segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Polvo

A minha amiga falou no meu texto “Não sobe mais” em termos de angústia. Disse que lhe custou chegar ao fim, tão atroz lhe pareceu o quadro dos desempregados. Apontou também os que trabalham em profissões livres, por exemplo os arquitectos, os engenheiros, que fazem obras tendo de adiantar dinheiro que geralmente não têm, com recurso a pessoas que mal têm mas confiam, e no fim esperam tempos infinitos – as mais das vezes em vão – o pagamento das ditas. Um país de pobres. E de vigaristas sem honra.
- E no entanto, há dinheiro neste país. Os ricos estão a ficar mais ricos, mais ricos, mais ricos, pá. Pegado ao Hotel Palace, há uns apartamentos de luxo dos mais caros que se vão vender até hoje em Portugal. A parte de dentro é pegada ao Hotel, portanto devem ter serventia com o hotel. E do outro lado têm termas.
- Mas as termas não são de águas sulfurosas ou outros químicos, provindos directamente da terra?
- Talvez sejam outra coisa, uma espécie de jacuzzi luxurioso. Não sei quantos são os apartamentos ligados ao Estoril Palace, mas são imensos. Aquela gente é tão rica que não precisa de sair à rua.
- Coitados! –
protesto, penalizada, em velhas reminiscências de rejeição de claustrofobia, ainda hoje manifestas na hora de liberdade coscuvilheira com a minha amiga, no café das compras.
- Qual quê! Eles têm tudo, todos os requintes possíveis, não precisam de ir às compras como nós. Mas eu acredito agora que este país não é tão pobre como se pinta. Os carros à volta do Casino do Estoril, desde a marginal são tantos, tantos, que não se tem um lugar vago para enfiar mais um. Crise não existe. Mas a verdade não é essa do desemprego: os ricos estão cada vez mais ricos.
- Mas eu ouvi que o Casino ia despedir pessoal, criar desemprego, pois também está em crise!
- É que os patrões, em caso de crise geral, também se afirmam em crise, como truque para não destoar da pelintrice nacional, guardando os proventos para si. Ninguém se importa com quem trabalha. Mas custa-me a crer que o Casino esteja em crise. O casino é um mundo múltiplo que fervilha de gente que come, que se diverte, que se arruina. Muita gente perdeu fortunas aí. E perde. Aquilo é um polvo que estrangula quem não resiste à ânsia do dinheiro fácil.
- Mas o desemprego é também um polvo que paraliza, que faz enlouquecer, no terror de se terem encargos que se não podem cumprir, no horror de nos sentirmos preteridos da acção pública, como que escorraçados da sociedade onde um curso nos fizera participar. Eu já vivi momentos desses, depois do regresso de África e não imagina o que foi. Em tempos escrevi um texto que foca isso, que transcrevo de “Anuário – Memórias Soltas”, publicado em 1999. Mas o texto é de 1993:

