segunda-feira, 27 de abril de 2015

Fomos nós



É Jean-Paul Sartre que, em “Les Mots” conta a sua relação com o seu avô Charles Schweitzer, casado com a avó Louise, com os quais viveram, ele e a sua mãe Anne-Marie, após a morte de seu pai, Jean-Baptiste Sartre, Jean-Paul com apenas dois anos  de idade. Desde cedo criança precoce, tornou-se o ídolo do avô, nos seus jeitos de exibicionismo narcisista, para atrair as atenções gerais e do seu avô em particular, derretido com os prodígios de raciocínio da criança que ele ajudava a esculpir. Escrito em tom jocoso, desmistificador, o olhar do narrador não pretende deixar-se comover por sentimentos de simpatia pelo órfão desvalido que, afinal, ele não foi, ou sequer pela família burguesa que o protegia e que ele escalpeliza  com a ironia de quem, acima de tudo, pretende desmascarar-se a si próprio, nos seus artifícios malabaristas que o levam ao mundo dos livros da biblioteca do avô, como meio de exibir perante os mais  as suas graças de geniozinho.
Foi um programa passado na TV24, em 25 de Abril, que me fez lembrar-me da autobiografia de Sartre, não pela semelhança de situações mas pela semelhança de malabarismos exibicionistas, neste caso de adultos lembrando aos jovens alunos assistentes, que eles próprios foram jovens, protagonistas de algo que se fizera quatro décadas antes, que despertara o país para horizontes mais amplos de ideologias mais abertas e modernas, ao que parece, respeitadoras dos direitos humanos.
Freitas do Amaral, Jerónimo de Sousa, Marcelo Rebelo de Sousa, Ângelo Correia, Jorge Miranda, Basílio Horta - contaram a história em que foram participantes, revelando que, graças a eles e a outros jovens da altura, o país dera meia volta. E contaram do quartel do Carmo e da Constituição, e do que fora mudado, do que significava o regime anterior, do que significava a democracia actual, que os estudantes estavam fartos de conhecer, não conheciam outra.
Mas contaram das mazelas também. Sobretudo Jerónimo de Sousa, que tinha que pôr o dedo na ferida das muitas desgraças que por aí vão, ressabiado por não ser ele a promovê-las. O regime tinha que ser botado abaixo, isso era mais que sabido, e fora, mas não contaram do país que também fora deitado abaixo, porque dizê-lo seria falar em traição e essa parte ninguém quis assumir porque era feio reconhecê-lo, e um mau exemplo, para todos os efeitos. Se bem que talvez nem se apercebessem disso, esses conceitos de traição sendo muito relativizados hoje, o patriotismo mais do conhecimento geral em termos futebolísticos. Falaram da Constituição e doutras questões de glória, mas também esconderam os empréstimos e outras mazelas, malabaristas orgulhosos, sofismando e sonegando dados, mas não há tempo para contar tudo, que aliás está morto.
São heróis. Eles são os nossos heróis. Cavaleiros felizes desdobrando-se em recontos dos seus heroísmos, na cavalgada do tempo.

sábado, 25 de abril de 2015

Um texto para guardar, mesmo sem o enfeite da rosa murcha



É de Salles da Fonseca, do seu blog “A Bem da Nação”:

«O 25»
«Foi já depois de 25 de Novembro de 1975 que o Dr. Álvaro Cunhal foi condecorado como Herói Soviético com isso significando Moscovo que o «trabalho» estava feito e que havia que agradecer a «obra».
Como assim, se nesse 25 de Novembro os comunistas tinham sido apeados do poder que haviam usurpado em Portugal?
A resposta só pode ser uma: a URSS interessava-se mais pelo ex-Império Português do que por este pequeno canto europeu. E, de facto, todas as nossas antigas colónias africanas estavam então na mão dos soviéticos.
E tudo começara uns anos antes quando Moscovo constatou que não conseguia vencer os conflitos militares que durante tantos anos instigara. Então, se não conseguia vencer no terreno das guerras, havia que ir à retaguarda derrubando o regime político vigente em Portugal. E, de facto, foi no Largo do Carmo que em 25 de Abril de 1974 Portugal perdeu o Império.
Quando assentei praça em Mafra para o Curso de Oficiais Milicianos de Abril de 1970, uma parte significativa do meu pelotão era composta por homens que regressavam a Portugal depois de terem estado algures na Europa mas deixando uma nebulosa quanto aos locais exactos de que provinham. Seria do lado de cá ou do lado de lá? Nunca, aos inocentes, nos passou pela cabeça fazer a pergunta. Mas lembro-me de que cantarolavam amiúde melodias e letras do Zeca Afonso e de que, por vezes, se «esqueciam» aqui e ali de um ou outro livro que nós, os outros, não conhecíamos. Não eram graficamente apelativos e nunca lhes peguei e é por isso que continuo hoje, passados mais de 40 anos, sem saber se se tratava de literatura revolucionária ou se eram contos de fadas para amenizar as insónias. Mas como soldado recruta só pensa em dormir, não dou grande cabimento à hipótese do soporífero literário.
Vendo o filme ao contrário, não me restam hoje dúvidas de que o Partido Comunista Português deve ter então dado ordem aos seus militantes na diáspora com a idade apropriada para regressarem a Portugal, ingressarem no Serviço Militar Obrigatório e de seguida destabilizarem por dentro o nosso Exército.
E nós, os não politizados, sem percebermos nada do que se passava à nossa volta.
Foi então que comecei a ouvir falar de uma certa contestação à ideia de quererem que nós, os milicianos licenciados, fizéssemos o Curso de Comandantes de Companhia para de seguida nos mandarem desempenhar as funções de Capitães de Infantaria. Que isso era um absurdo, que para isso estavam lá os subalternos do Quadro que deveriam ser promovidos em vez de serem ultrapassados por milicianos mal amanhados, etc.
Nós, os economistas, safámo-nos dessa pois foi-nos dado escolher se queríamos ser Alferes de Administração Militar ou Capitães de Infantaria. E todos optámos pela caneta em vez da G3.
Já estava em Moçambique quando ouvi pela primeira vez falar do Movimento dos Capitães mas não liguei muita importância pois me parecia que se tratava de problema corporativo com solução administrativa. Já estava na disponibilidade – e novamente em Moçambique como civil – quando ouvi falar do Movimento das Forças Armadas e conclui que, afinal, a solução administrativa para o problema corporativo não tinha resultado (ou talvez nem sequer tivesse sido aplicada) e que a «bola de neve» estava a crescer.
Sempre me pareceu que o «problema» do Império tinha que ter uma solução política e que o empenhamento militar era uma forma de «aguentar» a situação enquanto a solução política era discutida, aprovada e implementada. Mas o radicalismo ultra do Estado Novo em nada ajudou Marcello Caetano e tudo deu para o torto. E teria que dar para o torto porque uma solução politicamente negociada não interessava a Moscovo. Havia que precipitar os acontecimentos e isso só se conseguiria a partir de dentro das Forças Armadas Portuguesas. Aí estava o MFA.
Muitos militares que alinharam nesse movimento foram inconscientemente manipulados e outros, admito que poucos, agiram conscientemente em consonância com as determinações do inimigo. Isto significou uma maioria de inconscientes e uma minoria de traidores.
Então, hoje comemoramos o quê? Eu espero por Novembro.»
Lisboa, 25 de Abril de 2015

Comentário:
Como um Sherlock Holmes descobrindo num humor de boas células cinzentas o fautor do crime, o Dr. Salles assim nos leva na sua tese bem urdida e corajosa pelos caminhos ínvios e obscuros desse passado, que apanhou desprevenidos os que continuavam na marcha antiga, sem cuidar numa semente sub-reptícia de uma mudança, para todos os efeitos irreversível, segundo as conveniências generalizadas e indiferentes aos males que  geraram.

