Entre os temas que La Fontaine manifesta
No seu fabulário tão vário
Encontra-se o do contraste
Entre a aparência e a realidade,
Na questão dos vultos de casta
Da nossa praça
E da praça alheia.
Uma desgraça!
Bem feia!
Vejamos esta,
Digamos fábula:
«A raposa e o busto»
«Na sua maior parte os grandes
São máscaras de teatro;
Com muita suficiência
Se impõe, ao vulgo idólatra,
A sua aparência.
O Burro, que não aprendeu o abc
Só sabe julgar por aquilo que vê:
A Raposa com isso não se contenta
E, pelo contrário, tudo lê
De forma atenta.
Vira os bustos, lentamente,
Cuidadosamente,
De todos os lados; e quando entende
Que o seu jeito não é mais que aparência,
Ela atira-lhes uma palavra
Que, com certa imprudência,
E mesmo alguma inclemência,
Um busto de herói lhe fez dizer
Muito a propósito e com muito saber
Num certo dia de bastante calor
Única justificação para tanta impertinência.
Era um busto oco, maior que o natural,
Autêntica máscara de actor principal.
A Raposa, louvando o esforço da escultura
De uma importante figura
Social,
Disse, com malandrice:
“Bela cabeça, mas quanto a miolos, nem sinal.”
Quantos grandes senhores são bustos tais!
Uma coisa por demais!”
Ora, segundo me parece
La Fontaine nem sempre acerta
No que escreve.
Eu acho que os grandes
Muito importantes
Têm até mais miolos
Do que aparência de importância.
Não, não são tolos.
Tolos somos nós
Que mesmo conhecendo o abc
Caímos, como se vê,
- Se tem visto sempre -
Em todas as suas manigâncias
Resultantes das suas relevâncias,
As mais das vezes provenientes
Das espertezas
Das suas cabeças
Que pedem meças
Às próprias belezas
Das suas figuras,
Que com o tempo, contudo,
Se apuram, se apuram,
Autênticas esculturas.
E se umas se acabam,
Como é natural na vida,
Logo outras retomam
A via devida,
Esculturas sim, na beleza dos gestos,
Na elegância dos fatos,
E só aparentemente
Ocas interiormente.
Espertas e belas
São elas,
E nós, os toscos.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Os direitos num país de avessos
Falei à minha amiga na crónica de Inês Pedrosa, “Fechar para Abrir”, da Revista Única de 31 de Julho, com, por subtítulo, “O encerramento das escolas sem condições só peca por tardio”, a qual condena os botas-de-elástico que gritam a plenos pulmões contra o encerramento anterior, de 2500 escolas com menos de dez alunos, por Maria de Lurdes Rodrigues, e o que se vai perpetrar de mais de um milhar com menos de vinte alunos, com a ministra actual. Mas a minha amiga, não sei se por uma razão humanitária, se por avidez de contestação, que ela às vezes até peca por excessos oposicionistas sem eu lhe topar o motivo, branda como sou, não discordou grandemente da medida sanitária. E arbitrária:
- Todos têm direito a boas instalações, não são só alguns. Porque os miúdos vão ver uma escola daquelas e preferem ir para a boa escola. O Estado dá transporte. As condições físicas são muito boas, com campos para jogos, magalhães, biblioteca....
Lembrei que em tempos, numa escola de Cascais onde dei aulas, não sei se por estarmos próximos da praça de touros que, em qualquer tarde gloriosa terão arremetido contra os pavilhões da escola – sempre, aliás, de menor importância que a praça - o que teve como resultado abrirem-se os telheiros de passagem entre os pavilhões, daí que, em dias de chuva, era a escorrer água e a tremer de frio que penetrávamos nas praçazinhas das aulas de então, finais da década de setenta, princípios da de oitenta.
Lembrei ainda que até à minha terceira classe andei numa escola dessas, de aldeia, escola genérica, como qualquer remédio actual que se preze, englobando as quatro classes, e não deixei de cumprir com gosto as minhas obrigações de aluna vivaça e de fazer as rodas e brincar aos jogos possíveis na eira da nossa escola, que em dias solenes até içava a bandeira para os alunos saudarem, cantando o hino nacional. Com direito a vestido novo, no dia do exame, de professores externos, não susceptíveis de suborno.
