domingo, 5 de outubro de 2014

Eles aí estão



Já se previa que o país iria dar a cambalhota, isso estava há muito intuído nas lutas intestinas dos socialistas, nauseados com as figuras brandas, “as vindas vendo das varandas”, do pobrezinho do Seguro, brincando ainda às “berlindas” e às Gatas Borralheiras do sapatinho caído na escadaria, depois da meia noite. Posto assim de parte, pelos do alfobre de varapaus e apitos que há muito se preparam para o novo rumo, e que fizeram incidir primeiro os varapaus sobre o príncipe do sapatinho, para prosseguirem a eito sobre os “príncipes de outras belas” – as da lisura no tratamento do saldo – o inócuo Seguro é tratado agora com os salamaleques do cinismo, para se convencer de que é pessoa grada, porque lhes deu possibilidades, a eles e aos seus varapaus, que são a arma preferida dos exaltados vendilhões de cravo ao peito.
Costa, mandatado pelos guardiães-mores, vendilhões primeiros, avançou, pois, no caminho da conquista do sapato caído, sem nunca se comprometer, e passou-o ao Ferro, que está agora nas suas tamanquinhas, o sapatinho da Cinderela provavelmente não lhe entrando no pé, unicamente reservado ao pezinho da princesa, a tamanca lhe servindo q. b.. E diz Ferro que faz sacrifício, no novo cargo, menos lucrativo, mas está feliz, porque está no combate, disposto ao piparote. Como, de resto, Costa continua de Câmara, não ardente mas refrigerante, até 2017, ao que diz, e já recolheu ao seu redil das quintas-feiras bem falantes, que, juntamente com os dessa câmara, lhe devem fornecer os rendimentos e a projecção suficientes, para se governar, além de que, despachado Seguro, é provável que não queira agora arriscar a demonstrar as suas desconhecidas teorias salvadoras da pátria lesada, Ferro parece surgir como boia salvadora neste impasse em que a primeira medida a fazer é deitar abaixo o Governo.
Ele aí está, pois, o Ferro, o do segredo de Costa, o homem do varapau, que me lembrou o Sr. Joãozinho das Perdizes, do nosso amado Júlio Dinis. Procurei-o na Internet para lhe  transcrever o retrato magistral à borla e sem esforço. De facto, encontrei-o na Internet,  o retrato de “uma verdadeira potência eleitoral”, morgado e proprietário na freguesia de Pinchões, embora sempre embaraçado em demandas e hipotecas, mas quem copiou o texto dinisino, usou-o apenas em proveito próprio e tenho que desistir da transcrição sem esforço para o paralelo. Aliás, o morgado Joãozinho das Perdizes  possuía algumas virtudes de bom acolhimento e generosidade para com o povoléu que o seguia e a quem ele pagava os copos da cordialidade coscuvilheira. Não sei se tais características se adaptam à figura aguerrida de fortes beiços ávidos de combate que se revelou esplendidamente disposto a iniciar o novo período na história pós-abrilina, aberta a mais uns rapaces.
Todavia, outra figura me lembrou este Ferro, ao ouvi-lo e vê-lo, do mesmo romance “A Morgadinha dos Canaviais”  - a do missionário pregador que põe a chorar baba e ranho o mulherio da igreja, na audição a que assistem Madalena, a Morgadinha, a sua prima Cristina e o cavaleiro de ambas, Henrique de Souselas. Cena, pois, de enorme efeito emotivo, tais as certezas infundidas pelo padre sobre os castigos pendentes sobre os hereges – e esses discursos inflamados sendo tão específicos dos que pretextam defender as bondades democráticas, com as contrapartidas acusatórias e demolidoras dos governantes menos convictos, como dos que fazem das religiões o meio de difusão do medo – segundo um Deus castigador, no caso da antiga Inquisição, ou do missionário em questão, ou, nos tempos de hoje, mais universais, como capciosa expurgação das impurezas, na sequência dos princípios de um fundamentalismo primitivo e vil segundo o terrorismo vingador e facínora.
Vejamos só um pouco do descritivo de Júlio Dinis, que é um extraordinário escritor e nem escreveu tão leve como denunciou Eça de Queirós - embora assim tenha morrido, na flor de uma vida plena de criatividade, tendo retratado com mestria tipos sociais,  intrigas novelescas,  costumes e paisagens da  aldeia e da cidade, em estilo claro e escorreito, não isento de caricatura, e de um profundo sentir humanitário e crítico, que lemos com prazer em todas as idades.
A excitação de Ferro Rodrigues, na  euforia do seu novo posto de combate, em promessas ameaçadoras que há muito pedem os seus toscos congéneres, me lembrou a inflamação oratória do padre orador, que transcrevo:
…«No fim de alguns minutos aparecia no púlpito a figura bem nutrida e pouco atraente do famigerado educador dos povos.
Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistência fixou em Henrique, que lhe estava fronteiro, um olhar, que ele sustentou com firmeza.
Esta tácita provocação durou alguns minutos, no fim dos quais poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos lábios do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabeça quase ameaçador.
… Ainda se eu pudesse transmitir aos leitores o tom rouco de voz, a extravagância de gestos, o descomposto dos movimentos com que o orador acompanhava a recitação dos descosidos períodos daquela indigesta prática, talvez me animasse  à empresa, para lhes dar um exemplo da vigorosa eloquência, com que se anda arrasando a civilização do povo e prejudicando a verdadeira religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja voz é abafada por aquela gritaria.
As mais tétricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.
Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as fornalhas ardentes, inúmeras torturas, ao menor delito, tal como um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma involuntária falta à missa, uma penitência esquecida, uma oração suprimida, arriscava as almas por toda a eternidade. Para cada pecado venial, uma perspectiva de tormentos sem fim. O Tribunal de Deus, arvorado em Tribunal do Santo Ofício, onde os autos-de-fé, os potros e cavaletes aguardavam os delinquentes arrastados até ali; eis o resumo da oração….
… À medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; aumentava a desordem dos gestos e refinava a selvajaria das imagens.
Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditório, e principalmente da parte feminina dele, ia crescendo em choro manifesto, em gritos e alaridos. Cedo era já um angustioso clamor em toda a igreja …..»