“No almoço de despedida”
«Queridos Colegas»
«Mais um Natal, mais uma despedida, um terminar que, ao repetir-se nesta quadra do renascer, permite prever que uma Reforma não é o fim de nada – apenas mais uma fase na vivência de cada um. Uma fase que, quando se é novo, se encara com angústia – a angústia de ser-se marginalizado na movimentação de um mundo demasiado atarefado – mas que, quando se atingiu a idade provecta, se encara com alívio e desejo de partir para outros envolvimentos, igualmente atraentes e construtivos.
Recordo o longo ano em que, após o regresso de África e ingressada no Quadro dos Adidos, estive em riscos de, apesar do contrato com o governo do Ultramar, ficar sem o emprego para que a minha formação me preparara. Recordo o desespero de me sentir posta de lado, apenas debruçada sobre as tarefas caseiras que, nessa altura, mais do que hoje, dificilmente aceitava. Tudo se resolveu a contento por via do estágio, que me catapultou posteriormente para os quadros metropolitanos. Mas a angústia de então contrasta perfeitamente com a satisfação de agora, de libertação desses mesmos elos por que lutei.
Satisfação que provém, talvez, da consciência de ter cumprido bem, talvez da incompatibilidade com um ensino actualmente demasiado espectacular que, exigindo muito tempo do professor para a preparação do espectáculo, lho rouba, incompreensivelmente, para uma autoformação contínua e mais criteriosa, em função da preparação dos próprios alunos.
Ensino ruidoso e exaustivo para o professor, disperso por múltiplos afazeres de burocracia e loquacidade exagerados, numa engrenagem de violência absurda, em que a falta de tempo para uma preparação mais cuidada e mais discreta ao nível da docência, o transformará no funcionário esforçadamente envolvido no preenchimento de papéis, de eficácia irrisória e sem dimensão cultural.
Ensino que propõe ao aluno uma criatividade e uma responsabilidade não consentâneas com a ausência de valores culturais, os quais têm de ser paulatinamente e com seriedade transmitidos, para que criatividade e responsabilidade se tornem efectivas, mas a que a contínua dispersão para o espectáculo e o lúdico impede uma verdadeira conscientização.
Daí o sentimento de alívio pela libertação deste novo mundo, em que jogam parâmetros de competições e interesses que nada têm a ver com um ensino empenhado numa real valorização do homem.
A formação dos jovens parte essencialmnente da família, e desfavorecidos serão, em todos os tempos mas especialmente nos tempos brutais de agora, os que apenas dependem da instituição escolar, sem passarem pelo cadinho do acompanhamento familiar ou do explicador transmissor das bases estruturantes, indiferente à novidade dos métodos.
A hipocrisia social finge ignorar esses dados e vai consentindo uma contínua degradação do ensino, aparentemente iludida pelo palavroso de uma reforma que, impondo muito, cerceia o tempo, para que se possam sedimentar, honestamente, os valores que pretende incutir.
Estes dizeres, talvez pessimistas, nada têm a ver, no entanto, com o sentimento de simpatia por aqueles com quem, nesta escola, convivi longos anos e que recordarei sempre com amizade.»

Quis com este texto mostrar que a esperança era possível ainda. Mas foi preciso lutar. Não sei se hoje ainda se pode ter esperança. Talvez possa, é preciso não desistir. Pelo menos hoje há o subsídio. O nosso PM prometeu o subsídio.
Mas é preciso respeitar as pessoas. Não as pôr à margem da luta. Favorecê-las não com subsídios mas com trabalho. Sempre se disse que o trabalho dignifica. Não sei se é slogan ultrapassado. Mas o trabalho sério é fonte de riqueza, mesmo sem slogan.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Página de Grelha (14)

TÓPICOS DA HISTÓRIA CULTURAL PORTUGUESA

SÉCULO XIX: REALISMO . CORRENTES LÍRICAS

OS FACTOS
1875: “O Pacto da Granja”: Fusão dos Históricos e Reformistas no novo partido Progressista.

1877, 1883: Explorações africanas: de Brito Capelo, Roberto Ivens. Serpa Pinto. Publicação do “Mapa cor de rosa” dos territórios entre Angola e Moçambique.

1888: A “Cartilha Maternal” de João de Deus declarada “método nacional”.

13- D. Carlos, o “Diplomata”(1889/1908):

(1886: Casamento com D. Maria Amélia de Orleães)
Situação financeira difícil do país .
1890: A questão do “Mapa cor de rosa” e o “Ultimatum” inglês: A reacção nacional contra a cedência do governo à imposição inglesa de retirada das tropas portuguesas da região dos Macololos (em cor de rosa no mapa).
Desavenças partidárias entre os dois partidos “rotativos”: Progressistas e Regeneradores.
Política de estabilização das fronteiras africanas.
- 1895: Campanha de pacificação de Moçambique sob a direcção de António Enes: Caldas Xavier, Aires de Ornelas, Paiva Couceiro, Freire de Andrade, Eduardo Galhardo, Mouzinho de Albuquerque: (“Marracuene”, “Magul”, “Coolela” “Manjacaze, “Chaimite”).
- 1897: Campanha de Alves Roçadas contra os Cuamatas (Angola). João de Almeida, o explorador e pacificador da região dos “Dembos” (Angola).
1899: Assinatura do Tratado de Windsor.
Taxa de analfabetismo em 1900: 80%.

16/8/1900: Morte de Eça de Queirós
.

Desordens partidárias.
Reformas de João Franco Castelo Branco
: O Franquismo.

1/2/1908: O regicídio.

