domingo, 19 de maio de 2013

Combustão sem chama


Não posso deixar de guardar no meu blog este último texto de Salles da Fonseca sobre uma temática de “Bichos”, não Torguianos, mas exprimindo, nos espécimes escolhidos – Lobos, Faunos, Melros e Rebanhos – os espécimes que pululam actualmente na sociedade portuguesa.

Estou a escutar de um desses - José Sócrates - no Primeiro Canal, o resto da sua discursata de finório, Melro papagueante, que já fora Lobo voraz e Fauno diligente, e se projecta, por agora, em artimanhas vulpinas para uma continuidade na destruição futura, iniciada tempos antes e interrompida temporariamente, no jeito nacional já antigo de rotativismo governativo em torno da gamela pátria.

Escutara, primeiro, Marcelo Rebelo de Sousa, na TV4, que não se enquadra em nenhum dos Bichos citados por Salles da Fonseca, porque melhor lhe fica o apodo de herói nacional, herói pelo bom senso, a sinceridade, pelo critério de análise pela positiva, pelo esforço inaudito do seu trabalho quotidiano, pelo desassombro apartidário da sua crítica, pelo sentido de responsabilidade e de responsabilização da sua mensagem.

Assim é, também, este texto de Salles da Fonseca. É a mensagem de um homem de coragem, como já muitas vez o tenho definido, semelhante ao Mem Moniz da lenda, que, com o corpo entalado, defende uma das portas do castelo de Lisboa, permitindo a entrada dos cristãos no castelo tomado.

Salles da Fonseca não é tão optimista como Rebelo de Sousa. É um homem, neste momento, que espelha a sociedade portuguesa, irada e com pouca fé, zurzindo num povo responsável pela situação a que chegámos.

Lembrei hoje a uma prima, telefonicamente, uma breve história passada em Moçambique, pelos anos quarenta. O homem que seria seu marido, foi para Lourenço Marques mediante uma carta de recomendação que meu pai assinara. Empregou-se numa firma de carros – a “Pendray e Sousa” – e ali ganharia mais do que os funcionários como meu pai e os meus tios. Porque era uma firma inglesa, e os ingleses sabiam reconhecer o valor das pessoas, coisa que não acontecia connosco, mais vocacionados para a pelintrice e a extorsão em proveito próprio.

É um simples exemplo, que bem nos integra na bicharada que Salles da Fonseca resolveu, no seu 12º artigo de “OS LOBOS E OS FAUNOS”, eliminar a favor da sua descodificação.

Um texto exaltado, um texto triste, que não quadra com a ironia contida nos artigos anteriores. Mas esperamos que o seu “Continuemos” não se extinga ainda. Ele dá força à nossa própria ousadia, quando o medo da destruição nos acorrenta.

“Continuemos”, diz Salles da Fonseca, entalado nas portas do cerco, para nos deixar entrar no Castelo dos Mouros.

Entraremos?


OS LOBOS E OS FAUNOS – 12 (II Série)

BASTA! De quê? De figurações mitológicas. A partir de agora passarei a chamar demagogos aos mentirosos que já topamos à distância, gatunos aos ladrões, gulosos aos glutões, manipuladores aos informadores e parvos aos que acreditam em qualquer deles.

E de que serviram estes exercícios mitológicos que agora dou por findos? De pouco se é que de algo. Mas tenho a esperança de que o meu esforço de síntese tenha conseguido pôr em meia dúzia de linhas o que noutros escrevinhadores daria pano para mangas e, assim, ter conseguido leitores dentre quem não tem tempo a perder com leituras mais longas do que as que cabem num A4. Só o texto do sapateiro remendão é que excedeu esse tamanho. As minhas desculpas mas a peça original tinha sido produzida em 2005 e na época eu era algo prolixo enquanto hoje sou bem mais lacónico.