As medidas para as nossas chagas



Não tem muita simpatia pela juventude portuguesa, Vasco Pulido Valente, como, de resto, pelos portugueses, os indígenas da sua designação rancorosa, o qual desejaria para o seu país mais qualidade mental, o que é, aliás, a ambição de tantos, derrotados na verdade dos números ínfimos de alfabetização, dos tempos da monarquia, gradualmente progredindo segundo as políticas republicanas, mas que não nos farão nunca apanhar a carruagem dos outros povos europeus, mais previdentes e estruturados de longa data, nos parâmetros da dignificação humana. Portugal, um país bom, de bom sol, de boa gente, segundo se diz e a gente o sente, na ternura linguística do nosso atraso de “inhos” e “inhas” que simultaneamente nos agasta e nos agrada, nós próprios também abusando, e que Fernando Mendes evidenciou no carinho pela sua Lenkazinha de beleza esplendorosa, que nem esta repele.
 Em conversa com a minha filha, soube das suas lutas últimas, com alunos desordeiros que ela bem descreve nas suas participações à directora, lutando por uma sociedade mais digna, considerando estar a Escola reduzida ao nada de uma indisciplina inominável. Pobre da minha Paula, pobres de todos esses professores sem um mínimo de condições sérias, num país que inutilmente se esforçam por elevar, há muito votado ao rebaixamento da indignidade legalizada em termos disciplinares e consequentemente culturais.
Vasco Pulido Valente tem razão. Para quê essa medida discriminatória de proibição da venda de bebidas alcoólicas a menores, quando se não tem possibilidade de averiguar da sua eficácia, nos vários condicionalismos que igualmente permitem que a droga se propague numa sociedade em que, “por várias razões, as famílias não educam os filhos”?
Leiamos o seu artigo, no qual, aceitando embora a necessidade de imposições como a da proibição de compra de bebidas alcoólicas a menores, permitem, contudo, as estruturas sociais, o partidarismo de uma mocidade  mais ou menos desordeira, que pouco mais apresenta que a expressão sonorosa da sua reivindicação sem consciência efectiva daquilo que reivindica, na ausência de leitura e preparação reais. A mocidade que, continuando atrelada a amizades como meio de evolução pessoal para as suas ambições, poderá vir a dirigir a coisa pública, como se tem visto, em cursos arrebanhados na pressa da ambição amparada.
“O Sangue dos Outros”, um livro de Simone de Beauvoir, me vem à memória, não pela menoridade etária das personagens participantes, mas pelo contraste com a sua juventude participativa consciente, personagens que, provenientes de uma burguesia bem instalada, por ódio às injustiças sociais apoiadas em tenebrosos fascismos, escolhem – com hesitações no seu caminho – (os egoísmos existencialistas como rocha impeditiva da participação imediata) – a luta por ideais de fraternidade e de defesa dos direitos humanos que terão a morte como resultado. (Nada que não estejamos saturados de ouvir, aliás, do ideário comunista, direccionado exclusivamente, hoje, sobre as medidas governamentais que não implicam retaliações à maneira nazi e por isso propícias ao ruído, que na época das Resistências se fazia pela calada). Mas os livros de Simone de Beauvoir e dos seus companheiros da época são impregnados de saber filosófico, pertencem a mentalidades estudiosas que envolvem os seus enredos nos artifícios da sua preparação intelectual. Não têm a ver com a nossa juventude – a da mândria, do desrespeito, da reivindicação em gritos de balbúrdia – os mais espertos e sérios definindo-se por outras filosofias – as do capitalismo - que, afinal, talvez não sejam nem melhores nem piores que as dos tempos dos facínoras que espalharam a guerra e a morte no mundo.

A educação da juventude
Público, 17/4/15
O Estado, na sua qualidade de educador, resolveu agora proibir a venda de bebidas alcoólicas (de qualquer espécie) a menores. Já era proibido vender tabaco a crianças. Para não falar de drogas que são universalmente ilegais.
Claro que a eficácia desta medida é discutível: em casa não se pode verificar quem bebe o quê e quanto. Fora que há sempre o mercado negro ou um amigo ou irmão maior que abastece os mais miúdos. Mas não deixa de ser verdade que o mais pequeno obstáculo diminui o consumo e que, neste caso, o fim é meritório. A dependência do álcool não se adquire depressa (“too much, too often, too long”) e atrasar ou dificultar o processo contribui para uma população mais saudável e segura. Uma vez que por várias razões as famílias não educam os filhos, medidas como estas acabam por se justificar.
Em compensação, proibir o fumo em locais públicos fechados — como, por exemplo, restaurantes, cafés, bares, discotecas, casas de jogo e sítios semelhantes — frequentados geralmente por adultos não passa de uma restrição à liberdade individual, sem desculpa ou atenuante. O fumo, como nos lembram em toda a parte, a todo o tempo, é uma actividade perigosa. De acordo. Só que daí não se segue que um cidadão, na posse das suas faculdades, se veja impedido de correr os riscos que bem lhe apetecer, ainda por cima por um Estado que não cumpre os seus deveres mais básicos. Principalmente quando não existem riscos para terceiros, porque a maioria dos locais públicos fechados não admite hoje fumadores. A nova lei contra o fumo que por aí se anuncia não passa de um acto de uma prepotência mesquinha.
Pior ainda: no meio da sua preocupação com o bem-estar dos portugueses (que, aliás, morrem no desemprego e na miséria) e do seu amor ao viçoso crescimento da nossa querida juventude, o Estado permite a ascensão e a influência das “mocidades” partidárias. Um menor está impedido de comprar tabaco, de beber álcool, de se casar sem a autorização dos pais. Desde os 14 anos não está, em contrapartida, impedido de escolher qual o regime que melhor convém à sua doce pátria e as políticas mais capazes de a salvar e modernizar. Para essas actividades menores, nem o Governo, nem os partidos o consideram irresponsável ou inepto. Depois de beber o seu leitinho ou a sua limonada sob a vigilância da polícia e provar (com testemunhas) que nunca comprou um único cigarro, a criancinha irá daqui em diante pastorear o povo no exercício dos seus plenos direitos.