Ele aí está, o Ferro Rodrigues, novel instalado onde poderá ser veículo sagaz de um enxotamento definitivo dos governantes, que Seguro também pedia, mas de forma timorata.  Ferro, protegido pela camarilha dos patrões velhos, não se coibirá das alianças à esquerda  para a arremetida final, jihadista empunhando a faca.

Voltemos ao Seguro das varandas, à poesia simbolista do jogo musical,  sugeridor dos estados de alma, momentaneamente descansemos:

SAUDADE DADA

Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.

Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.

E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
FERNANDO PESSOA

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Eu nem quero acreditar



Contrariamente ao Luís Góis que encontra no mundo vários bens para serem guardados - tal o sorriso de quem passa, a acção de quem trabalha a cantar, a vela no alto mar livre,  a chuva fecundante… - no seu belo fado, na sua voz extraordinária -  eu estou de boca aberta, perfeitamente emudecida – siderada é mais culto - ouvindo gente das esquerdas eliminarem os bustos dos presidentes da República dos tempos da “Ditadura” de uma exposição na Assembleia da República, que contempla cem anos de Presidência – eu diria 104 - a pretexto de que tal emparelhamento significará branqueamento do fascismo.
Não, não posso acreditar em tanta acefalia a que o pertinaz sentimento de contestação, irredutível a qualquer tipo de reflexão e bom senso, levante a onda de protestozitos birrentos, de contestação só porque sim, que, de resto, se traduziram em resultado nulo.
Não, não vou desenvolver o tema inane. Mas recordo os versos de Luís Góis, que tentarei glosar pela negativa:
Eu não quero acreditar
Eu não quero acreditar
Que a tolice de quem brada
Seja um bem p’ra se guardar,
Que é luar ou sol de graça
Que nos venha alumiar
Que nos venha alumiar.