Uma vez que estou aqui a dar a série por finda, exige-se uma conclusão e essa é a de que os males de que padecemos dependem sobretudo de nós próprios e não de conspiradores estrangeiros que às escondidas desenhem a nossa desgraça. Nós somos esses conspiradores e somos nós que desenhamos a nossa própria desgraça: padecendo de um nível médio cultural muito baixo, tendemos para a mesquinhez; padecendo de um nível médio de formação profissional muito baixo, não produzimos o que queremos consumir; padecendo duma precipitação informativa, queremos tudo o que vemos nos outros povos com níveis médios culturais e de formação muito mais elevados; politicamente instigados ao hedonismo, queremos tudo isso JÁ!

Creio, no entanto, que o futuro é risonho porque, depois de uns quantos Faunos nos terem atirado para o fundo do precipício em 2011, já os credores encolheram as garras e mostram os dentes brancos em rasgados sorrisos; depois de muitos nos considerarmos desgraçados, chega o momento em que deixamos de acreditar em quimeras e criamos o novo modelo de desenvolvimento não esperando mais pela iniciativa pública a quem não mais compete ser nosso patrão.

Sim, a Fénix tem todas as condições para ressurgir das cinzas se os Faunos não se travestirem de bandidos, se os Lobos forem açaimados, se os Melros não se venderem a pautas espúrias e se os rebanhos, zelando por si próprios, deixarem de carpir.

FIM

 

 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

«… Não fazem mal a ninguém»


Hoje a minha amiga veio com a exuberância habitual a desfazer sem compaixão nas figuras (que sem rebuço ela chama de figurões, e eu, com a delicadeza da minha educação extremada chamo de figurinos, embora reconhecendo uma menor preocupação nestes, actualmente, pela gravata como acessório, que a premissa da abolição daquela foi estatuída, se bem me lembro, no início da governação, (com intermitências de aplicação, contudo, ao que se tem visto), sintomática, a tal abolição, de um arregaçar de mangas para o trabalho de exaustão que o Governo se propunha efectuar até ficar exaurido, em companhia com o resto do país, com gravata ou sem ela, que não é essa a causa da nossa mossa, pobrezinha da gravata!

Ou talvez seja. Também.
E assim, disse a minha amiga:
- Até o coitado do Portas me vem fazer aquela figura!… Não passa aquela barreira!!!... Passada uma semana, passou-a!
Com a minha capacidade intelectual em sintonia – conquanto que agora, com o desenvolvimento cada vez mais científico, é de um chiquismo e uma adequação mais substantivos (que esta última palavra funciona agora mais como adjectivo, gramaticalmente falando, substituído o morfológico “substantivo” pela designação de “nome” - se é que tal designação de “morfologia” também já não foi pulverizada da gramática tradicional, modestamente dividida outrora em apenas Fonética, Morfologia e Sintaxe, a Retórica surgindo por acréscimo) – é mais chique e adequado, repito, dizer-se neurónios em vez de intelecto – compreendi pois, de imediato, que a minha amiga estava a considerar os “dez por cento” a retirar dos vencimentos dos pensionistas e dos reformados para cobrir o tal buraco de mais uns tantos milhões que estava coberto anteriormente com o corte no subsídio de férias, proposta do Governo que o TC chumbou, os quais “dez por cento” da nova proposta de Passos Coelho, Portas boicotara em ameaça anterior, que fizera periclitar os alicerces de Passos, mais precisamente do Governo, e que Portas assinara docilmente na proposta seguinte, embora sob a condição de que tal eventualidade fosse feita só “em último caso”.

Considerei que não tardaria outra semana e já o “em último caso” da ressalva de Portas e até do nosso PR, Cavaco Silva, que reiterou a afirmação daquele, em preocupada unissonância de parecer, seria ultrapassado por novo parecer, que o transferiria para “primeiro caso” das urgências inadiáveis a que somos sujeitos após o “custe o que custar” do nosso PM pagador de promessas a uma Troika vigorosamente exigente de cumprimento e indiferente à destruição de uma nação, que só a ela deve prestar contas e não à população que a forma.