14- D. Manuel II, o “Patriota” (1908/1910)

Sete mudanças de ministério.

5/10/1910: Proclamação do regime republicano.

LITERATURA

Outros escritores realistas:
Trindade Coelho
: o conto rústico - “Os meus Amores”. A crónica autobiográfica: “In illo Tempore”
Fialho de Almeida
e a evolução do naturalismo.

As grandes correntes líricas:
- Realismo: Arte empenhada e revolucionária.
- Parnasianismo: Arte antideclamatória e antidoutrinária, expressiva do conceito da “Arte pela Arte”
- Simbolismo: Arte de sugestão, instrumento do conhecimento metafísico, apoiada na musicalidade verbal.

Poeta realista: Guerra Junqueiro e a missão social da poesia.

Poetas parnasianos: Gonçalves Crespo; Gomes Leal; António Feijó, Cesário Verde (realista).

CESÁRIO VERDE: (1855/1886) estética anti-romântica, de precisão, rigor geométrico, de alianças vocabulares novas (impressionismo), plasticidade, ritmos novos, grande modernidade, de temas baudelairianos – repulsivos, de doença, tédio, mulher sobranceira, quadros de pobreza, deambulismo, simpatia pelos humildes, de revolta social.

ANTÓNIO NOBRE (1867/1900) e o saudosismo decadentista, o pessimismo fatalista o narcisismo auto-contemplativo do autor do “SÓ”.

Eugénio de Castro e o simbolismo decadentista.


ARTE

“Museu Nacional dos Coches” no antigo Picadeiro Real (sécs. XVIII / XIX), erguido nos jardins do Palácio de Belém. Organizado pela Rainha D. Amélia de Orléans e Bragança.


“A PORTUGUESA”
Música de Alfredo Keil, letra de Henrique Lopes de Mendonça. Nascida
aquando do Ultimatum inglês. Adoptada como
Hino Nacional na República.


1904: Instalação do Jardim Zoológico de Lisboa no parque anexo à propriedade da antiga Quinta do Farrobo, às Laranjeiras, pertencente ao conde de Burnay. Foi tornada definitiva em 1920, por expropriação pública, aprovada pelo Parlamento, acrescentada da vizinha Quinta das Águas Boas, do mesmo proprietário.
“A actual entrada do Zoo, entre dois torreões de cantaria, coroados por templetes de dez colunas toscanas, suportando abóbada semiesférica, com pináculos no fecho, e protegidos a toda a volta por avental de grade, dava para a alameda que conduz, em linha recta, da Estrada de Benfica aos jardins do Palácio dos Condes de Farrobo. O portão, de artística ferragem entre dois pilares de cantaria que suportam esculturas, era a entrada de pompa do palácio.”
“Além da luxuriante cobertura vegetal, o parque das Laranjeiras dispunha de equipamento de recreio vário – a ponte pênsil, lagos, estufas, abrigos, pavilhões vários, estátuas e até mesmo jaulas e acomodações para animais de vária espécie”.
“A partir de 1912, Raul Lino encarregou-se da arquitectura do parque zoológico, durante mais de 40 anos – “Aldeia dos Macacos, de 1917, escadaria monumental, de 1945, que conduz ao “Monte dos Gamos”, à “Ilha dos Ursos” de 1935, ou ao “Jardim Zoológico dos Pequeninos” de 1938.
(in “
Monumentos e Edifícios notáveis do Distrito de Lisboa” , vol. V, 4º Tomo, 1ª Parte. )

Não sobe mais

Foram muitos os nossos escritores que apontaram o trabalho árduo do povo português, produto da exploração capitalista. Vem de longa data o tema literário que tão extraordinariamente seria satirizado por Charlot no filme de 1936, “Tempos Modernos”. E a vivacidade do ritmo de actuação imposta àquele trabalhador de fábrica, que se pretende converter em puro autómato, numa alienante e desumanizante estratégia produtiva que exclui do homem operário sensiblidade e racionalidade, pela ganância crescente do patrão capitalista, tal ritmo parece ser reproduzido no poema de Gedeão “Calçada de Carriche”, na repetição monocórdica das onomatopeias “sobe que sobe”, “puxa que puxa”, “larga que larga” e no ritmo breve dos tetrassílabos de leitura rápida:

«Luísa sobe, / sobe a calçada, / sobe e não pode / que vai cansada. / Sobe Luísa, / Luísa sobe, / sobe que sobe, / sobe a calçada.

