domingo, 3 de junho de 2018

Nem carne, nem peixe


Não posso dizer que não gostei do artigo de Alberto Gonçalves. Gosto sempre dos seus textos, mesmo quando me ferem a susceptibilidade. Como este de hoje, impecável na sua análise em que se admira uma inteligência deslumbrante e ferina, construindo uma argumentação de fim do mundo, onde ninguém se salva, pois não é essa a pretensão do seu autor por todos nós, já na esteira de Eça, pela voz inflamada de Ega, que nos considerava «a mais miserável raça da Europa», expressão que pegou  e se nos colou ao cachaço vergado.
Está, de facto, uma argumentação de arromba, e repito o ponto de vista abrangente de Alberto Gonçalves «Enquanto a esquerda sonha em subjugar a natureza humana à lei, a “direita” reza para que a lei a limite, o que não sendo o mesmo é igualzinho. Uns querem aval do Estado, os outros a objecção do Estado».
 Não, não escapa ninguém, e todos, direita e esquerda, se apoiam no Estado, para resolver a questão da eutanásia. A esquerda, para torcer um costume que tem proibido os assassínios, punidos, até aqui, por lei. A direita porque, preguiçosamente, nunca tinha pensado nisso nem estudado o caso, baseando-se numa lei consuetudinária, e numa moral ancestral que respeita o dom da vida, nas suas contingências.
Alberto Gonçalves, como não se dispõe a denunciar o que lhe vai na alma, na questão da eutanásia, prefere atacar tudo e todos, condenando, e muito bem, a “pornografia confessional em voga”, apoiados que somos no direito à “liberdade individual”, característica humana que justifica todas as infracções, a começar no bullying que se pratica nas escolas e se trata com muita deferência para com os infractores, em defesa da mesma liberdade individual estabelecida aquando da mudança para a democracia, e cada vez mais empenhadamente seguida, com esta aliança das esquerdas em que vivemos. O certo é que a esquerda manda e muito já conseguiu, como muito bem informa Alberto Gonçalves, no seu texto de uma argumentação paralelística, por antitética que seja, e que conflui, como sempre, na sua visão negativa sobre tudo e todos.
Mas quando leio tantos comentadores de direita, ou ouço Lobo Xavier, na Quadratura do Círculo, nas suas objecções à tal despenalização da eutanásia, não penso que os seus argumentos enfermem de vícios que levam Alberto Gonçalves a incriminar uns e outros. É claro que a lei pretendida depende do Estado, e por isso a direita recorre à objecção desse Estado, tal como a esquerda o faz, esta por puro sonho de lixar, a coberto de uma visão falsamente piedosa.
É por esse motivo, porque acredito na racionalidade distintiva dos seres humanos, e na sinceridade dos bons princípios, impressos na repugnância pelo acto de matar, que o artigo inteligente e hábil de Alberto Gonçalves desta vez me ofendeu. E lamento que não se defina em termos de carne ou de peixe, de sim ou de sopas, a respeito da eutanásia, quanto mais não fosse, para também fazer parte da escumalha.
EUTANÁSIA                O direito a viver sem dignidade /premium
ALBERTO GONÇALVES                      OBSERVADOR, 2/6/2018
Enquanto a esquerda sonha em subjugar a natureza humana à lei, a “direita” reza para que a lei a limite, o que não sendo o mesmo é igualzinho. Uns querem aval do Estado, os outros a objecção do Estado
Não tenho opinião definitiva, ou sequer provisória, sobre o suicídio assistido. Se tivesse, provavelmente não a divulgaria aqui, já que não sou grande adepto da pornografia “confessional” em voga. Em toda a recente histeria, o único pormenor notável foi a pretensa equivalência, mais ou menos unânime, entre a eutanásia e a liberdade individual. A sério? Repare-se nos partidários da despenalização: o Bloco em peso, o PS quase em peso, a ala marxista do PSD e aquele deputado entregue à bicharada (quanto ao PCP, que jamais se preocupou com a morte de uma só alminha exterior ao culto, votou contra por pirraça e exibição de “força negocial”). Não parece esquisito que a defesa da liberdade individual dependa de alucinados que ocupam as respectivas vidas a tentar suprimi-la? Se parece esquisito, é porque é esquisito. E certamente falso.