Inês Pedrosa explora a temática da relação social que uma escola nas condições de modernidade prescritas tem o dever de fomentar. Suponho que escolas apetrechadas com a aparelhagem que o nosso PM impõe, como imprescindível fautora da circumnavegação pelos territórios comprovativos da globalidade do planeta. Como se fez outrora, embora por conta de outrem, mas, indiferente ao facto, o computador ministerial levou um baptismo patriótico, visto que o nosso PM não ia deixar os nossos créditos onomásticos por por mãos alheias, que patriota se tem ele revelado e muito, quer na nova organização ortográfica, por motivos de sujeição, quer na nova desorganização agrícolo-piscatória, por idênticos motivos, quer na reconstrução territorial, onde se gasta dinheiro em barda para dar emprego aos reconstrutores, dinheiro que falta para pagar aos professores das tais escolas eliminadas, que perderão os seus empregos, juntamente com os professores subtraídos nesses outros projectos de agrupamentos escolares. Sim, o Estado dá transporte, e dá emprego às empresas de transporte e aos chauffeurs dos autocarros do transporte das crianças. O Estado nosso pai, que destrói escolas em vez de as reparar, como faz às vias rodoviárias, num país que se diz atrasado, e cuja destruição de espaços que poderiam contribuir para uma certa movimentação cultural, caso fossem bem trabalhados segundo exigências responsáveis, implica um cada vez maior empobrecimento, um cada vez maior atraso, neste país entorpecido e sem solução viável de desentorpecimento.
Mas eu acho que o nosso PM prefere as rodovias, para as suas próprias maratonas pedestres, às escolas, para as maratonas das necessidades culturais do nosso povo entorpecido. Desde sempre. Para sempre. Rimando com embrutecido.
- Todos têm direito a boas instalações, não são só alguns. Porque os miúdos vão ver uma escola daquelas e preferem ir para a boa escola. O Estado dá transporte. As condições físicas são muito boas, com campos para jogos, magalhães, biblioteca....
Lembrei que em tempos, numa escola de Cascais onde dei aulas, não sei se por estarmos próximos da praça de touros que, em qualquer tarde gloriosa terão arremetido contra os pavilhões da escola – sempre, aliás, de menor importância que a praça - o que teve como resultado abrirem-se os telheiros de passagem entre os pavilhões, daí que, em dias de chuva, era a escorrer água e a tremer de frio que penetrávamos nas praçazinhas das aulas de então, finais da década de setenta, princípios da de oitenta.
Lembrei ainda que até à minha terceira classe andei numa escola dessas, de aldeia, escola genérica, como qualquer remédio actual que se preze, englobando as quatro classes, e não deixei de cumprir com gosto as minhas obrigações de aluna vivaça e de fazer as rodas e brincar aos jogos possíveis na eira da nossa escola, que em dias solenes até içava a bandeira para os alunos saudarem, cantando o hino nacional. Com direito a vestido novo, no dia do exame, de professores externos, não susceptíveis de suborno.
Inês Pedrosa explora a temática da relação social que uma escola nas condições de modernidade prescritas tem o dever de fomentar. Suponho que escolas apetrechadas com a aparelhagem que o nosso PM impõe, como imprescindível fautora da circumnavegação pelos territórios comprovativos da globalidade do planeta. Como se fez outrora, embora por conta de outrem, mas, indiferente ao facto, o computador ministerial levou um baptismo patriótico, visto que o nosso PM não ia deixar os nossos créditos onomásticos por por mãos alheias, que patriota se tem ele revelado e muito, quer na nova organização ortográfica, por motivos de sujeição, quer na nova desorganização agrícolo-piscatória, por idênticos motivos, quer na reconstrução territorial, onde se gasta dinheiro em barda para dar emprego aos reconstrutores, dinheiro que falta para pagar aos professores das tais escolas eliminadas, que perderão os seus empregos, juntamente com os professores subtraídos nesses outros projectos de agrupamentos escolares. Sim, o Estado dá transporte, e dá emprego às empresas de transporte e aos chauffeurs dos autocarros do transporte das crianças. O Estado nosso pai, que destrói escolas em vez de as reparar, como faz às vias rodoviárias, num país que se diz atrasado, e cuja destruição de espaços que poderiam contribuir para uma certa movimentação cultural, caso fossem bem trabalhados segundo exigências responsáveis, implica um cada vez maior empobrecimento, um cada vez maior atraso, neste país entorpecido e sem solução viável de desentorpecimento.
Mas eu acho que o nosso PM prefere as rodovias, para as suas próprias maratonas pedestres, às escolas, para as maratonas das necessidades culturais do nosso povo entorpecido. Desde sempre. Para sempre. Rimando com embrutecido.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
“Cogito...”
Falou do Carlos Cruz e de mais três entrevistados. Todos se queixaram de que as suas vidas ficaram destruídas. Carlos Cruz afirmou tudo dever à mulher e às filhas, mas eles têm-se despojado de muitos bens, para pagar as custas do processo. A minha amiga comenta:
- Como é que um homem da televisão tem aquela riqueza toda? Como é possível? Eles ainda vivem bem. Mas a dúvida fica para sempre, nem que vá a Tribunal e seja ilibado. Esperemos que seja feita justiça. Ele diz que o nome dele foi metido lá para tapar, para desviar nomes sonantes. Diz que sabe quem são mas não vai dizer quem é. Só quer que não se deixe prescrever o processo. Foram entrevistados quatro fulanos. Todos negaram ali. Não sabem porque é que os nomes deles estão lá. Já viu o horror que é condenarem-se inocentes?