Eu não quero acreditar
Eu não quero acreditar
Que a acção de quem protesta
Com análise cavalar
Seja um bem p’ra se guardar,
Seja coisa p’ra cantar,
Seja coisa pr’a aceitar.

Eu não quero acreditar
Eu não quero acreditar
Que seja um bem p’ra se guardar,
Que presidentes de outrora
Sejam  linchados agora
Na liberdade encontrada
No cravo de cor vermelha.

Eu não quero acreditar
Eu não quero acreditar
Que tal chuva de protestos
Seja um bem p’ra se guardar,
De gente de bem e sagaz
Seja coisa de aceitar
Com vontade de linchar.

Não, deixemos isto que é feio, ouçamos o imortal Luís Góis, pela Internet que seja:
É preciso acreditar
É preciso acreditar
É preciso acreditar
Que o sorriso de quem passa
É um bem p’ra se guardar
Que é luar ou sol de graça
Que nos vem alumiar.
Com amor alumiar.

É preciso acreditar
É preciso acreditar
Que a acção de quem trabalha
É um bem p’ra se guardar
Que não há nada que valha
A vontade de cantar
A qualquer hora cantar.

É preciso acreditar
É preciso acreditar
Que uma vela ao longe solta
É um bem p’ra se guardar
Que se um barco parte ou volta
Passará no alto mar
E que é livre o alto mar.

É preciso acreditar
É preciso acreditar
Que esta chuva que nos molha
É um bem p’ra se guardar
Que sempre há terra que colha
Um ribeiro a despertar
Para um pão por despertar.

Revisões



Ao contrário de Alberto Gonçalves, votei sempre no CDS desde a primeira hora, atida a (pre)conceitos de um amor pátrio que sempre me pareceu partilhado por esses a quem também pareceram repugnar as tramóias que desde a primeira hora, e com a rapidez dos tornados, mas de cravo cínico na botoeira, fez ir pelos ares todo um mundo de estabilidade, de afectos, de ideologias mantidas no sentimento do maior ou menor livre arbítrio de cada um, com espírito crítico, naturalmente, mas sabendo distinguir os esforços equilibristas dos dirigentes de uma nação dependente do exterior ultramarino, que antepassados corajosos lhes tinham deixado de herança e que um piparote repentino dos novos heróis apagou de vez, indiferentes às tragédias provocadas. Mas o povo, politizado à pressa com os lugares-comuns de uma pseudo-igualdade social, desses afectos pela história pátria não entendia e julgou que um maná bíblico, a que tinha pleno direito, lhe ia cair sobre a cabeça, com a generosa intervenção dos libertadores da opressão e o CDS foi esmorecendo no apoio votante a ele prestado. Para governar teria que se coligar com o parceiro a seguir, para tentar segurar ainda a nau proveniente do grande naufrágio. A generosidade de um tratado de União Económica Europeia, felizmente, proporcionou farturas e desenvolvimentos que se demonstram num país mais aberto e bonito, mas os gastos foram excessivos e a corrupção também.
Quando Passos Coelho surgiu em cena, eu julgava-o apenas mais um dos que levianamente se utilizavam dos dinheiros alheios sem pensar em saldar a dívida monstruosa. Não foi assim, contudo. Três anos de exigência e de provação, o Governo de Coligação foi em frente com o seu projecto, mau grado os pruridos dos economistas anunciadores da destruição económica e das perversões altissonantes e desestabilizadoras dos manipuladores dos direitos populares que uma democracia estridente e tacanha ergue como bandeira, indiferente a princípios morais que exigem a remissão das dívidas.
Havendo resultados positivos na governação, esses são ignorados contudo, para, já que não conseguem expulsá-lo da cena, se pesquisarem  os “podres” de um homem que talvez tenha algo obscuro no seu passado económico, mas que patrioticamente se tem esforçado por seguir numa linha de honradez e de sacrifício que sabemos indispensável, ao menos para nos erguer o moral. E apesar de tudo, o povo colabora no sacrifício, ajudando filhos e netos, para desfazer em parte as consequências nefastas dessas políticas de rigor obrigatórias para gente formada na honradez de princípios. Mas muitos do próprio partido se lhe opõem, as convicções de desastre económico escondendo a fúria da perda das prebendas, mesmo sabendo-as de empréstimo. E as perguntas dos e das deputadas na assembleia, insistentes sobre o dinheiro ganho por Passos Coelho no tal caso Tecnoforma e a forma como o gastou, não lhe dando uma hipótese de poupança, foram por demais ridículas nessa farsa em que, como sempre, Passos Coelho respondeu com bom timbre e compostura, provavelmente no desprezo pelo pedantismo idiota dos e das questionadoras.
Alberto Gonçalves terá razão, pois, na forma um tanto drástica com que, condenando Passos Coelho, o admite como superior aos outros numa governação para todos os efeitos necessária, minimizando de certa forma a burla num país que protesta mas que alinha no deixa-andar da falcatrua. Eu admiro Passos Coelho e não acho deprimente o seu Governo.