Saiu de casa / de madrugada; / regressa a casa / é já noite fechada. / Na mão grosseira, / de pele queimada, / leva a lancheira / desengonçada. / Anda Luísa, / Luísa sobe / sobe que sobe, / sobe a calçada...
..............
Na manhã débil, / sem alvorada, / salta da cama, / desembestada; / puxa da filha / dá-lhe a mamada / anda, ciranda, / desaustinada; / range o soalho / a cada passada; / salta para a rua, / corre açodada, / galga o passeio, / desce a calçada, / chega à oficina / à hora marcada, / puxa que puxa, / larga que larga / puxa que puxa, / larga que larga, / puxa que puxa, / larga que larga / puxa que puxa, / larga que larga; / toca a sineta / na hora aprazada....
..............
Regressa a casa / é já noite fechada. / Luísa arqueja / pela calçada. / Anda Luísa, / Luísa sobe, / sobe que sobe, / sobe a calçada, / sobe que sobe, / sobe a calçada, / sobe que sobe, / sobe a calçada, / Anda Luísa / Luísa sobe, / sobe que sobe, / sobe a calçada
.»

Mas era no tempo em que havia trabalho para a Luísa, havia trabalho mal pago para os Charlots que os donos do capital exigiam de prestação eficiente, a troco de uma retribuição quase sempre miserável, de indigna exploração. Havia trabalho.
Fez-se, em Portugal, uma revolução que deu voz ao povo, esse povo sempre maltratado por quem tinha o poder de maltratar, e que os escritores generosamente defenderam. Como António Gedeão.
Mas as fábricas onde trabalhavam os operários e as operárias foram fechando, as terras onde trabalhadores eram contratados para trabalhar foram morrendo, os serviços públicos foram despedindo gente. E tudo isso vai continuar – a fechar, a morrer, a despedir. Os trabalhadores que restam continuam a ser explorados por quem tem esse poder. Os que foram despedidos vivem de subsídios ou de assistência alimentar, ou não sei como sobrevivem. E têm filhos, e têm compromissos de pagamentos, da casa que compraram, dos hábitos de bem-estar a que se julgaram com direito. O clamor é geral. Dos que sofrem o desemprego, dos que sofrem pensando no horror do que eles sofrem e na miséria do país que o permite.
Quando lemos que em Portugal a “morte súbita causa 27 vítimas por dia”, ou seja, feitas as contas, 9855 ou 9882 por ano, achamos que o espectro do desemprego é causa-mor desse facto, e que é com isso que o Governo conta para se segurar no seu poder, até à extinção do seu País, em que a natalidade é inferior à mortalidade.
Quando vejo um espectáculo francês – “Le plus grand Cabaret du Monde” - apresentado por um extraordinário animador televisivo – Patrick Sébastien – admiro um mundo superior de arte, inteligência, gente capaz, que colhe da vida o que lhe apetece colher, de cultura, de interesse por aquilo que eleva realmente o homem e o faz feliz. Um espectáculo certamente caro, com a participação de extraordinários artistas do mundo inteiro. de convidados merecedores dos diálogos de interesse que com eles trava o produtor do programa.
Quando vejo os nossos programas populares, foleiros, ao nosso modo, limitado às excitações da nossa sensibilidade tacanha ou à crítica mais ou menos verrinosa da nossa competência oratória, sem que jamais se pretenda favorecer o público com temas musicais buscados no Conservatório, por exemplo, que tem boas vozes e bons musicólogos, ou temas culturais específicos que não sejam os de importação, sinto quanto talvez nem mereçamos o apodo de país de uma Europa civilizada.
E vamos morrendo nesta inércia, sem coesão, gritando muito, gritos de “casa onde não há pão”, a não ser para os de sempre, os da astúcia. E os que vão tendo trabalho, mesmo sem serem do partido. E os que vivem da reforma, até que a venham a perder.
É urgente respeitar os trabalhadores que foram despedidos. E impedir de o serem os que ainda não foram. É urgente trabalhar. É urgente respeitar o trabalho. É urgente criar trabalho, criar riqueza. E trabalho que produza riqueza.