Na eutanásia, como nas legalizações do casamento homossexual, da “interrupção voluntária da gravidez”, do consumo de drogas leves, da prostituição e do que calha de ser considerado “fracturante”, recorre-se ao isco da “liberdade” para consumar o que afinal é um processo de nacionalização dos comportamentos. Na vastíssima maioria das situações, as pessoas conseguem matar-se, dormir com pessoas do mesmo sexo, abortar, injectar silicone, consumir haxixe ou terebentina e frequentar casas de meninas às segundas, quartas e sextas sem obstáculos relevantes e, sobretudo, sem necessitar que o Estado seja informado a respeito. E é esse pormenor que apoquenta a esquerda.
A esquerda, por tradição e vício, nunca se ofendeu com o constrangimento das acções de cada cidadão: o que a ofende é que o cidadão as pratique à revelia de um poder idealmente ominipresente, para não dizer totalitário. Não importa o que os sujeitos podem ou não podem fazer, contanto que não o façam fora de um quadro normativo, e ideológico, tutelado por ministérios, comissões, direcções-gerais e geral entulho administrativo criado para empregar os eleitos (digamos) e fiscalizar a ralé. A coberto de um suposto entusiasmo face à possibilidade de “escolha”, a esquerda procura garantir que a escolha é nula, ou no mínimo legitimada por dois ou três decretos, com assinaturas reconhecidas, facturas, taxas e emolumentos. Abortar numa clínica particular? Horror inominável. Abortar no SNS do dr. Arnaut? Proeza cívica e avanço civilizacional. As “causas” da esquerda não visam libertar o próximo, mas submetê-lo ao seu arbítrio.
E, perguntam-me (façam de conta que sim), as “causas” da direita, ou daquilo que em Portugal passa por direita? No fundo, no fundo, no fundo, não diferem muito. Por razões que me escapam, ou que prefiro que me escapem, boa parte da “direita” disponível também se preocupa imenso com a conduta íntima do semelhante. No caso, detesta que criaturas que não conhece de lado algum durmam com criaturas de sexo idêntico, abortem, tomem drogas, amputem a pilinha ou se desgracem de outras maneiras – e, em público ou em privado, reclama proibições apropriadas. Enquanto a esquerda sonha em subjugar a natureza humana à lei, a “direita” reza para que a lei a limite, o que não sendo o mesmo é igualzinho. Uns querem o aval do Estado, os outros querem a objecção do Estado. Do Estado, e da regulamentação quotidiana a seu cargo, é que ninguém se livra.
Falta apurar se alguém, neste manso país de patuscadas e bola, gostaria de se livrar. Umas dúzias de excêntricos, talvez. Isto são demasiados anos de dependência larga e trela curta. E por isso há uma espécie de ironia em ver tanta gente exigir morrer com dignidade enquanto vive sem dignidade nenhuma.
Notas de rodapé
1. O eng. Guterres, personalidade que em boa hora depositámos na ONU, anunciou um dia de jejum “em solidariedade com os muçulmanos de todo o mundo”. Em vão. Por um lado, porque além de durar um mês, não é a dieta o exercício que mais distingue e exalta (em ambos os sentidos) os muçulmanos actuais. Por outro, porque ficar, por uma vez, sem comer até ao pôr-do-sol – lapso que por esquecimento ou preguiça eu próprio cometo com frequência – é manifestamente insuficiente para controlar o colesterol desse grande estadista, cuja saúde tanto nos aflige. Só descansaremos quando o vazio no estômago se comparar ao que lhe vai na cabeça. De qualquer modo, é óbvio que o homem nasceu para o cargo que ocupa. E, com dietas assim, ocupa é o termo. 2. Enquanto se sucedem maravilhosas notícias sobre a economia caseira, o jornalismo que temos prefere ocupar tempo e espaço com futebol. Assim nunca iremos a lado nenhum. E se formos não o saberemos por falta de informação. 3. Parece que a sra. Merkel passou por Portugal. Quase não se deu por nada, e há motivo para a discrição: ao contrário de visitas – ou simples menções do nome – anteriores, a esquerda não organizou uma manifestação, um protesto, uma vigília, uma rábula cómica, um murmúrio sequer contra a outrora conhecida como “a Gorda”. Restaram apenas as imagens da submissão risonha de Costa, o Esbelto, e a enésima confirmação de uma gente tão peculiar que qualquer insulto pecaria por defeito.