- Mas como se pôde despoletar tudo isto, numa tal dimensão? E como é que uma pessoa se deixa condenar “para tapar nomes sonantes” que conhece mas não denuncia!? É, pelo menos, idiota!
- E agora pergunta-se: aqueles rapazinhos sofreram. Sabem quem são os fulanos. E quando apresentam queixa dão outros nomes? Será que mentiram? Porque os rapazinhos dizem todos: “Não espero nada”, excepto um que disse: “Só espero estar lá nesse dia. E vai-se fazer justiça.” Só um disse isso. Há outros que não querem ser vistos.
- O Processo Casa Pia! Um nome sonoro, para dar grande brado, quando se puder contar a verdade. Mas nunca terá uma solução fiável, espécie de “collier de la Reine”, explorando intrigas, recalcamentos, e misérias morais e materiais, onde jogam também factores de conveniência e vilezas duma gravidade cujo desfecho poderes superiores, aliados a uma justiça inexistente cada vez mais impedem, como outros processos que brotam a cada passo neste país de clima propício ao “far niente” à excepção do abocanhar nas reputações. Às vezes com razão.
-O Freeport já foi. Este irá também. Em setembro. Mais um adiamentozinho da troça justiceira dos prepotentes, sobre um povo que a merece, pois deixa.
- E cada vez será pior. Com a abolição das reprovações, pela excelsa ministra da Educação, com a adopção de médicos acabadinhos de formar, sem experiência, para substituir os que se foram, e tomarem conta das vidas doentes, caminhamos para uma cada vez maior juvenilidade, neste velho país de anormalidades. Verguemos o cachaço! Diz-se que sempre o vergámos, aliás! E eram mais velhos os governantes. O Jerónimo de Sousa, que parece honrado, diz que é um “lapsus linguae” da Alçada, essa tal da abolição, mas está enganado, que a Alçada defende mansamente a posição dinâmica do seu juvenil PM. Ajoelhemos com ela, perante ela, perante ele. Cantemos:
“De rastos, a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida”.
Não tenhamos dúvida disso, se é que nessa altura ainda temos capacidade para formular uma qualquer dúvida. Aquela que pode ajudar a definir a nossa identidade racional.
- Como é que um homem da televisão tem aquela riqueza toda? Como é possível? Eles ainda vivem bem. Mas a dúvida fica para sempre, nem que vá a Tribunal e seja ilibado. Esperemos que seja feita justiça. Ele diz que o nome dele foi metido lá para tapar, para desviar nomes sonantes. Diz que sabe quem são mas não vai dizer quem é. Só quer que não se deixe prescrever o processo. Foram entrevistados quatro fulanos. Todos negaram ali. Não sabem porque é que os nomes deles estão lá. Já viu o horror que é condenarem-se inocentes?
- Mas como se pôde despoletar tudo isto, numa tal dimensão? E como é que uma pessoa se deixa condenar “para tapar nomes sonantes” que conhece mas não denuncia!? É, pelo menos, idiota!
- E agora pergunta-se: aqueles rapazinhos sofreram. Sabem quem são os fulanos. E quando apresentam queixa dão outros nomes? Será que mentiram? Porque os rapazinhos dizem todos: “Não espero nada”, excepto um que disse: “Só espero estar lá nesse dia. E vai-se fazer justiça.” Só um disse isso. Há outros que não querem ser vistos.
- O Processo Casa Pia! Um nome sonoro, para dar grande brado, quando se puder contar a verdade. Mas nunca terá uma solução fiável, espécie de “collier de la Reine”, explorando intrigas, recalcamentos, e misérias morais e materiais, onde jogam também factores de conveniência e vilezas duma gravidade cujo desfecho poderes superiores, aliados a uma justiça inexistente cada vez mais impedem, como outros processos que brotam a cada passo neste país de clima propício ao “far niente” à excepção do abocanhar nas reputações. Às vezes com razão.
-O Freeport já foi. Este irá também. Em setembro. Mais um adiamentozinho da troça justiceira dos prepotentes, sobre um povo que a merece, pois deixa.
- E cada vez será pior. Com a abolição das reprovações, pela excelsa ministra da Educação, com a adopção de médicos acabadinhos de formar, sem experiência, para substituir os que se foram, e tomarem conta das vidas doentes, caminhamos para uma cada vez maior juvenilidade, neste velho país de anormalidades. Verguemos o cachaço! Diz-se que sempre o vergámos, aliás! E eram mais velhos os governantes. O Jerónimo de Sousa, que parece honrado, diz que é um “lapsus linguae” da Alçada, essa tal da abolição, mas está enganado, que a Alçada defende mansamente a posição dinâmica do seu juvenil PM. Ajoelhemos com ela, perante ela, perante ele. Cantemos:
“De rastos, a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida”.
Não tenhamos dúvida disso, se é que nessa altura ainda temos capacidade para formular uma qualquer dúvida. Aquela que pode ajudar a definir a nossa identidade racional.
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