Eis o artigo de Alberto Gonçalves, do DN, 28/9/14

A higiene da casa

À semelhança do que acontece no futebol, em que todos roubam o que podem e só os adversários o fazem com acinte, a moralidade, no país dos partidos e dos fanáticos dos partidos, é questão de perspectiva. Mesmo que se desconfie, ou até se prove, que Fulano desvia fundos comunitários, aceita subornos e nas horas vagas atropela velhinhas por gozo, os seus fiéis estarão sempre prontos a ignorar os deslizes do chefe na medida em que Sicrano, o chefe dos rivais, também escapou a umas multas por estacionamento em 1982 (ou ao atropelamento de velhinhas em 2005).
Vem isto a propósito do "caso" Tecnoforma. A título de esclarecimento, noto que votei nos senhores que nos governam, por exclusão de partes e talvez por incúria. Informo ainda que acho o Governo em funções uma coisa deprimente, se bem que menos nocivo do que os antecessores e os candidatos a sucessores. Se, contas feitas, PSD e CDS não mudaram quase nada do que se impunha e preservaram quase tudo o que se evitava, acredito que Portugal estaria bastante pior se o Eng. Sócrates tivesse continuado a sua senda de "momentos históricos" e voltará a piorar imenso se o Dr. Costa (em princípio) pegar um dia nisto.
As referências ao PS, porém, terminam aqui. Não pretendo evocar o Freeport, a Universidade Independente, os projectos na Guarda, as escutas do Face Oculta, os apartamentos de Lisboa e Paris e, lá está, as violações do regime de exclusividade parlamentar a fim de relativizar o que apenas os ceguinhos, ou os portugueses, se me permitem a redundância, relativizariam. As alhadas de Pedro Passos Coelho não se desculpam através da culpa alheia.
E a alhada em questão, revelada pela revista Sábado e entretanto assaz popular, resume-se aos 150 mil euros que o Dr. Passos Coelho terá recebido indevidamente entre 1995 e 1999 (por causa da exclusividade do deputado que então ele era) e omitido ao exacto fisco que agora nos consome com sofreguidão. Embora a certeza do crime esteja por apurar, não confortam as garantias de honestidade fornecidas pelo próprio, além dos pedidos ao Parlamento e à Procuradoria-Geral da República para que o ajudem a recordar se recebeu ou não uma quantia que, com sorte, o cidadão médio demora dez anos a ganhar. Por incrível que pareça, residir em Massamá e voar em turística não asseguram a honra de um homem.
Se a história se provasse, não importaria a palavra dada à AR, a baixeza da denúncia anónima, a estabilidade, o futuro, o passado de trapalhadas que outros cometeram: o Dr. Passos Coelho deveria demitir-se. Mas não se demitirá, visto que os obstáculos do costume impedem que se saiba a verdade e a verdade não preocupa o eleitorado, que já condenou ou absolveu o primeiro-ministro de acordo com antipatias ou simpatias prévias. Quem hoje exige a queda do Dr. Passos Coelho defendia ontem o radioso currículo do Eng. Sócrates contra a "cabala". E quem ontem atacava o descaramento do Eng. Sócrates apoia hoje a firmeza do Dr. Passos Coelho. A política é suja porque o País não é muito limpo.