sábado, 2 de junho de 2018

«O CONTRABAIXO» de Patrick Süskind, uma lição musical



Pertence à colecção “Biblioteca de Verão”, livro, pelo seu volume ínfimo, bom para praia ou cabeceira, nº 8 entre os 27 da escolha do DN, entre os quais se contam alguns autores portugueses – Herculano, Fialho, Eça, Eduardo Pitta, todos eles de leitura expressiva, a par de outros nomes consagrados.
Este – de Patrick Süskind era-me totalmente estranho, e a surpresa foi grande, pela originalidade, riqueza temática e psicológica, que se vai impondo gradualmente através do discurso da personagem, despretensioso e entusiasta, mas uma enriquecedora lição de música, e de conceitos de vida, na vulgaridade da semelhança entre os homens de todas as esferas, afinal, de sonhos que se concretizam ou não, de penúrias, de amores e paixões e raivas e entusiasmos e decepções, e angústia, na banalidade das vidas.
Trata-se de uma peça dramática, com uma só personagem – um contrabaixista de uma orquestra - num só espaço – um quarto – num monólogo em discurso directo, dirigido a possíveis interlocutores subentendidos – o público do espaço teatral, no caso da sua representação, os múltiplos leitores que se limitam a lê-la. As didascálias constam de breves anotações cenaristas ou sobre a movimentação da personagem, que vai abrindo garrafas e bebendo cervejas e escutando do gramofone música clássica, ou tocando-a no seu contrabaixo, ao sabor das suas explicações.
Uma figura um tanto azougada e bastante sincera, que se lhe nota na expressão corrente da linguagem, despretensiosa e directa, de quem não tem papas na língua a respeito da sociedade em que se integra, nem puritanismos sobre as suas intimidades de ocasião, no espaço do quarto, que denuncia uma vida de solteirão, que a música ocupa com entusiasmo.
É vasto o leque dos assuntos do seu monólogo, em que o contrabaixo ocupa a fase inicial e recorrente sempre, denunciando uma perfeita junção de afectos, de paixão e desprezo, o pesado instrumento ganhando caricatural configuração humana - objecto de estorvo a merecer temporário azedume, por avassalador de espaço e assistente mudo de amores clandestinos, mas instrumento de arte bem-amado, que lhe merece constante carinho e protecção, chegando a cobri-lo com o seu casaco para aquele não empenar com a chuva, e colhendo, em resultado, forte constipação. Além das calosidades que, por ser pesado, provocou nas mãos deformadas do contrabaixista, pretexto para uma invasão entrecortada no campo da música clássica, quer a respeito dos compositores, quer a respeito do posicionamento dos músicos na orquestra - o do contrabaixista  renegado sempre para os lugares de sombra, aparentemente sem classe e, no entanto, imprescindível, podendo até substituir o maestro na orientação dos músicos. E o monólogo directo ganha divertida frescura, na componente irónica da visão humana hierárquica sempre, até mesmo ao nível do posicionamento orquestral.
Os amores e ciúmes por uma cantora de ópera, mulher e voz de sonho, contrastando com o tosco som roufenho do seu contrabaixo, e o sonho caricato de lhe oferecer o mesmo prato de peixe caro num restaurante caro, como fez um director musical que a lá levou. E as suas reservas por uma infância de desamor e de ódio ao pai, e os sonhos por uma estabilidade no trabalho, e os conceitos sobre os compositores desmistificados, mas vivamente admirados e bem seus conhecidos por os tocar e estudar.
Uma obra em que se mistura, afinal, o cómico de farsa à seriedade analítica, desprovida, por vezes, do preconceito admirativo. Uma personagem que se poderá tomar como um genérico social, recolhido entre aqueles que se prezam e têm consciência do seu valor, geralmente menosprezado por uma sociedade com outros parâmetros de avaliação, afinal uma personagem representante de todo o ser humano, com as suas experiências, complexos, expectativas, e esforços de mediana ou superior ambição. Uma linguagem despretensiosa, ao sabor dos copos que vai bebendo, rica de referências culturais mas logo interrompidas por quem atribui aos outros iguais saberes. Uma obra de leitura fácil, de um discurso que segue ao sabor das evocações ou entusiasmos do protagonista, sem o pedantismo, tão comum, de rebuscada e tortuosa complexidade na mistura de planos.  E no entanto rica e esclarecedora sobre a psicologia humana, nos seus sonhos e rancores e afectos e angústias e complexos, que quase poderíamos simbolizar na expressão de “O Grito” de Edvard Munch.
Um breve excerto exemplificativo:

«Espero que não estejam a pensar que eu sou invejoso. A inveja é um sentimento que me é estranho, pois eu sei o que valho. Eu, de qualquer forma, sou uma pessoa justa e acho que há qualquer coisa que não vai bem no mundo da música. O solista é abafado pelo aplauso do público, facto que este assume hoje em dia como uma autopunição, caso não lhe seja permitido bater palmas à vontade. O maestro recebe ovações, cumprimenta o primeiro violino pelo menos duas vezes; às vezes toda a orquestra é convidada a pôr-se de pé…enquanto que, como contrabaixista, uma pessoa nem tem ocasião de estar de pé a sério. Como contrabaixistas, perdoem-me a expressão, somos, deste ponto de vista, uma autêntica merda!»


sexta-feira, 1 de junho de 2018

A voz da minha prima Celeste

Falou-se na eutanásia lá por Pinheiro, no dia da votação para a sua despenalização, caso fosse aprovada, em 29/5, votação feita cá por Lisboa, mais especificamente, no espaço “entre a Arcada e S. Bento”, onde, segundo Ega no capítulo VI d´OS MAIAS, é onde se localiza o país. E reproduzo o passo, atida ao objectivo de não desvirtuar as referências, esta, de resto, puro lugar comum entre nós, os snobes da capital: «- Lisboa é Portugal, gritou o outro. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!...»
A minha irmã, que foi a Pinheiro de Lafões ver a nossa prima Celeste, tão próxima das nossas infâncias por cá e adolescências por lá, por Moçambique - no tempo em que Moçambique pertencia ainda ao campo referencial dos nossos advérbios de lugar – informou, pois, que também todos ficaram contentes, lá em Pinheiro – tal como nós cá, na Parede - e sobretudo a Celeste, cujos 91 anos estão actualmente ligados a uma cadeira de rodas, mas lucidamente presos à casa onde sempre viveu, desde que chegou de África, embora dependente da dedicação da irmã e família. E logo a sua voz se fez ouvir, repetidamente, em versos da sua infância, a lembrar-me o espaço geográfico onde a minha mãe aprendera tanto do seu saber - o Carregal, terra da Celeste também - e que tivera larga ocasião de desbobinar, ao longo do seu percurso dos anos finais, igualmente limitados à cama e à cadeira de rodas, e que gravei neste meu blog ao sabor das suas evocações, com a admiração e o encanto próprios.
Repetiu, pois, a Celeste, várias vezes, após a votação, a quadra do seu saber, destruidora das demagogias dos que, “entre a arcada e S Bento”, pretendem impor a nova lei, não por real sensibilidade ao sofrimento alheio, mas para atacar conservadorismos e desestabilizar as certezas fundadas num bom senso de tradição e efectiva sensibilidade, próprias dos humanos.
Foi, pois, esta a quadra que a minha prima Celeste pronunciou repetidas vezes, nesse dia 29, após a votação da assembleia, de escassos 5 votos de diferença, favoráveis à recusa à tal proposta de lei, exiguidade promissora de um “Pasará” futuro.
Eis os versos que a nossa prima disparou, tantas vezes, e que a minha irmã anotou:

Eu pedi a morte a Deus
E Ele disse que m’a não dava,
Que lhe pedisse antes a vida,

Que a morte certa estava.