo, sobre a universalidade e a intemporalidade do seu livro “O Elogio da Loucura”.
São assim, também, os capítulos seguintes, o XXVIII, sobre os ofícios e sua evolução, proporcionando o progresso da comodidade, graças à loucura vã dos homens que procuram a fama à custa de vigílias e suor, o capítulo XXIX rematando tal conceito pelo considerandum de que, vivendo o sábio, por timidez, refugiado nos livros, é ao louco, “isento de modéstia” que cabe a honra da coragem e do trabalho, donde a conclusão de que à Loucura cabe igualmente o mérito do bom-senso, mau grado os que protestam através do conceito de que “o mesmo é que casar a água e o fogo”.
Surgem assim os exemplos que mostram que “o rei vai nu”, na sua soberba e ostentação, tal como assim se mostram os actores a quem foi tirada a máscara dos seus papéis de importância.
E se um sábio pretende atacar o homem na sua soberba, considerando-o “o mais vil dos escravos”, porque se deixa manipular pelas sensações, logo será atacado como “louco furioso”:

XXIX – “... Tal como é uma extrema tolice exprimir uma verdade intempestiva, é uma autêntica inépcia ser sensato fora de propósito. Age inoportunamente quem não sabe acomodar-se às realidades tal como são, que não obedece aos usos, que esquece esta lei dos banquetes: “Bebe ou vai-te embora!” e que pede que a comédia não seja uma comédia. Tu mostrarás verdadeiro bom-senso, tu que não és mais que um homem, em não procurar saber mais do que os homens, dobrando-te de bom grado à opinião da multidão ou enganando-te complacentemente com ela. “Mas, dir-se-á, isso é uma autêntica loucura!” Não digo o contrário, desde que me concedam que assim se desenrola a comédia da vida.”

É o que diz o nosso provérbio “Maria vai com as outras”, é o que conta Bieito ao seu amigo Gil, na écloga “Basto” de Sá de Miranda, a respeito de um que se resguardou da chuva, ao contrário dos amigos que se espolinharam na chuva e na lama e o atacaram na sua prudência. Vai ele e diz:

“... - É assi que vai?
Não creio logo em meu pai
Se me desta água não molho.

Apaixonado qual vinha,
Achou un charco que farte;
O conselho havido o tinha:
Molhou-se de toda a parte,
Tomou-a como mezinha.
Quantos viram, lá correram:
Um que salta, outro que trota,
Quantas graças aí fizeram!
Logo todos se entenderam:
Ei-los vão numa chacota.

É assim connosco, foi assim connosco, as mudanças de regime não são propícias aos oponentes, como o não são os regimes dos que governam e que concitam inúmeros apoiantes, quaisquer que sejam as loucuras ou inépcias governativas.
Que o oportunismo, o interesse, são as grandes armas para a criação das máscaras da nossa chacota.