Daí que a minha amiga me perguntasse também, logo a seguir, se “os meus eram sacrossantos ou diabólicos” e desta vez eu não atingi logo as suas rebuscadas síncopes lexicais destinadas a testar as minhas leituras ou audições noticiarísticas que ela segue com mais tempo e empenho, mas percebi em breve a sua malícia, na referência à presunção de protecção dos 100.000 euros bancários feita pelo ministro, e ironizar sobre a minha conta bancária inexistente:
- Estar a dizer que são sacrossantos ou estar calado é a mesma coisa. Ninguém crê.
- Pois não, anuí em ira, que se me está a incrustar no azedo do estômago. Contra uns e contra outros, sem excepção, pois já não vejo saída para o nosso despenhadeiro, com uma OCDE impondo o cumprimento de dívida e de desenvolvimento económico em simultâneo, o que parece serem coisas cinicamente incompatíveis, e com os vários partidos a bramar despautérios anti governação e a fazer promessas de melhor governação, caso venham a fazer governação, melhoria que não é expectável com nenhum partido, de gente proveniente da mesma massa sócio educativa.
A minha amiga também anuiu, sabendo que os “sacrossantos 100.000 euros” intocáveis segundo Gaspar, vão fazer companhia aos tocáveis do excesso desses, não tarda. Que as afirmações e as promessas governativas de que o nosso caso diferia do caso cipriota, feitas há duas ou três semanas, já estão aí, em cima da mesa, como realidades plausíveis a curto prazo.
Entretanto, os precavidos espertos põem os excessos dos 100.000 euros a milhas paradisíacas, sem esperar pela próxima semana.
Mas mesmo os que vão a caminho dos 100.000 deverão precaver-se, atidos ao ditado «Cautela e caldo de galinha…»

 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Poema de amor em prosa

Estes tempos que agora vivemos
São de tal forma aterradores
Que impõem que nos desviemos
Para os contos de encantar da nossa infância
Que nos perspectivem dias multicores
Em futuro de mais abundância
Não só de víveres mas de almas superiores.
Florian também deve ter vivido
Pesadelos e receios do futuro
Duro.
E inventou, por isso, fábulas de encantar
Semelhantes às histórias de nanar
Para ajudar a responsabilizar.
É disso exemplo a fábula
«O bom homem e o tesouro»,
Ouro puro,
Bom agouro:

 «Um bom homem meu familiar,
Que eu conheci na minha infância,
De toda a vizinhança
Se fazia estimar;
Dos pequenos e dos grandes
Consultado, venerado
Como um sábio,
Na sua terra vivia.
Não tinha muito dinheiro,
Mas bastante para um viver na independência.
Em troca, virtudes bastantes possuía,
Bom senso, espírito, saber,
E a amenidade própria da inocência
E da decência.
Quando um pobre o vinha ver,
Se tinha dinheiro pistolas lhe dava;
Se não tinha, com as suas palavras,
Coragem e esperança
Lhe transmitia.
Apaziguava as famílias,
Corrigia brandamente os jovens irreflectidos,
Ria com as raparigas
E achava para elas os maridos.
Com os defeitos dos outros era indulgente,
“Não temos também os nossos?”, dizia frequentemente.
“Estes nasceram coxos, corcundas aqueles,
Um, um pouco menos, o outro, um pouco mais:
A natureza de cem maneiras diferentes
Nos quis afligir: caminhemos juntos, em paz.
O caminho é mau suficientemente,
Sem que precisemos
De pedras nos atirarmos.”
Ora um certo dia aconteceu
Que o nosso bom senhor num caminho encontrou
Um tesouro escondido sob a terra.
Primeiro, um meio nisso viu
De ainda mais o bem espalhar;
Assim o colhe, o leva, o escondeu.
Depois, reflectindo, disse consigo:
“Faria mais proveito, com efeito,
Este ouro, que eu achei,
Se eu aumentasse o meu domínio antigo;
Mais vassalos eu teria, mais poderoso serei.
Melhor ainda poderei fazer: na cidade próxima
Comprarei um cargo, serei presidente.
Presidente! Vale a pena!
Eu não me formei em Direito; mas com o meu capital,
Sem qualquer empena
Mo concederão
Visto que é um cargo comprável
E sem investigação. “
Enquanto faz projectos, a sonhar,
A criada o vem avisar
De que as gentes da aldeia
No pátio do castelo se estão a divertir.
Ao domingo, era habitual
O senhor do castelo com eles dançar.
“Oh! Por Deus, responde ele, tenho outros assuntos a tratar.
Dancem sem mim.” Com o espírito de quimeras cheio,
Ele fecha-se em casa para melhor se atormentar.
Em seguida ao seu pecúlio vai acrescentar
Um pequeno saco de dinheiro, resto do mês anterior.
Nesse momento chega um pobre homem
Que em lágrimas lhe vem suplicar
O empréstimo de vinte escudos
Para o imposto da talha pagar:
“O cobrador, disse ele, vai meter-me na cadeia
E não deixou em minha casa senão
Seis crianças sobre um colchão de palha.”
O nosso novo Creso responde-lhe duramente
Que não tem dinheiro líquido para lhe dar,
De momento.
O pobre infeliz olha-o, suspira,
E sem mais palavras se retira.
Mas ele não ia longe, quando o bom senhor
Retomou de repente o seu modo de ser anterior.
Corre ao camponês, abraça-o,
De cem escudos lhe faz dom,
E ainda lhe pede perdão.
Manda avisar, seguidamente,
Que na praça o povo se reúna num instante.
Obedecem-lhe, o nosso homem bom
Chega com a sua maquia,
Coloca-a num monte por inteiro:
“Meus amigos, disse ele, vocês vêem este dinheiro:
Desde que ele me pertence, eu já não sou o mesmo,
A minha alma endureceu, e a voz da desgraça
Não penetra mais no meu coração.
Meus filhos, salvem-me deste perigo extremo;
Levem e partilhem este perigoso metal;
Cada um leve a sua parte para o seu asilo:
Dividido entre todos, pode ser útil este ouro;
Reunido em um só, não faz senão mal.
É fatal!
Com o suficiente nos bastemos,
Sem tesouros supérfluos jamais desejarmos:
É preciso temê-los,
Tanto como a miséria tememos.
Como esta, eles expulsam as virtudes habituais
Ancestrais.
Não o consintamos”

 Ora aqui está uma história tão moral
Que parece irreal,
Escrita numa época em que a libertinagem
Até fora descrita com muita coragem
Num século de revolução,
Por Choderlos de Laclos, por exemplo,
Que tão bem soube traduzir a vilania
De cada sua personagem.
Mas Florian  docemente,
Mostrou o homem bom que a tentação seduziu
Eventualmente,
Mas que morreu após reflexão
Provinda de um nobre coração.
Hoje em dia, a tal distribuição do dinheiro achado
- Mas logo surgiria
Alguém que com descortesia
O dissesse antes roubado –
Pura irrealidade seria,
Pois se fosse hoje, ninguém o teria dado
Ou distribuído
E só tirado.
O mesmo eu não diria
Na questão da aquisição,
Do cargo de presidente,
Ou outra qualquer benesse,
Por conta de capital
Ou qualquer outra valia
Implícitos nessa operação de aquisição
- Bem antiga por sinal
E sempre à mão.
Quanto à história do bom senhor salvador
De uma fábula de responsabilização
Para bem da nação,
Ela não serve de aviso à nossa navegação,
Habituada de longa data esforçada,
Como sina,
A uma navegação à bolina
E de bandeira esfarrapada.